A privatização silenciosa da Segurança Social começa pelo discurso do medo

(Ana Mendes Godinho, in Público, 23/08/2026)


O país tem memória. Sabe quem defendeu e reforçou a Segurança Social pública e quem a quis enfraquecer.


O relatório do Grupo de Trabalho para a Reforma da Segurança Social, apresentado esta semana pelo Governo, surge envolvido numa aparente avaliação técnica. Mas as opções políticas fazem-se também de números, sobretudo da forma como se escolhe apresentá-los.

Comecemos pelo número assustador: 581,8 mil milhões de euros, quase 190% do PIB. Segundo o estudo, é a soma das transferências que o Estado terá de fazer ao longo de 85 anos, até 2111.

Importa perceber como se chega a este número.

O cálculo agrega à Segurança Social a conta da Caixa Geral de Aposentações (CGA), um regime fechado desde 2006 e financiado por transferências do Orçamento do Estado para pagar as pensões dos antigos funcionários públicos. Depois, projeta esses compromissos durante 85 anos, utilizando uma taxa de desconto de 0%, precisamente a opção que conduz ao valor mais elevado.

Vale a pena recordar que, utilizando outra metodologia, o Tribunal de Contas chegou, em 2025, a um valor de 228,2 mil milhões de euros para o conjunto dos dois sistemas.

Quando duas contas sobre o mesmo problema produzem resultados tão diferentes, estamos perante escolhas metodológicas, escolhas que têm de ser explicadas.

O financiamento das pensões da CGA é uma responsabilidade do Estado enquanto entidade empregadora e não deve ser confundido com um problema de sustentabilidade financeira da Segurança Social. É por isso necessário separar os problemas e olhar para os factos sobre a situação atual da Segurança Social.

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social fechou o primeiro semestre de 2026 com 49,3 mil milhões de euros, o equivalente a 28,3 meses de despesa com pensões e a uma taxa de cobertura de 236,3%. Corresponde atualmente a cerca de 16% do PIB português.

O saldo anual da Segurança Social ultrapassa os 6 mil milhões de euros. Não é o retrato de um sistema à beira da falência.

Esta almofada financeira foi construída para garantir o pagamento futuro das pensões e não pode ser chamada a suportar o défice da Caixa Geral de Aposentações.

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Naturalmente, a Segurança Social enfrenta desafios. O envelhecimento demográfico, a evolução da população ativa, a diferença de quase 40% no valor das pensões das mulheres, as novas formas de trabalho e carreiras contributivas cada vez menos lineares obrigam-nos a encontrar respostas que garantam o futuro.

Sempre defendi que a sustentabilidade da Segurança Social não se garante negando os problemas, mas enfrentando-os com rigor, planeamento e políticas públicas de longo prazo: políticas que valorizem o trabalho, diversifiquem as fontes de financiamento, reforcem a eficácia do sistema, assegurem níveis adequados de proteção e preservem a confiança entre gerações.

Foi por isso que criámos uma comissão de especialistas, plural e coordenada pela Organização Internacional do Trabalho, que elaborou o Livro Verde da Segurança Social, em 2024, com uma avaliação independente e propostas concretas. Essas propostas foram, entretanto, desprezadas.

Não é gerando desconfiança e medo que se protege um sistema que é, na sua essência, um pacto de solidariedade entre gerações.

E é aqui que este relatório deve ser lido em conjunto com outras opções políticas que estão em cima da mesa.

Há pouco tempo discutíamos uma alteração profunda à legislação laboral que voltava a facilitar a precariedade e a desequilibrar as relações de trabalho. Agora começa a construir-se uma narrativa sobre a insustentabilidade da Segurança Social.

Há uma linha ideológica preocupante entre a tentação de desregular o mercado de trabalho e a pressa em decretar a falência do sistema público de pensões.

A Segurança Social vive do pacto entre gerações, mas também vive da economia, do emprego, dos salários e das contribuições.

Primeiro fragiliza-se o trabalho; depois fragiliza-se a receita da Segurança Social; a seguir aponta-se essa fragilidade como prova de que o sistema público não é sustentável.

Durante demasiado tempo disseram-nos que a competitividade se fazia com baixos salários e que a precariedade era inevitável. A realidade mostrou o contrário. Não podemos agora repetir o mesmo método com a Segurança Social.

O caminho é reforçar o sistema de pensões, enquadrar as novas formas de trabalho, responder a carreiras profissionais diferentes dos modelos tradicionais e diversificar as fontes de financiamento, fazendo participar de forma mais ampla a riqueza gerada na economia.

É isto que temos de garantir, tendo presente que a melhor política de sustentabilidade da Segurança Social é uma boa política de emprego.

Mais pessoas na economia formal, melhores salários e menos precariedade significam mais contribuições, maior proteção social e uma Segurança Social mais sustentável.

Trabalho digno e uma Segurança Social robusta são duas faces da mesma política.

E que solução apresenta o relatório?

Propõe a criação de um modelo de adesão automática a fundos de pensões profissionais, através do qual uma parte do salário dos trabalhadores seria canalizada para fundos de pensões geridos por entidades privadas.

Formalmente, a adesão é voluntária. Na prática, o trabalhador entra automaticamente e tem de tomar a iniciativa de sair. O modelo assenta precisamente na expectativa de que muitos não o façam.

Esta opção está longe de ser socialmente neutra. Para quem tem um salário elevado, pode ser comportável. Para quem conta os euros até ao fim do mês, não é.

Serão precisamente os trabalhadores com salários mais baixos, carreiras mais instáveis e menor capacidade de poupança aqueles sobre quem este mecanismo terá maior peso relativo.

E esta solução não responde aos problemas associados à demografia, às novas formas de trabalho e à crescente diversidade das carreiras profissionais.

O que cria é um automatismo de transferência de uma parte dos salários dos trabalhadores portugueses para fundos privados de pensões assentes em contas individuais.

Torna-se inevitável perguntar: têm os trabalhadores e os empregadores margem para suportar novas contribuições?

Ou estamos perante uma alternativa, ainda que parcial, de reafetar contribuições para a Segurança Social, fragilizando um sistema assente na solidariedade entre gerações e na responsabilidade coletiva?

Será este o início de um caminho para um sistema de capitalização individual que, progressivamente, substitua o modelo público de repartição?

Aos poucos, pode mudar-se o centro de gravidade do sistema: o Estado garante menos, o mercado financeiro gere mais e o risco passa progressivamente para cada trabalhador.

É este o debate que temos de fazer.

Não precisamos de fabricar uma crise para justificar uma rutura de modelo.

A Segurança Social não é apenas uma conta financeira. É um dos grandes contratos sociais da nossa democracia.

Por isso, alterações à Segurança Social exigem rigor, diálogo social e escolhas políticas assumidas às claras, para que os portugueses saibam exatamente que sistema lhes está a ser proposto.

O país tem memória. Sabe quem defendeu e reforçou a Segurança Social pública e quem a quis enfraquecer.

O padrão começa a repetir-se.

E, neste momento, existe o risco acrescido de o debate ser contaminado por um discurso simplista, alimentado pelo descontentamento e pelo medo.

A Segurança Social é demasiado importante para ser usada como instrumento de medo, como pretexto para retirar direitos ou como oportunidade para abrir um novo mercado financeiro à custa de um sistema público construído sobre a solidariedade entre gerações.

Reforçar o sistema é essencial e decisivo. Isso implica diversificar as fontes de financiamento, melhorar a resposta às novas formas de trabalho, combater as desigualdades, reforçar sistemas complementares e incentivar a poupança.

Privatização silenciosa da Segurança Social, não.

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Sobre a confusão entre as contas da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações

(Ricardo Paes Mamede, in Facebook, 23/08/2026)

Paes Mamede

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O recente relatório sobre a Segurança Social explora uma confusão, muito pouco inocente, que é muito fácil de fazer neste debate: pensar que, como a Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações (CGA) pertencem ambas ao Estado, podemos juntar as duas contas e tirar daí conclusões sobre a sustentabilidade da Segurança Social. Mas isso mistura problemas muito diferentes.

A CGA – o regime público de pensões dos funcionários públicos que esteve aberto a novas adesões até 2006 – funciona de forma diferente da Segurança Social. Os seus beneficiários descontam para a CGA e as entidades empregadoras públicas também contribuem, mas uma parte muito importante do custo das pensões continua a ser coberta pelo Orçamento do Estado. Ou seja, quando essas receitas não chegam para pagar as pensões, o Estado cobre a diferença através das receitas gerais, nomeadamente dos impostos. A CGA é, por isso, em larga medida, uma responsabilidade financeira do Estado, enquanto a Segurança Social assenta num sistema contributivo com contas, receitas e responsabilidades próprias.

Há uma razão importante para a Segurança Social ter contas específicas e regras próprias de gestão, separadas das contas gerais do Estado. Não se trata apenas de tornar as contas mais transparentes. Trata-se também de proteger um sistema que assume compromissos durante décadas contra as eventuais opções financeiras do Governo que estiver em funções num determinado momento.

As contribuições dos trabalhadores e das empresas destinam-se a financiar a Segurança Social e não devem poder ser tratadas simplesmente como mais uma receita do Estado, disponível para pagar qualquer despesa. Por isso existem contas próprias, regras específicas para a gestão dos seus recursos e uma participação dos parceiros sociais – representantes dos trabalhadores e dos empregadores – no acompanhamento do sistema. A ideia é tornar mais difícil que um Governo resolva um problema orçamental de hoje utilizando recursos destinados a pagar as pensões de amanhã.

O caso que ocorreu com a CGA em 2004 ajuda muito a perceber por que razão esta separação é importante.

A Caixa Geral de Depósitos tinha um fundo com dinheiro reservado para pagar pensões dos seus trabalhadores. Em 2004, sob o governo de Durão Barroso, o Estado recebeu cerca de 2,4 mil milhões de euros desse fundo e, em troca, a CGA assumiu a responsabilidade de pagar essas pensões no futuro.

Esse dinheiro não foi colocado num fundo para pagar essas pensões, nem foi utilizado para reforçar a Segurança Social. Entrou nas contas públicas e foi usado para reduzir o défice do Orçamento do Estado, como uma receita extraordinária.

Ou seja, o Estado recebeu dinheiro naquele momento e utilizou-o para resolver um problema das suas contas, mas ficou com a obrigação de pagar aquelas pensões durante muitos anos. Quando chega a altura de pagar essas pensões, é suposto esse dinheiro vir do Orçamento do Estado e não da Segurança Social.

Alguém pode dizer: “Mas, no fim de contas, são sempre os contribuintes que pagam, logo que diferença faz?” Faz toda a diferença para percebermos qual é o problema e qual deve ser a solução.

Imagine-se que há vinte anos o Estado tinha pedido dinheiro emprestado para fazer uma auto-estrada e hoje tinha de pagar essa dívida. Naturalmente, os contribuintes teriam de suportar esse encargo. Mas ninguém diria: “Por causa desse investimento a Segurança Social está falida”. A dívida não é da Segurança Social, foi assumida pelo Estado e deve ser paga através do Orçamento do Estado – e não recorrendo aos recursos da Segurança Social.

Com a CGA passa-se algo semelhante. O Estado tomou decisões no passado, recebeu dinheiro em contrapartida e assumiu compromissos para o futuro. Se hoje esses compromissos pesam no Orçamento, isso é uma responsabilidade das finanças públicas. Não é uma prova de que as regras da Segurança Social sejam insustentáveis.

É por isso que juntar as duas contas pode ser tão enganador. Se eu pegar no défice da CGA, o somar às contas da Segurança Social e chamar ao resultado “défice do sistema de pensões”, quem está em casa conclui que a Segurança Social não tem dinheiro para pagar as pensões. Mas os números estão a dizer uma coisa bastante diferente: que o Estado tem hoje de pagar dívidas e compromissos que assumiu no passado e para os quais tem de afetar receita fiscal.

Claro que isso é um desafio. No final, alguém tem de pagar. Mas o diagnóstico é diferente – e, portanto, as soluções também são diferentes. Em vez de estarmos a querer alterar as regras da Segurança Social (penalizando um sistema que não está de todo em défice), estaríamos a discutir se faz sentido gastar tanto dinheiro em fragatas ou a perder tanta receita fiscal com cortes generalizados no IRC, por exemplo.

Cuidado com as carteiras! O Montenegro anda por aí!

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 18/08/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

(O autor não deu título ao texto, pelo que o título é da autoria da Estátua, que lhe pareceu apropriado… 🙂 )


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Querem transformar a tua reforma num negócio. E, para isso, precisam primeiro de te convencer de que a Segurança Social está falida.

A Segurança Social terminou 2025 com €6.712 milhões de excedentes no Sistema Previdencial.

Mas aparece agora um grupo escolhido pelo Governo a dizer-nos:

“Afinal, há um défice de €1.944 milhões.”

Como fizeram o truque de ilusionismo?

Foram buscar um velho regime da função pública, a CGA, fechado a novos subscritores desde 2006, carregado de pensionistas e com cada vez menos trabalhadores a descontar; meteram-no dentro da mesma fotografia da Segurança Social; retiraram das contas milhares de milhões que o Estado sempre lhe transfere para pagar responsabilidades antigas e…

Voilà: nasceu o défice para enganar tolinhos.

E quem acham que foi escolhido para fazer este “estudo”?

Comecemos pelo coordenador.

Descrição: 1️⃣Jorge Bravo

Foi coordenador nacional do Conselho Estratégico Nacional do PSD para o Trabalho e Segurança Social. Já trabalhou em reformas da Segurança Social durante o Governo de Passos Coelho e já defendia, no universo do PSD, algumas das soluções que reaparecem agora: contas individuais, capitalização e sistemas complementares privados.

Descrição: 2️⃣ Carla Castro

Ex-deputada da IL. Criou e dirigiu o Gabinete de Estudos do partido.

Descrição: 3️⃣ Pedro Serrasqueiro — CDS e Iniciativa Liberal.

Foi assessor parlamentar do CDS e, depois, assessor parlamentar da IL.

Descrição: 4️⃣ Raquel Andrada

Trabalhou no gabinete da Segurança Social durante Passos Coelho e voltou ao Governo com a AD.

Descrição: 5️⃣ Elsa Gomes

Governo Passos Coelho e Governo AD.

Descrição: 6️⃣ Luís Farrajota

Governo Passos Coelho e Governo AD.

Descrição: 7️⃣ Nuno Venes

Nomeado para funções dirigentes durante Passos Coelho e depois escolhido pela AD.

E ainda vários membros vindos diretamente de gabinetes do atual Governo:

Descrição: 8️⃣ Joana Vicente — gabinete do ministro das Finanças.

Descrição: 9️⃣ Fátima Mestre — gabinete do secretário de Estado do Trabalho.

Descrição: 🔟 Hugo Resina — gabinete da Segurança Social.

Isto não parece exatamente uma assembleia aleatória de economistas com todas as visões possíveis sobre o Estado social.

Isto parece uma reunião de negócios…

E há algo ainda mais extraordinário, o despacho que criou o grupo mandava estudar e desenvolver:

capitalização;

regimes complementares de reforma;

poupança individual;

planos profissionais;

prolongamento da vida ativa.

Ou seja:

Primeiro “encomendaram” a receita.

Depois foram inventar uma doença.

Escolhe-se quem faz o estudo.

Escolhem-se as perguntas.

Escolhe-se o que entra nas contas.

E define-se previamente que as soluções devem passar por capitalização e reformas complementares.

Depois aparece a manchete perfeita:

“Afinal, a Segurança Social está em défice.”

E milhões de portugueses começam a pensar:

“Então isto vai falir.”

Primeiro criam medo.

Depois convencem-te de que o sistema público não aguenta.

Finalmente, aparecem bancos, seguradoras e fundos de investimento para te “salvar”.

Mas salvar quem ???

Porque aquilo que hoje vai diretamente para um sistema coletivo passa a poder alimentar:

fundos de pensões;

gestoras de ativos;

seguros de reforma;

produtos financeiros;

comissões de gestão;

mercados bolsistas.

Milhões de trabalhadores.

Todos os meses.

Durante 30, 40 ou 50 anos.

Façam as contas ao tamanho brutal deste negócio para os milionário que financiam esses partidos.

A Segurança Social não é apenas uma instituição pública.

É um dos maiores fluxos permanentes de dinheiro do país.

E, nos últimos anos, esse saco encheu.

Porquê?

Porque Portugal criou emprego.

Porque aumentou brutalmente o número de pessoas a trabalhar e a descontar.

Porque salários e contribuições cresceram.

E porque centenas de milhares de imigrantes entraram no mercado de trabalho e começaram a pagar Segurança Social.

Em 2025:

o Sistema Previdencial teve +€6.712 milhões.

As contribuições cresceram cerca de 8,9%.

O emprego cresceu.

O número de contribuintes cresceu.

E os trabalhadores estrangeiros já representavam perto de 20% dos contribuintes, tendo explicado mais de metade do crescimento recente do número de pessoas a descontar.

É precisamente agora, quando há tanto dinheiro a entrar, que aparece uma súbita urgência em convencer-nos de que aquilo está praticamente falido.

Curiosa coincidência.

E aqui entra o grande truque da CGA.

A CGA é um regime em extinção.

Como deixou de receber novos subscritores em 2006, durante esta fase tem cada vez menos trabalhadores a financiá-la, enquanto continua a pagar as pensões acumuladas no antigo sistema.

Isso gera, naturalmente, uma forte necessidade transitória de financiamento público.

Mas essa necessidade não dura para sempre: à medida que os antigos subscritores se reformam e, posteriormente, os pensionistas falecem, também desaparecem progressivamente as responsabilidades da CGA.

Mas, entretanto, a manchete já fez o seu trabalho.

Milhões de pessoas não vão ler metodologia atuarial.

Vão guardar apenas isto:

“A Segurança Social está em défice.”

Missão cumprida.

Porque a próxima frase será:

“Temos de reformar o sistema.”

E depois:

“Precisamos de mais capitalização.”

Depois:

“Cada trabalhador deve ter a sua conta individual.”

Depois:

“As empresas devem contribuir para fundos complementares.”

Depois:

“O Estado deve incentivar fiscalmente a poupança privada.”

E, quando dermos por ela, uma parte crescente daquilo que devia garantir uma reforma pública digna estará a alimentar os mercados financeiros e o novo Lamborghini do acionista.

Eles cobram comissões quer a bolsa suba, quer a bolsa desça.

Tu é que ficas com o risco.

Uma crise financeira aos 35 anos pode dar tempo para recuperar.

Uma crise financeira aos 66, precisamente quando te vais reformar, pode destruir anos de poupança.

Num sistema público de repartição, o risco é distribuído coletivamente entre gerações e ao longo do tempo.

Num sistema cada vez mais individualizado e capitalizado, o risco começa a cair sobre ti.

Tiveste salários baixos?

Problema teu.

Ficaste desempregado?

Problema teu.

Paraste de trabalhar para cuidar dos filhos?

Problema teu.

Tiveste uma doença prolongada?

Problema teu.

A bolsa caiu no ano em que te reformaste?

Problema teu.

Viveste mais anos do que o modelo atuarial previa?

Também problema teu.

É a velha fórmula neoliberal: privatizar o rendimento e individualizar o risco.

E quando tudo correr mal?

Quando milhões de pensionistas ficarem sem rendimento suficiente?

Adivinhem quem terá de aparecer.

O Estado.

Ou seja:

nos anos bons, comissões e lucros privados.

Nos anos maus, risco público.

É um negócio extraordinário.

Só não é para nós.

Enquanto nos dizem diariamente que o problema de Portugal são os imigrantes, foram precisamente centenas de milhares desses imigrantes que chegaram, trabalharam e começaram a alimentar a Segurança Social.

Enquanto nos mandam olhar para ciganos, bairros, refugiados e estrangeiros, há gente muito mais acima a olhar para um saco com milhares de milhões de euros e a perguntar:

“Como é que transformamos isto num negócio?”

É por isso que esta história importa.

Estamos a discutir quem ficará com uma fatia gigantesca da riqueza produzida pelos trabalhadores portugueses nas próximas décadas.

Portugal vinha de anos de forte criação de emprego, recordes de contribuintes, aumento das receitas contributivas e uma Segurança Social com milhares de milhões de excedente.

Era um sistema público demasiado grande, demasiado rico e demasiado apetecível para ficar fora do alcance dos mercados.

Enquanto a direita radical mantém o país ocupado a culpar ciganos e imigrantes, outra direita prepara-se para abrir aos grandes interesses financeiros uma das últimas grandes reservas coletivas de riqueza dos portugueses.

Enquanto te distraem, outros vão metendo a mão no saco.

E esse saco contém a reforma dos nossos pais.

A nossa.

E a dos nossos filhos.