Scales balancing stacks of coins against a family silhouette

Não é só matemática e também é ideologia

(Vítor Junqueira, in Público, 19/09/2026)


Scales balancing stacks of coins against a family silhouette
Uma balança simbólica contrapõe pilhas de moedas a uma família diversa, destacando prioridades económicas e sociais. Imagem gerada por IA.

Valeu a pena este mês de debate público em torno das pensões, e continuará a valer. Tenho consciência, contudo, que o mais certo é que o tema volte ao limbo.


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Neste último mês, muito se escreveu e se falou de pensões. Aprecio ver o tema presente no debate público. Nem sempre com factos ou argumentos devidamente enquadrados. Nem sempre com uma adequada ponderação entre o imobilismo de uns e o catastrofismo de outros. E, frequentemente, com demasiado ruído, que pode fazer o cidadão comum mudar de canal para temas menos maçudos. Mas se há um primeiro consenso a que devíamos chegar entre todos — e a palavra “consenso” é central neste tema —, é o de que é bom termos espaço e tempo para discutir estes assuntos, confrontar argumentos e dar os passos em frente que resultem da seleção natural das ideias. É assim que se constrói uma agenda de políticas públicas centrada no diálogo social.

O relatório “Reformar as Pensões em Portugal” despertou muito deste debate. Oferece um número extraordinário de propostas muito concretizadas, a um nível de detalhe que o Livro Verde — o que não serviu a um Governo em início de funções — nunca ousou chegar. Talvez o nível raro de aprofundamento leve uns a acharem que as propostas deste relatório são incontestavelmente sólidas, quase chave na mão (e certamente que algumas serão), e outros a munirem-se de argumentos que podem soar a (sem querer ofender ninguém) tiques ideológicos. Há até alturas em que percebo o autor principal do estudo, o professor Jorge Bravo, quando se mune do argumento da matemática, e da factualidade, para defender as posições tomadas.

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Só que há dois problemas. Em primeiro lugar, parece-me faltar matemática ao relatório para demonstrar o que não ficou demonstrado ou para melhor demonstrar o que ficou. Em segundo, se a ideia era afastar o mais possível a discussão da arena ideológica, é bom que se perceba que muito do proposto também pode ser lido como… ideologia.

Alguns exemplos:

Falta matemática para demonstrar a ideia repetida, quase a cada página, de que o atual sistema esbanja solidariedade. É, do meu ponto de vista, uma conclusão abusiva. O atual sistema tem elementos que favorecem rendimentos mais baixos, é certo, mas são de alcance muito limitado. A matemática ajuda a percebê-lo.

Criticar o atual sistema por considerar apenas 120 dias para fazer um ano, ao mesmo tempo que se ignora que também apenas é levado ao numerador da fração um terço do que seria a remuneração anual, fazendo assim descer a remuneração média, também é uma conclusão que carece de melhor matemática a acompanhá-la.

Falta matemática para simular o que é proposto no sistema de capitalização virtual e demonstrar como seriam aumentadas ainda mais as desigualdades nos idosos, sabendo-se como a proposta apenas favoreceria (ou menos prejudicaria…) aqueles que têm rendimentos mais altos e carreiras sem lacunas. Premiar-se-iam os bem-sucedidos no mercado de trabalho, enquanto se propõe que venha a ser o Orçamento do Estado — como já o faz hoje — a proteger o extremo oposto, o da pobreza. E quem fica pelo meio? Solidariedade apenas como assistência aos pobres também é ideologia.

Falta (boa) matemática para provar o problema da adequação. Isto é, para calcular bem as taxas de substituição futuras. Não acredito que tenha sido intencional, mas projetar taxas de substituição com cenários sucessivos que vão usando salários de fim de carreira cada vez mais destacados não é um exercício rigoroso, pois favorece a ideia de declínio na adequação das pensões. Nem a taxa de 2045 se reduziria tanto face a 2025, nem a de 2065 face a 2045. Não houve boa matemática na projeção da adequação.

Falta matemática para se mostrar que, ainda que o sistema de capitalização virtual seja automaticamente reequilibrado, esse automatismo recai direta e imediatamente na formação de direitos e no valor nominal das pensões a pagamento. Se todos concordarmos que isto é uma boa ideia, o que não será fácil, ponhamos pelo menos os pés na terra e lembremo-nos de que a rigidez do automatismo soçobra logo às primeiras pressões eleitorais imediatistas: aqueles travões automáticos são desligados pelos governos, como tem acontecido noutros países que adotaram sistemas semelhantes. A comunidade que estuda pensões adora automatismos, e eu admito também estar nesse clube de fãs, mas sejamos cínicos: eles raramente se cumprem. Veja-se o automatismo na atualização das nossas pensões: em 20 anos, apenas meia dúzia de vezes foi seguido em exclusividade.

Falta matemática para se proporem alterações em outras áreas de proteção social. Em mais de 600 páginas, o relatório falha em propor seja o que for para as pensões de invalidez ou de sobrevivência. Ou para a proteção no desemprego, na doença ou na parentalidade. Retira-se dali que um sistema de proteção social pode vir a ser nada mais do que o somatório de seguros individuais, distintos e sem vasos comunicantes entre si. Isso também é ideologia.

Concordemos: o relatório não propõe a privatização do sistema. Só que, não gostando de fazer juízos sobre meras conjeturas em aberto, lanço a questão: não é o sistema de capitalização virtual uma porta aberta à provisão privada dos seguros na velhice? A arquitetura é a mesma. Se sim, isso levar-nos-ia para uma discussão diferente, uma discussão ideológica.

Noutro exemplo, com o regime complementar de carácter obrigatório proposto — sem prejuízo das vantagens e da legitimidade que têm, já hoje, quaisquer opções individuais (note-se, opções, não obrigações) —, ocorrem-me duas pistas de leitura que apontam para o mesmo horizonte de discussão ideológica. Primeiro, se o Estado entra com contribuições ou com benefícios fiscais, isto não é redistribuição de impostos a favor dos mais ricos, que serão aqueles que terão capacidade aforradora para beneficiar do regime? Segundo, e num tom ainda mais especulativo, sendo os empregadores também chamados ao financiamento, para quando esperar reivindicações no sentido de ser reduzida a taxa principal dos 23,75% em prol da complementar, assim se substituindo o pilar público pelo privado?

Noutro exemplo ainda, fica muito mais fácil deitar a mão às contribuições dos trabalhadores arrecadadas no Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social para financiar a despesa de pensões devida pelo Estado na Caixa Geral de Aposentações de tal modo que, quando for necessário cobrir os défices do regime geral, voltem a ser chamados os trabalhadores e os pensionistas com a redução de direitos adquiridos, financiando os défices do regime geral duas vezes. Não é isto, também, ideologia?

Tudo isto é denso e complexo. E, também por isso, importa o debate público, para descodificar, para nos habilitar a saber ler as letras miudinhas e para promover o estado de alerta entre todos — que é diferente de alarmismo. Valeu a pena este mês de debate público em torno das pensões e continuará a valer. Tenho consciência, contudo, de que o mais certo é que o tema volte ao limbo. Ou talvez não, talvez regresse nas próximas projeções da sustentabilidade ou nas próximas eleições, mesmo que apenas com o fim de criar sobressaltos entre os mais jovens, na expectativa de que estes comprem a ideia da transparência e do individualismo — já agora, a transparência é sexy, ainda que ilusória, e o individualismo vende bem nestes tempos estranhos.

Espero, por isso, que, informados por este diálogo social, aqueles que têm nas mãos a política pública de proteção social continuem a ter as vistas postas num horizonte longínquo e os pés na terra para agir agora e sempre que se mostre necessário. Mas com todos os factos e com toda a matemática. Para uma Segurança Social justa e solidária. E, se não for pedir muito, para um Estado social que dê luta a esta praga do individualismo, mais do que a fomente.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990, e foi antigo director do Centro Nacional de Pensões.

A privatização silenciosa da Segurança Social começa pelo discurso do medo

(Ana Mendes Godinho, in Público, 23/08/2026)


O país tem memória. Sabe quem defendeu e reforçou a Segurança Social pública e quem a quis enfraquecer.


O relatório do Grupo de Trabalho para a Reforma da Segurança Social, apresentado esta semana pelo Governo, surge envolvido numa aparente avaliação técnica. Mas as opções políticas fazem-se também de números, sobretudo da forma como se escolhe apresentá-los.

Comecemos pelo número assustador: 581,8 mil milhões de euros, quase 190% do PIB. Segundo o estudo, é a soma das transferências que o Estado terá de fazer ao longo de 85 anos, até 2111.

Importa perceber como se chega a este número.

O cálculo agrega à Segurança Social a conta da Caixa Geral de Aposentações (CGA), um regime fechado desde 2006 e financiado por transferências do Orçamento do Estado para pagar as pensões dos antigos funcionários públicos. Depois, projeta esses compromissos durante 85 anos, utilizando uma taxa de desconto de 0%, precisamente a opção que conduz ao valor mais elevado.

Vale a pena recordar que, utilizando outra metodologia, o Tribunal de Contas chegou, em 2025, a um valor de 228,2 mil milhões de euros para o conjunto dos dois sistemas.

Quando duas contas sobre o mesmo problema produzem resultados tão diferentes, estamos perante escolhas metodológicas, escolhas que têm de ser explicadas.

O financiamento das pensões da CGA é uma responsabilidade do Estado enquanto entidade empregadora e não deve ser confundido com um problema de sustentabilidade financeira da Segurança Social. É por isso necessário separar os problemas e olhar para os factos sobre a situação atual da Segurança Social.

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social fechou o primeiro semestre de 2026 com 49,3 mil milhões de euros, o equivalente a 28,3 meses de despesa com pensões e a uma taxa de cobertura de 236,3%. Corresponde atualmente a cerca de 16% do PIB português.

O saldo anual da Segurança Social ultrapassa os 6 mil milhões de euros. Não é o retrato de um sistema à beira da falência.

Esta almofada financeira foi construída para garantir o pagamento futuro das pensões e não pode ser chamada a suportar o défice da Caixa Geral de Aposentações.

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Naturalmente, a Segurança Social enfrenta desafios. O envelhecimento demográfico, a evolução da população ativa, a diferença de quase 40% no valor das pensões das mulheres, as novas formas de trabalho e carreiras contributivas cada vez menos lineares obrigam-nos a encontrar respostas que garantam o futuro.

Sempre defendi que a sustentabilidade da Segurança Social não se garante negando os problemas, mas enfrentando-os com rigor, planeamento e políticas públicas de longo prazo: políticas que valorizem o trabalho, diversifiquem as fontes de financiamento, reforcem a eficácia do sistema, assegurem níveis adequados de proteção e preservem a confiança entre gerações.

Foi por isso que criámos uma comissão de especialistas, plural e coordenada pela Organização Internacional do Trabalho, que elaborou o Livro Verde da Segurança Social, em 2024, com uma avaliação independente e propostas concretas. Essas propostas foram, entretanto, desprezadas.

Não é gerando desconfiança e medo que se protege um sistema que é, na sua essência, um pacto de solidariedade entre gerações.

E é aqui que este relatório deve ser lido em conjunto com outras opções políticas que estão em cima da mesa.

Há pouco tempo discutíamos uma alteração profunda à legislação laboral que voltava a facilitar a precariedade e a desequilibrar as relações de trabalho. Agora começa a construir-se uma narrativa sobre a insustentabilidade da Segurança Social.

Há uma linha ideológica preocupante entre a tentação de desregular o mercado de trabalho e a pressa em decretar a falência do sistema público de pensões.

A Segurança Social vive do pacto entre gerações, mas também vive da economia, do emprego, dos salários e das contribuições.

Primeiro fragiliza-se o trabalho; depois fragiliza-se a receita da Segurança Social; a seguir aponta-se essa fragilidade como prova de que o sistema público não é sustentável.

Durante demasiado tempo disseram-nos que a competitividade se fazia com baixos salários e que a precariedade era inevitável. A realidade mostrou o contrário. Não podemos agora repetir o mesmo método com a Segurança Social.

O caminho é reforçar o sistema de pensões, enquadrar as novas formas de trabalho, responder a carreiras profissionais diferentes dos modelos tradicionais e diversificar as fontes de financiamento, fazendo participar de forma mais ampla a riqueza gerada na economia.

É isto que temos de garantir, tendo presente que a melhor política de sustentabilidade da Segurança Social é uma boa política de emprego.

Mais pessoas na economia formal, melhores salários e menos precariedade significam mais contribuições, maior proteção social e uma Segurança Social mais sustentável.

Trabalho digno e uma Segurança Social robusta são duas faces da mesma política.

E que solução apresenta o relatório?

Propõe a criação de um modelo de adesão automática a fundos de pensões profissionais, através do qual uma parte do salário dos trabalhadores seria canalizada para fundos de pensões geridos por entidades privadas.

Formalmente, a adesão é voluntária. Na prática, o trabalhador entra automaticamente e tem de tomar a iniciativa de sair. O modelo assenta precisamente na expectativa de que muitos não o façam.

Esta opção está longe de ser socialmente neutra. Para quem tem um salário elevado, pode ser comportável. Para quem conta os euros até ao fim do mês, não é.

Serão precisamente os trabalhadores com salários mais baixos, carreiras mais instáveis e menor capacidade de poupança aqueles sobre quem este mecanismo terá maior peso relativo.

E esta solução não responde aos problemas associados à demografia, às novas formas de trabalho e à crescente diversidade das carreiras profissionais.

O que cria é um automatismo de transferência de uma parte dos salários dos trabalhadores portugueses para fundos privados de pensões assentes em contas individuais.

Torna-se inevitável perguntar: têm os trabalhadores e os empregadores margem para suportar novas contribuições?

Ou estamos perante uma alternativa, ainda que parcial, de reafetar contribuições para a Segurança Social, fragilizando um sistema assente na solidariedade entre gerações e na responsabilidade coletiva?

Será este o início de um caminho para um sistema de capitalização individual que, progressivamente, substitua o modelo público de repartição?

Aos poucos, pode mudar-se o centro de gravidade do sistema: o Estado garante menos, o mercado financeiro gere mais e o risco passa progressivamente para cada trabalhador.

É este o debate que temos de fazer.

Não precisamos de fabricar uma crise para justificar uma rutura de modelo.

A Segurança Social não é apenas uma conta financeira. É um dos grandes contratos sociais da nossa democracia.

Por isso, alterações à Segurança Social exigem rigor, diálogo social e escolhas políticas assumidas às claras, para que os portugueses saibam exatamente que sistema lhes está a ser proposto.

O país tem memória. Sabe quem defendeu e reforçou a Segurança Social pública e quem a quis enfraquecer.

O padrão começa a repetir-se.

E, neste momento, existe o risco acrescido de o debate ser contaminado por um discurso simplista, alimentado pelo descontentamento e pelo medo.

A Segurança Social é demasiado importante para ser usada como instrumento de medo, como pretexto para retirar direitos ou como oportunidade para abrir um novo mercado financeiro à custa de um sistema público construído sobre a solidariedade entre gerações.

Reforçar o sistema é essencial e decisivo. Isso implica diversificar as fontes de financiamento, melhorar a resposta às novas formas de trabalho, combater as desigualdades, reforçar sistemas complementares e incentivar a poupança.

Privatização silenciosa da Segurança Social, não.

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Sobre a confusão entre as contas da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações

(Ricardo Paes Mamede, in Facebook, 23/08/2026)

Paes Mamede

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O recente relatório sobre a Segurança Social explora uma confusão, muito pouco inocente, que é muito fácil de fazer neste debate: pensar que, como a Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações (CGA) pertencem ambas ao Estado, podemos juntar as duas contas e tirar daí conclusões sobre a sustentabilidade da Segurança Social. Mas isso mistura problemas muito diferentes.

A CGA – o regime público de pensões dos funcionários públicos que esteve aberto a novas adesões até 2006 – funciona de forma diferente da Segurança Social. Os seus beneficiários descontam para a CGA e as entidades empregadoras públicas também contribuem, mas uma parte muito importante do custo das pensões continua a ser coberta pelo Orçamento do Estado. Ou seja, quando essas receitas não chegam para pagar as pensões, o Estado cobre a diferença através das receitas gerais, nomeadamente dos impostos. A CGA é, por isso, em larga medida, uma responsabilidade financeira do Estado, enquanto a Segurança Social assenta num sistema contributivo com contas, receitas e responsabilidades próprias.

Há uma razão importante para a Segurança Social ter contas específicas e regras próprias de gestão, separadas das contas gerais do Estado. Não se trata apenas de tornar as contas mais transparentes. Trata-se também de proteger um sistema que assume compromissos durante décadas contra as eventuais opções financeiras do Governo que estiver em funções num determinado momento.

As contribuições dos trabalhadores e das empresas destinam-se a financiar a Segurança Social e não devem poder ser tratadas simplesmente como mais uma receita do Estado, disponível para pagar qualquer despesa. Por isso existem contas próprias, regras específicas para a gestão dos seus recursos e uma participação dos parceiros sociais – representantes dos trabalhadores e dos empregadores – no acompanhamento do sistema. A ideia é tornar mais difícil que um Governo resolva um problema orçamental de hoje utilizando recursos destinados a pagar as pensões de amanhã.

O caso que ocorreu com a CGA em 2004 ajuda muito a perceber por que razão esta separação é importante.

A Caixa Geral de Depósitos tinha um fundo com dinheiro reservado para pagar pensões dos seus trabalhadores. Em 2004, sob o governo de Durão Barroso, o Estado recebeu cerca de 2,4 mil milhões de euros desse fundo e, em troca, a CGA assumiu a responsabilidade de pagar essas pensões no futuro.

Esse dinheiro não foi colocado num fundo para pagar essas pensões, nem foi utilizado para reforçar a Segurança Social. Entrou nas contas públicas e foi usado para reduzir o défice do Orçamento do Estado, como uma receita extraordinária.

Ou seja, o Estado recebeu dinheiro naquele momento e utilizou-o para resolver um problema das suas contas, mas ficou com a obrigação de pagar aquelas pensões durante muitos anos. Quando chega a altura de pagar essas pensões, é suposto esse dinheiro vir do Orçamento do Estado e não da Segurança Social.

Alguém pode dizer: “Mas, no fim de contas, são sempre os contribuintes que pagam, logo que diferença faz?” Faz toda a diferença para percebermos qual é o problema e qual deve ser a solução.

Imagine-se que há vinte anos o Estado tinha pedido dinheiro emprestado para fazer uma auto-estrada e hoje tinha de pagar essa dívida. Naturalmente, os contribuintes teriam de suportar esse encargo. Mas ninguém diria: “Por causa desse investimento a Segurança Social está falida”. A dívida não é da Segurança Social, foi assumida pelo Estado e deve ser paga através do Orçamento do Estado – e não recorrendo aos recursos da Segurança Social.

Com a CGA passa-se algo semelhante. O Estado tomou decisões no passado, recebeu dinheiro em contrapartida e assumiu compromissos para o futuro. Se hoje esses compromissos pesam no Orçamento, isso é uma responsabilidade das finanças públicas. Não é uma prova de que as regras da Segurança Social sejam insustentáveis.

É por isso que juntar as duas contas pode ser tão enganador. Se eu pegar no défice da CGA, o somar às contas da Segurança Social e chamar ao resultado “défice do sistema de pensões”, quem está em casa conclui que a Segurança Social não tem dinheiro para pagar as pensões. Mas os números estão a dizer uma coisa bastante diferente: que o Estado tem hoje de pagar dívidas e compromissos que assumiu no passado e para os quais tem de afetar receita fiscal.

Claro que isso é um desafio. No final, alguém tem de pagar. Mas o diagnóstico é diferente – e, portanto, as soluções também são diferentes. Em vez de estarmos a querer alterar as regras da Segurança Social (penalizando um sistema que não está de todo em défice), estaríamos a discutir se faz sentido gastar tanto dinheiro em fragatas ou a perder tanta receita fiscal com cortes generalizados no IRC, por exemplo.