A nova encruzilhada brasileira, em seis hipóteses

(Por António Martins, in Blog OutrasPalavras, 21/05/2017)

Os autores do golpe dividiram-se. Há possibilidade de uma saída democrática. Mas a narrativa atual da esquerda é impotente para aproveitar a brecha…

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Ficam avisados

(In Blog, O Jumento, 14/09/2016)
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Independentemente do que as considerações morais, políticas ou jurídicas que possam ser feitas sobre o que os magistrados e seus assistentes privados no processo Marquês decidiram tornar público uma coisa é certa, os magistrados podem a qualquer momento destruir moralmente qualquer político, não lhes faltam meios para saber os seus segredos de alcofa, nem jornalistas e patrões da comunicação social que os queiram tornar públicos.
Antigamente eram os militares que promoviam e executavam os golpes de Estado, estes eram feitos com tiros e tanques. Agora parece que os tiros são dados pelas canetas dos magistrados e a tropa de infantaria formada por soldados analfabetos foi substituída por jornalistas que em vez da arte da guerra aprenderam a arte da gramática para serem mais eficazes nas batalhas da “filhadeputice”.
Dantes muitos governos democráticos estavam condicionados pela chantagem dos militares e isso ainda hoje sucede em muitas partes do mundo, é o caso de países como o Paquistão, o Myanmar, o Paquistão ou a Tailândia. Mas também já á países onde o poder político é refém dos magistrados, veja-se o que está sucedendo no Brasil, onde deputados e governantes são demitidos ao ritmo desejado pelos juízes.
Por cá, as ameaças dos magistrados ao poder não são novidade, há alguns anos a associação sindical dos juízes exigiu ter acesso a todas as despesas feitas pelos membros do governo, feitas com recurso ao cartão VISA oficial. A ideia era apanhar um ministro que tivesse comprado um par de cuecas com dinheiro dos contribuintes e tramar um governo que tinha acabado com o regime de férias escolares dos juízes e que tinha feito um corte de 10% nos vencimentos. Aliás, o próprio Carlos Alexandre se queixou na entrevista dada à SIC dos cortes decretados por Sócrates, como se todo o seu sofrimento para pagar as contas fosse culpa de Sócrates, provavelmente não ouviu Cavaco queixando-se de que as pensões já não davam para as despesas, o que se compreende, o pobre magistrado só trabalha.
Há pouco tempo uma magistrada muito mediática foi a uma estação de televisão avisar que vinha aí uma limpeza, uma espécie de praga do Egipto que apenas atingiria os corruptos, tranquilizava os honestos dizendo-lhes podiam ficar descansados, porque não seriam atingidos pela purga bíblica. Agora, foi o próprio juiz Alexandre que avisou o país de que sabia de muitos segredos, mas que podíamos ficar descansados. Como os segredos envolvendo crimes contam de processos que mais tarde ou mais cedo são públicos, os perigosos segredos que estão ao cuidado da bondade do juiz Alexandre só poderão ser o refugo dos processos, isto é os segredos de alcofa, mais ou menos o tipo de segredos com que os magistrados têm tentado destruir José Sócrates.
Enfim, os políticos estão avisados, ou se portam muito bem e não incomodam quem não deve ser incomodado, ou se portam muito em ou ficaremos a saber os seus segredos mais pecaminosos, e o país pode enfrentar uma ambiente de devassa como em tempos sucedeu, quando se ficou a saber das amantes do Tomás

Brasil e o golpe – não silenciar os democratas

(Isabel Moreira, in Expresso, 10/09/2016)

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Usando uma metáfora alheia, não posso viver a partir do código postal da minha casa, agarrada freneticamente ao mesmo, com a única aspiração de o manter a salvo. Essa é a postura conservadora e cega, egoísta e, de resto, perigosa. Pensar-se que o que acontece além-fronteiras não tem a ver connosco é a causa do desastre que estamos a viver na Europa com a crise dos migrantes e com o crescimento da extrema-direita.

Estive no Brasil aquando da votação no Senado do Impeachment. Assisti a cada minuto das longas horas de um procedimento sem substância, horas que matam de asfixia qualquer democrata, horas de alegações políticas, porque nada havia a dizer sobre um inexistente crime de responsabilidade.

Dilma não tem uma única denúncia ou crime que lhe possam ser apontados (como o STF confirmou), ao contrário dos golpistas que nunca se conformaram com o fim da ditadura militar e que encontraram um “furo” para chegar ao poder sem voto e implementar um programa reacionário que nunca seria sufragado.

A prova do golpe, que não nasceu nas ruas, mas da conhecida chantagem de Eduardo Cunha (resumível num ou me elegem presidente da Câmara dos Deputados para me safarem a mim e ao meu gangue da justiça ou eu inicio um processo de impeachment) está patente no epílogo do afastamento de Dilma: não lhe foram retirados os direitos políticos. Ora, quando se prova um crime de responsabilidade e se vota um impeachment, por consequência os direitos políticos também são cassados. As duas votações em separado são a confissão do golpe de estado parlamentar.

Nunca esteve ou está em causa a defesa do PT, de Dilma, das suas alianças e das suas políticas. Pessoalmente, tenho um olhar crítico sobre a sua governação. Mas esse é o campo do combate político democrático.

Está em causa a democracia. Está em causa a democracia num país que teve avanços incontestáveis e que se vê agora confrontado com um governo que tomou posse em moldes nazis, isto é, usando o procedimento sem substancia, com uma agenda que rasga o contrato social brasileiro.

Temer e os seus aliados já deram provas do revivalismo do conservadorismo da ditadura conservadora elitista e branca, ameaçando trabalhadores, negros, indígenas, mulheres, liberdades e direitos individuais, suspendendo por duas décadas o investimento em educação e saúde, destruindo conquistas laborais e adotando políticas e práticas repressivas típicas, como seria de esperar, de uma ditadura.

Por cá, é ensurdecedor o silêncio perante um Brasil que está na rua. Como se pode ler AQUI. “Os protestos contra Michel Temer, Brasil afora, que arrastam milhares de pessoas, vêm sendo duramente reprimidos, em particular em São Paulo, governado pelo tucano Geraldo Alckmin, cujo ex-secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, hoje ocupa o cargo de ministro da Justiça e da Cidadania. Alexandre de Moraes deixou como marca de sua passagem pela Secretaria o arbítrio e a truculência policial nas ações contra os movimentos sociais – características que seu substituto, Mágino Alves Barbosa Filho, parece empenhar-se com vigor em perpetuar. No domingo, dia 4, mais de 100.000 pessoas realizaram um protesto pacífico em São Paulo para demonstrar a insatisfação pelo golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Quando já se dispersavam, após quatro horas de caminhada sem a ocorrência de um único distúrbio, a Polícia Militar de Alckmin, de forma covarde e abusiva, atacou os manifestantes com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água, em uma clara tentativa de intimidação. Além disso, deteve 26 jovens, oito deles menores de idade, sob a acusação de “associação criminosa”, mantendo-os incomunicáveis por cerca de 12 horas. Todos foram liberados pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, por não haver qualquer justificativa para as prisões.”

Os brasileiros estão a sair à rua espontaneamente, não em defesa do PT, mas precisamente em defesa da democracia. Os brasileiros estão corajosamente a sair à rua e não vejo, por cá, uma notícia a acompanhar a indignação.

Em Portugal deu-se cobertura às manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, patrocinadas por entidades como os Revoltados On-Line, com ligações ao deputado fascista Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Talvez dar conta dos protestos contra Temer, protestos gerados pela exigência espontânea da democracia no Brasil, não?

Para golpe, basta o golpe machista, reacionário, homofóbico, patrocinado pela Globo que atirou ao lixo 54 milhões de votos.

Convém não silenciar os os democratas repremidos por Temer.