O Capuchinho Vermelho, o Lobo Mau e os 27 anões do Rei Cor de Laranja

(Miguel Szymanski in Facebook, 06/10/2026, Revisão da Estátua)

Fotografia: o secretário-geral da NATO Rutte recebe Prémio da Paz de Vestfália em Münster ao lado do chanceler Merz.

O que fazer quando aumenta, de eleição para eleição, a multidão de pessoas que recusa a narrativa de guerra dos governantes em Berlim, Paris e Londres e dos dirigentes da UE e da NATO em Bruxelas?

A resposta dos actuais governantes e dirigentes políticos e militares é a fuga para a frente: continua-se a fornecer armas e dinheiro para a guerra continuar, inflaciona-se o nível de risco, alimenta-se o alarmismo, evoca-se diariamente os ataques iminentes, amplia-se a imagem do inimigo, põe-se espiões e agentes, generais e políticos, comentadores e jornalistas a dizer, todos os dias, a toda a hora, que a guerra é inevitável. Não o é. A população, as pessoas, o eleitorado percebe isso. Basta olhar para as sondagens no Reino Unido, em França ou na Alemanha (números mais recentes abaixo).

Os extremos do espectro partidário na Alemanha (AfD, Linke, BSW) já representam 45% do eleitorado, é o novo centro-marginal. Estes partidos têm em comum a recusa de apoio à Ucrânia com armas e a exigência de se começar, desde já, a negociar com a Rússia e a normalizar as relações.

Acresce que parte do eleitorado do SPD, apesar da linha oficial militarista do partido da coligação governamental, tem a mesma opinião. Ou seja, metade ou mais de metade da população alemã recusa continuar o apoio militar e financeiro à guerra.

Já Portugal tem uma das mais elevadas percentagens de apoio ao armamento e financiamento da guerra, com políticos, governantes e ex-governantes a contribuir para o maniqueísmo primitivo num país embrutecido pelo futebol, o jogo e o vinho (ontem ouvi Paulo Portas a referir “o russo”, no outro dia era o patético almirante entusiasmado com o envio de portugueses para defenderem as fronteiras da NATO), um país que se deixa enganar e é um alvo fácil da atual narrativa belicista e redutora com um apoio quase unânime, do Chega, na extrema-direita, ao Livre, nas fraldas do PS (não confundir com “nas faldas”).

A UE e a NATO são atualmente os principais instrumentos dos EUA para manter a Europa Central (inclui a do Sul e entretanto a do Leste e Norte) e a Rússia afastadas e de relações, incluindo as comerciais, cortadas. A continuação da guerra permite aos EUA enfraquecer a UE, extorquindo-lhe o máximo de riqueza, e enfraquecer a Rússia, com esperança na sua fragmentação. É uma doutrina antiga e que está a resultar, pelo menos na UE, graças a esta guerra, a Trump e à fraqueza e cumplicidade da UE, com um aumento, isento de riscos, dos lucros para os EUA (taxas alfandegárias, imposição de gás norte-americano via sanções, venda forçada de armas).

Se foi a Rússia que invadiu a Ucrânia por sua iniciativa, ‘imperialista e maléfica’, ou se foi levada a fazê-lo, para se opor à ‘democrática e benigna’ expansão dos valores do Ocidente, dos EUA, e da NATO para Leste, só interessa, a título de papas e bolos, para a construção de narrativas.

Facto é que o chanceler Merz e a presidente da Comissão Europeia von der Leyen cumprem os seus papéis, tal como Rutte, o secretário-geral da NATO e delegado de propaganda bélica dos EUA, cumpre o seu, para grande benefício do Rei Cor de Laranja. A guerra entre a Rússia e os países da UE, para já só híbrida, com os EUA a venderem armas, energia e a cobrar taxas, pode bem ainda durar uns tempos que Washington e Wall Street não se importam. Merz, Rutte e Leyen terão sempre uma reforma dourada e atlântica, como a têm um Durão Barroso ou Tony Blair. Se a guerra passar de híbrida para convencional, paciência, Merz, Rutte e Leyen, esses grandes jogadores de xadrez, dirão “nós bem avisámos”. E claro que nada teremos a temer, explicam-nos desde já. Sim, porque dizem eles, a economia conjunta dos 27 membros da UE é muito mais forte dos que as fábricas de armamento ou as cinco mil ogivas nucleares russas. Apesar disso ser como comparar a circular de Bruxelas aos dez mil quilómetros de estrada que ligam São Petersburgo a Vladivostoque.

A mais recente sondagem sobre as intenções de voto na Alemanha a nível federal, para eleição do Bundestag, dá este inédito resultado:

Sondagem INSA de 2 a 5 de Outubro

30,5% para a AfD à extrema-direita – CONTRA ARMAS PARA UCRÂNIA.

17,5% para a CDU do chanceler Merz.

14,5% para os ‘socialistas’ do SPD,  com  1/3 do SPD – CONTRA ARMAS PARA UCRÂNIA

14,5% para os Verdes

10,5% para die Linke (esquerda socialista) – CONTRA ARMAS PARA UCRÂNIA

4,5% FDP (liberais)

3,5% BSW (esquerda populista) – CONTRA ARMAS PARA UCRÂNIA.

NOTA: “Isto não é à história do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau”, foi uma expressão usada pelo Papa Francisco, após à invasão da Ucrânia em 2022, para desmontar a narrativa redutora, descontextualizada e maniqueísta do início da guerra.

Os zombies da Europa

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 04/10/2026, Revisão da Estátua)


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Friedrich Merz chega a Kiev com mais mil milhões de euros de ajuda militar e 350 milhões para o setor energético. Entretanto, a sua popularidade cai a pique na Alemanha, e o seu partido sofre derrotas eleitorais históricas.

Mas quem se importa? O povo vota; os governos seguem em frente.

Esta tornou-se a grande especialidade da Europa: perder eleições, ver a popularidade cair a pique nas sondagens, assistir à ascensão de partidos que desafiam a política vigente… e, depois, explicar que a única resposta sensata é acelerar exactamente no mesmo sentido.

Merz assemelha-se, assim, ao líder zombie perfeito: politicamente esgotado, mas ainda em movimento. Marcha mecanicamente em direção a Kiev, com o livro de cheques na mão, como se cada bilião adicional pudesse ressuscitar, simultaneamente, a Ucrânia, a sua maioria parlamentar e a sua popularidade.

O problema, na verdade, vai muito além de Merz. Alguns líderes europeus parecem ter desenvolvido uma conceção fascinante de democracia: os cidadãos são soberanos, desde que queiram aquilo que já foi decidido por eles.

Estão a protestar contra o custo de vida? Fala-se de segurança europeia. Estão a punir os governos nas urnas? Fala-se em desinformação. Estão a exigir mais atenção às questões internas? Explica-se-lhes que a emergência está em Kiev. E, quando os partidos que desafiam esta linha ganham terreno, ninguém questiona a política — questionam-se os eleitores.

É mais conveniente assim.

A Europa continua, por isso, a alargar o seu apoio. O jornal *Die Zeit* voltou a noticiar, este Verão, que a ajuda europeia à Ucrânia tinha aumentado drasticamente, enquanto a Alemanha batia recordes de licenças para exportação de armas.

Aí reside o paradoxo: quanto mais se desafia o sistema político tradicional, mais se endurece. Quanto mais os eleitores manifestam a sua indignação, mais os seus dirigentes apresentam a sua própria linha de ação como inegociável.

Depois, mostram-se surpreendidos quando os eleitores procuram outras opções.

Merz não vai a Kiev apenas para defender a Ucrânia. Exemplifica uma enfermidade política europeia muito mais profunda: a incapacidade dos líderes enfraquecidos imaginarem que as suas próprias políticas podem ser uma das causas da sua fragilidade.

Assim, os zombies continuam a marchar.

Perdem votos, mas mantêm o rumo. Perdem a confiança, mas dão lições aos outros.

Perdem eleições, mas dizem aos eleitores que estes não perceberam nada.

E, quando finalmente tiverem perdido tudo, provavelmente organizarão uma cimeira europeia para descobrir o motivo.

Sem nunca ponderar pedir a opinião daqueles que, afinal, os tinham alertado nas urnas.

Kiev: a armadilha está a fechar

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 03/10/2026, Revisão da Estátua)


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Durante quatro anos, Kiev foi transformada na capital sagrada do Ocidente. Presidentes em peregrinação, apertos de mão diante das câmaras, discursos inflamados, milhares de milhões em ajuda prometida: cada visita visava demonstrar que a Rússia tinha fracassado e que a Ucrânia triunfaria inevitavelmente.

Moscovo pode ter decidido responder a esta farsa da forma mais brutal possível: passando a atacar o próprio cenário.

Os repetidos ataques às pontes sobre o rio Dnieper ganham, assim, um significado totalmente novo. Em três das seis pontes rodoviárias de Kiev já foram total ou parcialmente interditas. Não é necessário destruí-las completamente; basta danificar as suas estruturas o suficiente para obrigar as autoridades a proibir o trânsito.

Uns mísseis, e a geografia transforma-se em arma.

Pois o rio Dniepre divide Kiev em duas partes. As suas pontes são artérias por onde fluem pessoas, mercadorias e equipamentos. Se forem encerradas, os desvios atingem centenas de quilómetros. A logística abranda, os custos disparam e o reabastecimento torna-se mais complexo.

Não há necessidade de cercar Kiev quando o rio pode fazer parte do trabalho.

Eu já tinha colocado a possibilidade de um cerco à capital. Não aquele de 1943, com divisões concentradas às portas da cidade. Mas o de 2026: pontes enfraquecidas, rede elétrica avariada, infraestrutura logísticas danificadas e o inverno transformado numa arma de guerra.

E, de repente, as peças começam a encaixar.

As pontes. A eletricidade. A infraestrutura. Depois, os diplomatas.

Moscovo aconselha agora os estrangeiros, incluindo o pessoal diplomático, a abandonar a Ucrânia e anunciou que os ataques em grande escala vão continuar. Kiev insiste que não há nenhuma evacuação oficial das embaixadas em curso.

 É verdade. Mas, ainda ontem, Kiev era a capital onde os líderes ocidentais vinham posar para as fotografias. Hoje, discutimos as condições em que podem partir. Uma mudança de cenário cruel.

Pois Kiev não é apenas uma cidade. Kiev é o símbolo em torno do qual o Ocidente construiu toda a sua narrativa sobre esta guerra.

Foi aí que se proclamou o fracasso da Rússia. Foi lá que se prometeu uma vitória ucraniana. Foi lá que se repetiu que o tempo trabalhava contra Moscovo.

É por isso que a sua paralisação teria imensas implicações políticas.

Talvez esta guerra termine na mesa de negociações.

Mas Moscovo poderia optar por uma via muito mais implacável: sufocar Kiev ao ponto de as negociações já não servirem para determinar quem ganhou, mas simplesmente para estabelecer quem já não consegue continuar.

Pontes fechadas. Fornecimento de energia cortado. Logística estrangulada. Embaixadas em alerta máximo.

Durante quatro anos, o Ocidente fez de Kiev o símbolo da sua resistência a Moscovo. Pode descobrir, tarde demais, que, ao transformá-la num símbolo, fez dela também a lápide perfeita para toda a sua estratégia.