Tenho ouvido com surpresa alguns militares de altas patentes comentarem os atuais conflitos, o da Ucrânia e agora o de Israel. Os tudólogos e as tudólogas apresentam horóscopos. São artistas convidados por razões conhecidas das direções editorais dos meios de comunicação para convencer os clientes mais vulneráveis intelectualmente e não merecem um olhar. Pelo seu lado, os militares são (eram?) tomados como analistas racionais e metódicos. É nesta perceção que assenta a sua credibilidade e que me custa vê-los desbaratar.
A maioria dos militares convidados pronunciam-se sobre a manobra das forças, os armamentos e tomam notória posição a favor dos regimes da Ucrânia e de Israel, replicando as posições da NATO e dos Estados Unidos. O chocante dessas apresentações não é a tomada de partido, é ela não ser assumida e comunicada, como FB faz, indicando que a mensagem tem origem num meio sob controlo da Rússia. Mas, mais surpreendente, são os maus tratos que eles dão aos princípios da guerra, à relação entre a manobra tática e a organização das forças que as realizam e ainda da história das batalhas.
A opção de um analista pode ser muito parcial em termos ideológicos, mas a vontade de transmitir uma mensagem de bons de um lado e maus do outro não pode anular princípios básicos da arte da guerra, como acontece. Vi e ouvi esses militares considerarem um ato ilícito que uma população cercada num castelo (os palestinianos em Gaza) organize uma força que sai da fortaleza a coberto da noite e ataque as sentinelas do inimigo. É uma manobra comum ao longo da história. Estas operações estão tipificadas em todos os manuais de tática e organização militar como operações especiais, ou operações irregulares.
É estranho a ignorância do que é uma sortida. As fortalezas dispunham quase sempre de uma saída secreta, de um túnel ou de uma vala disfarçada para estas ações. Considerar uma ação tão antiga como esta como um ato bárbaro e fora das leis da guerra é, ou uma grosseira manobra de manipulação para enganar o público em geral, ou uma prova de ignorância de história tanto da antiga como da recente. As forças portuguesas realizaram ações deste tipo, de grande violência, contra forças que as cercavam ou atacavam, ou mantinham reféns portugueses. Fizeram-no em várias ocasiões, as operações Mar Verde, de ataque às prisões do PAIGC em Conacri é uma delas e não foi sem sangue e com bons modos. A operação Ametista Real, de ataque a uma base do PAIGC no Casamance, no Senegal, e que cercava a guarnição de Guidaje, foi outro exemplo, violento e sangrento. O assalto à aldeia de Wiriamu, em Moçambique, é ainda outro. Seria de boa norma que os oficiais comentadores conhecessem estes exemplos de operações irregulares levadas a cabo pelos militares portugueses, antes de seguirem a narrativa americana e israelita, o que evitaria apresentarem uma sortida de um grupo de guerreiros de uma população encerrada no último baluarte, que mata sentinelas inimiga, como um ato de terrorismo e não como uma ação militar legítima, e, mais, que as ações de bombardeamento com catapultas de bolas incandescentes, ou de animais infetados com vírus, como o faz a artilharia, a aviação e a marinha israelita, são atos legítimos de defesa dos atacantes!
Regressando às análises de especialistas militares que têm surgido nos grandes meios de comunicação, eles trazem a público uma nova teoria militar que substitui A Arte da Guerra, de Sun Tzu , e Da Guerra, de Clausewitz, mas também o desenvolvimento de uma nova da Lógica, que substitui o uso do raciocínio, da proporcionalidade entre argumentos, da correta e equilibrada relação entre todos os termos de uma situação.
Há, na argumentação dos profetas do novo Ocidente alargado para justificar a defesa dos regimes de Zelenski e de Netanyahu, da Ucrânia e de Israel, defensores da superioridade étnica e religiosa, uma nova Lógica que substitui a que foi estudada em várias civilizações da Antiguidade, desde a Índia, onde a recursão silogística, Nyaya remonta há 1900 anos, à China, com o Moísmo e, por fim e mais próximo de nós, na Grécia Antiga em que a lógica foi estabelecida como disciplina por Aristóteles. Não é coisa pouca a obra destes comentadores sem obra, mas com currículo e carreira!
A invocação do direito de defesa quer na Ucrânia, quer em Israel escapa à Lógica como ela tem sido entendida, não porque não tenham esse direito, mas porque o tomaram como um direito de que se apropriaram, negando o direito de defesa dos outros. É uma corrupção do conceito vulgar entre “porta vozes” contratados à peça, como meio de manipular a realidade para a dobrar aos interesses dos manipuladores.
Quanto aos militares, há (havia?) um capital de respeito por eles que está a ser desbaratado ao vê-los integrar o coro que alguns fazem na orquestra que tenta ensurdecer as opiniões públicas ocidentais. Que se salvasse, ao menos, a teoria, o conhecimento da arte da guerra, a honra! Mas não, temos músicos de orquestra, ou cornetas que tocam afinadas e à ordem.
Quadro de Alessandro Magnasco — Matança dos Inocentes
Guerra e Terrorismo — A propaganda de Israel e dos seus aliados (cúmplices) desenvolveram um dicionário específico para apresentar a situação em Gaza. Os porta-vozes de Israel e dos Estados Unidos foram treinados para o utilizar e difundir. Estão a fazê-lo e a servirem-no em doses maciças.
Israel está em guerra com o Hamas, garantem. É falso, o estado de Israel está em guerra com os palestinianos desde 1948, o Hamas foi criado em 1987. É um conhecimento de cultura geral. Sem investigação muito aprofundada é fácil saber que ocupação da Palestina foi e está a ser conduzida pelos judeus herdeiros dos movimentos terroristas desde os anos trinta do século vinte, quando começaram a lutar contra os ingleses, que tinham mandato da Sociedade da Nações de protetorado na Palestina desde o final da I Grande Guerra e que se manteve até ao final da II Guerra Mundial, quando os ingleses entregaram formalmente a Palestina à ONU, recém criada e aos Estados Unidos e à URSS para a condução prática do imbróglio do que fazer com os judeus sobreviventes do Holocausto. Esses movimentos lutaram através da imposição do terror para expulsar os palestinianos das suas terras e casas, sem olhar a meios.
O Exército de Israel, que se esconde debaixo da inocente, mas falaciosa designação de Forças de Defesa de Israel (IDF na designação anglo saxónica), tem antepassados que é fácil conhecer e que os jornalistas e comentadores só não apresentam porque esse conhecimento é inconveniente para versão da Verdade Única que deve ser imposta. O mais antigo e direto é o Haganá, uma organização de judeus sionistas, a primeira a utilizar o terrorismo na Palestina. Como é comum nas histórias dos movimentos terroristas, o Haganá, que também agiu como instrumento dos ingleses, sofreu várias dissidências, cada uma mais radical que a organização-mãe. Uma, o Irgun, comandado por Menhachem Begin, que chegaria a primeiro ministro de Israel, realizou a célebre operação de terror contra o Hotel Rei David, que matou 91 pessoas, na maioria quadros ingleses. Outra das dissidências designava-se Lehi, e os ingleses referiam-na como o Stern Gang. Estas organizações foram responsáveis pelo afundamento do navio Patria, com 1600 judeus, que o Reino Unido estava a transferir para as ilhas Maurícias. As organizações de judeus sionistas preferiram matar outros judeus (duas centenas morreram afogados) a deixar que fossem para um local que não a de povoar a “sua Palestina”. Todos estes “respeitáveis” movimentos sionistas se reconverteram de terroristas em Força de Defesa de Israel .
O “Exército de Israel” tem como base ideológica o sionismo e percebe-se assim melhor que o final de “cada ato de defesa” contra os palestinianos se tenha traduzido na conquista mais território, que irá até conseguirem criar a “Grande Palestina”, uma invenção dos sionistas com recurso a mirabolantes interpretações bíblicas.
O objetivo do Exército de Israel nesta operação em Gaza é, numa primeira fase, “limpar o território” dos seus habitantes, criar um espaço vazio, sem habitantes (no men land), para justificar a ocupação por israelitas, numa segunda fase. Não há nenhuma guerra contra o Hamas, que é apenas o mais recente movimento de resistência palestiniana, mas um ataque aos palestinianos de Gaza (que elegeram o Hamas para o seu governo) com a finalidade de deslocar um povo através do terror, porque a alternativa apresentada por Israel à sua fuga será a chacina!
O Hamas é apenas mais um dos vários movimentos organizados de resistência, como foram a OLP, a Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina, as intifadas. Todas refletem a parcialidade e a violência da injustiça inicial da distribuição de terras da Palestina patrocinada pela ONU com a criação do Estado de Israel, o tal que tem o direito de tudo poder fazer para se “defender”: palestinianos, com 70% da população, tiveram direito a 45,4% do território, os judeus, com 30% da população, tiveram direito a 53,5% do território. Jerusalém seria partilhada. Os sentimentos resultantes de uma violação, de um assalto à mão armada, de uma ocupação não se destroem à bomba, mesmo que de fósforo, nem à metralhadora, nem com carros de combate, nem com F16!
Israel tem o direito de se defender — Todos têm o direito de se defender, mesmo os recém-chegados! A questão não é de direito, é de análise da realidade: tem sido e continua a ser Israel quem ataca para impor o seu modelo de sociedade. Os palestinianos são quem se defende e defende o direito de permanecer num território que nunca abandonaram! Não saíram da sua terra para atacar os judeus, alguns dos quais (os descendentes dos que não foram procurar outros destinos que de Damasco os levaram até à Rússia e à Península Ibérica) habitaram a Palestina em boa convivência com os palestinianos até um judeu austríaco pregar o sionismo no final do século dezanove e, meio século mais tarde, as potências europeias vencedoras da Segunda Guerra Mundial despacharem os judeus para uma terra onde se governassem e que até esteve para ser Angola.
O ataque do Hamas aos colunatos junto à fronteira de Gaza é um terrível ato de terror que merece a mais forte condenação, pois atingiu pacíficos civis que estavam em suas casas ou a divertir-se. A afirmação dos evangelistas ao serviço da verdade única contém vários sofismas (mentiras):
– Os colunatos, que substituíram os Kibutz, militarizando-os e eliminando os princípios de socialismo e de vida em comum que os distinguiu no início, são instalações militares e todos os seus membros (incluindo as famílias) são militares e cumprem funções dentro da manobra militar do Estado e das Forças Armadas. São sentinelas, postos de observação e primeira linha de combate. Desempenham, com as diferenças de tempo e lugar, o importante papel na manobra militar que as aldeias estratégicas desempenharam na guerra colonial portuguesa em Angola, Guiné e Moçambique. Ou o papel dos colonatos criados com portugueses idos da Metrópole para se instalarem em zonas de fronteira da guerra. Esteve prevista instalação de um milhão de colonos na região da barragem de Cabora Bassa, para servirem de barreira, em conjunto com a albufeira ao avanço da FRELIMO. São condenáveis todas as mortes violentas. Sem falsos moralismos, mas há violências mais condenáveis que outras, e há violências condenáveis e violências aceitáveis e há violências que merecem operações mediáticas e há violências silenciadas. Existem com certeza cenas de violência na Ucrânia tanto o mais chocantes do que a do ataque do Hamas ao colunato! Há violências desculpáveis, as dos nossos e violências condenáveis, as dos outros! Há violências cuja exploração e condenação é mais vantajosa para o desenvolvimento de dada a uma estratégia do que outras. Estamos em plena manobra de ação psicológica. A velha Psico da guerra colonial!
Para os portugueses, em particular para alguns dos ditos “especialistas militares” a classificação de terroristas e de ações terroristas devia ser muito cuidadosa, se o conhecimento da História fosse considerado fator indispensável à análise do presente. Em 1972 Marcelo Caetano, chefe do governo, afirmou ao general Spínola, governador e comandante-chefe na Guiné, que preferia uma derrota honrosa do que negociar com terroristas. Um afirmação que Marcelo Caetano iludiu, procurando conversações com o PAIGC, em Londres, com o MPLA através de um assessor da embaixada de Roma, e com a Frelimo através do engenheiro Jardim, que conduziu ao 25 de Abril de 1974 e ao reconhecimento dos “terroristas” como os únicos interlocutores viáveis para a independência das colónias, e que passaram a ser os políticos com quem os governos portugueses vieram a manter relações baseadas no mutuo respeito.
O governo de Israel optou pela política de Caetano afirmar que não negoceia com terroristas. A diferença é que o sionistas que dominam a máquina militar de Israel consideraram os palestinianos animais, seres que devem ser eliminados pelos homens do povo eleito, com que não podem conviver, nem negociar, embora os palestinianos sejam semitas, como os judeus. Os nazis só tinham classificado os judeus como sub-humanos e decidiram para eles a solução final das câmaras de gás. Imagina-se o que preparam os israelitas para os animais palestinianos!
O último sofisma é a introdução do Irão como base desta resistência dos palestinianos. É o inimigo do momento, como anteriormente já foram o Líbano, o Egito, a Síria, até a Jordânia, criados à medida dos interesses da grande estratégia dos EUA. O Irão foi há muito erigido como o objetivo principal e final da estratégia americana de destabilização do Médio-Oriente, que começou com a invasão do Iraque. Israel é a principal base dos EUA no Médio Oriente. É um clássico dos espetáculos de boxe: colocar um lutador em cada canto. Também é um princípio da propaganda de Goebbels: iluminar e referir apenas um inimigo, dar-lhe um rosto e um nome. Agora o que está a dar é apresentar o Hamas como o desafiador do campeão Israel! Resta, silenciada, realidade: a violência de 75 anos imposta por colonos vindos de fora anos sobre uma comunidade autóctone. Mas resta um problema sério: os Estados Unidos terão capacidade para lutar simultaneamente no Médio Oriente contra o Irão e na Eurásia contra a Rússia, na Ucrânia? Com que apoio dos EUA podem contar aqueles que fazem guerras em seu nome? Esta é a pergunta que fazem Netanyahu e Zelesnki. É de ucranianos e de palestinianos a carne que está a sofrer os efeitos do dilema dos Estados Unidos que prometeram apoio eterno e incondicional à Ucrânia e a Israel!
Desmontar as falácias do discurso de apresentar o vilão como vítima não significa a concordância com os métodos do Hamas — que reproduzem os do seu inimigo e devem merecer o mesmo repúdio — nem a preferência pelos valores e tipo de sociedade que propõe. Mas tão só a de recusar a parcialidade do discurso dominante, as grosseiras mentiras em que assenta e a comparar as soluções do sionismo para Gaza com a experiências portuguesas na guerra colonial contra organizações consideradas terroristas, mas que concentravam em si as ansias de afirmação dos seus povos, entidades portadoras de uma cultura e com direito a viver segundo os seus costumes na terra que desde sempre e sem hiatos ocuparam.
Gaza não pode ser um gigantesco massacre de Wiriamu. Mas há quem defenda que sim.
(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/10/2023)
Há dias, em Lisboa, um grupo de turistas altos, brancos e de olhos azuis insultou vários entregadores imigrantes da Glovo que levavam bandeiras da Palestina nas suas bicicletas momentos depois da concentração em solidariedade com o povo palestiniano.
Uma amiga, chocada, testemunhou tudo e contou-me o episódio, ontem, durante o concerto de Omar Souleyman. O músico sírio que ganhou fama a cantar em casamentos gritou várias vezes Palestina para o público. Entre a multidão, havia bandeiras da Palestina e os aplausos subiam de tom, assim como os gritos a favor do povo palestiniano.
Em determinado momento, alguém, com um olhar de ódio, e sobretudo de derrota, atravessou o mar de gente com a bandeira de Israel no ecrã do telemóvel e abandonou o concerto. Tão só como a bandeira de Israel no castelo de São Jorge, tão só como os que se concentraram fechados num hotel para legitimar o genocídio de um povo.
No fim do espetáculo, foram muitos os que se juntaram aos donos das bandeiras palestinianas. Portugueses e imigrantes gritavam juntos. Não é estranho. Como afirmou Ghassan Kanafani, “a causa palestina não é apenas dos palestinos, é uma causa de todos os revolucionários, das massas oprimidas e exploradas da nossa era”. O escritor maior da causa da libertação da Palestina foi assassinado em 1972 por Israel em Beirute mas assim tem sido durante mais de meio século.
A Europa tem medo do que aí vem e de perder o seu lugar no mundo. Os Estados Unidos foram, desde a Segunda Guerra Mundial, a trave mestra de um poder que se dilui e para o qual não há substituto no Ocidente. A ideia de civilidade associada à Europa é tentadora mas é um tigre de papel.
Capaz dos mais insidiosos crimes ao longo de séculos, perde agora a sua influência nas ex-colónias para países do Sul Global e abandona definitivamente a ideia de autonomia face a Washington. A Europa tem medo. Mas a Europa que tem medo é a Europa política e económica. É o poder. Porque, na verdade, não existe uma Europa única. É um continente profundamente desigual, com enormes contradições, sobretudo na periferia, no qual as trabalhadoras e os trabalhadores têm mais a ganhar do que a perder com a derrota do atual sistema desumano que nos lança no precipício da exploração e da miséria.
Há anos, quando era adolescente, jogava Risco com amigos. Depois de muitas horas, quando um de nós estava prestes a ganhar, alguém atirou o tabuleiro ao chão. Depois de muitos protestos, cada um foi para sua casa. O tabuleiro moral da Europa funciona assim. Condenam a Rússia mas apertam a mão a Israel, atacam a Líbia mas fazem negócios com todo o tipo de ditaduras, desde que alinhadas com Washington e Bruxelas. A barbárie muda de nome consoante as circunstâncias. Israel só se comporta desta forma porque tem as costas quentes, porque é um aliado estratégico do Ocidente. O crime legitima-se quando os polícias do mundo são cúmplices dos criminosos. Como no Risco, as regras só importam quando servem para proteger os nossos interesses.
Certo dia, apresentaram-me Leila Khaled, histórica combatente e dirigente da Frente Popular de Libertação da Palestina. Com apenas quatro anos, como centenas de milhares, teve de fugir de Haifa com a família para o Líbano. Como a maioria das casas, a sua foi ocupada por colonos israelitas. Há quem até possa julgar a decisão que levou esta mulher a sequestrar dois aviões mas, se somos compreensivos com as lutas de libertação nacional que percorreram todo o século XX, se uma parte da liderança política europeia aceita o recurso da Ucrânia a atentados contra civis na Rússia, o que nos torna solidários com a Palestina apenas quando esta é atacada e nunca quando se defende?
Nesse mesmo dia, Fayez Badawi contava-me, ao lado de Leila Khaled, que quando era criança queria muito combater pelo seu povo. Leila Khaled explicou-me que pôs a kalashnikov de pé ao lado dele e disse-lhe: “Quando fores mais alto que o cano do fuzil, deixamos-te combater”. Anos mais tarde, Fayez Badawi combateu Israel nas trincheiras libanesas. Não é uma história que se entenda facilmente quando nunca se viveu num campo de refugiados sabendo que do outro lado da fronteira há uma casa da família que está ocupada por colonos.
É um facto: a morte de civis em qualquer contexto é um crime. Mas, como disse Frantz Fanon, é o colono e o seu Estado que ensinam ao colonizado a prática da violência. O oprimido exprime-se assim porque é a única linguagem que o opressor entende.
O monopólio da violência existe, no caso de Israel, porque Israel é um protetorado norte-americano. Se o Ocidente quisesse, Israel não teria outro remédio senão aceitar a existência de um Estado palestiniano. Sem o apoio estratégico de Washington e Bruxelas, o apartheid e a colonização cairiam como um baralho de cartas.
E a Europa tem medo. Tem medo porque sabe que, se o Sul Global ganhar protagonismo e ganhar força um mundo desalinhado com Washington, a Palestina terá, definitivamente, um Estado livre e soberano. É por isso que é higiénico, urgente e necessária uma Europa do mundo e não um mundo da Europa. Uma Europa plural e verdadeiramente democrática.