A geopolítica do Dilúvio de Al-Aqsa

(Pepe Escobar, in SakerLatam.org, 12/10/2023)

O foco global acabou de mudar da Ucrânia para a Palestina. Essa nova arena de confronto acenderá ainda mais a concorrência entre os blocos atlanticista e eurasiano. Essas lutas são cada vez mais de soma zero; como na Ucrânia, apenas um polo pode sair fortalecido e vitorioso.


A Operação “Diluvio de Al-Aqsa” [do inglês Al-Aqsa Flood – nota do tradutor] do Hamas foi meticulosamente planejada. A data de lançamento foi condicionada por dois fatores desencadeadores.

O primeiro foi o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu exibindo seu mapa do “Novo Oriente Médio” na Assembleia Geral da ONU em setembro, no qual ele apagou completamente a Palestina e zombou de todas as resoluções da ONU sobre o assunto.

Em segundo lugar, estão as provocações em série na sagrada Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, incluindo a gota d’água: dois dias antes do Dilúvio de Al-Aqsa, em 5 de outubro, pelo menos 800 colonos israelenses lançaram um ataque ao redor da mesquita, agredindo peregrinos e destruindo lojas palestinas, tudo sob a observação das forças de segurança israelenses.

Todos que têm um cérebro funcional sabem que Al-Aqsa é uma linha vermelha definitiva, não apenas para os palestinos, mas para todo o mundo árabe e muçulmano.

A situação fica ainda pior. Os israelenses agora invocaram a retórica de uma “Pearl Harbor”. Isso é o mais ameaçador possível. A Pearl Harbor original foi a desculpa americana para entrar em uma guerra mundial e bombardear o Japão, e esse “Pearl Harbor” pode ser a justificativa de Tel Aviv para lançar um genocídio em Gaza.

Setores do Ocidente que aplaudem a próxima limpeza étnica – incluindo sionistas que se fazem passar por “analistas” e dizem em voz alta que as “transferências de população” que começaram em 1948 “devem ser concluídas” – acreditam que, com armamento maciço e cobertura massiva da mídia, eles podem reverter a situação em pouco tempo, aniquilar a resistência palestina e deixar os aliados do Hamas, como o Hezbollah e o Irã, enfraquecidos.

Seu “Projeto Ucrânia” fracassou, deixando não apenas ovos em rostos poderosos, mas também economias europeias inteiras em ruínas. No entanto, quando uma porta se fecha, outra se abre: salte da aliada Ucrânia para a aliada Israel e concentre sua atenção no adversário Irã em vez da adversária Rússia.

Há outros bons motivos para partir com tudo para cima. Uma Ásia Ocidental pacífica significa a reconstrução da Síria – na qual a China agora está oficialmente envolvida; o redesenvolvimento ativo do Iraque e do Líbano; o Irã e a Arábia Saudita como parte do BRICS 11; a parceria estratégica Rússia-China totalmente respeitada e a interação com todos os participantes regionais, incluindo os principais aliados dos EUA no Golfo Pérsico.

Incompetência. Estratégia intencional. Ou ambos.

Isso nos leva ao custo do lançamento dessa nova “guerra ao terror”. A propaganda está em pleno andamento. Para Netanyahu, em Tel Aviv, o Hamas é o ISIS. Para Volodymyr Zelensky, em Kiev, o Hamas é a Rússia. Em um fim de semana de outubro, a guerra na Ucrânia foi completamente esquecida pela grande mídia ocidental. O Portão de Brandemburgo, a Torre Eiffel e o Senado brasileiro agora são todos israelenses.

A inteligência egípcia alega ter avisado Tel Aviv sobre um ataque iminente do Hamas. Os israelenses decidiram ignorá-lo, assim como fizeram com os exercícios de treinamento do Hamas que observaram nas semanas anteriores, convencidos de que os palestinos jamais teriam a audácia de lançar uma operação de libertação.

Aconteça o que acontecer, a [operação] Dilúvio de Al-Aqsa já destruiu irremediavelmente a grande mitologia popular em torno da invencibilidade do Tsahal, do Mossad, do Shin Bet, do tanque Merkava, do Iron Dome e das Forças de Defesa de Israel.

Mesmo quando abandonou as comunicações eletrônicas, o Hamas lucrou com o colapso evidente dos sistemas eletrônicos multibilionários de Israel que monitoram a fronteira mais vigiada do planeta.

Os drones palestinos baratos atingiram várias torres de sensores, facilitaram o avanço de uma infantaria de parapente e abriram caminho para que equipes de assalto com camisetas e AK-47 infligissem rupturas no muro e cruzassem uma fronteira que nem mesmo gatos vadios ousavam.

Israel, inevitavelmente, passou a atacar a Faixa de Gaza, uma gaiola cercada de 365 quilômetros quadrados com 2,3 milhões de pessoas. Começou o bombardeio indiscriminado de campos de refugiados, escolas, blocos de apartamentos civis, mesquitas e favelas. Os palestinos não têm marinha, força aérea, unidades de artilharia, veículos blindados de combate nem exército profissional. Eles têm pouco ou nenhum acesso à vigilância de alta tecnologia, enquanto Israel pode acessar os dados da OTAN se quiser.

O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, proclamou “um cerco completo à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem combustível, tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos e agiremos de acordo”[enfase do tradutor].

Os israelenses podem se envolver alegremente em punições coletivas porque, com três vetos garantidos do Conselho de Segurança da ONU no bolso de trás, eles sabem que podem se safar.

Não importa que o Haaretz, o jornal mais respeitado de Israel, admita sem rodeios que “na verdade, o governo israelense é o único responsável pelo que aconteceu (Dilúvio de Al-Aqsa) por negar os direitos dos palestinos”.

Os israelenses são consistentes. Em 2007, o então chefe da inteligência de defesa israelense, Amos Yadlin, disse: “Israel ficaria feliz se o Hamas assumisse o controle de Gaza porque as FDI poderiam lidar com Gaza como um estado hostil”

Ucrânia envia armas para palestinos

Há apenas um ano, o comediante de moletom em Kiev estava falando sobre transformar a Ucrânia em uma “grande Israel” e foi devidamente aplaudido por um grupo de automatos do Atlantic Council.

Bem, o resultado foi bem diferente. Como uma fonte da velha guarda do Deep State acabou de me informar:

“Armas com a marca da Ucrânia estão indo parar nas mãos dos palestinos. A questão é qual país está pagando por elas. O Irã acabou de fazer um acordo com os EUA no valor de seis bilhões de dólares e é improvável que o Irã coloque isso em risco. Tenho uma fonte que me deu o nome do país, mas não posso revelá-lo. O fato é que as armas ucranianas estão indo para a Faixa de Gaza e estão sendo pagas, mas não pelo Irã.”

Depois de seu impressionante ataque no último fim de semana, um Hamas experiente já garantiu mais poder de negociação do que os palestinos tiveram em décadas. É importante ressaltar que, embora as negociações de paz sejam apoiadas pela China, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e Egito, Tel Aviv se recusa. Netanyahu está obcecado em arrasar Gaza, mas se isso acontecer, uma guerra regional mais ampla será quase inevitável.

O Hezbollah do Líbano – um firme aliado do Eixo da Resistência para a resistência palestina – prefere não ser arrastado para uma guerra que pode ser devastadora em seu lado da fronteira, mas isso pode mudar se Israel perpetrar um genocídio de fato em Gaza.

O Hezbollah possui pelo menos 100.000 mísseis balísticos e foguetes, desde Katyusha (alcance: 40 km) até Fajr-5 (75 km), Khaibar-1 (100 km), Zelzal 2 (210 km), Fateh-110 (300 km) e Scud B-C (500 km). Tel Aviv sabe o que isso significa e estremece com os frequentes avisos do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, de que sua próxima guerra com Israel será conduzida dentro daquele país.

O que nos leva ao Irã.

Negação plausível geopolítica

A principal consequência imediata do Dilúvio de Al-Aqsa é que o sonho neocon de Washington de “normalização” entre Israel e o mundo árabe simplesmente desaparecerá se isso se transformar em uma longa guerra.

Na verdade, grande parte do mundo árabe já está normalizando seus laços com Teerã – e não apenas dentro do recém-expandido BRICS 11.

No caminho para um mundo multipolar, representado pelo BRICS 11, pela Organização de Cooperação de Xangai (SCO), pela União Econômica Eurasiática (EAEU) e pela Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China, entre outras instituições inovadoras da Eurásia e do Sul Global, simplesmente não há lugar para um Estado de Apartheid etnocêntrico que gosta de punição coletiva.

Neste ano, Israel não foi convidado para a cúpula da União Africana. Uma delegação israelense compareceu mesmo assim e foi expulsa sem cerimônia do grande salão, uma imagem que se tornou viral. Nas sessões plenárias da ONU no mês passado, um único diplomata israelense tentou interromper o discurso do presidente iraniano Ibrahim Raisi. Nenhum aliado ocidental ficou ao seu lado, e ele também foi expulso do local.

Como disse diplomaticamente o presidente chinês Xi Jinping em dezembro de 2022, Pequim “apoia firmemente o estabelecimento de um Estado independente da Palestina que goze de plena soberania com base nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital. A China apoia que a Palestina se torne um membro pleno das Nações Unidas”.

A estratégia de Teerã é muito mais ambiciosa: oferecer consultoria estratégica aos movimentos de resistência da Ásia Ocidental, do Levante ao Golfo Pérsico: Hezbollah, Ansarallah, Hashd al-Shaabi, Kataib Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina e inúmeros outros. É como se todos eles fizessem parte de um novo Grande Tabuleiro de Xadrez supervisionado de fato pelo Grande Mestre Irã.

As peças do tabuleiro de xadrez foram cuidadosamente posicionadas por ninguém menos que o falecido Comandante da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, General Qassem Soleimani, um gênio militar único na vida. Ele foi fundamental na criação das bases para os sucessos cumulativos dos aliados iranianos no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iêmen e na Palestina, além de criar as condições para uma operação complexa como a Dilúvio de Al-Aqsa.

Em outras partes da região, a iniciativa atlanticista de abrir corredores estratégicos nos Cinco Mares – Cáspio, Mar Negro, Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Mediterrâneo Oriental – está fracassando gravemente.

A Rússia e o Irã já estão destruindo os projetos dos EUA no Mar Cáspio – por meio do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC) – e no Mar Negro, que está a caminho de se tornar um lago russo. Teerã está prestando muita atenção à estratégia de Moscou na Ucrânia, ao mesmo tempo em que refina sua própria estratégia sobre como debilitar o Hegemon sem envolvimento direto: chamemos isso de negação plausível geopolítica.

Bye bye corredor UE-Israel- Arábia Saudita-Índia

A aliança Rússia-China-Irã foi demonizada como o novo “eixo do mal” pelos neoconservadores ocidentais. Essa raiva infantil revela a impotência cósmica. Esses são Soberanos Reais com os quais não se pode mexer e, se o fizerem, o preço a pagar será inimaginável.

Um exemplo importante: se o Irã, sob ataque do eixo EUA-Israel, decidisse bloquear o Estreito de Ormuz, a crise energética global dispararia e o colapso da economia ocidental sob o peso de quatrilhões de derivativos seria inevitável.

O que isso significa, em um futuro imediato, é que o sonho americano de interferir nos Cinco Mares não se qualifica nem mesmo como uma miragem. O Diluvio Al-Aqsa também acabou de enterrar o recém-anunciado e muito alardeado corredor de transporte UE-Israel-Arábia Saudita-Índia.

A China está bem ciente que toda essa incandescência que está ocorrendo apenas uma semana antes de seu 3o Fórum do Cinturão e Rota em Pequim. O que está em jogo são os corredores de conectividade da BRI que importam – através do Heartland, através da Rússia, além da Rota da Seda Marítima e da Rota da Seda Ártica.

Além disso, há o INSTC que liga a Rússia, o Irã e a Índia e, por extensão auxiliar, as monarquias do Golfo.

As repercussões geopolíticas do Dilúvio de Al-Aqsa acelerarão as conexões geoeconômicas e logísticas interconectadas da Rússia, da China e do Irã, contornando o Hegemon e seu Império de Bases. O aumento do comércio e a movimentação ininterrupta de cargas têm tudo a ver com (bons) negócios. Em termos iguais, com respeito mútuo – não é exatamente o cenário do Partido da Guerra para uma Ásia Ocidental desestabilizada.

Ah, as coisas que uma infantaria de parapente em movimento lento sobrevoando uma parede podem acelerar.


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De Angola à Palestina. Será o terrorismo uma solução? 

(Armando Rosa, in MaisRibatejo.pt, 13/10/2023)

Manifestantes pró-palestinianos protestam contra a ocupação israelita da faixa de Gaza.

Sobre a pergunta em título, vou procurar fazer-me entender, sem antes afirmar o meu total repúdio para os métodos utilizados pelos “terroristas” anti Israel que, ao fim de décadas de lutas e guerrilhas voluntaristas, sem estratégia ou resultado prático, tendo em conta os objetivos em vista (a libertação), eis que conseguem, finalmente, ter as atenções de todo o mundo ao levarem a cabo um ataque sério ao opressor. Pela primeira vez há palestinianos que lutam quase de igual para igual, contra a potência ocupante e opressora. Pela primeira vez a Palestina (pelas piores razões) é notícia nas primeiras páginas e noticiários de todo o mundo.

Recordatória:

Angola 1961: o terror maciço e cru
“Como nos tempos remotos das grandes barbáries, são assassinados homens, mulheres, velhos e crianças, autoridades administrativas, agentes da ordem, brancos, negros e mestiços; ou fuzilados; ou queimados dentro de casas e cubatas: ou esquartejados, e degolados; ou serrados vivos”(Embaixador Franco Nogueira)
O número de mortos está longe de ser consensual, mas as estimativas mais referidas apontam para cerca de 800 brancos, em muitos casos gente pobre e humilde, e milhares de trabalhadores africanos recrutados noutras regiões da colónia.

In Público. Ver aqui.

1961 foi um ano que colocou em choque todos os portugueses e em especial o regime de então. A divulgação das atrocidades e a propaganda noticiosa bem controlada pela polícia política (censura), provocaram nos portugueses uma onda de indignação e fervor patriótico, bem aproveitados por Salazar e aceitaram na sua grande maioria, a palavra de ordem “ Para Angola e em força”.

Não vou colocar aqui as fotos que, então, eram profusamente divulgadas pelo regime. São de uma violência e grafismo que ferem o ser mais frio e racional e revelam bem o ódio acumulado pelos autóctones angolanos em relação ao ocupante: Portugal. Esta recordação vem a propósito dos acontecimentos atuais em Israel que podem muito bem ser comparados nos seus níveis de violência e horror.

Algumas perguntas inconvenientes.

O que, na atualidade se está a passar, leva à elaboração de perguntas que são pertinentes, na minha ótica:

– Pergunto se as atrocidades agora cometidas pelos palestinianos do Hamas, são mais ou menos hediondas do que as cometidas pelos então designados de terroristas da UPA (União dos Povos de Angola) e outros?

– Pergunto se não foi esse início, com todas as suas atrocidades e morte de civis inocentes (mais de 800), a génese das lutas independentistas desses territórios?

– Pergunto também se podemos comparar o que era o colonialismo português da altura com o colonialismo israelita atual? Qual o povo que teria mais razões para a revolta? Os palestinianos de Gaza ou os nativos angolanos de 1961? Enquanto os colonos portugueses, tratavam os autóctones como servos, (muitas vezes até como iguais), mas na generalidade, com o respeito devido a um ser humano, Israel usa a força e o apartheid como fundamentos da sua existência, assassinando indiscriminadamente também mulheres e crianças.

– Não foi o termo “terroristas”, como eram designados os então movimentos independentistas das colónias portuguesas, banido do léxico português e não se começaram a apelidar de “movimentos de libertação” e “lutadores pela liberdade” depois do 25/4/74?

Este é um momento histórico para a Palestina e para a sua luta. Que há violência gratuita e mortes de inocentes que devem ser repudiadas e condenadas? Claro que sim. Mas digam-me qual a revolução histórica (tirando o 25/4/74) em que não houve excessos e injustiças e morte de inocentes..

O facto é que, tanto em 1961, como agora, a visibilidade mundial dessas lutas só teve impactos e alertou consciências, depois de se levantarem indignações contra este tipo de ações. Hediondas e terroristas, é certo, mas eficazes na ótica dos interesses dessas gentes.

O terrorismo da UPA em 1961 foi o extremar do ódio sobre os colonizadores portugueses, e sinalizou o início da futura independência das várias colónias. O terrorismo do Hamas teve origem nas décadas de ocupação, opressão e discriminação em que mais de dois milhões vivem numa prisão a céu aberto, sem quaisquer condições de sobrevivência autónoma. Não há trabalho, saúde, dignidade de qualquer espécie. Mendigam e vivem das ajudas internacionais com que, países doadores e ONGs , vão mitigando a sua miséria, qual caridadezinha que vai mantendo nos países gordos “gente de bem”, de consciência tranquila. E de sono repousante.

Comentando a pergunta inicial (Será o terrorismo a solução?), podemos ainda acrescentar outra interrogação: Será possível conter indefinidamente o ódio acumulado de décadas de humilhação, fome e opressão, em qualquer povo ou grupo étnico?

Ainda outra: Quando politica e praticamente nada é feito pela comunidade internacional para resolver e aplicar dezenas de resoluções da ONU, tendentes a resolver a situação e terminar sofrimentos e injustiças óbvios, ações terroristas serão um caminho? Para eles, parece que foi.

Pela analogia já plasmada e depois da História a ser feita dentro de algumas dezenas de anos, podemos ter o Hamas, não como uma organização terrorista, mas como um movimento heroico que iniciou uma guerra libertadora para o seu povo, ou originou o processo do seu extermínio.

Pode ser que, daqui a alguns anos, a História do povo palestiniano seja rescrita como o foi no caso português.

Do holocausto dos judeus ao genocídio dos palestinianos.

A História parece que se repete, mas agora com os carrascos a serem as anteriores vitimas. Palavras inflamadas e de ódio ouvem-se de ambos os lados, há dezenas de anos. Mas o teor das ameaças e das práticas sionistas, só demonstram que a religião que seguem e por que se orientam (Israel é um Estado teocrático), não passa de uma máscara hipócrita que acoita os  instintos mais perversos e vingativos. Podem ter livros sagrados como referência moral e hábitos aparentemente civilizados, mas não conseguem esconder os ódios mortais e o genocídio que se propõem levar a cabo sobre o povo palestiniano.

O genocídio que há cerca de oitenta anos ameaçou os judeus, está agora na agenda dos seus líderes e na ordem do dia do governo israelita. O cerco de características medievais que Israel está a perpetrar a cerca de dois milhões de seres humanos, em que metade são crianças e que já viviam nos mínimos existenciais, só tem de ser condenado e considerado um crime contra a humanidade. Privar quem já quase nada tinha, de água, eletricidade, assistência médica e alimentos é puro fascismo a caminho de um novo holocausto.

O dito ocidente está mais virado para apoiar Israel e chora lágrimas de crocodilo, pelas suas vítimas tratando como normal o “terrorismo bondoso” praticado há décadas por Israel, que já provocou a morte de mais de cinco mil palestinianos e dezenas de milhar de feridos desde 2008 (fonte: ONU).

A UE bate palmas através dos seus insanos dirigentes, a todas as ações de retaliação que Israel se propõe fazer, esquecendo que, de entre os dois milhões que vivem em Gaza, somente quarenta mil pertencem ao Hamas.

A UE está a ser conivente com o desígnio de extermínio de um povo implicitamente declarado pelo fascista Netanyahu. Prepara-se o arraso de uma cidade e a morte de milhares de pessoas. Como o dito ocidente já está habituado a situações similares (Iraque, Afeganistão, Líbia, Jugoslávia,etc….), será apenas mais um crime que vai ficar por julgar.


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Mudança de paradigma na Palestina

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 11/10/2023)

O Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu anuncia que Israel está em guerra. Pela primeira vez na sua história, o Estado hebreu é atacado no seu próprio território. Primeiro, ele vai “limpá-lo” , depois lançará uma guerra contra-insurreição em Gaza, no do modelo da « batalha de Argel » e da « operação Fénix » no Vietname : Tratar-se-á de uma guerra muito suja, mortífera e ilimitada. Israel poderá restabelecer a ordem em seu proveito, mas jamais poderá vencer.

O conflito sangrento que começou na Palestina geográfica acontece após 75 anos de mortíferas injustiças. Do ponto de vista do Direito Internacional, os Palestinianos tem o direito e o dever de resistir à ocupação israelita, tal como os Israelitas tem o direito e o dever de responder ao ataque que sofrem. É da responsabilidade de todos ajudar a resolver as injustiças de que os dois grupos são vítimas, o que não significa apoiar a vingança cruel de alguns deles.
Além disso, o apoio que se possa dar aos povos palestiniano e israelita não deve levar a amnistiar os seus respectivos dirigentes pelos crimes que cometeram, nem as grandes potências que os manipularam.


O Próximo-Oriente é um universo instável no qual muitos grupos se enfrentam para sobreviver. Para simplificar, consideramos no Ocidente que a sua população se compõe de judeus, cristãos e muçulmanos, mas a realidade é muito mais complexa. Cada religião compõe-se ela própria de uma infinidade de crenças. Por exemplo, na Europa e no Magrebe, estamos cientes que os cristãos se dividem em Igreja Católica, Igrejas Ortodoxas e Igrejas Protestantes, mas no Médio-Oriente existem dezenas e dezenas de Igrejas diferentes. A mesma constatação é verdadeira no seio das religiões judaica e muçulmana.

Cada vez que uma peça é modificada no tabuleiro, todos os outros grupos têm de se reposicionar. É por isso que os aliados de hoje, serão talvez os inimigos de amanhã, enquanto os inimigos de hoje eram os nossos aliados de ontem. Ao longo dos séculos, todos se tornaram simultaneamente vítimas e carrascos. Os estrangeiros que vão ao Médio-Oriente identificam-se a priori com pessoas que têm a mesma cultura que eles, a mesma fé, mas ignoram a sua história e não estão preparados para a aceitar.

Se quisermos promover a paz, não devemos escutar unicamente aqueles de quem nos sentimos próximos. Temos que admitir que a paz supõe resolver não só as injustiças de que sofrem os nossos amigos, mas também as de que sofrem os nossos inimigos. Ora, não é isso que fazemos espontaneamente. Assim, nos meses precedentes, em França, ouvimos exclusivamente o ponto de vista de certos Ucranianos face aos Russos, de certos Arménios face aos Azeris e agora de certos Israelitas(Israelenses-br) face aos Palestinianos.

Finalmente, entre as múltiplas fontes às quais podemos recorrer, devemos distinguir aquelas que defendem os seus interesses materiais imediatos, aquelas que defendem a sua pátria e aquelas que defendem princípios. Contudo, as coisas são complicadas por grupos, não religiosos, mas teocráticos. Estes últimos não defendem nenhum princípio superior, antes utilizam uma linguagem religiosa para vencer.

Fixando estes pontos prévios, vamos aos factos.

O Hamas atacou Israel em 7 de Outubro de 2023, às 6 horas da manhã, quer dizer, por ocasião do 50º aniversário da «Guerra de Outubro de 73», conhecida no Ocidente pelo nome israelita de «Guerra do Kippur». À época, o Egipto e a Síria atacaram Israel de surpresa para ir em auxílio dos Palestinianos. Mas Telavive, informada por Amã e apoiada por Washington, esmagou os exércitos árabes. Anwar el-Sadat traíra os seus, enquanto a Síria acabou perdendo o Golã.

A operação actual combina em simultâneo uma chuva de foguetes, destinados a saturar a Cúpula de Ferro, e 22 ataques terrestres em território israelita. Pela primeira vez na Palestina, os disparos de foguetes foram dirigidos sobre centros de comando israelitas de maneira a favorecer as acções dos comandos. Estas últimas são oficialmente destinadas a fazer reféns de modo a poder negociar a sua troca com os 1. 256 detidos palestinianos em prisões de alta segurança. As infiltrações tiveram lugar simultaneamente por via terrestre, marítima e aérea (com ultraleves).

A preparação desta operação, a obtenção de Inteligência, a formação de um milhar comandos e a transferência de armas exigiram meses, senão anos de trabalho. Ora, cegos pela nossa convicção de superioridade, não o vimos. Ela foi, portanto, concebida por Mohammad Daif, o chefe operacional do Hamas, que havia desaparecido dos radares durante dois anos e reapareceu ao lado do porta-voz do Hamas, « Abu-Obaida ».

Conseguindo detectar os foguetes, mas incapaz de os destruir a todos, Israel encaixou pelo menos 3. 000 dos 7. 000 disparados. As redes sociais e os canais de televisão árabes mostraram que o Hamas capturou vários tanques e pelo menos o posto fronteiriço a Oeste da Faixa. Além disso, ele atacou uma “rave party” no Kibutz Re’im, onde violou e massacrou pelo menos 280 participantes. Por todo o lado, sequestrou um grande número de reféns, incluindo generais. Os seus comandos penetraram em várias cidades israelitas, disparando de metralhadora sobre os moradores. Listam-se pelo menos 700 mortos e 2. 200 feridos graves do lado israelita, o dobro do lado palestiniano.

Trata-se da mais importante acção palestiniana desde há meio século.

O que se passa é o fruto de 75 anos de opressão e de violação do Direito Internacional. Dezenas de Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas foram violadas por Israel, sem nenhuma sanção a respeito. Israel é um Estado fora da Lei que não hesitou em corromper ou assassinar a quasi-totalidade dos dirigentes políticos palestinianos. Deliberadamente, ele impediu o desenvolvimento económico dos Territórios, ao mesmo tempo favorecendo a criação de um Estado palestiniano separado que controla parcialmente.

A frustração e o sofrimento acumulados ao longo de 75 anos traduzem-se em comportamentos violentos e cruéis de alguns Palestinianos, cientes de terem sido há muito tempo abandonados pela Comunidade internacional. No entanto, os tempos mudam. A maioria dos membros das Nações Unidas, que puderam constatar na Síria e na Ucrânia o falhanço militar dos Ocidentais e a vitória da Rússia, já não se limitam a baixar a cabeça perante os Estados Unidos. A Assembleia Geral reafirmou, por ocasião do aniversário da autoproclamação da independência de Israel e do massacre e expulsão dos Palestinianos (a Nakhba), que o Direito Internacional está do lado dos Palestinianos e não dos Israelitas. O que não impede o Hamas de cometer crimes de guerra.

A actual situação é uma situação sem saída para os dois campos. Após três quartos de século de crimes, Israel já não pode fingir grande coisa. A sua população está agora dividida. Durante os últimos meses, os «sionistas negacionistas», isto é, os discípulos do Ucraniano Vladimir Jabotinsky, favoráveis ao supremacismo judaico, tomaram o poder em Telavive apesar da oposição de uma pequena maioria da população e de gigantescas manifestações. Os seus jovens, que aspiram a viver em paz, recusam servir nas Forças Armadas para brutalizar os árabes, mas ainda assim juntaram-se a elas para defender as suas famílias que amam e o seu país, no qual não acreditam.

Pelo Direito, os Palestinianos formaram um Estado, que obteve o estatuto de observador nas Nações Unidas. À morte de Yasser Arafat, o chefe da Fatah, Mahmud Abbas, foi eleito Presidente. Contudo, no seguimento da vitória do Hamas nas eleições legislativas de 2007 e na impossibilidade de fazer aceitar aos Ocidentais um governo do Hamas, os Palestinianos envolveram-se numa guerra civil. Em resumo, a Cisjordânia é governada pela Fatah, o Partido laico criado por Yasser Arafat. Mahmud Abbas e os seus próximos são financiados pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por Israel. Enquanto a Faixa de Gaza está nas mãos do Hamas, quer dizer, do ramo palestiniano da Confraria dos Irmãos Muçulmanos. Ela é governada por indivíduos que não concebem o Islão do ponto de vista espiritual, mas como uma arma de conquista. Eles são financiados sobretudo pelo Reino Unido, Catar, Israel, Turquia, Irão e União Europeia. Desde há 16 anos, os dois campos opuseram-se a quaisquer novas eleições. Os seus dirigentes vivem num luxo mafioso que contrasta com as
condições de vida miseráveis do seu povo.

Aquando da sua criação, o Hamas era financiado pelo Reino Unido. Ele foi apoiado pelos Serviços Secretos israelitas para enfraquecer a Fatah de Yasser Arafat. Depois Israel combateu-o e assassinou o seu líder religioso, o Xeque Ahmed Yassine. A seguir, de novo Israel usou o Hamas para eliminar os dirigentes da Resistência palestiniana marxista, desta vez. Assim, combatentes do Hamas enquadrados por agentes da Mossad e jiadistas da Alcaida atacaram o campo palestiniano de Yarmuk no início da guerra contra a Síria [1]. Mas hoje, uma vez mais, o Hamas combate o seu aliado de ontem, Israel.

Mohammad Daif é conhecido por ser o fundador das brigadas Izz al-Din al-Qassam. Como todos os Irmãos Muçulmanos, ele é um supremacista islâmico. Ele refere-se a Izz al-Din al-Qassam (1882-1935), um opositor do mandato francês no Líbano e do mandato britânico na Palestina. Portanto, ele não tem qualquer inspiração no antigo Mufti de Jerusalém e aliado dos nazis, Amin al-Husseini, embora partilhe o seu “anti-semitismo”. Em 2010 ele escrevia : «As Brigadas Izz ad-Din al-Qassam… estão mais bem preparadas para continuar na nossa via exclusiva onde não há alternativa, e é o caminho da jihad e da luta contra os inimigos da nação e da humanidade muçulmana…. Dizemos aos nossos inimigos : vós seguis pelo caminho da extinção (zawal), e a Palestina ficará sendo nossa, incluindo Al Qods (Jerusalém), Al -Aqsa (mesquita), as suas cidades e aldeias desde o mar ( Mediterrâneo) até ao rio (Jordânia), do Norte até ao Sul. Vós não tendes direito a nem tanto como um centímetro disso ». Mohammad Daif não é um militar, mas sim um especialista em captura de reféns. A sua operação foi concebida para este fim e não para libertar a Palestina.

No momento em que a saúde do Presidente Mahmud Abbas se deteriora, a Fatah está dividida em três facções militares :
• a de Fathi Abu al-Ardate, o Chefe da Segurança Nacional
• a de Mohammad Abdel Hamid Issa (aliás « Lino »), comandante da Kifah al-Mussallah (a luta armada). Ela insere-se na corrente de Mohamed Dallan, 0 antigo chefe das Informações palestinianas que assassinou Yasser Arafat. Ela é actualmente apoiada pelos Emirados Árabes Unidos.
• a de Munir Maqdah, antigo chefe militar da Fatah, que se aproximou do Hamas, do Catar, da Turquia e do Irão.

No mês passado, confrontos opuseram estas três facções às dos islamistas do Hamas, bem como do Jund el-Sham e do al-Shabab al-Moslem, dois grupos jiadistas que combateram ao lado da OTAN e de Israel contra a República Árabe Síria. Violentos combates tiveram lugar no campo de Aïn el-Héloué (Sídon, Sul do Líbano). Na altura, eu interpretara-os à luz dos de Nahr el-Bared (Norte do Líbano), em 2007 [2], antes de perceber que estavam ligados à agonia de Mahmud Abbas [3].

Durante 75 anos, Telavive fez tudo o que estava ao seu alcance para negar a igualdade entre todos, sejam judeus ou árabes. Pelo contrário, desde o Apelo de Genebra, tem promovido « a solução de dois Estados », quer dizer, o plano colonial da última chance de Lord William Peel, que os britânicos não conseguiram impor, nem no terreno, em 1937, nem nas Nações Unidas, em 1948, mas que hoje em dia reúne consenso. Agora, apenas os marxistas da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) pregam no deserto propondo criar um Estado único no qual cada homem disporia de uma voz igual [4].

Face ao que ele considera como uma invasão palestiniana, mas que do ponto de vista palestiniano não é mais que um regresso a casa, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu prometeu a vitória. Mas o que será ? Matar todos os combatentes do Hamas não resolverá 75 anos de injustiça. Os seus filhos retomarão a sua chama tal como estes retomaram a de seus pais.

Para atingir o seu objectivo, Benjamin Netanyahu deve primeiro unir os Israelitas que ele dividiu. Seguindo o exemplo de Golda Meir durante a « Guerra dos Seis Dias », ele deve fazer entrar a Oposição para o governo. Assim encontrou-se com Yaïr Lapid e com o General Benny Gantz. No entanto, o primeiro pôs como condição que os supremacistas judeus, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, abandonem o governo, ou seja, que o Primeiro-Ministro abandone o seu projecto político e o dos seus actuais patrocinadores [5], os straussianos da Administração Biden [6].

Os dirigentes do Hamas apelaram aos refugiados palestinianos no estrangeiro, a todos os árabes e a todos os muçulmanos para se unirem ao seu combate. Os refugiados palestinianos, significa dizer primeiro a maioria da população jordana e os do Líbano. Os árabes, quer dizer o Hezbolla libanês e a Síria, dois poderes que renovaram com o Hamas no decurso dos últimos meses. Os muçulmanos significa o Irão e a Turquia.

De momento, apenas a Jihad Islâmica, quer dizer, o Irão, e os diversos grupos da Resistência da Cisjordânia se juntaram ao Hamas.

Saindo da sombra, o Presidente Erdogan apelou, em 8 de Outubro, à aplicação das Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina.

Contrariamente ao que pretende o Wall Street Journal, não é o Irão que dirige o Hamas. Isto é esquecer o acordo feito entre Hassan El-Banna, o fundador dos Irmãos Muçulmanos, e Ruhollah Khomeini, o fundador da República islâmica do Irão. Os dois grupos dividiram o mundo muçulmano entre si e abstêm-se de intervir significativamente na esfera de influência do outro. Teerão não para de afirmar ruidosamente o seu apoio aos Palestinianos, mas a sua acção concreta na Palestina limita-se à Jihad Islâmica.

Os dirigentes políticos do Hamas vivem na Turquia, sob a protecção dos Serviços Secretos. É Ancara que dirige o Hamas e a operação « Dilúvio de Al-Aqsa ». Inaugurando, no domingo, 8 de outubro, uma igreja ortodoxa siríaca, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan declarou, em tom meloso : «O estabelecimento da tranquilidade, de uma paz duradoura e da estabilidade na região através da solução da questão palestina de acordo com o direito internacional é a prioridade absoluta sobre a qual nos concentramos durante as nossas conversas com os nossos homólogos (…) Infelizmente, os Palestinianos e os Israelitas, assim como toda a região, pagam o preço do atraso na administração da justiça (…) Atirar gasolina para a fogueira não beneficiará ninguém, incluindo os civis dos dois lados. A Turquia está pronta a fazer a sua parte, da melhor forma possível, para pôr fim aos combates o mais rapidamente possível e aliviar a tensão crescente devido aos recentes incidentes ».

A escolha por Ancara em desencadear esta nova guerra depois de mal esmagada a República de Artsakh, no Azerbaijão, e quando envia material militar para a Rússia, em violação das medidas coercivas unilaterais dos EUA, leva a pensar que os diplomatas turcos já não têm medo de Washington, a qual, portanto, havia tentado assassinar o Presidente Erdoğan, em 2016. Assim que esta operação estiver terminada, seguir-se-á uma outra contra os Curdos, na Síria e no Iraque.

Se o Hezbolla entrar em cena, Israel não conseguirá repelir o ataque sozinho. A sua existência só pode ser garantida com o apoio militar dos Estados Unidos. Ora, a opinião pública dos EUA já não apoia Israel, enquanto o Pentágono já não tem o poder para o defender. O que se passa actualmente é uma das consequências da guerra na Ucrânia. Washington não consegue fabricar munições suficientes para os seus aliados ucranianos. Foi mesmo forçada a levantar munições dos seus stocks (estoques-br) em Israel. E, já esvaziou lá os seus arsenais.

Nas primeiras horas do conflito, o Hezbolla disparou alguns foguetes contra as quintas de Chebaaa, ou seja, sobre o território disputado entre o Líbano e Israel. Mostrou assim que apoia a Resistência palestiniana dento da retórica da «unidade de frentes». Mas não entrou na guerra, porque desconfia do Hamas que teve de combater na Síria. E de quem não partilha a ideologia, a da Irmandade.

Todos os dirigentes ocidentais garantiram que condenam as acções terroristas do Hamas e que apoiam Israel. No passado, nada fizeram para resolver as injustiças na Palestina e estas posições de princípio atestam que não o farão agora. Por seu lado, a Rússia e a China, recusando tomar partido pelos Palestinianos ou pelos Israelitas, apelaram, não à aplicação das regras ocidentais, mas ao respeito pelo Direito Internacional. Encontra-mo-nos agora face a uma situação onde todos os intervenientes deliberadamente sabotaram antecipadamente cada solução, de modo que é agora quase impossível evitar que tudo isto não termine num banho de sangue.


Notas:

[1] «Agentes del Mossad en la fuerza de al-Qaeda que atacó el campamento palestino de Yarmuk», Red Voltaire , 1ro de enero de 2013.

[2] «Enfrentamientos entre palestinos en Líbano» Voltaire, Actualidad Internacional, Nº 52, 15 de septiembre de 2023.

[3] «En busca de un sucesor para Mahmud Abbas», Voltaire, Actualidad Internacional, Nº 54, 29 de septiembre de 2023.

[4] « Georges Habache et la Résistance palestinienne », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 27 janvier 2008.

[5] “O Golpe de Estado dos straussianos em Israel”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 7 de Março de 2023.

[6] Leo Strauss era em simultâneo um judeu fascista alemão e um sionista revisionista. Ele reencontrara o seu ídolo, Vladimir Jabotinsky, em Nova Iorque, acompanhado de Benzion Netanyahu, o pai de Benjamin. NdR.


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