O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura

(José Pendão, in Facebook, 12/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade deste texto, no seu propósito de revisitar e nos facultar pistas de leitura interpretativa do mundo atual. Sim, citando Gramsci: “O mundo velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/05/2026)


Chamemos as coisas pelo nome, que é o mínimo que se deve a um cadáver: a ordem do pós-guerra morreu. Não foi assassinada — isso implicaria um ato, um momento, um culpado com as mãos ensanguentadas e a decência de fugir. Não. A ordem do pós-guerra foi abandonada. Deixada numa cadeira de rodas num corredor de hospital, com os documentos todos em dia e ninguém para a reclamar. Morreu da morte mais obscena que as civilizações conhecem: morreu porque deixou de ser útil a quem tinha a obrigação de a manter viva.

E o mais notável — o mais cirurgicamente notável — é que o guião dessa morte já tinha sido escrito. Várias vezes. Por pessoas diferentes. Em livros que toda a gente leu, ou diz ter lido, ou pelo menos reconhece a capa quando aparece na lista dos 100 livros que mudaram o mundo. Nenhum deles mudou nada, evidentemente. Mas voltaremos a esse ponto.

Comecemos pela arquitetura. Não a de betão — a outra. A de papel, de tratados, de instituições com siglas que durante décadas soaram a tédio burocrático e que, por isso mesmo, funcionavam. A ONU. O FMI. O Banco Mundial. A NATO. A União Europeia. O GATT e o seu rebento, a OMC. Os Acordos de Helsínquia. A Convenção de Genebra. O Tribunal Penal Internacional. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos — redigida, como se sabe, em 1948, por pessoas que ainda tinham nos olhos as imagens de Auschwitz e de Hiroxima e que, precisamente por isso, acreditavam que era possível (e sobretudo necessário) construir um sistema que impedisse a repetição do impensável.

Esse sistema não era bonito. Não era eficiente. Era lento, contraditório, hipócrita em muitas das suas aplicações, e frequentemente impotente. Mas existia. Tinha paredes. Tinha regras. Tinha, no mínimo, a força simbólica de dizer: Há coisas que não se fazem. E essa força simbólica — que os cínicos sempre desprezaram e os pragmáticos sempre subestimaram — era o que separava a ordem, do caos. Não uma muralha. Uma convenção. Um acordo tácito entre adultos de que o regresso à barbárie era demasiado caro.

Pois bem. A muralha está de pé. As paredes continuam visíveis. Os edifícios continuam em Genebra, em Nova Iorque, em Bruxelas, em Haia. Continuam a ter funcionários, orçamentos, logótipos, comunicados de imprensa e cafetarias com preços escandalosos. Mas, por dentro — por dentro — foram esvaziados com a meticulosidade de um ladrão que rouba um museu substituindo cada quadro pelo seu poster.

O Conselho de Segurança da ONU é um teatro onde dois dos cinco atores principais (que detêm o poder de veto, convém lembrar — e esse poder é absoluto, como o dos reis que a democracia supostamente aboliu) são, respetivamente, uma autocracia que invade países vizinhos e uma autocracia que constrói ilhas artificiais para reclamar mares. Os outros três — Estados Unidos, França, Reino Unido — oscilam entre a impotência, a hipocrisia e a amnésia seletiva que permite bombardear a Líbia em nome dos direitos humanos e ignorar o Iémen em nome do comércio de armas. A ONU não falhou. A ONU foi neutralizada por design, por dentro, pelos seus próprios fundadores, que desenharam o veto como uma válvula de segurança e criaram, na prática, uma máquina incapaz de agir contra os poderosos. Só contra os fracos. Sempre contra os fracos.

A OMC é um tribunal sem polícia. A Convenção de Genebra é uma carta de princípios que ninguém lê antes de disparar. O Tribunal Penal Internacional é uma jurisdição à qual os Estados Unidos nunca aderiram — e aprovaram, em 2002, uma lei (o chamado Hague Invasion Act, que não é paródia, embora mereça ser) que autoriza o uso de força militar para libertar qualquer cidadão americano detido pelo tribunal. Sim, leram bem. O país que se apresenta como farol da ordem internacional legislou o direito de invadir Haia.

E a União Europeia — ah, a União Europeia. O projeto mais ambicioso de cooperação supranacional da história da humanidade, nascido dos escombros de duas guerras e construído com a paciência beneditina de juristas, economistas e burocratas que acreditavam que a prosperidade partilhada era o melhor antídoto contra o nacionalismo. Transformada, sessenta anos depois, num mecanismo de gestão de crises que responde a cada crise tarde, mal, e com o entusiasmo de quem preenche formulários num serviço de finanças. Brexit. A crise migratória. A pandemia. A guerra na Ucrânia. De cada vez a mesma coreografia: surpresa, reunião de emergência, comunicado, divisão, compromisso diluído, comunicado sobre o comunicado. Bruxelas como Sísifo de fato e gravata — a empurrar a pedra encosta acima, de agenda em agenda, sabendo que volta a cair.

Isto seria apenas triste — o tipo de tristeza administrativa que gera editoriais sensatos e livros de quinhentas páginas com títulos como O Declínio da Ordem Liberal — se não fosse uma outra coisa: previsto. Inteiramente, meticulosamente, e por vezes assombrosamente previsto. Abramos os manuais.

1 George Orwell publicou 1984 em 1949 — um ano depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A coincidência cronológica é quase obscena. Enquanto Eleanor Roosevelt redigia o artigo 19.º (liberdade de opinião e expressão), Orwell descrevia a Novilíngua: um sistema em que as palavras são esvaziadas de significado até que “guerra” signifique “paz,” “liberdade” signifique “escravidão,” e o Ministério da Verdade se encarregue de reescrever o passado para que o presente nunca possa ser questionado.

Setenta e sete anos depois, a liberdade de expressão existe. Está consagrada em dezenas de constituições. É invocada diariamente — sobretudo por quem a usa como escudo para mentir sem consequências. O problema nunca foi a censura clássica, o corte, a proibição. Orwell percebeu isso: o problema é o excesso. O ruído. A multiplicação infinita de versões até que nenhuma seja verificável. Não é preciso proibir a verdade. Basta afogá-la em alternativas. O Ministério da Verdade não usa carimbos vermelhos — usa algoritmos. E funciona melhor do que Orwell imaginou, porque as pessoas colaboram voluntariamente. O Big Brother não precisa de vigiar: nós publicamos.

(E se isto parece exagero, perguntem-se: quando foi a última vez que leram uma notícia — uma — e tiveram a certeza de que era inteiramente verdadeira? Não “provavelmente verdadeira.” Não “verdadeira segundo fontes.” Certeza. A resposta, para a maioria, é que já não se lembram. A dúvida tornou-se o estado natural. E esse é, precisamente, o objetivo.)

2 Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo em 1932, antes da guerra, antes dos campos, antes da bomba. O seu aviso era diferente do de Orwell, e por isso mais difícil de ouvir. Orwell temia os que proíbem livros. Huxley temia que não houvesse razão para os proibir, porque ninguém os quereria ler. A tirania de Huxley não oprime — entretém. Não castiga — seduz. O soma, a droga universal que elimina a ansiedade, a angústia e qualquer impulso de revolta, não é imposto. É desejado. Procurado. Consumido com entusiasmo.

Chamem-lhe soma. Chamem-lhe feed. Chamem-lhe scroll infinito, séries em catadupa, notificações que interrompem o pensamento exatamente no momento em que ele ameaçava tornar-se perigoso. A arquitetura da distração não foi construída por tiranos. Foi construída por engenheiros de Silicon Valley com licenciaturas em psicologia comportamental e stock options generosas, e funciona com uma eficácia que Huxley, que morreu em 1963, teria achado inverosímil. Não precisamos de ser obrigados a não pensar. Pagamos para não pensar. Pagamos subscrições mensais para não pensar. E quando, por acidente, pensamos, a próxima notificação chega em sete segundos. (Pausa para verificar o telemóvel. Sim, vocês também).

3 Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451 em 1953. O título é a temperatura a que o papel arde. Os bombeiros, no romance, não apagam fogos — queimam livros. Mas Bradbury, numa entrevista tardia que merecia ser obrigatória, disse que o livro não era sobre censura governamental. Era sobre a sociedade que deixa de querer saber. Sobre a erosão lenta, confortável, democrática, do interesse pelo complexo. Sobre a substituição do argumento pelo slogan, da análise pelo soundbite, do debate pela performance. Os livros não ardem porque alguém os queima. Ardem porque ninguém os abre.

4 E George Miller — que ninguém confunde com um intelectual, porque usava carros e explosões em vez de palavras, e a academia tem estes preconceitos — filmou em Mad Max um mundo em que o contrato social se dissolveu e os recursos (água, gasolina, comida) são controlados por tiranos grotescos que os distribuem com conta-gotas para manter a dependência. A violência não é aberração: é sistema. A escassez não é acidente: é instrumento. E a estrada — interminável, árida, sem destino — é a única instituição que sobrevive.

Olhem agora para os preços da energia em qualquer país europeu. Olhem para o mercado da água na Califórnia. Olhem para as cadeias alimentares controladas por quatro ou cinco conglomerados que decidem o que comemos, quanto pagamos, e que agricultores sobrevivem. Miller não precisava de ter feito um documentário. Fez um.

— * —

O padrão, para quem ainda resista à evidência, é este: cada distopia foi lida pelas pessoas certas — e usada pelas erradas. Os que deviam ter protegido a verdade leram Orwell e perceberam que a desinformação é mais eficiente do que a censura: não é preciso destruir factos, basta fabricar dúvida. Os que deviam ter protegido a cultura leram Huxley e perceberam que o entretenimento é o controlo social mais barato que existe: não é preciso reprimir, basta saturar. Os que deviam ter protegido o conhecimento leram Bradbury e perceberam que a ignorância é autossustentável: não é preciso queimar livros, basta torná-los irrelevantes. Os que deviam ter protegido os recursos leram Miller e perceberam que a escassez é uma vantagem competitiva: não é preciso partilhar, basta controlar o acesso.

E todos — absolutamente todos — olharam para as instituições do pós-guerra e fizeram o mesmo cálculo: estas paredes ainda estão de pé, mas já ninguém as vigia. Podem ser esvaziadas por dentro. Lentamente. Respeitavelmente. Com comunicados e conferências de imprensa.

É o que Cícero, se fosse menos elegante, chamaria o roubo perfeito: não destruir a República, mas ocupá-la. Não demolir o Senado, mas torná-lo irrelevante. Deixar a fachada intacta, mudar as fechaduras.

A negociação — essa arte lenta, inglória, exasperante, que durante décadas impediu que desacordos entre potências nucleares se transformassem em cogumelos atómicos — foi substituída pela retórica do mais forte. Não porque a retórica seja mais eficaz. É-o menos. Mas é mais rápida. Dá melhores soundbites. E, sobretudo, não exige a humildade de reconhecer que o outro lado existe.

A subsidiariedade — essa ideia incómoda de que os que mais têm devem algo aos que nada têm, não por caridade mas por cálculo civilizacional, porque sociedades demasiado desiguais implodem — foi substituída pela mística da extração. Extrair valor. Extrair dados. Extrair trabalho. Extrair atenção. Extrair até não haver mais nada para extrair, e depois vender o relatório que documenta a extração como “caso de estudo em eficiência.”

A compaixão — e peço desculpa pela palavra, que parece de outro século, e talvez seja — foi reclassificada como fraqueza. A solidariedade como ingenuidade. O bem comum como conceito vago, bom para discursos inaugurais e nada mais.

— * —

Saramago, em O Ensaio sobre a Cegueira, escreveu que o pior não é a cegueira em si — é a cegueira de quem, podendo ver, escolhe não ver. Nesse romance, uma epidemia inexplicável cega toda uma cidade. A ordem dissolve-se. As instituições colapsam. A violência instala-se. E os que ainda vêem — que existem, que estão ali, que testemunham tudo — são demasiado poucos para impedir o que quer que seja.

Nas distopias, porém, há sempre um rebelde. Winston Smith. O Selvagem de Huxley. Montag, o bombeiro que começa a ler. Max, no deserto. Alguém que resiste. Alguém que vê. Alguém que, mesmo derrotado (e quase todos são derrotados — os autores de distopias são honestos quanto a isso), pelo menos encarna a possibilidade de que a resistência exista.

Na realidade — nesta realidade, a nossa, a que não tem créditos finais — o rebelde existe. Tem um podcast. Vende suplementos alimentares. Tem cinquenta e três teorias sobre o que realmente se passa, todas mutuamente incompatíveis, e o único ponto em que se distingue do sistema que diz combater é que ainda não tem orçamento suficiente para o replicar.

E aqui reside o veneno final. O mais lento. O mais eficaz.

A resistência — a verdadeira, a que os autores de distopias imaginaram como último reduto da dignidade — foi absorvida pelo próprio sistema que devia combater. Transformada em produto. Em nicho de mercado. Em estética. Usamos a palavra “resistência” como se fosse um hashtag (e, de facto, é — verifiquem). Lemos Orwell e partilhamos citações no Instagram. Citamos Huxley em threads do X entre dois anúncios de cripto moedas. A própria denúncia do sistema tornou-se conteúdo. E o conteúdo, como sabemos, precisa de engagement. E o engagement precisa de plataformas. E as plataformas pertencem — ironia magistral, ironia que os deuses gregos apreciariam com o seu humor cruel — exatamente às pessoas contra quem a resistência devia ser dirigida.

Orwell avisou. Huxley avisou. Bradbury avisou. Miller filmou. Saramago narrou. Cada um deles ofereceu, à sua maneira, uma planta do edifício em chamas. Um mapa do desastre. Um diagnóstico. Nós lemos o diagnóstico, concordámos com a gravidade, partilhámos nas redes, e voltámos a sentar-nos.

As instituições do pós-guerra estão de pé. Ocas, esvaziadas, habitadas por fantasmas que ainda emitem comunicados. Os manuais de instruções estão todos escritos — lidos, sublinhados, citados. E o edifício arde. Sem pressa. Sem drama. Com a lentidão de quem sabe que ninguém vai chamar os bombeiros. Até porque os bombeiros, como Bradbury nos explicou, estão ocupados. A queimar livros.

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Trump vai para a China sem nenhuma carta na manga

(Pepe Escobar in SakerLatam.org, 07/05/2026)


Há alguns dias, tivemos o Sr. Araghchi indo à Rússia. No início desta semana, tivemos o Sr. Araghchi indo à China.


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Essas duas viagens refletem em toda a sua pompa o poder dos RIC (Rússia-Irã-China): o que eu escolhi definir há algum tempo como o novo triângulo de Primakov, onde o Irã substitui a Índia como um dos catalisadores da integração da Eurásia e do impulso rumo à multipolaridade.

Algumas das observações do ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi à mídia iraniana foram bastante fascinantes. Por exemplo:

“Nossos amigos chineses acreditam que o Irã pós-guerra é diferente do Irã pré-guerra. Sua posição internacional melhorou, e o país demonstrou suas capacidades e poder. Portanto, uma nova era de cooperação entre o Irã e outros países está por vir.”

Isso é um código para que Pequim agora reconheça — e apoie — Teerã como uma grande potência global.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, por sua vez, deu a definição definitiva da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã: “ilegítima”.

Isso é um código para dizer que tudo relacionado a essa guerra de escolha, desde as causas até as inúmeras consequências, está atolado em um pântano de ilegalidade.

Wang enquadrou a iniciativa diplomática chinesa com a cortesia que lhe é característica:

“Estamos prontos para continuar nossos esforços para reduzir a intensidade das tensões.”

Mas ele foi muito mais assertivo quanto ao caminho para uma resolução:

“A China acredita que a cessação completa das hostilidades é imperativa, que reiniciar o conflito é inaceitável e que persistir nas negociações é particularmente importante.”

Isso deveria ser o preâmbulo para uma verdadeira negociação que leve ao fim da guerra – e de todas as guerras – na Ásia Ocidental contra todo o Eixo da Resistência. Essa é exatamente a posição iraniana.

Wang Yi enfatizou que “a China apoia o Irã na manutenção de sua soberania e segurança nacionais e aprecia a disposição do Irã em buscar uma solução política por meio de canais diplomáticos.”

Isso é um código para o apoio total da China aos direitos soberanos e à diplomacia – não à intimidação.

O Estreito de Ormuz é absolutamente vital para a China devido às importações de energia, não apenas do Irã, mas também das monarquias petrolíferas do Golfo. Portanto, a posição de Pequim deve ser matizada:

“A comunidade internacional compartilha uma preocupação comum em restaurar a passagem normal e segura pelo Estreito, e a China espera que as partes envolvidas respondam prontamente aos fortes apelos da comunidade internacional.”

Isso é um código para o fim do bloqueio americano, ao mesmo tempo em que demonstra respeito pelo novo sistema jurídico em Ormuz que está sendo elaborado por Teerã.

Sobre a questão nuclear, “a China valoriza o compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares, ao mesmo tempo em que reconhece o direito legítimo do Irã ao uso pacífico da energia nuclear.”

Essa é exatamente a posição de Teerã – em nítido contraste com o Trump 2.0.

Bem-vindos à nova ordem da Ásia Ocidental

A China, por meio de Wang Yi, esclareceu três pontos essenciais: apoio a todas as reivindicações razoáveis do Irã; apoio à retirada das bases militares dos EUA em todo o Golfo Pérsico; e participação ativa na reconstrução pós-guerra do Irã.

Simultaneamente, Pequim está exortando os países árabes a se organizarem e trabalharem em direção a uma nova estrutura de segurança – excluindo o Império do Caos, das Mentiras e, mais recentemente, da Pirataria (totalmente admitido pelo presidente dos EUA). Mais uma vez: essa é exatamente a posição de Teerã.

Com a proverbial delicadeza, Pequim está, de fato, alinhando-se com o ex-comandante da IRGC, Mohsen Rezaee, principal conselheiro militar do novo líder Mojtaba Khamenei.

Pequim compreende plenamente como Teerã está enquadrando a resistência como um ativo estratégico. Para a nova configuração de poder em Teerã, a guerra tem girado em torno de sobreviver à pressão máxima – e aos bombardeios devastadores; absorver e controlar a armadilha da escalada; e recusar-se a ceder à coerção militar e econômica.

Tudo isso, em conjunto, não poderia ser mais estratégico. Aqui vemos a resistência transformada em capital político. E isso se traduz instantaneamente na mesa de negociações, apesar das perdas táticas (nenhuma delas é estratégica).

Esse entendimento se reflete nas duas formulações-chave de Araghchi e Wang Yi. Vamos analisá-las lado a lado.

O Irã “apoia o estabelecimento de uma nova arquitetura regional pós-guerra capaz de coordenar o desenvolvimento e a segurança”.

A China “apoia o estabelecimento de uma arquitetura regional de paz e segurança na qual os países da região participem conjuntamente, salvaguardem interesses comuns e alcancem o desenvolvimento comum”.

Essa nova arquitetura é a nova ordem da Ásia Ocidental.

Portanto, não é de se admirar que o universo Trump 2.0 esteja desorientado.

Porque essa nova ordem da Ásia Ocidental é um microcosmo, diretamente ligado ao macrocosmo da Nova Ordem Global, da qual a China é um dos principais impulsionadores, ao lado da Rússia.

A Rússia está concentrada em implementar, a longo prazo e contra todas as adversidades, uma Parceria da Grande Eurásia, que se expande para a Afro-Eurásia.

Pequim é muito mais ambiciosa. Essencialmente, tudo é enquadrado por meio das Quatro Iniciativas Globais. A mais recente é a Iniciativa de Governança Global, lançada na cúpula da SCO Plus em Tianjin, em setembro do ano passado.

Isso segue as Novas Rotas da Seda, ou BRI (Iniciativa Cinturão e Rota), que depois evoluiu para as três primeiras Iniciativas Globais: a Iniciativa de Desenvolvimento Global; a Iniciativa de Segurança Global; e a Iniciativa de Civilização Global – até chegar à Governança Global.

No conjunto, esse é o roteiro chinês para “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”; a alternativa de fato para o liberalismo ocidental em colapso. A ambição é, sim, global.

China-Irã: totalmente alinhados na Ásia Ocidental

O que já está bastante claro é que a China e o Irã compartilham uma visão totalmente alinhada para a Ásia Ocidental; na verdade, essa é a base de sua confiança e dependência mútuas. Pequim e Teerã compreendem como todo o mundo árabe foi colonizado e como a história pós-Segunda Guerra Mundial tem sido essencialmente uma narrativa de Washington usando a Ásia Ocidental para controlar o planeta por meio de uma obsessão pelo petróleo.

Por mais que Teerã tenha aprendido muito com a Arte da Guerra chinesa – “pareça fraco quando estiver forte” e desinteressado quando estiver mergulhado na guerra –, a viagem de Araghchi a Pequim foi essencial para ressolidificar a parceria estratégica. Por mais que a Rússia esteja totalmente comprometida – como confirmado pela reunião em São Petersburgo entre Araghchi e Putin –, a China está em uma posição de “estamos do seu lado”.

Os petroleiros chineses, aliás, continuam a transitar diariamente pelo Estreito de Ormuz. Nem um pio de Washington.

Apesar de toda a fanfarronice e das bravatas do tipo “vamos bombardear de novo”, Trump parece estar extremamente nervoso com a viagem à China na próxima semana para um encontro cara a cara com Xi, sem ter cartas na mão; ridicularizado praticamente em todo o planeta; e em uma sequência de “cansado de vencer” que é vista na China como uma grande farsa. Sem mencionar que ele não tem nada a oferecer que a China tenha interesse em comprar.

Depois, há o total desafio da China ao mais recente capítulo de sanções.

Até recentemente, a China contornava as sanções dos EUA de forma não oficial e/ou por meio de intermediários. Agora, declara oficialmente que não reconhece as sanções unilaterais dos EUA contra o Irã ou a Rússia, por exemplo, bem como as sanções contra suas próprias refinarias de petróleo.

Estamos em plena Guerra Fria financeira e em uma ofensiva do RIC (Rússia, Irã, China) para amputar permanentemente o poder da obsessão pelas sanções.

O Irã foi totalmente expulso do SWIFT em 2012. Então, o que Teerã fez foi reconfigurar o sistema, aproveitando a experiência de construir uma arquitetura comercial paralela.

O Irã realiza a maior parte do comércio transfronteiriço em yuans, rublos, rúpias, dirhams dos Emirados Árabes Unidos (a partir de agora, não mais) e dinares iraquianos. A China é responsável por até 35% do comércio total do Irã. Tudo é liquidado em yuans ou por meio de troca.

O Irã e a Rússia formalizaram um sistema de liquidação de moedas em 2023, contornando totalmente o SWIFT, ligando o SEPAM iraniano e o SPFS russo. No primeiro período do pedágio no Estreito de Ormuz – o mecanismo está sendo constantemente ajustado e otimizado – um modo-chave de pagamento era via CIPS chinês.

A exigência de contrapartidas é inevitável. Teerã está plenamente ciente de que Trump nunca concordará em pagar indenizações pela guerra ilegal que iniciou, e também está ciente das inevitáveis manobras grosseiras que ocorrerão quando se tratar de suspender o congelamento dos fundos iranianos.

O pedágio pode funcionar como uma alternativa para obter reparações e arrecadar algo equivalente aos fundos iranianos congelados em bancos ocidentais; e também forçará o Ocidente a suspender as sanções contra os bancos iranianos e o sistema financeiro iraniano.

Afinal, Teerã já deixou claro que apenas seus bancos estão autorizados a cobrar as taxas no Estreito de Ormuz.

Tradução: todas as nações que precisarem transitar terão que lidar com o sistema financeiro iraniano.

Além disso, as taxas ajudarão o Irã a reconstruir sua infraestrutura destruída.

Enfrentando a vulnerabilidade estrutural dos EUA

Trump nem sequer joga damas, quanto mais pôquer. A China joga weiqi (“go”). O weiqi consiste em moldar o tabuleiro, devagar mas com segurança, sacrificando um detalhe aqui e ali em prol de uma supremacia geral. A China vem moldando pacientemente o tabuleiro nas últimas duas décadas. No weiqi, uma vez que você molde corretamente o tabuleiro, o resto do Grande Jogo se desenrola por si só.

É aí que estamos agora.

Se ele tiver curiosidade intelectual – e isso é um grande “se” –, Trump será capaz de ver o poderoso poderio industrial da China (isso se chama capitalismo produtivo) e o controle total sobre as cadeias de abastecimento das quais os EUA dependem.

Ele se deparará com a vulnerabilidade estrutural dos EUA: a proverbial lista de elementos de terras raras, cadeias de abastecimento industriais, acesso a materiais essenciais para o F-35, mísseis Patriot e grandes setores do complexo industrial-militar americano.

E ele será lembrado de que a lei dos EUA não possui mais autoridade extraterritorial automática dentro da China. Sim, isso dói.

Enquanto isso, os sete séculos de impasse entre a Roma imperial e a Pérsia continuarão a se repetir, na velocidade da luz, no século XXI. A guerra de Trump provou-se totalmente impotente: impossível de vencer contra o desgaste, e isso levará a Pérsia à supremacia na Ásia Ocidental.

Essa surpreendente reviravolta geopolítica está sendo alcançada por uma potente mistura de ideologia, coesão social, desprezo total por bárbaros grosseiros e a determinação de levá-los à falência usando logística impossível. Sem mencionar o controle total do Estreito de Ormuz.

As bolhas estão estourando rapidamente no Império do Caos, das Mentiras e da Pirataria, impiedosamente atingido pela realidade do RIC.

  • Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

Um mundo sem fascismo e sem escalada permanente

(João Gomes, in Facebook, 09/05/2026)


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As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser analisadas à luz da História e do atual contexto geopolítico, e não apenas através da leitura simplificada e emocional que domina parte do debate ocidental. Independentemente das divergências políticas ou diplomáticas, permanece um facto histórico incontornável: foi a União Soviética – e sobretudo o povo russo e os povos eslavos – quem suportou o maior peso humano e militar na derrota do Terceiro Reich.

Mais de vinte milhões de mortos, cidades destruídas e gerações inteiras sacrificadas moldaram profundamente a identidade russa contemporânea. Essa memória coletiva continua viva e explica por que razão a chamada Grande Guerra Patriótica ocupa um lugar central na visão estratégica e emocional da Rússia atual. Para Moscovo, a segurança nacional nunca é apenas uma questão militar; é também uma questão existencial e histórica.

Após o colapso da URSS, a Rússia procurou uma aproximação económica e política à Europa, apostando no comércio, na energia e na integração gradual com o espaço europeu. Contudo, ao longo das últimas décadas, consolidou-se em Moscovo a perceção de que o avanço da NATO para leste e a crescente pressão estratégica ocidental representavam um processo de cerco e contenção. É neste enquadramento que se justifica o atual conflito na Ucrânia, considerando-o uma resposta defensiva a ameaças que entende como fundamentais para a sua própria sobrevivência estratégica.

Pode-se discordar profundamente dessa interpretação, mas ignorar completamente a perceção russa apenas prolonga o impasse e afasta qualquer possibilidade séria de estabilidade europeia.

Também por isso, o simbolismo das comemorações deste 9 de Maio merece atenção. Ao contrário do que muitos esperavam num contexto de guerra aberta e forte confrontação diplomática, Moscovo optou por uma cerimónia mais contida e menos triunfalista do que em anos anteriores. A redução da escala militar e do tom de exaltação pode ser interpretada como um sinal político deliberado: apesar das mais de vinte rondas de sanções económicas, do isolamento promovido por parte do Ocidente e da continuação do conflito, a Rússia procura demonstrar que ainda existe espaço para reduzir tensões e evitar uma escalada irreversível.

Esse gesto não resolve o conflito, nem elimina responsabilidades de qualquer lado, mas revela que os sinais diplomáticos continuam a existir – ainda que discretos e frágeis. A questão central é saber se a Europa estará disposta a reconhecê-los e a agir com autonomia estratégica suficiente para privilegiar a estabilidade continental acima da lógica permanente de confrontação.

Ao mesmo tempo, permanece legítimo discutir a crescente normalização, em partes da Ucrânia, de figuras historicamente ligadas ao colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera. Trata-se de um tema frequentemente instrumentalizado por ambos os lados, mas cuja existência não pode simplesmente ser apagada do debate público por conveniência política. Ignorar fenómenos extremistas quando servem interesses geopolíticos momentâneos é um erro histórico que a Europa já pagou caro no passado.

Este Dia da Vitória deveria servir, acima de tudo, para recordar que a paz europeia nunca foi construída apenas pela força militar, mas também pela capacidade de reconhecer limites, evitar humilhações estratégicas e compreender os receios históricos dos diferentes povos. Quando a memória da Segunda Guerra Mundial é usada apenas seletivamente, perde-se precisamente a lição mais importante desse conflito: nenhuma estabilidade duradoura nasce da escalada permanente, da demonização absoluta ou da incapacidade de diálogo.

Num tempo marcado por divisões profundas, sanções sucessivas e discursos cada vez mais agressivos, talvez o verdadeiro sinal de maturidade política esteja não em ampliar o confronto, mas em perceber quando o adversário, mesmo sem recuar totalmente, começa a abrir espaço para que a tensão diminua. E compete à Europa perceber esses sinais antes que o continente volte a pagar um preço demasiado alto pela incapacidade de construir equilíbrio e paz.