(Hugo Dionísio, in Denorteasul.eu., 08/10/2026)

Um espectro ronda o mundo – o espectro da “Inteligência Artificial”
Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Um espectro tomou o mundo civilizado. Pretensamente civilizado, digo eu! Pouco a pouco, esse espectro foi-se instalando nos telemóveis, computadores e tablets, não necessariamente por essa ordem. De forma gradual fomos absorvidos como parte de um mundo onde tudo é medido, parametrizado, vigiado, programado, reprogramado, num ciclo interminável de aperfeiçoamento que visa tornar-te cada vez mais parte de um todo que te é mentalmente inalcançável ou escrutinável. A desigualdade de circunstâncias constitui a pedra angular que sustenta o sistema que o promove. Esse espectro é o que convencionámos designar de «Inteligência Artificial».
Sob uma capa de personalização, segurança e protecção da privacidade, o espectro aprimora continuamente os seus instrumentos, fornecendo-nos precisamente o contrário: despersonalização, precariedade e supervigilância. Ninguém o elegeu, negociou a sua velocidade e extensão de implantação. Chegou aclamado por quem o declarou como disruptor e aterrador. Contudo, não obstante o carácter destrutivo com que o apresentam, também o assumem como inevitável.
O conhecimento que tem do nosso mundo é inversamente proporcional ao que temos dele. Anunciando focar-se em nós, adaptar-se à nossa pessoa e connosco “aprender”, lá vamos percebendo que faz precisamente o contrário! Para ele, não passamos de uma mera conexão, interface ou terminal – consoante o nosso posicionamento na sua «rede neural». Independentemente desse posicionamento, todos não somos mais do que meros sensores vivos, cujo papel é fornecer a um qualquer processador central a informação captada com os nossos sentidos e tratada pela nossa psique. Somos assim reduzidos aos sentidos da coisa: tal como o nosso cérebro usa o olfacto, visão e tacto para analisar o mundo exterior e nos orientarmos nele, a rede neural da Inteligência Artificial usa-nos a nós todos, como instrumentos da sua acção no mundo físico.
Trabalho pouco inteligente com inteligência artificial
Como não poderia deixar de ser, é precisamente no trabalho que a contradição entre o nosso uso da coisa, o uso que a coisa faz de nós e o resultado desse uso é maior. Ser maior não significa que seja mais perceptível. Ao contrário, quanto mais nos relacionamos com o sistema, mais percebemos a nossa insignificância, a sua monumentalidade, bem como a nossa impotência perante as suas determinações. O desnivelamento entre o que lhe damos e o que de nós retira, é o alimento da sua constituição.
Diferentemente de qualquer trabalho «tradicional», no sector que representa a forma mais avançada de actividade com Inteligência Artificial – a actividade das plataformas informáticas –, o que sabemos de nós próprios, relativamente à actividade que desempenhamos, é infinitamente menos do que o que o sistema, sobre nós sabe. Quem decide, em cada momento, os recursos à disposição, não somos nós, mas sim o próprio sistema, que de nós requer o que necessita em cada momento, por si próprio determinado.
A primeira derrota que sofremos perante o mesmo reside na perda da soberania cognitiva. A necessidade coloca-nos inteiramente ao serviço do sistema, sob formas impensáveis em sociedades anteriores. Sob uma capa formada por aplicações, semicondutores, redes neurais, Inteligência Artificial, «Uberização», o próprio sistema convence-nos de que chegámos a um mundo novo, tão apartado do mundo antes conhecido, como dele se alimenta e inexoravelmente o transforma.
O que antes era inaceitável num trabalho, é tratado como «normal»: um emprego sem salário certo; sem um «empregador» conhecido ou uma chefia; uma actividade sem local de trabalho ou sede social, onde nos possamos dirigir em caso de conflito; um serviço onde todas as variáveis são continuamente e unilateralmente alteradas, sem negociação, audição prévia, nada! Apenas a ameaça do cancelamento do acesso e sem que consigamos, ao menos, chegar à fala com um ser humano!
A desumanização da despersonalização
Neste processo de autêntica desumanização das relações sociais, em que um algoritmo usa os dados que recolhe para aprimorar, infinitesimalmente, o montante retributivo que se situa entre o que nos mobiliza e nos demove, independentemente das necessidades materiais que tenhamos, apenas nos dá uma garantia: de que estamos sozinhos, isolados, cada um com a sua remuneração, calculada à medida do nosso perfil de aceitações passadas.
Se tivemos de aceitar trabalhos de baixo valor, porque necessitávamos de alavancar o score, subir no ranking e obter melhores tarefas, essa situação marcará o nosso rendimento futuro, pois a plataforma usá-la-á para calcular o valor a partir do qual aceitamos trabalhar, não nos pagando mais do que isso! Se, por outro lado, perante melhores condições de partida, aceitarmos apenas trabalhos de maior valor, tendencialmente receberemos mais do que o outro. Trata-se de um sistema concebido para individualizar, fracturar, discriminar.
A subversão dos valores é de tal forma eficaz, que assistimos a trabalhadores absolutamente pobres e necessitados dizendo, com orgulho, quererem ser “o seu próprio patrão”; pretendendo ter a «liberdade» para prescindirem de “horários, salários e um posto de trabalho fixo”; porque não querem a «chatice», sem igual, que consiste em estarem protegidos contra o despedimento sem justa causa ou terem de dar um período de aviso prévio, antes de poderem sair.
A relação de exploração na economia de partilha
A relação que o mundo digital, dos semicondutores, plataformas, algoritmos, centros de dados, tem com o mundo físico é parecida à relação que os racistas têm com as vítimas das suas acções: a menorização do trabalhador “tradicional” visa amplificar, facilitar e intensificar a sua exploração e «libertá-lo» das amarras do direito do trabalho.
Não é possível quantificar os que são desmobilizados por tal mecanismo pretensamente “emancipatório”, ou os que são forçados a aceitar este trabalho estruturalmente anacrónico, em função da realidade vivida. Mas que os primeiros têm um papel de desmobilização dos segundos, isso é facto assente.
Também é facto assente que todos fazemos parte da «sharing economy» (a economia de partilha). E para que possam «partilhar» essa economia e assim dar uma «dentadinha» em tudo o que se venda ou produza, estas plataformas tiveram de criar todo um ambiente de impunidade, desresponsabilização e libertinagem, tudo bem embrulhado num sofisticado embrulho com o nome de «liberdade» para se ser o que se quiser.
A relação que se estabelece com a plataforma não é vista, então, como uma relação de trabalho, mas como uma relação de partilha em que cada elo tem o seu papel. À plataforma cabe juntar, organizar, optimizar, regular e disciplinar; ao estafeta cabe transportar; ao consumidor cabe comprar e avaliar (de preferência nunca esquecendo esta). Assim, simples, sem prisões.
Tudo poderia estar muito certo se, a determinado momento, o estafeta não sentisse que, por mais horas que pedale, que o motorista, por mais gente que transporte, no final ganham mais ou menos o mesmo e que os dois, ao longo do tempo, assistem a este “mais ou menos o mesmo” diminuir de forma inexorável, por mais horas que trabalhem. Com o tempo, um e outro lá vão adiando projectos pessoais, em nome do presente, das despesas que lhes chegam, enquanto o tempo lhes foge. Para muitos fica a «partilha» e para a plataforma a «economia».
Nas discussões com os colegas, com quem estamos cada vez menos tempo, lá nos damos conta de que a todos falta tudo, de que são «livres» de tudo. Não têm casa, filhos, automóvel; a maioria é imigrante e a maioria sente-se à parte; tudo isto quando era suposto pertencer-se a uma suposta “economia partilhada”.
A consciência da insignificância
Ganhar consciência da sua impotência e insignificância é um passo monumental para quem, no auge da sua desgraça, do desemprego e abandono, foi convencido de que poderia ser “o seu próprio patrão” e que isso era muito melhor que “um emprego tradicional”. Pode ser como passar de patrão a trabalhador subordinado, mas sem o privilégio de ter sido, de facto, patrão. A mudança nunca operada, mas idealizada, pode doer mais do que a perda real.
Quanto mais ouvimos os oligarcas do digital ridicularizarem o mundo “tradicional”, implantando a ideia de que o mundo que propõem, o globalismo digital, é um mundo mais livre, sofisticado e moderno, cheio de promessas libertadoras, mais devemos ler nessas afirmações uma só intenção: explorar o mundo físico, o mundo onde se produz, de facto, a riqueza, o mundo onde, por acção humana, as coisas ganham, de facto, o seu real valor. Tal como com a água, energia e terra arável que gastam, os enormes subsídios estatais de que beneficiam e as benesses legais que obtêm, não têm correspondente justo em emprego e qualidade de vida ou de trabalho, também no mundo virtual que propõem a relação é também absolutamente desigual.
Cortar os trabalhadores às fatias
Entretanto, tudo ganha ainda maior expressão se pensarmos que, ao contrário de um trabalhador “tradicional”, o resultado que o “empregador” retira do servidor da plataforma informática da mediação produtiva pela inteligência artificial vai muito para além do que produzimos no mundo físico.
Como se não bastasse todo o controlo algorítmico presente em cookies e apps que medem o ritmo físico; a medição do movimento do telemóvel e a proximidade com redes WiFi; a identificação das aplicações que temos no telemóvel, não vamos ter a tentação de usar VPN e emuladores para “enganar” as métricas e parâmetros que o disciplinam, medem, conformam, estudam, dissecam a nossa vida e comportamento; a instalação de comandos de gravação que ouvem tudo o que dizemos, quando e como, mas também o que nos dizem e como o dizem; as fotos que nos tiram, com a própria câmera, a qualquer hora e momento, não vá ser outro o que se faz passa por nós, para que possamos descansar, satisfazer necessidades fisiológicas, sem penalizações no ranking, ratings, scores… Como se tudo isso não fosse suficiente, e já de si extremamente intrusivo, eis que os dados produzidos por estes mecanismos de supervigilância, são também monetizados. É como se fossemos sendo retalhados em fatias.
Se um trabalhador “tradicional” já tem dificuldade, ante o fenómeno da financeirização, de identificar, quanto mais quantificar, a dimensão exacta da exploração, ou seja, a diferença entre o que ganha e o que é retirado ao que produz; quando contratados por estes mastodontes digitais longínquos, mesmo a dormir produzimos retorno. É caso para dizer que até mesmo mortos, produziremos mais-valia!
Os parâmetros do nosso controlo
Trabalhar num sistema movido a inteligência artificial significa, assim, trabalhar num sistema absolutamente parametrizado, a ponto de nos tornar uma extensão do mesmo. Tal parametrização, para que nada falhe, implica a recolha de uma imensidão de dados pessoais, como já constatámos. Contudo, o seu uso não se fica pela organização da prestação de trabalho. Os dados pessoais recolhidos são posteriormente vendidos para estudos de mercado, análise preditiva de segurança, serviços de vigilância e treino de algoritmos, para seguradoras e empresas de análise de risco, empresas militares como a Palantir, para afinarem os seus desígnios da morte.
Poder-se-ia dizer que tal só é exigido aos trabalhadores, mas não. Todos os elos da cadeia, do programador ao consumidor, todos alimentam um sistema que tudo sabe de nós e nós muito pouco dele. É como sermos apanhados numa armadilha, a qual não conseguimos identificar como funcionou.
Transformar essa desigualdade económica, social, organizacional em poder político é depois muito simples. Leis de dados inexistentes ou à medida, sistemas judiciais domesticados, soberanias desconsideradas, muitos dirigentes políticos amestrados. Todo um exército arregimentado para promover uma desigualdade sem fim, comandado a partir de milhares de quilômetros de distância por uma entidade cuja dimensão é tão supranacional quanto virtual, quanto estrutural, central e descentralizada. Uma rede neural mastodôntica que se espalha pelo mundo. Começou pelas plataformas informáticas e agora chegámos à plataformização da economia.
Cabe a cada um de nós que a Inteligência Artificial seja um instrumento ao nosso serviço e não o contrário, tornando-nos meros serviçais ao serviço de quem a domina e detém!
Fonte aqui