As Presidenciais

(Estátua de Sal, 08/10/2015)

Sampaio da Nóvoa

Sampaio da Nóvoa

Sampaio da Nóvoa acabou de falar ao país dissipando as dúvidas que a Direita tem vindo a alimentar na opinião pública acerca da eventual desistência da sua candidatura à Presidência da República.
A candidatura de Nóvoa é uma candidatura premonitória. Ele avançou antes das eleições legislativas mas, de certa forma, ele antecipou o cenário atual que decorre dos resultados eleitorais e que dá uma maioria parlamentar à esquerda e uma minoria às forças da PAF.
Se as pressões sobre o PS e António Costa, quer vindas do alfobre interno, quer da envolvente externa – quais delas as mais fortes -, podem vir a inviabilizar a existência de um governo do PS apoiado, ou pelo menos viabilizado à esquerda, já o mesmo não irá ocorrer com a candidatura de Sampaio da Nóvoa caso esta consiga ultrapassar a pulverização de candidaturas da esquerda e centro-esquerda e passar a uma segunda volta nas presidenciais.
Assim o eleitorado se mobilize para que uma candidatura independente seja ganhadora. E isto apesar do cenário atual não ser de unidade das esquerdas mas sim de pulverização:
1) Maria de Belém nada fará contra o Prof. Marcelo porque disputa o mesmo eleitorado pelo que lhe antecipo um fraco resultado eleitoral: quem nem sequer é apoiada pelo seu próprio partido que tipo de sucesso pode almejar?
2) O PCP apresentou já o seu candidato próprio, o que faz sempre, mas que umas vezes chega ao fim, outras desiste, mas aproveita sempre a campanha eleitoral para divulgar as suas mensagens.
3) O BE, ainda não assumiu uma posição pública sobre o tema presidencial.
4) O PS, mais uma vez titubeante, dá liberdade de voto aos seus militantes e simpatizantes.
Neste enquadramento, tenho para mim que, apesar de tudo, Nóvoa terá pelo menos os votos de dois terços do eleitores do PS nas legislativas recentes e da maioria dos votos que foram para o BE nas legislativas, com apoio ou sem apoio desse partido. Se o candidato do PCP desistir logo na primeira volta, Nóvoa estará certamente na segunda a disputar Belém com Marcelo.
E, se tal suceder, em teoria Nóvoa baterá Marcelo, tendo em conta os últimos resultados eleitorais. É que por muitas homílias e recados professorais que Marcelo mande aos domingos a Passos Coelho, tentando passar uma imagem de imparcialidade opinativa, não conseguirá que os portugueses esqueçam que ele é um lídimo apoiante da PAF, da austeridade e das mentiras e vigarices em que Coelho é perito.

É que a esquerda pode ainda não ter capacidade de entendimento e diálogo para gerar um Governo para o País. Mas, neste momento histórico, tem as condições e a obrigação de eleger um Presidente da República.

Estátua de Sal, 08/10/2015

Há mais mentira para além do déficit

(Estátua de Sal, 29/09/2015)

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Este governo chegou ao poder com base nas falsas promessas, que sabia falsas, e com base na crítica aos supostos desvarios do governo anterior na gestão das contas públicas, pretendendo vender uma imagem de probidade e rigor na gestão do Estado.

Pois bem, hoje veio a saber-se que afinal, manipula as contas públicas de forma a que o deficit tenha melhor aspeto, de forma a enganar os portugueses, e a própria Comissão Europeia, podendo assim vangloriar-se de louros que não tem e de méritos que as políticas de desastre que seguiu manifestamente não possuem. Afinal, contrariamente ao que Passos badala por aí, nesse aspeto, Portugal é como a Grécia.

Parece que não é só Ricardo Salgado que falsifica contabilidades, e a Volkswagen que falseia testes aos motores. Passos e Maria Luís, também falseiam dados das empresas públicas para embelezarem os efeitos das suas políticas de devastação.

Vem isto a propósito de se ter hoje sabido que existiram indicações da Ministra das Finanças à Parvalorem – empresa que gere o ativos tóxicos do defunto BPN -, para que não transparecessem nas suas contas, em 2012, o real nível de tal toxicidade, continuando a contabilizar como ativos saudáveis, créditos sobre terceiros que nunca irá ter possibilidade de receber. Ou seja, desviando do deficit e ocultando do país a real dimensão dos prejuízos que o BPN trouxe aos contribuintes.

Mas, o mais cínico e caricato, é Passos Coelho e comandita, continuarem a usar o caso da intervenção do Estado no BPN como arma de arremesso contra o governo de Sócrates, quando é mais que sabido que o BPN era o “Banco do PSD” e para o PSD, tendo beneficiado as luminárias do PSD da maior parte dos créditos agora dados como incobráveis e por isso tóxicos. Antigos ministros e secretários de estado do PSD enxameavam as cúpulas e a lista dos beneficiários do BPN: Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, e Duarte Lima – só para citar os mais mediáticos. E tal disseminação laranja ocorreu sempre com a cobertura dessa eminência parda que é Cavaco Silva, a quem o BPN também “deu esmola” em negócios de ações nunca cabalmente explicados. Se Sócrates é criticado por ter um amigo que lhe emprestava dinheiro, o que não dizer de Cavaco cuja amizade com Oliveira e Costa lhe rendeu milhares de euros, não emprestados, mas dados limpinhos e sem osso?

Também se soube hoje que a taxa de desemprego subiu em Agosto, relativamente ao mês de Julho. Ora, sendo Agosto um mês em que se criam empregos de caráter sazonal, mormente no setor do turismo, mais uma vez a narrativa do país pintado a cor de rosa que a coligação quer vender, começa a abrir brechas.

Esta coligação da direita é perita na mentira e na manipulação. Ele são os números do desemprego, artificialmente reduzidos com falsos estágios e cursos de formação. Ele são os números da dívida, ele são os números do deficit, ele são os números das sondagens que compram e distribuem por aí para manipular os eleitores, ele é tudo o mais que ainda hoje não sabemos e que é escondido com todo o zelo e afinco por baixo do tapete.

Compreende-se agora, a convicção de Passos e Maria Luís, quando continuam a dizer, contra todas as previsões das organizações estatísticas nacionais e internacionais que Portugal irá atingir em 2015 o deficit de 2,7%. Já devem ter pago a uma qualquer multinacional de consultoria o dossier que lhes vai permitir ocultar dívida pública, de forma a atingir o objetivo.

Perante este cenário, eu continuo só a ter uma esperança. É que os portugueses, em 4 de Outubro, para lá dos programas políticos, para lá dos casos de campanha, para lá da intoxicação que toda a comunicação social amestrada que temos vai disseminando com insídia, para lá das clivagens direita/esquerda, votem na seriedade.

E um cidadão que vote na seriedade, e com seriedade, jamais poderá votar PAF. Porque, seriedade, e palavra honrada é tudo aquilo que a coligação de direita não tem.

Estátua de Sal, 29/09/2015

Passos Coelho, o pequeno demiurgo

(Estátua de Sal, 13/09/2015)

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Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. 4Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. 5Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.

(Livro do Génesis, I,1,3)

Portugal sempre foi um país de gesta original e criativa. Em tempos demos novos mundos ao Mundo. Hoje, damos novos deuses e novos alquimistas.

E Passos Coelho disse: – Cortem-se salários e pensões. Reduzam-se e cortem-se os subsídios de desemprego. Aumente-se a precariedade. Levem-se as pequenas empresas e negócios familiares à falência e ao saldo das penhoras, façam-se mais pobres em quatro anos do que em quarenta anos de História. E assim se fez. E Passos olhou e gostou do que viu. Eram milhares, de mãos estendida. Porém, magnânimo e complacente mandou abrir cantinas sociais e prosperar bancos alimentares para que não morressem todos à míngua.

E Passos Coelho disse: – Que emigrem os jovens e saiam da zona de conforto. Emigrar é uma oportunidade de levar Camões para lá do Bojador e de ganhar mundo para lá da nossa apagada e vil tristeza. E lá foram os infantes entre abraços dos pais e lágrimas das noivas. E Passos olhou e gostou do que viu. Porém, magnânimo e complacente, logo decidiu que iria criar um programa de incentivo ao regresso de meia dúzia de entre os milhares que tinham emigrado, para os poder ir receber ao aeroporto no horário nobre das televisões. Até os Deuses são vaidosos e, aos crentes, não devem faltar ocasiões para os adorar. E sempre a bem dos crentes e da Nação.

E Passos Coelho disse: – Que se liquidem os bancos maus e que fiquem só os bancos bons, e que fiquem bons e cada vez melhores à custa dos que foram enganados pelos maus. E aos ludibriados deixemos a rua para protesto e nem um cêntimo para as poupanças que perderam. E Passos olhou e gostou do que viu. Eram milhares todos os dias, com cartazes e raiva, mais velhos que novos, porque aos novos já só resta a esperança de ir sobrevivendo, quanto mais de poupar. Porém magnânimo e complacente, logo decidiu abrir uma subscrição pública para obter fundos que permitissem àquela gente protestar nos tribunais,sendo ressarcidos, por terem sido injustamente espoliados.

E Passos Coelho disse: – Que se corte na saúde, na educação, na ciência. Somos um país de remediados que não pode viver acima das suas possibilidades. E assim se fez. Os médicos debandaram uns, reformaram-se outros. As escolas fecharam, as universidades encolheram. Os investigadores deprimiram uns, emigraram outros. E Passos olhou e gostou do que viu. Porém magnânimo e complacente, logo decidiu promover mais hospitais privados, dar mais subvenções aos colégios e dar umas bolsas de estágio nas empresas aos investigadores desempregados.

E Passos Coelho disse: – Que se privatizem as receitas da segurança social. Os cidadãos que mais podem descontam imenso. Os fundos privados de pensões estão a precisar de liquidez para investir. Temos de ser um país competitivo e, hoje em dia, só se ganha dinheiro na especulação financeira e não na esfera real do investimento produtivo. Até porque queremos ser, a médio prazo, a décima economia mais competitiva do Mundo.

E Passos olhou e não gostou do que viu. É que, nessa altura, alguém lhe questionou as suas certezas quanto ao sucesso da medida, perguntando-lhe pelas contas. Mas magnânimo e complacente, limitou-se a responder:

– Einstein disse que Deus não joga aos dados, referindo-se ao caráter probabilístico da realidade quântica. Mas eu não sou Deus. Sou apenas um pequeno demiurgo. Eu jogo aos dados com a Segurança Social e com as reformas dos portugueses. Deixem-me jogar à vontade.

Estátua de Sal, 13/09/2015