A guerra — A política SEM A MÁSCARA da Moral

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 12/10/2022)

(Texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que se consegue ir ouvindo na desmontagem da narrativa a que o “Império” nos vai sujeitando.

Estátua de Sal, 13/10/2022)


A guerra na Ucrânia decide a nova arquitetura do poder político mundial, não é uma luta do Bem contra o Mal. Quando referimos a palavra política associamos o termo a pelo menos 3 realidades: em primeiro lugar associamo-lo à administração da polis — tarefas administrativas, gestão — o que hoje surge englobado sob o grande chapéu de administração pública e tarefas do Estado, em segundo lugar a disputas partidárias, negócios disfarçados de falsas alternativas eleitorais, má-língua onde surgem alhos e bugalho, comentários enviesados, em terceiro lugar, mas raramente, à política entendida como o processo de definição de modos de organizar uma dada sociedade para a integrar em espaços mais vastos, isto é, falar da política como uma forma de pensar e de construir uma realidade tão próxima quanto possível da harmonia, da virtú, de que falava Maquiavel em o Príncipe e que nunca deixou de estar presente. A política virtuosa seria aquela que não sucumbe ao “poderio da caprichosa e inconstante Fortuna do momento”, o oposto da que tem sido praticada pelos que temos tido ao comando dos nossos destinos. Político virtuoso seria o que consegue ser senhor da sorte, ser o que determina as circunstâncias e não o que se deixa ir na sua espuma. É esta terceira abordagem da política que me interessa para analisar a guerra na Ucrânia.

Interessa-me abordar a relação entre a política e a guerra no âmbito geral da utilização da política para provocar, promover, desenvolver ações e conduzir campanhas para assegurar o objetivo principal da política e da guerra: o poder e, através do poder, acumular riqueza e mais poder.

A guerra nunca é, nunca foi uma luta dos bons contra os maus, do Bem contra o Mal, foi sempre uma disputa por vantagens, por bens materiais, por posições estratégicas que garantam mais poder, ou maiores facilidades de o obter. A guerra da Ucrânia decorre em obediência a estes objetivos.

 Há comentadores erigidos em estrelas televisivas desta guerra que não leram a História, que nem dos sumérios e dos persas têm notícia, nem da Bíblia, e há historiadores que não leram o Príncipe, de Maquiavel, nem o relato da guerra do Peloponeso, de Tucídides.

A política, reduzida à administração pública e à conversa onde se cruzam afirmações simplistas, descontextualizadas, sem relacionar causas e efeitos tem por finalidade fazer com que os homens e mulheres comuns, os simples de espirito do bíblico do sermão da montanha, não se interroguem sobre o que se se encontra por detrás das grandes e decisivas questões, aquelas que resultam da visão que uma dada sociedade tem do seu papel no mundo, na história, sobre as determinantes do futuro, os seus grandes objetivos, as ameaças internas e externas que enfrentam, o ambiente, o clima e as guerras.

Não é por acaso, nem por desejo de proximidade com o “povo” que os detentores do poder induzem os cidadãos a discutir bravamente um por cento nas pensões, um cêntimo no preço dos combustíveis, a falta de um pediatra num centro de saúde, o escândalo da nomeação de uma secretária ou de um assessor, a realização de um referendo para a mudança de nome de uma freguesia.

Fazem-no para que os homens e mulheres comuns não discutam a produção e distribuição da riqueza. É um ato político utilizar a pequena política para manter a grande política – a dos grandes interesses — fora das vistas e das ações das maiorias. É um ato político o truque de nos fazer olhar para a ponta do dedo e não para o que se encontra além.

É do que está por detrás do dedo que me proponho falar a propósito da guerra da Ucrânia. A guerra da Ucrânia é um acontecimento de política no seu sentido mais lato, com objetivos políticos, autores e consequências políticas.

Os atuais cidadãos europeus foram convocados pelos poderes instalados nos governos dos respetivos Estados para esta guerra na Ucrânia com a utilização de falsos argumentos idênticos aos que levaram milhões dos seus antepassados para as legiões de Roma, para as cruzadas, para as Américas, Ásia e África, para as guerras dos cem dias ou dos cem anos, para a La Grande Armée de Napoleão, para as trincheiras da Flandres e as rajadas de metralha da IGG.

Foram mantidos durante o tempo das ações preparatórias da guerra no mesmo grau de ignorância dos seus motivos dos europeus de há um século. A Grande Guerra de 1914 – 1918 travou-se para que industriais e banqueiros europeus acedessem às matérias-primas de África, necessárias para satisfazer a energia gerada pela Revolução Industrial e as suas caldeiras, mas essa causa real não podia ser assim exposta aos homens e mulheres de Inglaterra, da Alemanha, da França, da Itália.

Houve que falar em patriotismo, nacionalismo, soberania para justificar a guerra. Os políticos no poder falaram então em trazer os selvagens para a civilização dos cristãos, tal como os de hoje arengam sobre o direito dos ucranianos a serem trazidos para a civilização das multinacionais, quando do que se trata é de explorar a situação geoestratégica da Ucrânia para enfraquecer uma potência adversária.

A Grande Guerra estava a ser preparada desde a Conferência de Berlim (1884/5), da divisão de África, tal como esta na Ucrânia esteve a ser preparada desde o final da URSS e mais aceleradamente a partir de 2014. Nem a Grande Guerra começou com a morte do arquiduque de Áustria em Sarajevo, nem esta, na Ucrânia, com um delírio de Vladimir Putin (argumento que tem sido apresentado por políticos e publicistas como causa imediata e tem sido levado a sério até por setores informados da sociedade!) que o levou a decretar a invasão numa madrugada de Fevereiro de 2022.

A atual guerra na Ucrânia seguiu os mesmos caminhos de esconder sob um manto de moral abstrata os verdadeiros e reais interesses que são e foram a sua causa. A grande política é arte de manter os povos na ignorância do essencial e a morrer pelo que desconhecem. A grande política é a arte de impor um interesse da minoria através da ignorância da maioria.

Repare-se que desde a invenção da moeda até aos dias de hoje os homens comuns pagam bens e serviços com meios (geralmente um objeto metálico ou um papel com imagem e assinatura) de que desconhecem em absoluto como surgem, o que representam para além do valor facial do metal da moeda ou do papel da nota. Além das causas das guerras, os seres comuns são também mantidos na ignorância do modo como funciona o sistema financeiro mundial, por exemplo. Em que ao dinheiro não corresponde nada de concreto, nem conchas, nem sal, nem prata, nem ouro. O mesmo se pode dizer do valor das palavras e das explicações que são distribuídas ao povo pelos detentores do poder.

Esta guerra da Ucrânia estava inscrita na estratégia dos Estados Unidos desde o estabelecimento da política de longo prazo enunciada por Zbigniew Brzezinski, Conselheiro de Defesa dos Estados Unidos, há 25 anos, após o fim da URSS, na Conclusão do seu livro: «The Grand Chessboard»: “Está na hora de os Estados-Unidos formularem e porem em prática uma geoestratégia de longo prazo na Eurásia. Esta necessidade resulta de 2 realidades: A América é doravante a única superpotência mundial e a Eurásia é o palco principal do planeta (… ) A estabilidade da supremacia dos EUA sobre o mundo dependerão do modo como os EUA souberem manipular ou souberem satisfazer os principais atores geoestratégicos no tabuleiro. (…) O centro da Eurásia — espaço compreendido entre a Europa e a China só continuará a ser um “buraco negro” enquanto a Rússia não tiver resolvido os seus conflitos e decidido qual a sua atitude na cena internacional”… Este livro tem como complemento do Título American Primacy and Its Geostrategic Imperatives (1997) — A supremacia americana e os seus imperativos estratégicos. Foi editado pela Basic Books.

Este era, é, continua a ser, o conceito estratégico dos EUA para a Eurásia. A Rússia sob o governo do grupo de Putin terá outro, assim como a China, após Deng Xiaoping, e a Índia de Nheru e do Não Alinhamento, e que não assentam no reconhecimento da supremacia dos EUA como a única potência mundial. Supremacia é um conceito estratégico distinto de superioridade. Dos dicionários: «Soberania ou autoridade derradeira; poder absoluto e máximo.» É à luz da intenção de impor este poder absoluto e máximo que as ações estratégicas dos EUA devem ser analisadas, assim como as dos restantes grandes atores mundiais;

É neste quadro de disputa de poderes mundiais que se trava a guerra na Ucrânia, para o controlo da Eurásia. E é no controlo da Eurásia que Brzezinski inclui a Europa (União Europeia) que ele considera centrada na Alemanha e na França (a Inglaterra foi desde a II GM uma peça no bolso dos EUA). A UE, afastada a chanceler Merkl, entregue a Ursula Van Der Leyn e com o apoio de governos tradicionalmente dependentes dos EUA, caso da Polónia e dos Estados Bálticos, cumpriu o seu papel de apêndice dos EUA.

A estratégia apresentada por Brzezinski fazia e faz todo o sentido do ponto de vista dos EUA enquanto potência hegemónica a nível planetário. Como também faz todo o sentido que os seus estrategas atuais tenham desenvolvido uma longa manobra de envolvimento da Ucrânia e de aliciamento das elites políticas europeias no sentido de utilizar a Ucrânia como agente provocatório da resposta russa e de desencadear o confronto indispensável para a execução dos seus planos.

A transformação de uma canónica ação de desafio, de atração do inimigo a uma armadilha para o forçar ao combate em situação de desfavorável, é uma manobra estudada desde a antiguidade. A Batalha do Desfiladeiro das Termópilas é um exemplo clássico.

Hoje discute-se se a invasão russa foi uma ação de guerra preventiva — isto é uma ação para antecipar uma operação de guerra relâmpago das forças ucranianas e dos seus aliados para ocupar o Leste (Donbass), ou se foi um ato de agressão inexplicável, ou explicável pela demência do poder russo, reduzido a uma figura, Putin, o louco, dentro dos 10 princípios das boas técnicas de propaganda estabelecidas por Goebels: demonizar e individualizar um e um só inimigo!

Hoje, Outubro de 2022, já é indiferente qualificar esta guerra. Para a Europa ela está decidida. Por Europa quero dizer com toda a clareza a União Europeia, o Reino Unido, a NATO, com exceção da Turquia, dos EUA e do Canadá. Em termos de desempenho de papéis na estratégia definida por Brezinski para a Eurásia, podemos concluir que todos os dirigentes europeus atualmente no palco desempenharam os papéis para que haviam sido recrutados em obediência às normas de um casting onde quem não for do agrado do produtor da peça, os EUA, está inibido de pertencer ao elenco.

Recordem-se os assassínios de Aldo Moro, de Olaf Palme, do antigo secretário-geral da ONU, Dag Hammarskjold, morto no Congo e de tantos outros a quem aconteceu um acidente ou se viram envolvidos num escândalo por se desviarem do guião. De António Costa no extremo ocidental da Europa, a Kaja Kallas da Estónia, incluindo Ursula Von der Leyen da UE, são todos Ucrânia, isto é, são todos Zelenskis, procônsules (os funcionários que no império romano estavam encarregados do governo de uma província) mais ou menos evidentes dos Estados Unidos nos seus territórios.

Para a Europa, hoje, trata-se tão só de minimizar os danos no futuro, no jus post bellum. O massacre a que as opiniões públicas europeias têm sido sujeitas levou-as a aceitar estes dirigentes sem se interrogarem sobre a sua credibilidade. A acreditar nas explicações sobre as causas da guerra de homens e mulheres que já lhes haviam aparecido nos ecrãs de televisão ou nas colunas dos jornais a comentar incêndios, inflação, políticas de rendimentos e preços, veículos híbridos, justiça, saúde e epidemias, secas e inundações, casamentos e batizados, agitações sociais, religiões e expressões artísticas. Assim descrito, o fenómeno da transfiguração e multiplicação dos profetas pode parecer ridículo, mas o preocupante é que esta manipulação ocorreu diante de nós e a maioria dos europeus tomou-a como polivalência aceitável, talento de gente séria, alguns com credenciais académicas e assento em confrarias solenes que nos desejam ajudar a perceber a realidade, a alfabetizar-nos, a conduzir-nos ao verdadeiro caminho da salvação.

E não é a desfaçatez dos manipuladores que me surpreende, pois o seu papel é levar-nos a acreditar, como fazem os ilusionistas, mas que um público adulto tenha de facto acreditado que o ilusionista não só serrou o corpo da jovem assistente, como o recompôs!

Roçam o delírio as afirmações de Úrsula Van Der Leyen e do secretário da NATO de que após UE e NATO se envolverem na guerra, no acrítico apoio ao regime de Zelenski, nas sanções à Rússia e no empurrão desta para a aliança com a China e a Ásia os europeus estão mais fortes, mas têm crentes assanhados e sem dúvidas!

Doravante, os planeadores de operações psicológicas e de APSIC sabem que podem contar com a crença das massas nos seus números de televendas do Bem contra o Mal e de que o nosso inimigo não é igual a nós, o princípio de todos os racismos, de todos os nacionalismos e de todos os fanatismos.

A guerra na Ucrânia tem objetivos definidos, responde a interesses concretos, mas os cidadãos, nesta política de ignorância, nunca acedem ao interior da caixa negra, para utilizar a figura de análise social da Teoria dos Sistemas. São colocados perante factos consumados, pensamentos únicos — os inputs — e os dirigentes esperam que saiam da caixa sob a forma de crentes e de apóstolos de espada desembainhada, como Paulo de Tarso. As televisões e as redes sociais são a caixa negra desta guerra de transformar um conflito de interesses num vibrador de emoções.

A questão da escuridão na política, muito bem tratada em dois romances de Saramago, o «Ensaio sobre a cegueira» e o «Ensaio sobre a lucidez», deveria ser o centro da discussão política. Não é. Quanto à decisão sobre assuntos essenciais, da guerra, da vida e da morte, da justiça, do papel de cada Estado no mundo, das relações com os espaços físicos, económicos e sociais e, já agora quanto às causas da riqueza de umas nações e da pobreza de outras, lembrando Adam Smith, um humilde súbdito da Coreia do Norte tem exatamente o mesmo poder real de intervenção, de resposta e de interrogação que um ilustrado e democrático súbdito da rainha ou do rei de Inglaterra: Nenhum.

Ninguém perguntou aos coreanos do Norte se queriam ter armas nucleares, nem aos ingleses. Nenhum dirigente perguntou aos europeus se queriam declarar guerra à Rússia, tal como King Jong-un não pediu opinião aos coreanos do Norte quanto à guerra com os do Sul.

Estamos em guerra na Ucrânia, contra a Rússia, mas os europeus do século XXI sabem porventura menos sobre as suas causas do que os sumérios sabiam há cinco mil anos sobre o que os levou a combater em Lagash (entre o Iraque e o Irão atuais). Os sumérios tinham um objetivo definido e conhecido: terras aráveis. Estamos certamente mais próximo dos gregos da guerra do Peloponeso entre Tebas, Atenas e Esparta, sem sentido a não ser o poder das suas elites, mas de que resultou a derrota das três cidades-estado e a vitória da Macedónia, que neste caso da guerra na Ucrânia lembra a China!

Os Direitos da Humanidade ainda hoje não incluem o direito de saber o valor das coisas, nem como esse valor é estabelecido e, menos ainda, a ser informado das razões pelas quais os poderosos podem impor a perda da vida dos seus semelhantes para defenderem as suas propriedades e os seus privilégios. A resistência ao recrutamento de jovens russos é idêntica à resistência dos jovens portugueses em irem combater na IGG, ou na Guerra Colonial, ou dos americanos irem combater no Vietname.

O dever dos poderosos explicarem as suas alterações de apreciação sobre amigos e inimigos é ainda menos considerado. A chefe dos comissários da U E, Ursula Van der Leyen, não entendeu necessário explicar como passou a afirmar a partir de Fevereiro de 2022 que na Ucrânia de Zelenski são os nossos valores que estavam em causa, tal como afirmou o secretário-geral da NATO: somos a Ucrânia, são os nossos valores que estão em causa, quando o regime de Zelenski, abolira partidos, assassinara sindicalistas, desrespeitara acordos de autonomia e era considerado o 114º ou 122º Estado mais corrupto entre os representados na ONU, isto em Novembro de 2021! Como explicam os políticos estas mudanças de critério? Kissinger explicava estas transferências com o pragmatismo: são os nossos fdp. É uma resposta convincente, mas não deve ser tomada como exemplo de princípios morais. As cruzadas, a Inquisição e o colonialismo assentaram nessa moral de boné de beisebol: um tamanho serve a todos (one size fits all). Recuso aceitar que sejam bons exemplos.

A guerra da Ucrânia revela a eficácia da propaganda, mas devia precaver os cidadãos comuns contra o que lhe dizem ou lhe mandam dizer os poderosos. Na guerra da Ucrânia estamos numa floresta de enganos. Apenas sentiremos os seus resultados, sofreremos as suas consequências.

 A guerra da Ucrânia confirma que o sistema de representação política dito democrático e ocidental sofre de estrangulamentos deliberados, destinados a evitar que a voz do povo seja decisiva nos assuntos essenciais. A democracia dita liberal, que substituiu na Europa as monarquias absolutas, nunca foi um regime democrático e popular (temos em Portugal essa experiência histórica com os governos liberais resultantes da guerra entre absolutistas e liberais), a Revolução Francesa não originou nenhuma democracia, nem a Revolução Inglesa.

Os regimes saídos das grandes revoluções europeias dos séculos dezassete e dezoito foram sempre uma teia que banqueiros e comerciantes — as burguesias — teceram para exercer o seu poder e os seus valores. No final do século XX, a globalização e o acesso das grandes massas à informação, da substituição do texto escrito e impresso pela imagem e o som prontos a digerir num ecrã de televisão ou de computador criaram um problema de representatividade: Como levar os milhões de espetadores e de internautas a apoiar o grupo restrito do poder? Conhecemos a resposta dos poderes: Apelando à moral e ao nacionalismo! A moral — o Bem, claro, e o Nacionalismo, somos superiores, eleitos, bons e os outros são inferiores, desprezíveis e maus — estes têm sido os leitmotiv, os motivos condutores, os temas que se repetem sempre que é encenada uma ação para conseguir apoio popular. Apelando ao gosto da maioria, da moda, a política vende hoje o pensamento único como as cadeias de fast food vendem carne picada com molho gorduroso!

Na realidade a utilização do argumento da superioridade moral das democracias ocidentais sobre todos os outros sistemas de representação existentes no mundo é uma manifestação de falsa superioridade do homem branco e anglo-saxónico. É mais uma subversão da realidade. A única superioridade que conta é a da força, é o interesse do Estado, capturado por uma minoria oligarca. O resto são acompanhamentos e maionese para cobrir a realidade.

Através da análise da forma como a informação sobre esta guerra na Ucrânia tem sido utilizada, com o lançamento de cortinas de fumo, é possível perceber o que pensam os grupos dominantes da participação do povo nas decisões. Para eles, para a grande política, os cidadãos comuns são peças de caça que se devem deixar apanhar pela ilusão do bom pasto. Os políticos alguma vez explicaram as razões para o valor da moeda nacional? Ou explicaram que é um Banco Central? A política elucida os eleitores sobre o papel dos bancos centrais? E sobre a posse da terra? Já agora e voltando aos ingleses, que detinham a soberania do protetorado da Palestina, os democratas ingleses deram a palavra aos palestinianos sobre a invasão dos judeus refugiados do centro da Europa? E, mais tarde, a divisão do continente indiano por um advogado de Londres, Cyril Radclife, que nunca tinha ido à India, mas separou a União Indiana do Paquistão com uma régua, num processo de originou um êxodo de 16 milhões de pessoas e mais de 1 milhão de mortos foi tomada tendo alguma consideração pela democracia, pelos povos, pelas pessoas em Inglaterra ou no continente indiano?

O que está a ocorrer na Ucrânia é exatamente o mesmo que aconteceu na divisão da Índia Britânica, na guerra do Vietname, na Jugoslávia, no Iraque, que aconteceu com a divisão de África na Conferência de Berlim e, antes dela, na divisão do mundo entre Portugal e a Espanha em Tordesilhas. Onde esteve a voz do povo em todas estas ocasiões? Nas barrigas dos poderosos, nos folhos das suas golas altas.

Quanto à guerra na Ucrânia podemos perguntar a quem a preparou o mesmo que não perguntaram, nem nos disseram (a não ser a dois videntes nacionais — Paulo Portas e Durão Barroso) onde estavam as armas de destruição massiva no Iraque? A resposta será a mesma: os governos ditos democráticos nem informam os cidadãos, nem lhes perguntam a opinião. Montam gigantescas campanhas de manipulação de opinião, a cargo de empresas de opinião e de assessores — designados resolvedores de problemas — para enfiarem uma opinião pré formatada pela garganta dos cidadãos, tidos como gansos para produção de fois gras. Os cidadãos russos souberam tanto das razões da guerra na Chechénia quanto os americanos sobre o Vietname. A diferença terá sido no espetáculo informativo e em alguns bons filmes saídos dos estúdios de Hollywood.

A atual guerra não traz nenhuma novidade essencial, a não ser na utilização de armas de destruição maciça do sentido crítico da sociedade, reduzindo a poeira o direito à dúvida e à interrogação. De facto, nenhum político fornecerá aos eleitores elementos para eles decidirem sobre as vantagens de uma crise de penúria, de falências, inflação, decrescimento e desemprego na Europa. Hoje, na guerra da Ucrânia, como na crise do subprime de 2008 e da falência do Banco Lhemann Brothers, nenhum político (democrático ou autocrático) explica aos cidadãos comuns que eles estão a ser as vítimas circunstanciais de uma prepotência, ou de uma fraude, com origem no século dezassete, quando o rei Guilherme de Orange concedeu aos acionistas privados encabeçados pela família Rothschild o monopólio de emissão de moeda na região de Londres, dando-lhe assim duas das funções clássicas de um banco central: ser banqueiro do governo e deter o monopólio de emissão de moeda. Essas funções mantêm-se até hoje: os bancos centrais servem para financiar as guerras dos soberanos que representam as oligarquias no poder. Isto é, a política é, em resumo, um ciclo vicioso, em que os banqueiros emprestam dinheiro aos detentores do poder para estes fazerem as guerras que lhes interessam e servem os seus interesses.

Na guerra da Ucrânia é a política de hierarquia de poderes saída do final da guerra fria que está a ser posta em causa e a ser substituída por uma outra, com novas moedas, com novas esquadras navais, com novas potências espaciais. A guerra na Ucrânia é a borbulha visível da emergência de uma nova arquitetura de poder planetário desde que os Estados Unidos substituíram a Inglaterra no centro do mundo. Um sistema criado pela Inglaterra no século dezassete, através de um poder baseado nas armas que protegiam comerciantes dependentes de um sistema bancário, de seguros e de propriedades, que criou a árvore das patacas das dívidas soberanas e dos bancos centrais, tendo como moeda mundial de troca a Libra, primeiro e o Dólar, depois. O sistema em que cerca de 15% da população mundial dominava os 85% restantes.

“Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis.” Afirmou Mayer Amschel (Bauer) Rothschild. Num registo oposto disse James Garfield, presidente americano em 1881: Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão.”

James Garfield foi assassinado poucas semanas após ter proferido estas palavras e não foi o único presidente norte-americano morto por eles, Abraham Lincoln e John Kennedy foram assassinados pelos mesmos  Money changers (ou bancários), numa prática que remonta a Roma A.C. quando Júlio César pretendeu limitar a propriedade privada de terras ao máximo de 500 acres e liberalizar a cunhagem de moedas, que era feita pelos especuladores. Júlio César recuperou o poder de emitir moeda, tornando-o disponível para qualquer um que possuísse ouro ou prata, mas acabou assassinado, de ao seu assassínio e à crise da emissão de moeda as pessoas comuns perderam as suas casas e seus bens, da mesma forma como vimos acontecer na crise americana das hipotecas.

O que está hoje em jogo a propósito da Ucrânia, a causa da guerra é, como na batalha do Peloponeso, ou na guerra entre Persas e Romanos, o direito de emitir moeda, de impor uma relação de valor entre um objeto simbólico (moeda ou nota) e um bem. Sófocles, o filósofo grego parece ter sido o génio que inventou o dinheiro virtual, adicionando cobre às dracmas de prata, continuando estes a valer como se fossem de prata. Assim, os gregos compravam o trigo à Ucrânia quando esgotaram a sua capacidade de explorar minas de prata. Este processo tem hoje a pomposa designação de fractional reserve lending, ou “empréstimo sem cobertura de um valor material”, o que significa emprestar mais dinheiro do que se tem em caixa e que é a maior fraude de todos os tempos. O dólar é o velho dracma de cobre que vale como prata. No caso é um retângulo de papel que todo o mundo aceita, pela força, como valendo o que os seus emissores querem que valha. O dólar como moeda única de troca mundial é a causa da guerra da Ucrânia? A única, não. Mas alguém explicou que era uma das causas? Não. Esta é a alta política, a que é decidida nos clubes de Bildeberg, em Wall Street, em Davos…, mas também e cada vez mais em Pequim, em Nova Deli, em Ankara, em Teerão…

Nenhum político apresentará como uma das causas para a guerra na Ucrânia a manutenção do direito de um banco central e privado — no caso o FED dos Estados Unidos — praticar em regime de monopólio o dinheiro sem valor instituído no século dezassete como privilégio do Bank of England, constituído em 1694 e de natureza privada. Os nobres ingleses, a família real e a câmara dos lordes colocaram um banco privado a administrar todas as finanças e operações económicas de um país, o que equivale a entregar a nação a uma organização mafiosa de banqueiros que controla a economia com a finalidade de lucro e assim mantém a população totalmente refém de suas políticas financeiras. (Todos os Estados têm os seus Espirito Santo, os seus BPN, os seus BANIF e várias famílias reais).

A fabulosa fortuna dos Rothschild foi conseguida financiando os dois lados das guerras, garantindo no mínimo a duplicação dos lucros com os juros cobrados, vencesse quem vencesse. Há, sempre houve muitos políticos a colaborar com os Rothschild e a serem eleitos com o seu dinheiro para eles ainda aumentarem a sua riqueza e o seu poder. A guerra da Ucrânia é uma operação financeira, de especulação, de criação de incerteza para gerar lucros, conduzida por meios militares e de manipulação de massas, é uma guerra com os mesmos objetivos de tantas outras, a de Angola, por exemplo, a do Iraque e a da Líbia, apenas com os meios tecnológicos atuais.

Por detrás de cada guerra encontra-se sempre um objetivo: o lucro e a concentração do lucro num pequeno número de pessoas, que nos Estados Unidos são designados por multimilionários, banqueiros, empresários de sucesso e no mundo oponente são designados oligarcas, príncipes ou reis. A política que provoca guerras é a dos oligopólios e dos oligarcas, independentemente do nome. A política é um efetivo exercício de domínio. A finalidade da guerra é impor uma política (uma conjugação de vontade, meios e interesses) pela força.

Mas a guerra na Ucrânia revela que pela primeira vez uma superpotência — a Rússia — confronta militarmente um estado vassalo (a Ucrânia) da superpotência dominante e afronta os interesses dos seus banqueiros e das suas famílias reinantes. Este desafio tem um significado por si mesmo: a superpotência dominante já está a ser desafiada e não ousa envolver-se diretamente. Estamos perante um desafio político e estratégico sem precedentes e que deve ser analisado de forma racional. Aristóteles escreveu que entre a guerra e a política existem dois elementos que não podem ser discutidos: a Moral — o bem e o mal — nem o Direito, isto é a lei.

A questão da inaplicabilidade do Direito ao fenómeno da guerra resulta de apenas existir o Direito do vencedor, o único com força para impor um castigo. Quanto à Moral, o pensamento Ocidental a propósito da guerra assenta nos conceitos de Santo Agostinho do jus ad bellum, de um Estado só poder (dever) declarar guerra pelas razões adequadas, com um reta intenção, como último recurso, considerando a probabilidade de sucesso e utilizando meios de proporcionalidade, isto é, antes de iniciar a guerra, um Estado deve comparar os benefícios que espera que resultem dela com os malefícios.

O conceito de guerra justa é bondoso, mas falacioso. A colocação dos antagonistas na situação de agressor e de agredido é sempre circunstancial. Se as circunstancias se alterarem o agredido passa a agressor e todas as premissas se invertem e são utilizadas segundo a conveniência dos contendores.

Com tanto recurso a argumentos históricos, histórias da Rússia para todos os gostos, nenhum político, nem nenhum dos manipuladores de opinião pública nos recordou que foi a guerra da Crimeia que esteve na origem do modelo de desenvolvimento do império britânico no século dezassete. Na origem do pensamento geoestratégico do império marítimo, por oposição aos impérios continentais, esteve o aproveitamento que a Inglaterra fez das guerras napoleónicas para constituir uma rede de apoio à expansão militar e económica do Império com portos militares. Os ingleses — tão ucranistas e soberanistas hoje — aproveitaram a decadência dos impérios Otomano e Chinês para desencadear a guerra da Crimeia com o objetivo, de impor uma zona de influência, controlar áreas estratégicas e impedir os russos de alcançar o Mediterrâneo.

 Nada de aparentemente distinto da estratégia dos EUA que aproveitaram o desmembramento da União Soviética para imporem a sua supremacia. Fizeram-no utilizando os mesmos argumentos do império britânico, designados na altura por humanitarismo. Uma retórica moral de civilizar, democratizar, libertar o mercado para conseguir o desenvolvimento, a paz e o bem-estar, que passou a ser utilizada para garantir o controlo territorial sem causar comoção na opinião das massas metropolitanas ou coloniais (e a Europa é hoje uma colónia), mobilizando-as a favor da intervenção, em nome de uma missão civilizadora, de conversão à democracia, contra os ditadores, cujos resultados são visíveis na desagregação da Jugoslávia, na Bósnia, no Kosovo, o berço do mercenarismo islâmico, no Iraque, na Líbia, na Síria, em África.

O atual discurso do humanitarismo, que refere um conceito de soberania absoluta aplicável aos atuais dirigentes do Estado da Ucrânia (criado em 1991) e que tomaram o poder em 2019, com a eleição de Vladomir Zelenski, com base num programa de união entre as populações falantes de russo e ucraniano, da “desoligarquização” (corrupção em larga escala) do país e da promessa de acabar com a já muito violenta guerra russo-ucraniana no Leste. Zelenski não cumpriu nenhuma das promessas, mas, no entanto, os políticos democráticos ocidentais (à semelhança do que fazem nos seus países, mas de forma mais sofisticada) entenderam que o seu regime tinha direito e a legitimidade para subalugar o seu território para instalação de armas da NATO que ameaçariam a vizinha Rússia.

A estratégia dos EUA de afrontamento militar e económico com a Rússia para controlo da Eurásia parece de alto risco. De facto, essa estratégia promove a transferência de poder para a China. Ao atirar a Rússia para uma aliança preferencial com a China a estratégia americana induz o perverso efeito de aliar um forte poder continental, a Rússia, a um emergente mas já considerável poder naval, a China. O conjunto de poder China-Rússia é superior ao dos EUA na zona decisiva do Pacífico.

Os EUA optaram por absorver a UE, sem qualquer valor de hard power, em vez de introduzirem um elemento perturbador entre eles e a China e os cidadãos europeus foram esmagados por um massivo tapete de manipulação, de imposição de pensamento único, de acusações de traição a quem criticasse a versão dos EUA e dos seus agentes na UE e na NATO, chegando ao ponto de verem violados os apregoados princípios de liberdade com a instauração da censura.

A guerra na Ucrânia revelou a importância da 5ª dimensão da Guerra: a Comunicação, mas ela revelou também o antagonismo, entendido como uma contradição insuperável, entre a “grande política” e a cidadania democrática. A utilização pelos políticos dos meios de controlo e manipulação das mentes, da arma da comunicação, enquanto opção política para ganhar a adesão de uma maioria de apoiantes não é compatível com a informação leal e com o respeito pelas opiniões da maioria. A conhecida frase de que a verdade é a primeira vítima da guerra tem um significado ainda mais doloroso: a verdade não é compatível com o exercício do poder. Daí ser tão importante uma informação livre do poder e ser tão tentador para o poder o domínio dos meios de comunicação.

Os novos regimes que estamos a ver nascer na Europa, gerados por Estados resultantes de partilhas recentes e cujos povos nunca viveram as revoluções liberais e burguesas originárias da Inglaterra e da França, casos da Polónia, da Hungria, da Eslováquia, da república Checa, Bulgária, da Ucrânia, da Lituânia, da Estónia ou da Letónia, mas até da Finlândia e da Suécia, por vezes classificados como iliberais, de ensurdecimento e de emudecimento dos cidadãos comuns é um dos resultados mais dramáticos desta guerra. Estamos no limiar de um novo paradigma político que já não é do de uma democracia liberal. É indispensável a existência de meios de informação que forneçam o contraditório à propaganda dos detentores do poder. E não devemos cair na fácil tentação de considerar os governos como os únicos detentores do poder de facto. Na realidade, os governos (mais ou menos legitimados) são apenas um dos instrumentos de exercício do poder, dos menos decisivos, aliás, de menor importância do que a propaganda, enquanto manipulação de mentes; e menos determinantes, muito menos, do que a oligarquia financeira, enquanto arma de manipulação da distribuição e acumulação da riqueza.

Por fim temos o Jus post bellum, que diz respeito à fase final da guerra, quando esta está já decidida. Trata-se de saber o que fazer uma vez terminada a guerra a quente. Na Ucrânia embora se travem duros combates e possa ocorrer uma escalada perigosa, todos os objetivos foram alcançados e podemos analisar as consequências da guerra na nova arquitetura do poder mundial.

O que pretendiam os dois grandes atores desta guerra?

A Rússia pretendia evitar que a Ucrânia se tornasse um vizinho hostil e que subalugasse o seu território ao seu opositor, os Estados Unidos. Conseguiu. A Ucrânia deixou de ter possibilidade não só de ser uma base de ataque, mas até um Estado viável, na medida em que tem as suas infraestruturas essenciais destruídas: terrenos aráveis, vias de comunicação, centrais de energia, portos, aeroportos, escolas, hospitais e, principalmente os seus recursos humanos, ou mortos na guerra, ou exilados.

Os Estados Unidos, à custa dos ucranianos comuns, da vida dos jovens, do sacrifício de adultos e velhos, conseguiram desgastar o aparelho militar e o sistema produtivo da Rússia, desgastar o poder político do grupo de Putin, abrir fissuras entre políticos e militares russos, entre o poder e a sociedade civil e cortar ligações da Rússia com outros espaços, afetando o seu prestígio internacional. Conseguiram separar a União Europeia da Rússia evitando a criação de um grande espaço com autonomia estratégica entre os EUA e a China — a tal estratégia de domínio da Eurásia que Brzezinski referia como essencial à supremacia dos EUA. Reduziram a UE a um estado vassalo.

A UE deixou de contar na estratégia de poder mundial e, em minha opinião, entrará num processo de grande turbulência social e política que replicará em versão aumentada a desagregação da Jugoslávia.

Parece razoável concluir que os grandes derrotados desta guerra são a Rússia e a UE. A estratégia europeísta promovida no Ocidente por figuras como Giscard D’Estaing, Miterrand e Delors, por Adenaur, Helmut Khol e Angela Merkel de uma União Europeia que incluísse a Rússia, que fosse do atlântico aos Urais, que dispusesse de uma moeda de troca mundial alternativa ao dólar, que fosse socialmente avançada e não liberal, foi estrondosamente derrotada.

A Rússia perdeu os seus europeístas, o que incluía o grupo de São Petersburgo de onde emergiu Putin, e estes tiveram de optar pela aliança a Oriente com a China em condições de subalternidade, enquanto a UE se afundou na condição de anexo militar americano, de ponta de lança dos interesses dos EUA, de força auxiliar de fixação de meios da Rússia na fronteira Ocidental, para que a China não receba reforços na luta pelo controlo do Pacífico e do Índico quando chegar o momento decisivo dos Estados Unidos, aquele em que se desagregam, ou se tornam um poder assumidamente totalitário.

O que podemos esperar? A guerra a partir de agora tem apenas como finalidade desgastar a Rússia, que é um dos objetivos estratégicos explicitados pela atual administração dos EUA, humilhar a Rússia para que ela não possa ser um competidor no mercado mundial de armas, nem possa ser um aliado da China na instalação da Rota da Seda e no domínio do Pacífico e para acentuar divergências na UE que levem a vários Brexit — casos da Polónia (que pode assumir o papel de Cavalo de Troia até agora representado pela Inglaterra) e à sua desagregação.

É a vitória dos EUA! Mas esta tem fortes probabilidades de ser uma vitória pírrica: Com esta guerra, os Estados Unidos empurraram a Rússia para uma aliança mais estreita com a China e com a Índia, até com a Turquia. Ora, assentando atualmente e num futuro próximo o poder mundial em três vetores, o poderio nuclear, o espaço e a finança, o conjunto criado pela Rússia e a China, mais a Índia, tem um poderio nuclear superior aos EUA, têm o mesmo ou maior poderio no domínio do espaço e pode criar uma moeda de troca mundial juntamente com a Índia que retire o monopólio ao dólar. Este monopólio resulta, aliás, de um diferencial de poder que já não existe. A captação da UE pelos EUA nada acrescenta ao seu potencial, nem nuclear, nem no espaço nem nas finanças. A integração da UE nos Estados Unidos nada acrescenta ao papel dos europeus no mundo, antes pelo contrário.

Numa análise racional, pareceria mais vantajoso para os EUA terem mantido a UE e a Rússia como 3º polo de poder mundial, entre eles e a China, mas essa estratégia implicava pensamento estratégico de alguém que tivesse lido Maquiavel, ou Sun Tse, ou até o padre António Vieira… Seria exigir demais à cultura de uma sociedade herdeira dos princípios dos jovens predadores que chegaram a um novo continente dispostos a esquecer o passado e a viver o presente.

O Padre António Vieira, no «Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda», pregado na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na cidade da Baía, em 1640 falava aos que acreditam em guerras de bons contra os maus, a ponto de acusar Deus, de tal forma ela foi entregue aos interesses mais vis dos homens. Vieira referia-se à guerra entre Holandeses e Portugueses pelo domínio do Brasil, mas o que escreve adapta-se à guerra na Ucrânia.

“O que se vive na Baía já se viveu nos tempos bíblicos. Então como agora, Deus parecia abandonar os seus, pondo em causa os seus próprios pergaminhos. Se não os ajuda por amor e dó, que os não desampare para ele próprio não ficar mal visto. Foi assim na travessia do deserto, ante o castigo iminente provocado pela adoração do bezerro de ouro. Que Javé, ao menos, salve a face. Pois, se aniquila os povos, que diriam os egípcios desse Deus que o tirara da escravidão? Ne quaeso dicant Aegyptii (Ex 32,12): «Por favor, não digam os Egípcios». Moisés perguntava «que dirão: E eu digo e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes (os russos, desde logo) com os sucessos prósperos, que Vós lhe dais, ou permitis que a sua é a religião verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e que a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. (…)”

Vieira interroga-se sobre o que diriam os egípcios do desamparo a que o deus dos judeus deixava os seus crentes e interrogava-se do que diriam os portugueses do desamparo do seu. Hoje, os cidadãos da UE e também da Grã-Bretanha vivem a mesma perplexidade dos judeus e dos portugueses: Não digam aos russos, nem aos chineses, nem aos indianos, nem aos africanos, nem aos sul-americanos o que nos fizeram os nossos deuses de Bruxelas e de Washington com esta guerra, com estas sanções, com as suas ambições, com os seus negócios!

A guerra no Brasil entre portugueses e holandeses era na realidade uma guerra entre ingleses e holandeses num território que interessava a ambos. Vieira, depois de pedir a Deus que «Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, que derrotem e desbaratem as dos holandeses», crava os olhos no juiz e arguido ao mesmo tempo, ou seja, no próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento exposto na igreja onde pregou: «Que Deus assuma as suas responsabilidades. Caso contrário, não só ficará mal visto como sofrerá as consequências. E ainda terá de pagar as custas do processo! As custas de toda a demanda também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há-de dar a vossa mesma graça as razões com que Vos hei-de arguir, a eficácia com que vos hei-de apertar, e todas as armas com que vos hei-de render.»

Vieira teve a coragem de interrogar Deus e de o acusar. Nós não. Nós baixamos a cabeça aos bezerros de ouro de Bruxelas, os da UE e da NATO. Vieira afirmou que Deus pagaria as custas do processo e nós entendemos que deve ser o diabo, os outros, a pagá-lo. Mas seremos a pagá-lo. Somos sempre.


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A UE caminha sonâmbula para a anarquia

(Por Thomas Fazi, in a Viagem dos Argonautas, 08/10/2022)

Biden é o Padrinho… 🙂 Este excelente texto tinha que ser acompanhado por um excelente cartoon – in Resistir, 09/10/2022

Todos os olhos podem estar postos nos resultados das eleições italianas desta manhã, mas a Europa tem problemas muito maiores nas suas mãos do que a perspetiva de um governo de direita. O Inverno está a chegar, e as consequências catastróficas da crise energética europeia autoimposta já estão a ser sentidas em todo o continente.

À medida que os políticos continuam a elaborar planos irrealistas de racionamento energético, a realidade é que o aumento dos preços da energia e a queda da procura já fizeram com que dezenas de fábricas numa gama diversificada de indústrias intensivas em energia – vidro, aço, alumínio, zinco, fertilizantes, químicos – cortassem na produção ou encerrassem mesmo, provocando o despedimento de milhares de trabalhadores. Até mesmo o New York Times pró-guerra foi recentemente forçado a reconhecer o impacto “paralisante” que as sanções de Bruxelas estão a ter sobre a indústria e a classe trabalhadora na Europa. “Os elevados preços da energia estão a atacar a indústria europeia, forçando as fábricas a cortar rapidamente a produção e a colocar dezenas de milhares de trabalhadores em licença”, relatou o New York Times.

Os cortes na produção de zinco, alumínio e silício (que representam uns espantosos 50% da produção) já deixaram os consumidores das indústrias siderúrgica, automóvel e da construção europeia a enfrentar graves carências, que estão a ser compensadas por remessas da China e de outros países. Entretanto, as fábricas de aço em Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países – mais de duas dúzias no total – estão a começar a abrandar ou a parar completamente a sua produção.

A indústria de fertilizantes, que depende fortemente do gás como matéria-prima chave, bem como fonte de energia, está em dificuldades ainda maiores. Mais de dois terços da produção – cerca de 30 fábricas – já foi interrompida. A importante empresa química alemã BASF encerrou temporariamente 80 fábricas em todo o mundo e está a abrandar a produção em mais 100, uma vez que planeia novos cortes de produção, dependendo do que acontecer aos preços do gás. Para piorar a situação, as sanções da UE também limitaram as importações de fertilizantes russos.

A diminuição do fornecimento de fertilizantes está também a ter um efeito de arrastamento dramático sobre os agricultores europeus, que estão a ser forçados a reduzir a sua utilização de nutrientes chave. Isto significa preços mais elevados para uma menor produção, e as consequências são inevitavelmente sentidas muito para além das fronteiras da Europa, provocando potencialmente uma escassez alimentar global.

Mas a escassez de fertilizantes não é o único problema enfrentado pelos agricultores europeus. Em toda a Europa do Norte e Ocidental, os produtores de vegetais estão a ponderar a suspensão das suas atividades devido aos custos energéticos paralisantes – em alguns casos dez vezes superiores aos de 2021 – necessários para aquecer as estufas durante o Inverno e manter as colheitas refrigeradas, para além do aumento dos custos de transporte e embalagem. O grupo da indústria das estufas Glastuinbouw Nederland diz que até 40% dos seus 3.000 membros já se encontram em dificuldades financeiras. Isto ameaça ainda mais o abastecimento alimentar – e levará certamente a preços ainda mais elevados dos alimentos que, juntamente com o aumento das contas de energia, é provável que leve milhões de europeus à pobreza. Por outras palavras, a crise europeia da energia e do custo de vida está em vias de se transformar numa crise humanitária.

No Reino Unido, prevê-se que 45 milhões de pessoas enfrentem a precaridade energética até Janeiro de 2023; como resultado, “o desenvolvimento de milhões de crianças será prejudicado” com danos pulmonares, stress tóxico e desigualdades educativas cada vez mais profundas, à medida que as crianças lutam para acompanhar o trabalho escolar em lares gelados. Perder-se-ão vidas, alertam os especialistas. Entretanto, no distrito alemão de Rheingau-Taunus, as autoridades realizaram uma simulação do que tal apagão significaria para elas, e os resultados são chocantes: mais de 400 pessoas morreriam nas primeiras 96 horas. E isto num distrito de apenas 190.000 habitantes.

Ora, estes números podem estar sobrestimados, mas o governo local não pode dar-se ao luxo de os ignorar. De facto, Gerd Landsberg, director-geral da Associação Alemã de Cidades e Municípios, exortou os residentes a armazenarem água e alimentos para 14 dias. Gerd Landsberg diz que a Alemanha não está “de forma alguma” preparada para tal cenário.

O que é importante compreender é que esta não é uma crise temporária em que tudo o que precisamos de fazer é ranger os dentes durante o Inverno, após o que as coisas voltarão ao normal. A realidade, como o Diretor executivo da Shell deixou claro recentemente, é que se os governos europeus insistirem em dissociar a Europa do abastecimento russo, o continente enfrentará escassez de gás “suscetível de durar vários Invernos”. É uma verdade amarga, mas simplesmente não há alternativa a curto prazo ao gás da Rússia. De facto, a Comissão Europeia prevê que os preços do gás e da eletricidade “permaneçam elevados e voláteis até, pelo menos, 2023”.

Dito de forma simples, se se mantiver no seu rumo atual, a Europa está a ter pela frente anos de contração económica, inflação, desindustrialização, declínio do nível de vida, empobrecimento em massa e escassez – e isto sem ter em conta a perspetiva aterradora de um confronto militar direto com a Rússia. Como pode alguém pensar que a Europa pode sobreviver a isto sem mergulhar na anarquia?

A loucura da situação torna-se ainda mais evidente  quando consideramos que, na sua tentativa de reduzir a sua dependência do gás russo, a UE está a aumentar a sua dependência dos fornecimentos de países como a China e a Índia – que, ao que parece, estão simplesmente a revender à Europa gás que vem da… Rússia (a um preço mais elevado, claro). Se a vida das pessoas não estivesse em risco, tudo isto pareceria uma piada de mau gosto.

É verdadeiramente um sinal da fraqueza dos políticos europeus que, apesar da proximidade do precipício, ninguém se atreva a afirmar o óbvio: que as sanções têm de acabar. Não há simplesmente qualquer justificação moral para destruir o sustento de milhões de europeus simplesmente para  dar uma lição a Putin, mesmo que as sanções estivessem a ajudar a atingir esse objetivo, o que claramente não estão.

E assim, de forma bastante deprimente, a única voz da razão parece ser a do primeiro-ministro da Hungria, Victor Orbán. Há semanas que ele e outros membros do seu governo têm vindo a alertar sobre a calamidade económica que a Europa enfrenta. “As tentativas de enfraquecer a Rússia não tiveram sucesso”, disse ele recentemente. “Pelo contrário, é a Europa que poderia ser posta de joelhos pela inflação brutal e pela escassez de energia resultante de sanções”. Esta é uma afirmação de facto, não uma simples opinião. Mas ninguém parece querer ouvir.

Em resposta, os tecnocratas em Bruxelas estão a provar ser tão insensatos quanto são os dirigentes  nacionais. Não só a delirante abordagem da UE à Rússia é uma das principais causas da presente crise, como a sua liderança continua a deitar gasolina na fogueira. Ainda este mês, Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, disse que “a estratégia contra a Rússia está a funcionar e deve continuar” – e prometeu novas sanções.

Pior ainda, a UE não está sequer a fazer nada para ajudar a amortecer os efeitos da crise que ajudou a criar. Depois de abandonar a ridícula proposta de limitar apenas o preço do gás russo – o que teria levado ao corte imediato deste último – Bruxelas está agora a ponderar um limite a todas as importações de gás, o que até o Ministro de Estado alemão para a Europa advertiu que poderia levar a uma grave escassez.

A proposta também não tem em conta um facto básico: não são os exportadores de energia que estão a aumentar o preço do gás; este último está hoje ligado ao preço a que o gás é comercializado em mercados comerciais virtuais, como o TTF em Amesterdão, onde especuladores têm vindo a aumentar os preços durante meses, obtendo enormes lucros. Além disso, no mercado liberalizado de hoje, que se baseia no chamado preço de custo marginal, o preço final da energia é fixado pelo combustível mais caro necessário para satisfazer todas as exigências – neste caso, o gás. Isto significa que à medida que os preços do gás sobem, também a eletricidade, mesmo que mais barata, contribui para a mistura total.

Assim, se a UE levasse a sério a questão dos preços da energia, dissociaria o preço do gás dos mercados comerciais especulativos e reformularia o sistema de preços de custo marginal. Mas isso iria contra a ideologia fundamental dos tecnocratas europeus: a ideia de que os preços deveriam ser fixados pelos mercados. De facto, a UE estava entre os mais fervorosos apoiantes, contra o conselho de Putin, (n.t. – explicado num artigo da CNBC americana) da mudança de negócios de gás de preço fixo a longo prazo para um sistema em que o preço é fixado por mercados comerciais virtuais.

Dada a improbabilidade de uma reforma radical, o que fará Bruxelas a seguir? Muito provavelmente contentar-se-á com soluções mal cozinhadas – tais como um teto sobre o excesso de receitas feito pelas centrais elétricas que não são de gás e um imposto excepcional sobre os lucros excedentários – bem como com aquilo que faz melhor: aplicar a austeridade. Entretanto, o BCE, em vez de anunciar uma nova ronda de compras de obrigações para proporcionar aos governos o dinheiro de que necessitam para proteger os cidadãos e as empresas da subida dos preços do gás e da energia, começou a reduzir os seus programas de flexibilização quantitativa e a subir as taxas de juro, fazendo com que o spread entre as obrigações do governo a 10 anos emitidas pela Itália e Alemanha se alargasse aos seus níveis mais elevados desde que a pandemia começou. Isto poderia facilmente precipitar uma nova crise da dívida, que é a última coisa de que a Europa precisa.

Sem o apoio dos bancos centrais, os governos da UE têm sido essencialmente deixados à sua sorte. Mais uma vez somos recordados do que significa para os países do euro terem abdicado do poder de emitir o seu próprio dinheiro; não é coincidência que o Reino Unido por si só tenha alocado mais que 50% do que foi reservado pelo conjunto da UE.

Isto já está a conduzir para políticas que remetem para as costas dos outros os custos da resolução dos nossos problemas (beggar-thy-neighbour): países, como a Alemanha, que podem contar com os mercados financeiros para angariar o dinheiro de que necessitam para ajudar os cidadãos e as empresas, e nacionalizar ou socorrer os serviços públicos de energia em dificuldades, irão inevitavelmente ultrapassar os países mais fracos que já enfrentam dificuldades nos mercados obrigacionistas, como a Itália. De facto, isto já está a começar a acontecer, uma vez que cada vez mais países se envolvem no que só pode ser descrito como protecionismo energético.

Em teoria, a segurança do gás na Europa é regida por um regulamento adotado em 2017, que torna obrigatória a solidariedade entre os países europeus. Mas os países da UE nem sempre cumprem essas regras quando confrontados com uma crise de aprovisionamento. Assim, por exemplo, o jornal italiano La Repubblica noticiou recentemente que a Itália tinha recebido uma notificação escrita da EDF, empresa pública estatal francesa, relativa a uma potencial paragem de dois anos nas exportações de energia como parte dos planos de poupança de energia da França. Um porta-voz do Ministério da Transição Ecológica italiano confirmou mais tarde a reportagem do jornal, embora tenha sido negada pela EDF. Do mesmo modo, a Croácia e a Hungria anunciaram ambos que tencionam implementar medidas para limitar as exportações de gás natural para os países vizinhos. Enquanto a Noruega, que suplantou a Rússia como a maior fonte de abastecimento de gás da UE, obtendo lucros gigantescos à custa de preços de gás mais elevados, recusou-se assim a apoiar um limite de preços nas suas exportações de gás.

No entanto, embora lamentar tal “falta de solidariedade” entre os Estados europeus seja fácil, também é ingénuo. Afinal de contas, é simplesmente assim que o capitalismo funciona. Apesar de toda a conversa sobre “capitalismo global”, as nações individuais – ou melhor, as suas respetivas elites capitalistas – ainda estão envolvidas em competição entre si. Enquanto as classes dirigentes de países individuais estão mais do que felizes em colaborar na prossecução dos interesses do capital em geral à custa dos trabalhadores – basta olhar para a União Europeia – os seus interesses concorrentes ressurgem inevitavelmente em tempos de crise.

Na realidade, a UE, longe de encorajar a solidariedade entre países, torna a concorrência inter-capitalista ainda mais feroz, ao privar os países dos instrumentos económicos básicos necessários para lidar com choques externos. Não importa se o continente está a sofrer um colapso financeiro, uma pandemia global ou uma escassez de energia. Na Europa, as políticas de exportar os seus problemas para as costas dos outros não são uma exceção à regra – elas são a regra.

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


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Quem lucra com o terrorismo de gasoduto?

(Por Pepe Escobar, in Resistir, 02/10/2022)

Fontes diplomáticas confirmam que Berlim e Moscou estiveram envolvidos em uma negociação secreta para resolver os problemas do NS1 e do NS2. Então eles tinham que ser parados – sem restrições. Do ponto de vista geopolítico, a entidade que teve o motivo de travar um acordo tem ódio a uma possível aliança no horizonte entre Alemanha, Rússia e China.


Ler artigo completo em: Quem lucra com o terrorismo de gasoduto?


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