Crónica desde o Líbano: Hezbollah, combater “até à última gota de sangue”

(Bruno Amaral de Carvalho, in NòsDiário, 08/05/2026, Revisão da Estátua)


Ghaleb Abu Zainab observando os escombros de um edifício que desapareceu debaixo das bombas israelitas, onde vivia a sua família

Como uma premonição, o ruído dos drones regressou a Beirute na quarta-feira. Nos arredores da capital libanesa, várias pessoas apontavam para o céu enquanto um aparelho não tripulado sobrevoava a cidade. Com a concentração dos combates no sul do país, Beirute parecia estar a salvo dos ataques de Israel. Mas já não. Telavive decidiu violar, uma vez mais, o cessar-fogo com o objetivo de matar o comandante das forças especiais do Hezbollah no bairro de Haret Hreik, onde viviam até há bem pouco tempo cerca de 100.000 pessoas.


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No cemitério dos mártires da resistência em Dahieh, na periferia de BeiruteAbu Hassan visita a sepultura dos seus dois únicos filhos. Hassan morreu em combate em 2008 e Mohammad Hussein foi morto por Israel em 2024. Os dois eram combatentes do Hezbollah. “Esforcei-me muito para os criar e para os conduzir à resistência. Também faço parte da resistência e não tenho vergonha disso. Pelo contrário, sinto-me honrado e orgulhoso”, explica. “Lutamos contra o inimigo israelita e contra os americanos também”.

Quando questionado sobre a acusação de que o Hezbollah é uma organização terrorista, defende que “são eles [Israel e os Estados Unidos]” que vêm matar o seu povo e destruir a sua terra. “Eles ocuparam a Palestina e agora querem expandir-se e tomar o Líbano, a Síria, o Iraque, até chegarem ao Irão. Não vão conseguir. Aconteça o que acontecer, continuaremos a lutar, mesmo que seja com as nossas vidas. Até ao último momento, até à última gota de sangue”.

Abu Hassan na sepultura dos seus dois filhos no cemitério de Dahieh, na periferia de Beirute. (Foto: Bruno Amaral de Carvalho)

Ali ao lado, de túmulo em túmulo, Khalil, responsável pela manutenção deste cemitério, vai descrevendo quem está enterrado neste lugar. Entre os mais famosos está Hadi Nasrallah, o filho do histórico líder do Hezbollah que morreu aos 18 anos a combater as forças israelitas ao serviço do Hezbollah em 1997. Também aqui esteve enterrado provisoriamente Hassan Nasrallah, depois de ter sido morto por Israel em 2024, precisamente neste bairro, com a organização xiita a decidir manter a sepultura para memória futura.

Depois de vários dias de intempérie, o sol regressa a Beirute. Enormes esqueletos de edifícios destruídos preenchem a paisagem de Haret Hreik. Numa janela, há um cortinado que dança ao sabor do vento. No mesmo prédio, uma varanda está segura apenas por um ferro torcido. Algures, um homem tenta retirar alguns dos seus pertences de um apartamento destruído. Embora o cenário seja de muita destruição, a vida persiste. Por todas as partes, há comércios abertos e o trânsito infernal de Beirute não é alheio a esta parte da periferia.

Ghaleb Abu Zainab observa os escombros de um edifício que desapareceu completamente debaixo das bombas israelitas. Ali vivia a sua família e os seus vizinhos. Mas Ghaleb não é um libanês anónimo. É um dos mais importantes dirigentes do Hezbollah, membro do Conselho Político, um dos órgãos da direção sob a liderança de Naim Qassem, o secretário-geral da organização. Acede a falar com Nós Diario sobre o significado deste ataque. Conta que era um edifício civil, com muitas lojas, onde a população fazia compras.

“Aqui vivia parte da minha família. Eu fui criado nesta zona. Quando chegámos aqui, há muito tempo, a maior parte desta zona ainda era um pomar. Todas as minhas memórias estavam aqui”, recorda.

Agora, quando visita este lugar, vive uma mistura de sentimentos porque perdeu esse património afetivo. Nesta área, mais de 20 familiares seus perderam as suas casas. “Este é o efeito da agressão israelita. É isto que faz, desloca as pessoas à força. Mas não sabem que isto aumenta a força da presença das pessoas. Quanto aos meus sentimentos pessoais, sinto-me triste por tudo. Pelas paredes, pelas portas, pelas memórias. Estavam em todos os recantos da casa. Mas não apenas aqui. Eu sou de uma aldeia do sul, que foi completamente arrasada. Lá não há uma única casa de pé. Querem controlar o nosso país e criar novas memórias, as suas. Apesar de toda esta destruição, acabaremos por reconstruir e preservar as nossas memórias. Talvez daqui a um ou dois anos, quando nos voltar a visitar, a situação será diferente. Vamos colocar uma parte da nossa alma nestas casas. Para vivermos com dignidade. Longe do inimigo israelita”, garante.

“Ainda têm medo de que Israel volte a atacar “

Ahmed, um motorista de 50 anos, explica que não é sempre assim. De noite, a maioria da população desaparece do bairro. “Ainda têm medo de que Israel volte a atacar e continuam a viver em centros de refugiados ou em casas de familiares”, explica. No mesmo dia em que Nós Diario visitou Haret Hreik, as forças israelitas lançaram três mísseis sobre o bairro a partir de um navio ao largo do Líbano.

O alvo foi um edifício de 10 andares que ficou parcialmente destruído, junto de uma escola. Este ataque representou a primeira violação do cessar-fogo em Beirute depois de várias semanas de calma, apesar das violações diárias por parte de Israel no sul do Líbano. O objetivo era matar o líder das unidades de elite do Hezbollah, as forças Radwan, que estão a dar dores de cabeça na fronteira à invasão israelita. No ataque, morreram duas pessoas e cerca de 20 ficaram feridas. Milhares voltaram a fugir do bairro para procurar refúgio no centro de Beirute.

Hezbollah causa baixas a Israel

Nos últimos, a chuva intensa e o vento jogaram a favor da organização xiita. Para a resistência libanesa, a adversidade meteorológica é, na verdade, uma vantagem tanto para atacar as posições israelitas como para evitar a vigilância dos drones e conseguir substituir combatentes na linha da frente. A resistência libanesa tem dado muitas dores de cabeça, dizem vários meios de comunicação social de Israel. Por exemplo, o Yedioth Ahronoth garante que os soldados israelitas são pouco visíveis porque se refugiam em bunkers para evitarem os drones do Hezbollah. Já o libanês L’Orient Today garante que a resistência libanesa conseguiu adaptar-se às novas circunstâncias recorrendo a drones produzidos no seu próprio território guiados por cabos de fibra ótica para evitar a interferência eletrónica dos seus inimigos. A imprensa israelita e vários observadores, assim como especialistas militares, têm criticado a falta de preparação do exército para fazer frente a esta ameaça.

Preocupação” da China com a situação no Líbano

O embaixador da China junto das Nações Unidas, Fu Cong, afirmou que é necessário reavaliar a decisão do Conselho de Segurança da ONU de pôr termo ao mandato da missão de manutenção da paz de longa data no Líbano, que deverá terminar ainda este ano. Em declarações aos jornalistas a passada semana na sede das Nações Unidas  em Nova Iorque, o embaixador Fu Cong expressou a profunda preocupação do Governo da China com a situação atual no Líbano, numa altura em que Pequim assumiu a Presidência rotativa do Conselho de Segurança para o mês de maio.

“Não existe um cessar-fogo genuíno”

Aliás, Fu Cong observou ainda que não existe um cessar-fogo genuíno no Líbano, descrevendo o atual estado do conflito como apenas um “fogo mais fraco”.“Acreditamos, de facto, que devemos rever a decisão de retirar a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil)”, afirmou Fu Cong. “Penso que, pelo menos, a opinião da esmagadora maioria do Conselho de Segurança é que este não é o momento certo para retirar a Unifil dessa parte do país“, afirmou Fu

A China aguarda um relatório do secretariado das Nações Unidas, previsto para o mês de junho, “antes de tomarmos a nossa posição”, acrescentou. Assim, Fu Cong afirmou ainda que “cabe a Israel pôr fim a este bombardeamento do Líbano”. “A proteção de civis em conflito armado é uma linha vermelha do direito internacional”, sustentou. Esse enquadramento permite a Pequim unir o frente libanês com o seu discurso global: condenação de ataques a civis, defesa de soberania e pressão para que o conflito não escale.

Fonte aqui

Líbano: no coração da resistência

(Bruno Amaral de Carvalho, in TSF, 06/05/2026, Revisão da Estátua)


É uma viagem a um dos bastiões do Hezbollah, no sul do Líbano, onde a resistência não dá tréguas às forças israelitas, com a imprensa de Telavive a questionar cada vez mais a capacidade militar para aguentar a invasão num cessar-fogo inexistente.


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Welcome to paradise, diz um anúncio publicitário perto do Mediterrâneo. Ao longo de vários quilómetros, jazem beach clubs e resorts fantasma corroídos pelo salitre e pelo abandono. O mar ruge ali bem perto debaixo de uma forte tempestade. Quando passamos o primeiro posto de controlo do exército libanês, sabemos que estamos a viajar em direção ao sul. Ali ao lado, abastecemos num posto de abastecimento de combustível com um retrato enorme de Hassan Nasrallah. O rosto do histórico líder do Hezbollah está presente em cada uma das centenas de bandeiras amarelas que ladeiam durante quilómetros a autoestrada que nos leva a Sídon.

Há menos de um mês, pressionado pelos Estados Unidos, Israel foi obrigado a aceitar um cessar-fogo que teima em violar sem grande pudor. Telavive impôs uma zona tampão, sobretudo a sul do rio Litani, numa faixa de território onde se encontram mais de 50 vilas e aldeias libanesas com uma ordem de evacuação obrigatória e arrasou, até ao momento, duas dezenas de localidades repetindo a estratégia usada na Faixa de Gaza.

A chuva cai a cântaros e poderia dizer-se que é um mau dia até para a guerra. Mas não. Para a resistência libanesa, a nebulosidade e o vento são uma vantagem tanto para atacar as posições israelitas como para evitar a vigilância dos drones e conseguir substituir combatentes na linha da frente. A resistência libanesa tem dado muitas dores de cabeça, dizem vários meios de comunicação social de Israel. Por exemplo, o Yedioth Ahronoth garante que os soldados israelitas são pouco visíveis porque se refugiam em bunkers para evitarem os drones do Hezbollah. Já o libanês L”Orient Today garante que a resistência libanesa conseguiu adaptar-se às novas circunstâncias, recorrendo a drones produzidos no seu próprio território, guiados por cabos de fibra ótica para evitar a interferência eletrónica dos seus inimigos. A imprensa israelita e vários observadores, assim como especialistas militares, têm criticado a falta de preparação do exército para fazer frente a esta ameaça.

Israel destruiu centro comunitário e cemitério

A caminho da região de Nabatiye, onde os combates entre o Hezbollah e as forças israelitas se têm agudizado nos últimos dias, é possível ver vários blocos de prédios inteiramente destruídos ainda em Sídon. Já fora da autoestrada, o carro serpenteia entre vales e a destruição vai aumentando a olhos vistos. A presença de habitantes é cada vez menor. O ouvido vai habituando-se ao ruído ainda longínquo das explosões. Perante o olhar curioso dos clientes de um pequeno café local, chegou o momento de vestir o colete à prova de bala e o capacete. Tanto a viatura como o equipamento de proteção levam a inscrição “PRESS”. À pergunta sobre o que fazer em caso de ataque, o condutor responde laconicamente “nada”. Como assim, nada? “Se formos atacados, não há nada a fazer. É aceitar e pronto”, acrescenta. Nos últimos dois meses, Israel matou uma dezena de jornalistas e mais de cem profissionais de saúde, o que levou o próprio governo libanês a lembrar o artigo 19 da Convenção de Genebra sobre a necessidade de proteger instalações médicas e viaturas de emergência de qualquer ataque militar.

A partir daqui, a viagem faz-se a grande velocidade, sem praticamente vivalma. De vez em quando, alguém espreita de uma janela. Apesar da destruição generalizada, há quem tenha decidido ficar. A vida resiste, apesar das evidências. De vez em quando, ouvimos aquilo que parece ser a artilharia do Hezbollah. De aldeia em aldeia, vemos cartazes, faixas e bandeiras da organização xiita. Até que chegamos ao nosso destino: Doueir. Estamos a pouco mais de seis quilómetros de Nabatiye e a 18 da fronteira libanesa. A pouca distância, ouvimos a aviação israelita nos céus e rajadas de metralhadora em terra. Há carcaças de automóveis transformadas em pedaços. Ali perto, uma família de refugiados sírios foi morta pelas forças israelitas. O centro comunitário de Doueir está completamente destruído, o cemitério foi arrasado. Nem os mortos parecem poder descansar em paz no Líbano.

Agora já é tarde demais para voltar atrás

(Por Will Schryver in Twitter/X, 04/05/2026, Trad. da Estátua)


Eles, os EUA, vão gastar tudo numa última tentativa de reverter a situação.


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Creio que há uma fação a consolidar-se em Washington que está a pressionar para sair desta guerra sem mais delongas.

Militarmente, é uma causa perdida. Sim, compreendo que muitas pessoas pensem que sou louco por dizer isto, mas esta realidade está a tornar-se mais evidente para mais pessoas, dia após dia.

Mesmo assim, estou inclinado a concluir que o Império já se envolveu demasiado nesta manobra para voltar atrás agora. Negociar um acordo a partir da sua posição atual é impensável. O Irão está a ditar as regras.

O bloqueio dos EUA tem sido uma farsa até agora. Intercetaram alguns navios para inglês ver. Muitos outros seguiram o seu caminho tranquilamente.

O facto é que a Marinha dos EUA não pode executar um bloqueio taticamente significativo. Têm, no máximo, 17 contratorpedeiros da classe Arleigh Burke no Mar Arábico. Certamente sentir-se-ão compelidos a manter pelo menos uma dúzia deles para fornecer proteção aos dois porta-aviões. Restam cinco contratorpedeiros para impor um bloqueio que abrange mais de 4.800 quilómetros de águas predominantemente soberanas (Paquistão e Índia), desde a costa iraniana do Golfo de Omã até ao Estreito de Malaca. Boa sorte com isso — sobretudo se os chineses decidirem começar a escoltar frotas com navios de guerra.

E assim, voltamos ao dilema do Império: mesmo que saibam que não podem sustentar mais do que, talvez, mais duas semanas de ataques aéreos de alta intensidade, quase de certeza que utilizarão essa carta na esperança de melhorar a sua posição negocial.

É claro que muitas pessoas veem as manchetes sobre “três grupos de ataque de porta-aviões” prontos para semear a morte e a destruição sobre os presunçosos iranianos e, compreensivelmente, presumem que é verdade.

Não compreendem que o USS Poopy Gerry (CVN-78) é um navio que precisa urgentemente de dois anos em doca seca; Um navio que está escondido nas regiões mais a norte do Mar Vermelho, com três contratorpedeiros destacados para o proteger até que possa regressar sorrateiramente pelo Canal do Suez a meio da noite e regressar a Norfolk.

Não compreendem que a Marinha dos EUA já tem tido dificuldades em manter o USS Fraidy Abe (CVN-72) enquanto este faz manobras em forma de oito nas águas seguras e profundas do Mar Arábico — sem bases para descansar, recuperar mantimentos e reabastecer. Nada além das despensas, frigoríficos e congeladores cada vez mais escassos de um navio que precisa de alimentar 5.000 pessoas com três refeições por dia.

E agora, uma marinha que já lutava para manter um único grupo de ataque no Mar Arábico terá de manter DOIS deles. O USS Bush League (CVN-77) chegou à sua posição, presumivelmente a não menos de 800 km da costa iraniana.

Esta é uma frota cuja capacidade de combate tem uma vida útil extremamente curta. A componente de ataque aéreo na região não foi reforçada de forma significativa durante este recente “cessar-fogo”. Na verdade, foi consideravelmente enfraquecida desde o seu auge, no final de Fevereiro.

Mas um fluxo constante de C-17 tem entregado diversos tipos de mantimentos ao teatro de operações, presumivelmente mais sistemas de defesa aérea, intercetores, mísseis de cruzeiro e bombas.

A componente terrestre permanece totalmente insuficiente para fazer qualquer coisa de significativo. Uma única Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais no USS Tripoli, uma Brigada de Combate da 82ª Divisão Aerotransportada e várias unidades de forças especiais. Talvez totalize 5.000 combatentes efetivos, mas duvido.

Além disso, não acredito que conseguissem introduzir sequer 3.000 combatentes efetivos sem que acontecesse algum tipo de desastre.

Peço desculpa pela minha certeza neste ponto, mas, na minha opinião, qualquer pessoa que acredite que os EUA podem introduzir uma força terrestre no Irão — seja ela de 1.000, 10.000 ou 100.000 soldados — está completamente louca. Simplesmente não será possível.

Isto deixa-os com uma tentativa de repetir as primeiras semanas desta guerra: ataques aéreos e navais com mísseis à distância. Vão gastá-los todos numa última tentativa de reverter o rumo da situação.

Mas não vão desarmar o Irão. E o Irão, então, contra-atacará com salvas de mísseis sem precedentes, dos seus consideráveis ​​stocks.

E a situação do Império irá de mal a pior, com consequências ainda imprevisíveis.

Fonte aqui