O Chega vem mesmo para mudar o país

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 19/05/2025)


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Não se desenganem. O Chega vem mesmo para mudar o país. Para pior. O partido de André Ventura é o sonho molhado dos grandes grupos económicos e financeiros. Poder, finalmente, ajustar contas, de forma aberta e sem pudor, com as conquistas sociais da revolução de Abril é o desígnio do Chega. Ontem à noite, na RTP, João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e Pedro Frazão, do Chega, admitiam juntos que querem mudar a Constituição da República Portuguesa para acabar com o seu preâmbulo e alterar a parte que define a organização económica do país porque, e cito, atribui ao Estado “a obrigação de ser ele o prestador dos serviços públicos” (ao fundo ouve-se Pedro Frazão a gritar “exatamente!”).

O desmantelamento das funções sociais do Estado é, sem dúvida, uma hecatombe mas vem já sendo operado ao longo de décadas pelo PS e PSD. Essa é, aliás, uma das principais razões para a votação avassaladora no Chega. Os partidos que até agora nos governaram, fingindo defender a democracia, favoreceram sempre as elites. O partido de André Ventura, fingindo estar contra este sistema, quer favorecer as mesmas elites. O povo que se lixe.

Eu dizia, há uns dias, que antes de melhorar, isto ainda vai piorar. Mas só vai melhorar com a resistência dos trabalhadores (sim, também com muitos dos que votaram no partido de André Ventura). Muita gente vota no Chega porque sente que esse é o voto de protesto contra a sua vida miserável. E sim, é absolutamente chocante que haja mais de um milhão de eleitores de um partido abertamente fascista e que muitos tenham como objetivo expulsar indostânicos, tornar a vida num inferno aos portugueses ciganos e retirar direitos às mulheres. Tudo menos tocar nos interesses de quem de facto é responsável pelas nossas vidas miseráveis: os grandes grupos económicos e financeiros. Acreditam que André Ventura está mesmo contra este sistema.

Que votem num partido de ladrões, corruptos e pedófilos, de aldabrões encartados que dizem uma coisa hoje e amanhã o seu contrário, não significa que não tenham razão em estar revoltados. Sabemos bem que o Chega foi levado em ombros pela comunicação social que, de forma irresponsável, mas consciente e deliberada, virou todos os focos para a extrema-direita, dando gás ao seu discurso racista e xenófobo. Os donos de jornais, rádios e televisões nunca o fizeram com o PCP, por exemplo, porque sabiam que os comunistas, ao contrário do Chega, estão de facto contra este sistema.

É certo, a palavra esquerda significa, hoje, pouco para os portugueses porque a identificam com partidos como o PS que sempre disseram uma coisa e fizeram outra. Muitos identificam-na também com uma esquerda folclórica que sempre preferiu viver mais da estética do que do conteúdo, que prefere priorizar direitos individuais e secundarizar direitos coletivos, cavalgando a onda liberal, procurando a divisão da classe trabalhadora.

Os sinos têm de tocar a rebate porque a gravidade é evidente. PS e PSD tenderão, como noutros países, a convencer-nos de que a democracia se defende votando neles. Não, a democracia defende-se melhorando as condições de vida dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e dos reformados.

A tarefa do futuro é a construção de uma resistência onde caibam todos os que queiram verdadeiramente lutar contra este sistema. Devemos apontar o dedo ao Chega mas também aos que nos trouxeram até aqui: as políticas do PS e PSD, a comunicação social e as redes sociais. Para lá da internet, onde também é importante saber comunicar, temos de reconstruir a nossa vida coletiva onde ela mais importa: conectando-nos com outros nos locais de trabalho, nos sindicatos, nas coletividades, nas associações de moradores, etc.

O tempo que vivemos é de resistência. Num dos seus poemas, Manuel Gusmão perguntou “quem somos nós?” e respondeu, em relação aos comunistas, que “somos a esperança que não fica à espera”.

Muitos só vão perceber o engodo do Chega quando a nossa vida piorar ainda mais. Vão ter de bater de frente com os sindicatos mas os sindicatos sem trabalhadores não são mais do que quatro paredes e um telhado.

É importante que entendamos que a resistência se faz connosco. Não se faz apenas nas redes sociais. Faz-se nas ruas e nos locais de trabalho. Muitos direitos vão ficar em causa, sobretudo dos trabalhadores e das mulheres, e cabe-nos mostrar que somos muitos e capazes de coletivamente enfrentar as ameaças. Mas defender o que temos não basta. Precisamos de assentar as bases para que no futuro nos tenhamos a todos, lado a lado, a construir um país soberano, socialmente justo e de progresso.

Portugal entre a guerra e a urna

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 16/05/2025, Revisão da Estátua)


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Há momentos em que a história muda de tom sem mudar de tema.

O regresso de Trump à presidência dos EUA, a ausência estratégica de Putin em Istambul e a persistência quase solitária de Zelensky em palco mostram que a guerra já não se faz só de tiros – faz-se de tempos, gestos e simbologias.

Num Ocidente onde o ruído vale mais do que a razão, é fundamental saber reconhecer quem pensa – e quem apenas reage.

2. Putin sabe que a guerra, como a política, é uma arte de paciência. Ao recusar Istambul, não recusa a paz – recusa a pressa. Manda emissários de segunda linha para medir o pulso, mas mantém-se ausente como quem diz: “Nada de essencial acontecerá sem mim.” A sua estratégia é clara: esperar pelo enfraquecimento ocidental. E nisso, conta com o aliado que acaba de regressar à Casa Branca.

3. Trump não voltou para gerir – voltou para dominar. O seu estilo é personalista, imprevisível e brutalmente eficaz em dividir. Ao insinuar que só ele e Putin podem resolver a guerra, diz ao mundo que os sistemas coletivos falharam – e que resta confiar nos homens fortes. É o regresso da diplomacia do espetáculo, da política como encenação – e da geopolítica como negócio.

O que se perde? A ideia de bem comum. O que se ganha? Um mundo à mercê de impulsos.

4. Zelensky resiste com palavras, porque sabe que o silêncio é agora mais perigoso que o fogo. Vai a Istambul, fala em fóruns internacionais, apela a uma Europa que já não sabe se quer ouvir. Ele não representa apenas a Ucrânia – representa o último elo entre a convicção e a desilusão, entre o ideal europeu e a sua erosão interna. Se for abandonado, não cairá só Kiev – cairá a ilusão de que os princípios ainda mandam no mundo.

5. Putin joga com o tempo. Trump com a encenação. Zelensky com o desgaste. E os europeus? Os europeus oscilam – entre o medo e a amnésia. A tentação de um acordo “possível” cresce. Mas há paz que, sendo assinada, soa a capitulação. E há soluções que, sendo convenientes, só adiam a próxima tragédia.

6. E enquanto tudo isto acontece, Portugal vota no domingo. Num tempo em que o ruído político é global, importa lembrar que o voto não é um grito – é uma escolha. E que a lucidez exige mais do que indignação.

Há partidos que prometem ruturas – mas sem planos. Outros, que encenam coragem – mas sem coerência.

E há quem, com todos os erros, tenha sustentado o país em crises internacionais, financeiras e sociais – e evite agora cair no canto fácil do populismo? Mesmo entre dúvidas e críticas, mantém o rumo da estabilidade e da solidariedade social, com um Estado forte que Portugal tanto necessita? Não se trata de fanatismos. Trata-se de responsabilidade. De perceber que há alturas em que o centro não é cobardia – é resistência. Que o populismo não precisa de tanques – basta-lhe o desânimo. E que, num mundo a braços com a erosão das democracias liberais, votar com a cabeça fria pode ser o último ato de cidadania lúcida.

No domingo, como em Kiev, como em Bruxelas, como em Washington, joga-se mais do que parece. Joga-se o futuro – e a forma como ainda queremos enfrentá-lo.

A tónica desta campanha é de aprofundamento da crise da democracia liberal

(Raquel Varela, in Facebook, 15/05/2025, Revisão da Estátua)


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1) Paroquial e nacionalista: toda a campanha discute propostas para o país sem discutir a economia do país, ou seja, a União Europeia, e as regras de investimento desta, os Bancos Centrais e a dívida pública.

2) A fulanização ganha acrescidos contornos. Toda a campanha está centrada nas figuras/porta-vozes.

3) A educação política é substituída pela despolitização, através de frases curtas, de efeito rápido, e lógica binária.

4) Não há polarização política: a direita afirma o seu programa total, a esquerda não consegue mobilizar, incapaz de afirmar e defender uma alternativa ao neoliberalismo que não passe por um keynesianismo inexistente.

5) O único keynesianismo está a ser proposto pela direita, o PS e o Livre – a militarização da Europa. Forte investimento público na economia de guerra, impossível – felizmente! – de concretizar sem abrir portas à revolução. Quem faz a guerra deve ser o primeiro a pegar em armas. Nem um jovem europeu no teatro de guerra.

6) A democracia – o governo do povo, pelo menos, no mínimo, ouvir o povo, e mobilizá-lo para participar – é substituída pelo apelo ao voto. O fazer a democracia, em conjunto, é substituído pela profissionalização da política dos deputados, incapazes – todos eles, sem exceção – de denunciar o esvaziamento do papel do parlamente na democracia liberal e a burocratizarão das lideranças políticas. Não, não é nos parlamentos que a vida das pessoas se decide – o poder executivo de facto é cada vez menos  sujeito a escrutínio.

7) O Livre assumiu-se como parte dos Verdes alemães, militarista e liberal (“diminuir um pouco o luxo na habitação“) mas assistencial e progressista nos valores; o PS foi uns metros mais para a direita, com a “defesa da nossa cultura” (tal como o líder trabalhista na Grã-Bretanha esta semana “ilha de estranhos“), o PSD abraçou a repressão da greve e cheguizou-se na imigração; a IL consolidou-se como partido de extrema-direita, demagógico (tirar o país do socialismo), já propõe empreendedorismo na educação das escolas, e a revisão da Constituição; e o Chega defendeu publicamente as organizações neonazis que atacaram cidadãos indefesos no 25 de Abril.

8 ) O BE e o PCP afirmaram um programa keynesiano – hoje ainda mais ilusório do que no passado, já que nunca se concretizou a não ser no senso comum que desconhece a história da Europa – e fizeram-no sem nunca questionarem a propriedade das grandes empresas e Bancos (o mais longe que foram é na taxação ou “contributos da Banca“). Ou, quando defenderam a nacionalização da REN não questionam a nova gestão pública. De que nos servem as empresas estatais se não geridas por gestores profissionais de forma empresarial? O povo escuta a palavra privado e tem medo, escuta Estado e tem medo, e tem razão. Faltou uma proposta clara sobre como vamos gerir esta sociedade.

9) A explosão caricata dos pequenos partidos de extrema-direita.

10) Vão votar os idosos, os sectores mais conservadores e temerosos da sociedade, o povo de esquerda e os jovens abstém-se mais do que os de direita, alguma esquerda urbana irá votar, como sempre, e quase 20% da população activa – migrantes – nem sequer tem direito a voto.

Finalmente, Gaza. Gaza é tudo. É o começo e o fim de qualquer política hoje. Não esteve na campanha.

A propósito de tudo isto – não para Portugal especificamente – vale a pena ler o último artigo de Perry Anderson – “Neoliberalismo, este zumbi” – ver aqui. No fundo, o neoliberalismo é um cadáver morto, mas sem oposição.