A propósito do Orçamento! — Eleições, já!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/09/2024, Revisão Estátua de Sal)


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Isso não interessa nada! — a frase foi-me atirada por Tereza Guilherme há milénios, num programa que ela conduzia chamado “Eterno Feminino”, onde eu ia ser entrevistado sobre um romance que publicara. Ela tinha umas fichas preparadas com as perguntas e, presumo, com as respostas esperadas. Ia eu a falar sobre um assunto a propósito do qual a produção lhe dera a minha resposta e diz-me a Tereza com o desembaraço que lhe é conhecido: Isso agora não interessa nada. O que interessa é saber porque devem as pessoas comprar o seu romance.

Tinha toda a razão a Tereza Guilherme. Eu é que era um ingénuo que ia falar de enredos e personagens. O que interessa é o mercado, o negócio. Eu estava ali para vender um livro, deixemo-nos de tretas.

Quanto à discussão sobre o orçamento geral do Estado — do aprova não aprova, quem aprova e o quê, sobe um escalão do IRS e descem dois do IRC, há descontos para reformados e militares sem graduação, desce a tributação sobre a cerveja sem álcool ou sobe a do tremoço, alugam-se quartos a estudantes em antigos conventos de frades e freiras, quartéis e outras serventias. É música de adormecer. Tretas. O orçamento não interessa nada. O que interessa são os negócios entregues a dois ministros que, por acaso, têm um aspeto sinistro. A ministra da saúde e o ministro das obras públicas. Eles têm nomes, mas eu deixo aqui as fotos.

O que interessa a este governo são os negócios de milhões: o das grandes obras, aeroporto, acessos e TGV — negócios a cargo do ministro das obras públicas; o outro grande negócio é o do fim do Serviço Nacional de Saúde e a passagem do negócio para os grupos privados, a cargo da ministra que anda sempre de trombas. O que interessa é a caça grossa e não o milho para pardais.

O que está em jogo, o que interessa é muito simples: quem vai ao pote agora e só se saberá daqui a vinte anos! Ou se apoia que seja o atual grupo, que já tem prática, com as PPP da saúde, a degradação planeada e executada do SNS, que tem os rostos do anterior bastonário dos médicos e da enfermeira que fazia agitprop na anterior legislatura, mais o atual ministro das obras públicas que era secretário de Passos Coelho e que já esteve no negócio da TAP (um pequeno negócio comparado com o que está hoje em jogo), ou se vai para eleições para os portugueses decidirem claramente quem pretendem a gerir os grandes negócios e com que controlo, o que passa também pela escolha do próximo/a Procurador Geral da República, que o atual governo quer que seja um idiota útil.

Os dois únicos ministros que contam são aquele que domina as obras públicas .“os dinheiros de Bruxelas”, e aquela que domina o negócio da saúde privada. A seu tempo virá a importância do ministro que vai privatizar a segurança social e vender planos de poupança de fundos abutres americanos. Neste casino, o ministro das finanças é apenas um manga de alpaca ou o que designava por “guarda.-livros” com a função de explicar as artes performativas dos negócios com a clareza de um peixe dentro de um aquário!

Em tempo: é decisivo perguntar quem está a pagar a campanha de manipulação conduzida por grupos interessados nos negócios agora tão preocupados com a estabilidade, o compromisso, vamos lá que os totós dos portugueses estão quase a chegar ao Natal e querem o subsídio e o peru e a mensagem do senhor Presidente, do Senhor Primeiro-ministro, do senhor Cardeal patriarca.

Por fim: Eleições são indispensáveis para nos entendermos. A estabilidade invocada pelo Presidente da República e pelos os seus cães amestrados são dados viciados que apenas servem os abutres.

Robert F. Kennedy apoia Trump

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 24/08/2024)


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Os regimes que ainda se reclamam de democratas são Estados-mercado. Tudo se compra e vende. Os cidadãos estão fora do negócio, são o negócio, tal como os leitões que são assados na Bairrada não estão fora do negócio da restauração, são o negócio, assim como as vacas, vitelas, bois e bezerros que servem para fazer hambúrgueres são o negócio das cadeias de fast food.

O que está em jogo nas eleições nos Estados Unidos é uma disputa entre oligarquias. Não entre princípios Democratas e Republicanos. O regime político dos Estados Unidos é desde a sua fundação um regime republicano, em que os cidadãos elegem representantes para o poder legislativo, executivo e judicial e não um regime democrata em que o poder resulta da sociedade, como um todo, daí que seja possível, como foi com Al Gore e Hillary Clinton ter mais votos e perder a eleição. O sistema republicano dos Estados Unidos foi desde o início capturado por corporações de interesses e estas pelos seus elementos vitoriosos, os multimilionários, que através de doações pagam as eleições dos que vão para a arena combater pelas suas cores, os jóqueis que montam os seus cavalos. Os representantes que se apresentam a eleições ou são muito ricos, ou são sponsorizados por muito ricos. Não há outra via.

A surpresa de um Kennedy, Robert F. Kennedy, filho de Robert Kennedy e sobrinho de John Kennedy ter anunciado o apoio a Trump é muito mediática, mas está dentro da normalidade do sistema. Essa surpresa, uma construção apelativa para as redes sociais, silencia muito do passado. A ideia dos Kennedy liberais e democratas é uma construção. O fundador da dinastia, Joseph P. Kennedy, fez a primeira fortuna como investidor no mercado de ações, passou os lucros para o investimento no imobiliário. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi administrador de um grande estaleiro e conheceu Franklin D. Roosevelt, que era secretário adjunto da Marinha. Na década de 1920, Kennedy obteve enormes lucros reorganizando e refinanciando vários estúdios de Hollywood; por fim ainda aumentou a fortuna com os direitos de distribuição de uísque escocês e tráfico nos tempos da lei seca, de onde vem a ligação à Mafia, que dominava este negócio. Foi o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (SEC), mais tarde dirigiu a Comissão Marítima, que mediava os fabulosos negócios da construção naval para a marinha americana. Roosevelt nomeou Kennedy como embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido e mal chegado fez um devastador discurso às elites inglesas no Clube Pilgrim, criticando a democracia inglesa e dizendo aos estupefactos aristocratas que geriam os negócios e a política, que era do interesse americano manter-se neutral em qualquer conflito em que a Grã-Bretanha se envolvesse com a Alemanha e que os Estados Unidos olhavam agora para a Grã-Bretanha, olhos nos olhos, de igual para igual, o que nunca ocorrera no passado. Disse aos ingleses que não via com bons olhos que um regime anticomunista e capitalista como era o britânico combatesse um regime anticomunista como era o nazi de Hitler. Os inimigos dos nossos inimigos são nossos amigos. Pragmático, nada de valores democráticos, defesa da liberdade e as tretas do costume para angariar votos e voluntários para a tropa, a deles.

Os Kennedy são democratas porque calhou o pai ser apoiado por Roosevelt, um político democrata, para os seus negócios.

Os Kennedy representam nos Estados Unidos um típico percurso de emigrantes de sucesso, que um autor classificou como “De Corsário à Máfia e ao Poder”. O percurso de Trump é o mesmo. Este Kennedy que se alia a Trump causa estranheza porque estraga a imagem das famílias “aristocratizadas” da costa Leste dos Estados Unidos aparecendo como auxiliar de uma figura grotesca como é Trump. Mas o pai de Trump seguiu o mesmo percurso de Joseph Kennedy, incluindo a passagem por negócios de duvidosa limpeza, no caso dele o dos cabarés e da prostituição.

A aliança de Robert Kennedy com Trump parece contra natura, mas não é. É certamente racional e também uma demonstração de autonomia de um eterno jovem — os Kennedy são sempre jovens — que chegado aos setenta anos diz o que não é politicamente correto. Provoca a estupefação, do tipo de um irmão do rei Carlos de Inglaterra a candidatar-se pelo Partido Republicano da Irlanda. Ou a que causou o casamento de Filipe de Bourbon e Grécia com uma jornalista plebeia e vivaça.

A decisão de Robert Kennedy lembrou-me uma conversa com o vendedor de armas de maior sucesso em Portugal nos anos 70 e oitenta, que perante as minhas dúvidas sobre o equipamento que estava a propor me garantiu: “a nossa empresa já ganhou suficiente dinheiro para ser séria”. O neto de Joseph P. Kennedy pode dizer o mesmo, a família já ganhou o suficiente para um deles dizer e fazer o que lhe vai na alma. Pode ser ecologista, anti vacinas, pacifista. A sua acompanhante como vice-presidente, Nicole Sahanhan, jovem multimilionária de 38 anos, com uma formação de base em Direito, que começou por ser casada com um investidor e executivo financeiro, que ao fim de umas semanas iniciou um affair com um cofundador da Google – de quem se divorciou por ter tido um alegado affair com Elon Musk, o da Tesla e da antiga Twitter, agora X e da Starlink (também apoiante de Trump) -, ainda teve uma relação com um milionário ligado ao negócio das bitcoin. Com as compensações milionárias dos divórcios tem uma fortuna avaliada em mais de mil milhões de dólares. Sendo o mais rico dos candidatos a vice-presidente, uma fortuna que lhe tem permitido envolver-se em atividades ecologistas através de uma fundação a Bio-Echo.

Este par — o ticket — é crítico da estratégia dos Estados Unidos na Ucrânia, e representa cerca de 8% das intenções de voto.

O que está em jogo nesta transferência de um Kennedy para o republicanismo tem a ver com interesses da fação dos oligarcas americanos mais interessados no mercado global interno do que no mercado global planetário, que os oligarcas democratas tradicionalmente defendem.

Em termos de futebol, do pouco que sei das conversas com especialistas, uma equipa pode ser organizada (eles dizem montada — que é a linguagem do IKEA) a partir da defesa, ou a partir do ataque. Há treinadores que organizam as suas equipas a partir da solidez da defesa para só depois desta garantida irem para o ataque, outros preferem o contrário, ser “pressionantes” e agressivos e valorizarem o ataque.

O que está em jogo nas eleições nos Estados Unidos são estas duas conceções de organizar a estratégia da equipa. A figura grotesca de Trump não favorece a oligarquia do mercado interno, mas ele faz parte dela e conseguiu metê-la no bolso, fazê-la assoar-se à sua gravata e comer as suas bravatas.

Sendo eu da geração dos babyboomers, não gosto de ver um Kennedy metido com um “trampa”. Já agora, trampa era a designação, com raiz na corruptela de trump — peido, que a minha avó materna, que fora emigrante na Califórnia, onde a minha mãe nasceu, dava aos vagabundos sujos, agressivos, que apareciam no rancho no Vale de São Joaquim, se expressavam por grunhidos e nem sequer agradeciam o que lhes davam.

Mas esta transferência, ou aderência é negócio, como habitual, e vai determinar os próximos tempos no planeta.

Uma reflexão sobre a Venezuela

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 01/08/2024)

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um evento perto de uma imagem do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez em Caracas, Venezuela, 4 de fevereiro de 2024

Não sou, nem nunca fui, um chavista ferrenho. Hugo Chavez foi um benévolo meteorito político que abalou o sub-continente latino-americano e o mundo na primeira década do século XXI. Em 2013, logo após a morte de Hugo Chavez, escrevi um texto intitulado “Hugo Chavez: o legado e os desafios”. Identificava alguns sinais de autoritarismo e de burocratização e terminava o texto com a seguinte frase: “Sem ingerência externa, estou seguro de que a Venezuela saberia encontrar uma solução não violenta e democrática. Infelizmente, o que está no terreno é usar todos os meios para virar os pobres contra o chavismo, a base social da revolução bolivariana e os que mais beneficiaram com ela. E, concomitantemente com isso, provocar uma ruptura nas Forças Armadas e um consequente golpe militar que deponha Maduro.

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