Trump, um produto da falência moral do partido democrata

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 07/11/2024, revisão da Estátua)

A derrota de Kamala é, assim, a vitória da demagogia política, do messianismo providencialista e do Supremacismo, do qual o Partido Democrata não se libertou e o qual também contribuiu para normalizar, permitindo a Trump ganhar, apesar dele, e da forma exacerbada como o defende.


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Imigração, aborto, wokismo, guerra da Ucrânia, guerras eternas, reindustrialização e proteccionismo. Com excepção do aborto e wokismo (identitarismo), que se tratam de questões de consciência e não de política estrutural, todas representam, de alguma forma, algumas das consequências mais brutais do neoliberalismo nos EUA, figurando entre as grandes causas da derrota de Kamala e da vitória de Trump.

A desindustrialização, esgrimida por Trump como uma das grandes causas da perda de poderio da sua América, aconteceu como causa directa da financeirização da economia (acelerada pelo republicano Nixon) tornando a economia de casino no motor económico dos EUA. Sem indústria veio a deterioração do poder real resolvido com a criação de conflitos eternos. As guerras eternas comportam um penoso custo sobre a economia ocidental (também na Europa) e um entrave ao investimento público em infra-estruturas e outras necessidades. A pilhagem que elas possibilitam à Blackrock, Monsanto, Golden Sachs e outras, não reverte para o povo norte-americano, mas para acumulação de uns poucos.

Como forma de desviar atenções, assustar e anestesiar as massas, recupera-se a russofobia, a guerra fria e promove-se o identitarismo, provocando a atomização social e a fractura dos movimentos sociais que poderiam contestar, de forma consistente e coerente, esta situação. O resultado é a instalação de um sentimento de instabilidade e precariedade, relativamente a todos os aspectos da vida.

Trump surgiu como a solução que concretizará a aspiração à estabilidade e a uma certa “normalidade” nos costumes, na economia, no trabalho, na família. Kamala nunca se libertou da acusação de que pretende a continuidade dos factores que causam esta desagregação social.

A anunciada vitória de Trump demonstra que os “sucessos” económicos de Biden não eram reconhecidos pela população. Os ganhos oligárquicos, nunca chegaram ao bolso dos trabalhadores. O Partido Democrata recusou-se a constatar esse facto, ao fazê-lo, garantiu a vitória de Trump.

Explicada a causa, falta então estabelecer os seus constituintes, que passo a enumerar, de forma aleatória:

  1. O papel das guerras eternas

Trump utilizou de forma magistral esta bandeira, capitalizando factores como o medo de uma guerra mundial, a opacidade do complexo-militar industrial, o seu descontrolo nas despesas e o facto de operar para além das regras democráticas, sem auditoria, escrutínio ou necessidade de justificar os gastos. Acresce que, a mais do que previsível derrota da NATO na Ucrânia, traz consigo outra novidade, que consiste num certo descrédito na mítica – mas nunca comprovada – capacidade militar dos EUA. Trump apresentou-se como o candidato que iria resolver os conflitos eternos, libertando o povo americano desse fardo, mas, ao mesmo tempo, recuperando o misticismo militar perdido. Uma espécie de nacionalismo do fim dos impérios, pelo qual todos passam.

Este pressuposto tem dois problemas: o primeiro, é que o discurso da paz, e do fim da guerra, deveria, conceptualmente, estar do lado de Kamala; o segundo, é que, acreditar que Trump conseguirá, quererá, sequer, colocar um ponto final no militarismo norte-americano, é, no mínimo, risível. Trump até pode arrefecer alguns conflitos, mas agravará outros, em linha com a sua prepotência e narcisismo, próprias do providencialismo ideológico norte-americano comum a todas as suas poderosas facções.

Como se verá, contudo, Trump não apenas aumentará os gastos militares, em linha com o que prevê o Mandate 2025 da Heritage Foundation, como terá de alimentar conflitos para os justificar. Provavelmente mais conflitos frios que quentes, mas, mesmo assim, conflitos. A Europa será uma das grandes penalizadas pela sua própria cobardia. Trump não deixará de extorquir dos cobardes políticos europeus, o que considera constituir a sua justa contribuição para uma NATO que só dá jeito aos EUA e a ninguém mais.

Trump alimenta-se da falta de um discurso pacifista, defendendo o fim das guerras eternas, o que não quer dizer “o fim das guerras” e, certamente, não quer dizer “o fim dos conflitos” e tensões militares.

  1. A imigração, culpa os responsáveis errados

A utilização desta bandeira não é nova. Contudo, lá como por cá, o que Trump não diz, é que, quem exige aos governos ocidentais, a abertura das “portas” migratórias, são os próprios patrões. Nenhum migrante se desloca para um país, se considerar que aí não vai encontrar trabalho. É a susceptibilidade de encontrar trabalho que os atrai. Essa informação circula pelas redes de traficantes e chega aos povos mais pobres, que agarram a possibilidade.

E quem propaga a informação? Basta olhar, por exemplo, para o posicionamento das associações patronais europeias sobre o assunto. Consideram que são necessários mais migrantes. Afinal, necessitam de mão-de-obra barata, disponível, bem-comportada, descartável e que pressione para baixo os custos salariais dos povos autóctones. Sobre isto, Trump, e a extrema-direita, nada dizem.

A extrema-direita capitaliza, sim, e de forma massiva, os problemas de exclusão social ligados aos fluxos de migrantes e dos seus descendentes. E esta exclusão social é culpa, uma vez mais, do partido democrata. O Partido Democrata responde ao patronato com manutenção ou aumento do stock migratório, mas o dinheiro que deveria ser usado para integrar estas pessoas, e os seus filhos, é usado para a guerra e para financiar as grandes corporações. O pacote anti-inflação de Biden (o Inflaction Reduction Act) financiou, em centenas de biliões de dólares, a compra de capital em bolsa, pelas próprias corporações, para que se valorizem artificialmente. Esse dinheiro não foi usado para melhorar o acesso à saúde, habitação ou segurança social, bandeiras do Partido Democrata. Este partido foi penalizado por tratar os migrantes como os trata o Partido Republicano quando está no poder.

  1. O descalabro democrata na questão palestiniana

O Partido Democrata perdeu muito do capital de confiança que a juventude norte-americana lhe colocava, na questão palestiniana. Se até aqui, mal ou bem, os jovens progressistas e os adultos antissionistas viam no Partido Democrata uma espécie de apaziguador – pelo menos –, face ao anti arabismo republicano, com Biden e Kamala, tudo se esfumou.

É com Biden e Kamala que o mundo assistiu a um inadmissível genocídio em directo. É sob uma administração democrata que os EUA embarcaram numa guerra em duas frentes, uma das quais sob um povo indefeso, e qual delas com as consequências mais imprevisíveis.

Kamala e o PD não conseguiram, desta forma, estabelecer uma diferença substancial para Trump e se alguém capitalizou voto, nesta matéria, terá sido mesmo a candidatura deste último. Pelo menos terá captado algum voto a que antes não teria tido acesso. O facto de defender o fim das guerras eternas e dizer que não quer guerra com o Irão, acabou por estabelecer uma diferença importante, também nesta matéria.

  1. A antipatia gerada pelas figuras que são hoje a cara do Partido Democrata

establishment estava convencido de que o povo norte-americano gostava de Hillary Clinton. Estava enganado. Hillary era “Killary” e não nutria simpatia alguma. Os mesmos estavam convencidos de Kamala não falharia. Bastaria colocá-la à frente de um teleponto e estava resolvido. Não era preciso falar muito, e pensar, menos ainda. Ninguém conseguiu capitalizar o que quer que fosse de positivo sobre Kamala. Das vezes que ficou sem teleponto, o improviso foi estarrecedor. A sua incapacidade oratória, retórica e teórica, foi tornada evidente.

Mas o facto de ser mulher, associado ao facto de ser “Brown”, não poderia falhar. A cartada tinha dado certo com Obama, porque haveria agora de falhar? Obama foi o genocida mais simpático da história. Enquanto fazia desfilar a sua enorme capacidade discursiva, encerrava crianças em jaulas na fronteira sul, ameaçava a Síria de invasão, criava condições para a entrada do Estado Islâmico na Síria e Iraque, destruía a Líbia e apoiava neonazis na Ucrânia.

Esta aposta numa figura inócua, apagada e incapaz não é nova e representa um enorme vazio de liderança real. Biden foi o último dos líderes da máquina democrata e norte-americana. Gente como Cornel West, Jill Stein, ou Bernie Sanders, foram impedidos, pelos grandes doadores, de dar voz às ansiedades populares de jovens e trabalhadores. Eis a “democracy” norte americana em toda a sua extensão.

  1. Capitalizar a antipatia pelo sistema e pelo estado de coisas

A precariedade da vida, a agrura das condições, a estagnação ideológica do sistema e o apagamento das luzes da alternativa, e com a estagnação, o apodrecimento e deterioração, associadas à ausência de alternativas, criam as contradições ideais para o surgimento de movimentos que defendem, mesmo que aparentemente apenas, a alternativa. É uma lei da vida. Se a água não for por um lado, vai pelo outro.

Contudo, o Partido Democrata, como os partidos social-democratas na Europa, foram controlados pelo neoliberalismo. A deterioração, durante os seus mandatos, dos serviços públicos tornou-se evidente, o que resultou numa desmoralização ideológica, não apenas da social-democracia, mas de todas as forças progressistas e democráticas consideradas moderadas. As radicais são persona non grata e estas deixaram de constituir uma diferença efectiva para as outras forças da direita.

Quando temos um Partido Democrata a defender a hegemonia e o globalismo neoliberal, um partido socialista ou social-democrata a defender a Europa neoliberal e o revisionismo histórico, aliando-se a neoliberais e neoconservadores, abre-se o espaço para o surgimento de aparências de alternativa à direita. A realidade nunca pára.

Trump, acaba a surgir como alternativa ao sistema que o constrói e de que se alimenta. E consegue-o porque o establishment transformou o sistema partidário ocidental num amplo campo de direita neoliberal e neoconservadora, em que desfilam figuras diferentes na aparência, mas iguais na substância, domadas pelas elites, apenas com o objectivo de manter a aparência de movimento democrático, quando, na prática, não existe.

Afinal, é JD Vance, Vice de Trump, quem aparece a opor-se às deslocalizações para México e China. Não deveriam ter sido os democratas a fazê-lo? Quando vemos Biden a aplicar tarifas, para que as marcas chinesas não entrem nos EUA, vale a pena perguntar se ele não se deveria ter lembrado de o fazer, com as empresas norte-americanas, que se deslocalizaram para América latina e Ásia. Porque foi o Partido Democrata conivente com a destruição da capacidade industrial dos EUA?

  1. O aborto e a preocupação com os vivos

Não foi apenas o aborto, bandeira capitalizável numa sociedade reaccionária e muito religiosa. Não vale a pena as Kamalas do mundo virem dizer que, a um Trumpista, ou republicano tradicional, importam mais os fetos humanos do que a vida dos seres já nascidos, se depois mantêm os salários congelados durante mais de 40 anos, deixam a riqueza voltar a concentrar-se, ao nível do que acontecia nos anos 30 do século XX, não criam uma rede de cresces gratuitas, não apoiam a constituição de famílias e a natalidade, e por aí fora. O seu discurso é contraditório com o que fazem na realidade.

Onde está a moral para defender o aborto numa situação destas? Mesmo que exista, ela é muito condicionada pelo insucesso das políticas sociais do PD. Como dizer que o aborto é defensável como último recurso, quando se é responsável direto por não criar condições de apoio à natalidade, que tornam esse “ultimo recurso”, no primeiro dos recursos?

  1. A defesa da “normalidade”

A ligação do Wokismo (identitarismo) neoliberal à esquerda, e da propaganda LGBTQ aos movimentos da esquerda, é culpa também do Partido Democrata e dos partidos social-democratas que deixaram cair o universalismo, passando a apostar na atomização da identidade e na liberalização do género.

Passam a escolher-se mulheres, homossexuais, latinos, negros, trans, apenas por o serem e não por aquilo que são. Escolher um homossexual incapaz, apenas porque o é, constitui um enorme desserviço para o movimento homo, escolher uma mulher incapaz, apenas porque o é, é um desserviço para a causa das mulheres. Uma Von Der Leyen, sendo mulher, perpetua a guerra. Um Rangel (Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal), sendo homossexual, perpetua a guerra. O que ganha o povo com isto?

Usado como bandeira oportunista, o wokismo atomiza a identidade, atomiza a sociedade. A propaganda woke é usada como bandeira política e sinal de sofisticação e liberdade mental, contudo, o efeito da mesma é o de transmitir à sociedade que a sua “normalidade” está em causa. Podemos questionar se a “normalidade” comporta ou não outras identidades, mas sempre como parte de um conjunto, naturalmente. O sistema apenas deve garantir que, escolha o que se escolha, com naturalidade, se tenha direito ás mesmas condições de vida que os demais.

Ao invés, o Partido Democrata deixou apanhar-se pela ideia de que o mais importante é podermos afirmar a nossa identidade e até fazê-lo com afronta e panfletarismo. O que importa é poderes escolher ser trans, homo ou não binário, embora possas ter de viver na rua e sem emprego. Trata-se de uma inversão das prioridades. O que garante a liberdade na escolha da identidade são as condições universais básicas necessárias à sobrevivência. E não o contrário. Defender a primeira, secundarizando as segundas, transmite uma mensagem da subversão das coisas, o que destrói a aparência de normalidade e a ideia de estabilidade social. Provocando a reacção.

Wokismo consiste numa liberalização da identidade e da possibilidade de escolha individual, em desconexão com a sua existência material. Trata-se, por isso, de um individualismo, divisivo, de um idealismo. O Partido Democrata nunca deveria embarcar num idealismo.

Ao fazê-lo, permitiu a Trump que se vendesse como o garante da normalidade. A extrema-direita vende-se como garante da normalidade!

  1. O erro da cartada Zelensky contra Trump

A associação de Trump a Putin e à Rússia visava capitalizar uma russofobia que nunca pegou realmente, a não ser nos que se alimentam e vivem do establishment. Ontem na Geórgia, Putin voltou à cena. Supostamente teriam vindo ameaças de bomba da Rússia. Já ninguém acredita nisto e os resultados na Geórgia demonstram uma certa e crescente imunidade popular aos golpes da imprensa corporativa.

A verdade é que já poucos acreditam em Zelensky e ainda menos conseguem ouvi-lo falar. Em total desconexão com o sentir popular, acreditaram que colocar Trump contra Zelensky, afectaria Trump. Ao contrário, deu a certeza, a muitos que duvidavam de que Trump acabaria com a guerra, de que esse era o voto certo.

Como o povo Ucraniano, também nós, ocidentais, estamos fartos desta guerra.

  1. O descrédito da Imprensa Mainstream

Toda a imprensa mainstream ocidental, mesmo a alinhada com o Partido Republicano (nos EUA têm de declarar o enviesamento partidário), fazia força por Kamala. Kamala tinha os falcões do seu lado.

A derrota da Kamala é a derrota da Imprensa corporativa. A derrota de Kamala é a derrota das narrativas encomendadas por Wall Street, Pentágono, CIA ou Casa Branca. Hoje, nos EUA, de acordo com a Gallup, já existem mais norte-americanos que não acreditam, de todo, na média mainstream, do que os que acreditam alguma coisa nela.

Trump usou isso de forma exaustiva. Da pós-verdade do primeiro mandato, ao descrédito total no segundo, Trump venceu a Imprensa Mainstream. Já Elon Musk e o seu Twitter desempenharam aqui um papel fundamental. O Twitter foi a força propagandística online de Trump. Nenhum ser deveria ter tanto poder como Musk, mas um dos responsáveis pela fabricação destes poderes “neofeudais” é o próprio Partido Democrata.

Em conclusão:

A derrota de Kamala é, assim, a vitória da demagogia política, do messianismo providencialista e do Supremacismo, do qual o Partido Democrata não se libertou e o qual também contribuiu para normalizar, permitindo a Trump ganhar, apesar dele, e da forma exacerbada como o defende. O Partido Democrata nunca o poderia desmontar na sua essência, pois os democratas também defendem a “liderança americana”, a “nação indispensável”, todos os slogans triunfalistas e neocolonialistas da elite estado-unidense, fabricados durante Clinton.

A vitória de Trump é a derrota das empresas de sondagens, denunciadas como instrumentos de construção de resultados, da democracia entendida com um sistema superior em que pessoas informadas e conscientes, fazem escolhas conscientes, de acordo com programas discutidos, reflectidos e debatidos.

O desfile de apoiantes de Trump sem o mínimo de decência política, intelectual ou ideológica, ou o desfile de apoiantes de Kamala sem a mínima capacidade de transmitir ideias, num e noutro caso, apenas chamados à ribalta em função da sua popularidade, constitui um dos tristes episódios deste decadente espectáculo circense, a que chamam eleições nos EUA.

Por fim, Kamala, desta feita, impediu, com a sua desinteligência, o Partido Democrata de capitalizar: os votos relacionados com a limitação do uso de armas, pois apresentou-se como alguém que as usa, falando disso com orgulho, o que não deixará de ter chocado muito boa gente; os votos dos migrantes e descendentes de migrantes, preocupados com a agressão constante, pelos EUA, aos seus países de origem (caso dos Chineses, Iranianos, Cubanos, Árabes e muitos outros); os votos pró-palestinianos e muitos votos das classes trabalhadoras.

Falhou em estabelecer uma diferença real para a política de Trump e, assim, ou provocou a desmobilização dos seus apoiantes e, pelos factores que referi, a deslocação de muitos para a outra candidatura. O peso das questões internacionais pode não ser muito grande, mas por elas vemos que pouco distancia Kamala de Trump. O que é inaceitável, em democracia.

No final a conclusão só pode ser uma: ganhasse quem ganhasse, o povo norte-americano perderia sempre. Votar em Trump para resolver os problemas das condições de vida das massas trabalhadoras norte-americanas é como deixar alguém no deserto, porque esse alguém está com sede!

Vejam lá o deserto estamos enfiados!

Fonte aqui.


O neoliberalismo e a destruição da consciência

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 01/11/2024, revisão da Estátua)

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!


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Muito se tem falado sobre a crise no Ocidente e, em especial, na União Europeia. O discurso tem-se concentrado sobretudo na crise energética, militar, social ou migratória. Contudo, estas crises são resultado de um mal muito mais profundo, representativas, sobretudo, da vitória da ignorância sobre o conhecimento, do individuo sobre o colectivo, do económico sobre o social.

Ao contrário do que muitos possam pensar, é nos próprios países ocidentais que a pilhagem neoliberal, operada pelas oligarquias ocidentais, mais se tem intensificado. Podemos mesmo dizer que esta pilhagem aumenta à medida que diminui a dos povos da maioria global.

Mas, para infelicidade dos que aí residem, esta dicotomia vais mais longe: quanto mais alertados estão os povos, da maioria global, para o caracter predatório da oligarquia ocidental, menos conscientes estão, os povos ocidentais, das razões, pelas quais, se agravam as suas condições de vida. Os povos ocidentais estão em contraciclo com os povos da maioria global, em todos os sentidos. À medida que os segundos ganham consciência de si, os primeiros tornam-se cada vez mais inconscientes do seu ser, alienados que estão das suas raízes, culturas, famílias, comunidades…

Vector fundamental para a produção desta inconsciência, traduzida na incapacidade crítica e analítica crescentes, por parte das populações ocidentais, tem sido, precisamente, a área da educação.

A degradação dos sistemas públicos de educação, não apenas constitui uma das características mais repugnantes, por parte dos sistemas que sucumbem ao reaccionarismo e revisionismo histórico e científico, como constitui, também, o motor desse processo reaccionário.

Portanto, não foi surpresa, para os mais avisados, que um estudo da EDULOG, um Think Thank da Fundação Belmiro de Azevedo (um dos principais multibilionários portugueses já falecido, que pertencia à Forbes 500), tenha retirado, entre muitas outras, a seguinte conclusão: “A crise de falta de professores está a tornar-se sistémica em todas as economias da OCDE”.

Como razões para este drama, entre outras, o estudo aponta: “a degradação da imagem e estatuto dos professores; a fraca atractividade dos salários e das condições de trabalho; a falta de perspectivas de progressão e evolução na carreira profissional”.

Este estudo trouxe-me à memória (uma coisa criminosa no Ocidente) que – já em 2002, durante o governo de “sua eminência”, o Dr. Durão Barroso, ex-Primeiro Ministro de Portugal, Ex-Presidente da Comissão Europeia e homem de confiança da Golden Sachs -, se havia intensificado um processo de redução dos salários dos professores, mascarado sob a forma de “sistema de avaliação”, o qual, à boleia da introdução de um sistema de medição da qualidade do desempenho acabava a reduzir os salários e, principalmente, a progressão na carreira dos professores.

Eu pergunto-me porque razão o Professor Doutor David Justino, à data Ministro da Educação, não teve em conta o que lhe transmitiram os sindicatos dos professores da CGTP-IN (maior central sindical em Portugal). Nomeadamente, alertando para as consequências nefastas que o seu ataque teria para a escola pública, a profissão do professor e para os alunos. Vejam lá o que se teria poupado em estudos e políticas desastrosas.

Fossemos ingénuos e acreditaríamos que, à data, David Justino não poderia prever estas coisas, mas a ingenuidade que não temos, é proporcional à inexistência de espinha dorsal por parte de quem, um dia atacou os professores portugueses e, passados 22 anos, fez um estudo concluindo que as políticas que então defendeu, estão todas absolutamente erradas.

Os argumentos que hoje são conclusão deste estudo, foram, à data, esgrimidos contra o governo de Durão Barroso e de que fazia parte David Justino. É caricato pensarmos que, hoje, a União Europeia de Úrsula Von Der Leyen convida sindicatos e patrões europeus para celebrar um “Pacto Europeu para o Diálogo Social”, quando, repetidamente, desconsideram todas as propostas e argumentos, empíricos, científicos ou outros, que contrariam os seus planos de guerra, concentração de riqueza e supressão das soberanias, e com elas, das liberdades nacionais.

Como prova a história, o resultado de tão intenso “diálogo social”, entre sindicatos da educação e os sucessivos governos, consistiu na “elevação” do Secretário Geral da FENPROF (Federação Nacional dos Professores), Mário Nogueira, a inimigo público número um, um dos ódios predilectos da oligarquia dominante. De cada vez que alertou para o facto de que a destruição do estatuto dos professores resultaria numa destruição a escola pública, o exército de comentadores e jornalistas de serviço, acusaram-no de “corporativismo” e de apenas se importar com os professores. Faz lembrar os EUA quando acusam os outros de fazerem, ou quererem fazer, tudo o que eles já fizeram, querem continuar a fazer e querem ser os únicos a poder fazer. O oportunismo excepcionalista constitui uma das mais odiosas expressões do supremacismo neoliberal norte americano.

Hoje tão preocupada com as “competências”, Ursula Von Der Leyen até se esquece que é parte da organização, que integrou a maldita Troika governativa (FMI, BCE e EU), que se seguiu à crise de 2008, introduzida em Portugal pela mão de um governo do Partido Socialista (só de nome, sendo um partido liberal social) e continuando a todo o gás, com um governo do Partido Social Democrata (só de nome, é neoliberal puro e duro), coligado com o partido do Centro Democrático Social (só de nome, sendo um partido da oligarquia mais reaccionária e nostálgica do fascismo), que prometiam “ir além da Troika”, produzindo uma espécie de choque neoliberal ao modo Chileno ou Argentino. Tudo isto com o beneplácito de Durão Barroso, então já Presidente da comissão Europeia.

Foi neste período que se assistiu a um abrupto desinvestimento nos gastos públicos com a educação. Dizer que este cenário é decalcado do que sucedeu nos EUA e Reino Unido, seria redundante. Seria não se perceber que factores políticos provocaram tal situação e de onde foram importados.

Mas se existe coisa que este estudo, tal como todos os estudos do tipo, nunca fazem, consiste em fazer a ligação entre estes resultados desastrosos, em matéria de política pública, e as teorias económicas que o ocidente exporta e quer impor, através do FMI, Banco Mundial e BCE, a todo o mundo. Não admira que muitos olhem para o que se passou em Kazan na semana passada, como um evento histórico. Afinal, se existe algo comum a todos esses países, consiste na tentativa de afirmarem a sua soberania económica, política e social, rejeitando o “paraíso” liberal (ou neoliberal) idealizado por Fukuyama.

Pelas razões apontadas, olhar para as conclusões deste estudo é como sofrer um déjà-vu, revivendo numa fracção temporal mínima todas as horas, dias e anos de combate político aceso, por parte de todos os que – como eu próprio – se opuseram (e opõem), de forma veemente, ao neoliberalismo, ao consenso de Washington e às charlatanices que, mascaradas de discurso tecnocrático, alegadamente pragmático e extirpada de cientificidade, mais não visaram do que desviar enormes quantidades de recursos – produzidos pelo trabalho – para a oligarquia dominante, com resultados nefastos para a própria normalidade democrática, hoje ameaçada pelo retorno do fascismo e do nazismo.

Já em 2015, aponta o estudo, um grupo de investigadores (Padhy et al., 2015) concluiu que a probabilidade de se escolher a profissão “aumenta com a percepção de ser uma carreira agradável, com bom ambiente de trabalho, colegas que colaboram e com quem se estabelecem boas relações profissionais, ter uma garantia de emprego com contratos de longo prazo”.

Acresce ainda que, “mais recentemente, um estudo alargado e desenvolvido em vários países (BCG, 2023) identificou as características mais valorizadas num emprego: emprego estável, com um bom equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; um horário de trabalho fixo e que não se arraste pelos fins de semana; um salário compatível com as habilitações e possibilidade de evoluir na carreira; possibilidade de negociar condições adaptadas à situação individual, incluindo adaptação de horários de trabalho, períodos de férias e planos de reforma”.

Perante tais conclusões, chegou o momento de sermos jocosos: quem diria que as pessoas, os trabalhadores, querem estabilidade, salários adequados, horários fixos e não muito extensos, progressão na carreira e capacidade de negociação, férias e bons planos de reforma? Eu questiono-me sobre quantos estudos são necessários, quantos biliões de euros terão de ser gastos, quantos Think Thank de bilionários têm de ser fundados, para se chegar a esta “brilhante” conclusão. Seja para os professores ou para todos os trabalhadores, em geral.

Vale a pena questionar onde se enquadram as políticas de desregulação do mercado de trabalho, destruição da contratação colectiva, defesa da precariedade laboral e da flexibilidade do horário de trabalho. Onde se enquadram então as propostas de “contenção dos custos laborais” e “promoção da mobilidade laboral”, como encontramos, de forma repetidamente doentia, nos compêndios normativos da EU, da Reserva Federal, do BCE ou do FMI.

Numa era em que o ocidente, e a europa em particular, se debate com graves problemas de mão de obra, envelhecimento populacional e enceta uma corrida por recursos humanos, apenas para conter salários; numa época em que se desenvolve, instrumentos como a Inteligência Artificial e torna-se possível produzir em maior quantidade, com melhor qualidade, em muito menos tempo e consumindo menos recursos ainda; nesta época, em que tanto se fala de quarta revolução industrial, automação e digitalização; poucos, muito poucos, defendem que toda esta inovação, este aumento brutal da produtividade, a que se acumulam os subsídios estatais que faltam aos serviços públicos e o desagravamento fiscal para a oligarquia dominante, todos estes factores resultando, eles próprios, do trabalho, devam de reproduzir-se na melhoria das condições de vida, de quem deu vida a tais recursos..

Ao invés, as mesmas vozes que calam a conferência de Kazan, que escondem o descalabro do regime de Kiev, que nos contam que a Federação Russa e esse “maléfico” Vladimir Putin, querem conquistar a europa toda; as mesmas vozes que calam, consentem e são cúmplices do genocídio palestiniano; são as mesmas vozes que, apesar de todas as evidências, empíricas e científicas, continuam a considerar que a solução passa por intensificar ainda mais as medidas que tanto falham.

Louve-se, contudo, que o estudo da EDULOG vem, pelo menos, dizer que os governos devem evitar fazer, o que afinal têm feito em toda a linha: Baixar (e desregular) a qualificação dos docentes; alargar o horário de trabalho dos professores; aumentar o número de alunos por turma”.

Ao mesmo tempo que, para os professores (poderia ser para qualquer outro profissional) os estudos científicos dizem que não se devem “baixar as qualificações” de acesso, a União Europeia, ansiosa por captar mão de obra migrante e, ainda mais ansiosa, por poupar na sua integração e qualificação, adopta, ao invés de uma agenda para as qualificações, para a valorização das profissões ou do trabalho, opta antes por uma “Agenda para as Competências”. Não pensem que é despiciendo ou se trata de um acaso. O objectivo é bem claro. Uma vez, trata-se de flexibilizar e desregular qualificações e profissões.

Para libertar os sistemas nacionais de qualificações da necessidade de investirem em processo de educação e formação mais estruturados, de maior duração, mas com maior amplitude de conhecimentos e competências, resistindo mais tempo à obsolescência e à desactualização e possibilitando um maior leque de escolhas profissionais, a EU vem promover a atomização do sistema de qualificações, com vista a reduzir o investimento com a formação estrutural dos indivíduos, promovendo uma lógica de formação de curta ou curtíssima duração, mas sem o suporte de competências chave essenciais para o desenvolvimento pessoal, social e profissional (literacia, numeracia, pensamento crítico, competências digitais…). Uma vez mais, dos EUA importam-se então coisas como as “micro-credentials”, tentando reproduzir no espaço europeu, todos os cancros educacionais e formativos que se observam no centro imperial.

Coincidentemente, é o próprio estudo da EDULOG que nos diz que EUA e Reino Unido, não apenas já sofrem, com agudeza, o problema da falta de professores, como não o conseguem resolver.

Quando me recordo, nos idos anos 80 e 90, sobre o papel que os meus professores tiveram na minha vida, nunca me esqueço que os professores eram um pilar fundamental do nosso desenvolvimento individual e social. Era absolutamente impensável, para mim ou um colega meu, falar mal, de forma gratuita, de um professor.

A crise no sistema de educação ocidental é, sobretudo, reflexo de uma crise moral e éticas profundas. As brilhantes, mas banais conclusões a que este estudo chegou- este e muitos outros –, pecam por tardias, pecam, sobretudo, por anacronia. A experiência histórica, o conhecimento científico e os instrumentos de análise permitiam em 1989 (ano da celebração do consenso de Washington), como hoje, perceber o quão erradas estavam aquelas propostas políticas. Não faltaram avisos, críticas e análises fundamentadas sobre as reais intenções e as falácias montadas para deturpar a realidade e justificar o movimento ilusório. Todas foram e são secundarizadas, quando não perseguidas e ostracizadas.

No máximo dos máximos faz-se como faz este estudo: nunca ligam as causas e as conclusões à vivência política. Fazê-lo, dizem, é “ideologizar”, não o fazer é “pragmatizar”. E assim se justifica e branqueia a candidatura e eleição, mesmo que precária e democraticamente pouco representativa, de todos os que defendem o erro e, mais grave ainda, a sua continuidade e aprofundamento.

Décadas de testes americanos – de escolha múltipla – em que se diz ao aluno o que pensar, ao invés de o fazer pensar por si mesmo, de burocratização e mercantilização do ensino, ataque à escola pública e destruição do estatuto individual e colectivo do professor, foram os veículos usados pelo neoliberalismo para conseguir o que o fascismo fazia com o analfabetismo: convencer o povo de que os seus interesses eram, na realidade, os interesses da oligarquia que o oprime.

Para o conseguir, retirou-se dos programas de ensino o desenvolvimento e utilização de um instrumento cognitivo essencial para qualquer ser humano: a análise dialéctica, ou seja, a capacidade de analisar a realidade em movimento e como parte de um processo histórico. Fazendo-o, conseguiram apresentar uma versão histórica unicista e unificadora, a versão liberal. A história tinha acabado e era importante transmitir esse facto, fazendo acreditar que, não apenas era impossível outra realidade, como não era sequer desejável. Para tal diabolizaram-se todas as experiências indesejáveis e perigosas para a oligarquia. Hoje, quando se assiste ao fenómeno BRICS, os EUA apresentam-no como uma espécie de “união das autocracias”. Trata-se de um elogio, um elogio dito pelo medo, o medo de ficarem para trás.

Neste mundo neoliberal, para chegar ao topo, o fundamental é saber operar, mas não pensar. Stoltenberg não soube responder à questão de quantas invasões a China tinha praticado nos últimos 40 anos ou de quantas bases possui no estrangeiro; o Ministro da Defesa de Portugal, Nuno Melo, não sabia o que queria dizer a sigla NATO, chamando-lhe Tratado do “Atlético” Norte; Von Der Leyen acreditava que a Rússia retirava semicondutores de máquinas de lavar…).

Num mundo em que o conhecimento é pernicioso e perigoso para a oligarquia dominante, não admira que não existam professores suficientes. Não admira que a sua imagem tenha sido degradada e destruída, afastando os jovens dessa profissão.

Não admira que o ocidente seja o mundo do populismo, das fake-news, da pós-verdade, das revoluções coloridas, das vitórias eleitorais contestadas, dos golpes de estado judiciais e da alternância sem alternativa. Neste quadro, o professor torna-se uma personagem, não apenas redundante, como indesejada. O professor da escola pública, que se organiza e organiza os alunos em turmas, que transmite, pensa e faz pensar, é persona non grata.

Num sistema que promove o individualismo e o narcisismo, em que os heróis são os que enriquecem à custa de bilionários contrato públicos, o professor constitui, ainda e apesar de todas as limitações, um elo social precioso, ainda representativo da nossa conexão social, podendo conferir-lhe coesão e sentido de unidade.

Neste sentido, a destruição da sua imagem, do seu estatuto, é consequência inevitável da aceleração e intensificação do processo neoliberal, um sistema que vive precisamente do isolamento, solidão e desconexão social. O professor, enquanto elo de ligação entre seres de uma comunidade, é triturado por um sistema que sonha ver-nos aprender sozinhos, ligados a um ecrã e apenas comunicando pelo tempo estritamente necessário e sem conexão real, emocional.

Como qualquer fascismo, também o neoliberalismo tem ódio ao grupo, ao nosso ser social e colectivo, à civilização que a existência colectiva importa. “Em 2018, já mais de metade dos países da UE reportavam falta acentuada de professores”. A violência e o sentimento de desagregação social a que se assiste no ocidente, tem muito a ver com esta aniquilação do estatuto do professor.

Não é possível viver numa sociedade civilizada, que valorize o conhecimento e a sabedoria, e ao mesmo tempo, promova o neoliberalismo, o imperialismo e a hegemonia. A sua sobrevivência depende da destruição do sistema público de educação e das suas componentes fundamentais: a turma, o grupo, a escola e o elo que liga tudo isto, o professor.

Torna-se, portanto, imperioso para o neoliberalismo, “matar” a figura do professor, para melhor dominar e chegar ao aluno. Eis o que se esconde por detrás da destruição da escola pública! No final, basta apresenta-lo como uma consequência inesperada, prometer que se vai mudar, e tudo fica como está. “Democraticamente” imóvel, em degradação constante até final.

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!

O individualismo extremo consiste na inconsciência mais absoluta.

Fonte aqui.


Alegações contra o racismo 2.0 e contra Jean-Paul Sartre, um dos seus mais célebres ideólogos

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 01/11/2024) 

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Odair Moniz, pequeno empresário cabo-verdiano de 43 anos, morador no  Bairro do Zambujal (freguesia de Alfragide, concelho da Amadora), foi baleado por um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) na madrugada de 21 de Outubro de 2024, no bairro da Cova da Moura, no mesmo concelho, acabando por morrer pouco depois no hospital São Francisco Xavier, para onde tinha sido transportado.

No momento em que ultimo a escrita deste artigo (31 de Outubro), ainda não se conhecem oficialmente as circunstâncias exactas e modo exacto em que esta morte ocorreu. Há versões contraditórias a circular. O caso está a ser investigado pela Polícia Judiciária e levou à abertura de dois inquéritos: um pela própria PSP e outro pela Inspeção Geral da Administração Interna.

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