O Ocidente visto do mundo

(Boaventura Sousa Santos, in Diário de Notícias, 05/03/2023)

Entre 2011 e 2016 realizei um projeto de investigação financiado pelo Conselho Europeu de Investigação. Intitulava-se ALICE – Espelhos Estranhos, Lições imprevistas: Definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do Mundo. Nesse projeto, tentei mostrar que a Europa, depois de cinco séculos a procurar ensinar o mundo, se confrontava com um mundo que não tomava em grande conta as lições da Europa e que, em face disso, em vez de propor isolacionismo progressivo, entendia que a Europa devia disponibilizar-se a aprender com o mundo e usar essa aprendizagem para resolver alguns dos seus problemas. A guerra da Ucrânia veio mostrar que as propostas da minha investigação de pouco serviram aos políticos europeus, uma experiência que não é nova para os cientistas sociais.

Em outubro de 2022, oito meses depois da invasão da Ucrânia, um conhecido instituto da Universidade de Cambridge harmonizou e fundiu 30 inquéritos globais sobre atitudes em relação aos EUA, à China e à Rússia. Os inquéritos cobriam 137 países do mundo e 97% da população mundial, tendo sido realizados em 75 países depois da invasão da Ucrânia. O resultado principal deste estudo é que o mundo está dividido entre uma pequena minoria da população do mundo, que tem uma opinião positiva sobre os EUA e uma atitude negativa sobre a China e a Rússia (1,2 mil milhões de pessoas), e uma grande maioria em que o inverso ocorre (6,3 mil milhões). Embora o estudo se refira aos EUA, não é arriscado especular que, sobretudo depois da guerra na Ucrânia, a Europa seja associada aos EUA ainda mais intensamente que antes. A essa associação podemos chamar o Ocidente. Isto significa que, se tomarmos o mundo como unidade de análise, o Ocidente está mais isolado do que nunca, e isso explica que a grande maioria dos países do mundo se tenha recusado a aplicar sanções à Rússia decretadas pelos EUA e UE. É importante conhecer as razões deste facto. Vejamos algumas delas.

1. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, S. Jaishankar, afirmou recentemente numa entrevista que “a Europa tem de deixar de pensar que os problemas da Europa são os problemas do mundo e começar a pensar que os problemas do mundo não são os problemas da Europa“. O mundo do sul global enfrenta uma série de desafios a que o Ocidente não tem dado qualquer prioridade para além da exuberância retórica, sejam eles as consequências da pandemia, os juros da dívida externa, os impactos da crise climática, a pobreza, a escassez de alimentos, a seca e os altos preços da energia. Durante a pandemia, os países do sul global insistiram em vão que as grandes empresas de produção de vacinas do norte global abrissem mão dos direitos de patente de modo a permitir a ampla e barata vacinação das suas populações. Não admira que os embaixadores da Europa e dos EUA não tenham agora qualquer credibilidade ou autoridade para exigir a estes países que apliquem sanções à Rússia. Tanto mais que, no auge da crise pandémica, a ajuda que receberam veio sobretudo da Rússia e da China.

“Não é arriscado especular que, sobretudo depois da guerra na Ucrânia, a Europa seja associada aos EUA ainda mais intensamente que antes. A essa associação podemos chamar o Ocidente. Isto significa que, se tomarmos o mundo como unidade de análise, o Ocidente está mais isolado do que nunca…”
© Facultada pela Câmara Municipal de Zaporíjia / EPA

2. A mesma falta de credibilidade e autoridade ocorre quando os países do sul global são intimados a mostrar respeito pela “ordem internacional baseada em regras”. Durante décadas (senão séculos) o Ocidente impôs unilateralmente as suas regras, arrogou-se o privilégio de as declarar universais, ao mesmo tempo que se reservou o direito de as suspender e violar sempre que isso lhe conveio. Eis algumas perguntas que ocorrem a estes países. Quantos países foram invadidos sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, da Jugoslávia ao Iraque, da Líbia à Síria? Por que razão vivem enterrados em prisões ou em exílios todos os que ousam pôr a nu o abismo entre os princípios e as práticas, como ilustram os casos de Julian Assange e de Edward Snowden? Por que é que o ouro da Venezuela continua retido nos bancos do Reino Unido (e não só), tal como as reservas do Afeganistão continuam congeladas enquanto a população afegã morre de fome? Ninguém imagina na Europa o ridículo em que cai o Secretário-Geral da NATO quando é ouvido no sul global a invetivar a Rússia por usar o gaz e petróleo como arma de guerra, quando há tanto tempo muitos países vivem sob a arma de guerra do sistema financeiro global controlado pelos EUA (sanções, embargos, restrições).

Finalmente, em 8 de fevereiro passado, o respeitado jornalista norte-americano Seymour Hersh revelou com informação concludente que foram os EUA quem, de facto, planeou, a partir de dezembro de 2021, a sabotagem dos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2. Se assim foi, estamos perante um crime hediondo que configura um ato de terrorismo de Estado que não só causa um irreparável desastre ambiental como cria um precedente imprevisível para todas as infraestruturas submarinas internacionais. Deveria ser do máximo interesse para os EUA averiguar o que se passou. Infelizmente, sobre este ato terrorista pesa o mais profundo silêncio.

3. A memória dos países do sul global não é tão curta quanto pensam os diplomatas ocidentais. Muitos desses países estiveram sujeitos ao colonialismo europeu, o qual, ao longo do século XX, contou quase sempre com a cumplicidade e apoio dos EUA. A solidariedade para com os movimentos de libertação veio da China e da Rússia (então União Soviética) e esse apoio continuou em muitos casos depois da independência. Quem lhes pede agora solidariedade contra a Rússia e a China foi no passado hostil às suas aspirações, ou esteve ausente.

4. Estamos a entrar numa segunda Guerra Fria, desta vez entre os EUA e a China, e, de facto, o envolvimento dos EUA na guerra da Ucrânia visa, entre outras coisas, enfraquecer o mais importante aliado da China. Os países do sul global recordam-se da primeira Guerra Fria, entre os EUA e a União Soviética, e sabem, por experiência, que, com algumas exceções logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o alinhamento incondicional com um dos campos não os beneficiou; pelo contrário, a Guerra Fria foi, para eles, muitas vezes quente. Por isso, em 1955, 29 países da Ásia e da África (alguns ainda colónias) e a Jugoslávia se reuniram em Bandung e criaram, a partir de 1961, o Movimento dos Não-Alinhados. Não é por coincidência que a chamada para um novo Movimento dos Não-Alinhados percorre hoje todo o sul global e está de facto a emergir sob novas formas.

Sociólogo


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Traidores vivos e heróis mortos!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 08/03/2023)

Depois das revelações de Seymour Hesh – ver aqui -, a propósito da autoria da operação de destruição do Nord Stream, muita informação tem corrido debaixo das pontes. Não que a comunicação social corporativa, subserviente a Washington, tenha tido a veleidade de dar a atenção que o assunto poderia suscitar, nada disso. A prova, contudo, de que Hersh está no caminho certo e sabe do que fala, é-nos oferecida, hoje, de bandeja, pelo New York Times – ver aqui -, jornal que podemos classificar como sendo o verdadeiro órgão de comunicação central ao serviço do Comité Nacional do Partido Democrata (NDC).

As revelações de Hersh, apontando com minucia toda a operação, referindo as discussões havidas na cúpula do poder dos EUA, não deixaram de gerar mau ambiente entre os “parceiros” e “aliados”, nomeadamente, entre a Alemanha – vítima do acto de guerra e terrorismo industrial -, e os EUA. Não me refiro, claro, a Scholz ou Baerbock. O primeiro é marionete e a segunda é missionária evangelizadora da lavagem verde americana. Refiro-me a gente das forças armadas ou da indústria, muitos com espinha dorsal suficiente para fazer sentir o seu desconforto junto dos enviados da Casa Branca.

Numa operação que faz transparecer – para quem o quiser ver – a forma como funciona, hoje, o jornalismo, que passou de “investigativo” a “justificativo”, o NYT publica uma peça que visa sacudir a água do capote americano, apontando a autoria a um grupo “pró-ucraniano” de identidade convenientemente não divulgada. O próprio artigo é o exemplo concreto da inocuidade jornalística face ao poder instituído: milhares de caracteres justificativos de uma versão que não aponta um nome, um método, uma fonte de financiamento ou de logística. Nada vezes nada. São duas páginas de discurso redundante, inócuo, especulativo e genérico. Um exemplo concreto do “jornalismo de qualidade” quando se trata de criticar, denunciar, apontar ou responsabilizar o poder vigente. Pegar nisto ou num qualquer jornal do fascismo, tem o mesmo resultado: desinformação absoluta.

Os “jornalistas” do NYT referem que uns tais U.S. Officials, que nunca diz quem são, baseando-se num novo relatório da Inteligência, que também não dizem qual é, sugerem que um grupo “pro-ucraniano”, que também não identificam – e que ficamos sem saber se são ucranianos, indonésios ou guatemaltecos -, terá sabotado, sem nunca dizer como, o gasoduto. A explicação mais óbvia – o NYT não a dá -, reside no facto de este grupo ser da CIA e, por aí, se faz a ligação a todo o processo desvendado por Hersh.

Vejam bem: não basta fazerem-nos acreditar que os russos seriam capazes de bombardear uma central nuclear que têm na sua posse; que os russos sabotaram um gasoduto que era seu e lhes rendia muito dinheiro; ainda nos querem fazer acreditar que um qualquer grupo “pró-ucraniano” teve o poder, a mestria, os fundos, a ciência e a capacidade de instalar toneladas de dinamite no fundo do mar, usando sofisticadíssimos meios e tudo isto ocorrendo numa região extremamente vigiada pela NATO e pela própria Rússia! É obra! Isto representa todo um novo nível de efabulação.

E porquê, um novo nível? Porque, até aqui, arranjavam versões inverosímeis, mas fornecendo culpados, bodes expiatórios e detalhes enviesados, como sucedeu na aldrabice hollywoodesca de Bucha, nas valas comuns de Kupyansk ou no voo MH17. Neste momento, sentem-se tão à vontade, que até fornecem versões sem culpados, sem detalhes e sem qualquer substância que possa apontar numa qualquer direcção. Ler esta comunicação social, é como levarmos porrada sem conseguirmos, sequer, identificar de onde veio. A isto chamam transparência, credibilidade e fact-checking. Claro, se não derem factos, acertam sempre!

Mas o resultado e função imediata deste tipo de jornalismo “justificativo”, bem veiculado através de infindáveis “bots” nas redes sociais, também ao dispor dos mesmos poderes, está bem materializado na ilusão com que o comum dos mortais olha para a realidade – por mais contraditória – que o circunda.

Uma blogger ucraniana, no The Guardian – ver aqui  -, questionou a União Europeia: A União Europeia quer os ucranianos como parceiros vivos ou como heróis mortos?

Sendo difícil de acreditar, ao dia de hoje, que ainda haja quem pense que esta guerra não foi cuidadosamente planeada, preparada e provocada, poderíamos apontar, entre muitos outros documentos, um vídeo de 2016, onde os senadores Lindsey Graham e John MCcain discursaram perante Petro Poroshenko e militares ucranianos – o primeiro-ministro oligarca saído do golpe fascista de 2014 -, prometendo uma vitória “rápida” sobre a federação russa. Ora, se a Rússia, à data, não estava em guerra com a Ucrânia – ver aqui  -, … 2+2…

Assim, a resposta correcta, a dar à “articulista” do Guardian, é que, a UE, em especial, não quer saber se os “heróis” estarão mortos ou vivos. Primeiro não compete à UE sabê-lo. Como disse certa vez Joe Biden a Scott Ritter, no Senado, por causa das armas de destruição em massa que este último nunca encontrou e, por isso mesmo, considerando que a guerra seria um erro: “It’s above your pay grade.” (está acima do teu nível de decisão).

Se à UE não compete saber ou definir se os ucranianos terão de estar mortos, ou vivos, para que a parceria avance, já para os EUA, aqueles que decidem realmente estas coisas, arrisco-me a dizer que preferem os “heróis mortos”. Um “herói morto” não chateia, não se revolta, não critica e pode ser usado como instrumento de propaganda. Todos os objectivos determinados para a Ucrânia contam com uma proporcional parcela de vivos e mortos, em quantidades calculadas para a sua prossecução.

Já a pergunta, em si, demonstra toda a ilusão vendida. Quanto mais informação surge que prova a minuciosa preparação do conflito e a “mão invisível” dos EUA por detrás do mesmo, mais sectários são os posicionamentos de quem, à falta de argumentos e com receio de ver cair o edifício de mentiras sobre o qual construiu o seu posicionamento, opta por uma abordagem “futebolística”: eu estou deste lado, tu estás daquele, e não vale a pena conversar.

Mas a ilusão sobre as “boas intenções” do diabo ocidental, não são exclusivas do malogrado país construído a régua e esquadro.  De acordo com informação veiculada recentemente e desclassificada ao abrigo do “Freedoom of Information Act” – ver aqui  -, as inúmeras mensagens (cables) trocadas entre as embaixadas dos EUA e da Rússia, bem como entre Ieltsin e o staff de Bush Sr., demonstram que os governantes russos acreditavam piamente nas “boas” intenções, ao ponto de proporem acabar – como aconteceu de facto – com todos os mísseis balísticos que tivessem MIRV (um míssil poder atingir vários alvos), e propondo um tratado que apenas incidia sobre os silos terrestres, deixando de fora os dos submarinos, onde os EUA tinham ampla vantagem. Ieltsin acreditava mesmo – ou pelo menos dava-o a entender – que os EUA iam investir na economia russa e ajudar o país a recuperar.

Mas se a ilusão – não confundir com sonho – constitui uma das mais importantes armas das elites americanas, para a qual contam com poderosíssimos órgãos de comunicação e propagação de mensagens, capazes de criar realidades tão alternativas como a que os apresenta como defensores do mundo livre e da democracia, é também justo dizer que, se os russos caíram na esparrela, no final do século passado, se os ucranianos caem nela, especialmente, a partir do início deste século… Já os europeus ocidentais, devem pertencer a uma raça especial….

Afinal, colonizados de facto desde o Plano Marshal, o qual, a troco de dinheiro para a reconstrução, impôs uma série de condicionalidades que visaram – e conseguiram – fomentar uma lógica governativa liberal pró-americana; alvo de instalação de uma série de bases militares e de políticas diversas de condicionamento económico, industrial e militar, aplicadas sob a capa do “livre comércio” e “livre concorrência”… Ainda hoje, a esmagadora maioria dos povos europeus estão convencidos das “boas intenções” do diabo americano. Mesmo que, tais “boas intenções” se repercutam numa Europa cada vez mais insignificante no mundo, mergulhada numa profunda crise económica e cujos Estados-membros foram desprovidos de qualquer resquício de soberania.

Se uma parte importante do povo, na sua ingenuidade, impreparação e vítima da ferocíssima máquina manipuladora, insiste em não se libertar da caverna e olhar para o mundo com os seus próprios olhos, o mesmo não se pode dizer de quem está de fora. Já há bastante tempo que os países do Sul Global perceberam quem manda de facto na UE. Vejam-se as imagens de Baerbock – Ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha – a chegar à India e a ser recebida apenas por três pessoas – ver aqui -, nenhuma do governo indiano. Teve direito ao oficial militar de serviço no aeroporto, ao assistente de bordo e ao embaixador alemão em Nova Deli. A India já não está para fazer fretes e participar em fantochadas…

Aliás, esta postura “missionária”, típica do funcionário corporate, sedento de agradar aos administradores de uma qualquer empresa, é bem visível na postura de Úrsula. Dorme no gabinete e trabalha de dia e de noite. Nada decide, só executa… Mas há que levar as ordens a sério! Afinal, a sua vida toda dependeu de fazer o que o chefe manda.

Assim, parece-me que, no final, não será só a Ucrânia que fornecerá os seus “heróis mortos”. A própria Europa, à beira da hecatombe económica de vítima de um cuidadosamente planeado suicídio, arrastada para uma guerra em nome de uma ilusão criada junto dos povos, que apresenta União Europeia e os EUA como parceiros ao mesmo nível, também acabará por ter a sua quota de “heróis mortos” para fazer parceria com a Ucrânia.

Com a inflação a subir – na Inglaterra os alimentos subiram 20% -, o número de insolvências a subir em flecha em todos os sectores – que “satisfação” ver o Eurostat apresentar o gráfico adornado com uma bandeira Ucraniana – (ver aqui), é razão para perguntarmos quanto tempo ainda durará a ilusão! Agora adicionem ao drama energético, um drama de carência dos mais básicos produtos do dia-a-dia, em preparação avançada pelos EUA, a pretexto da necessidade de sancionar a China, por esta fazer, supostamente, o que os EUA fazem quando lhes apetece: mandar armas para onde lhes interessa!

Dizendo o embaixador americano para a China que “nós é que somos os líderes do Indo-pacífico”, numa espécie de “a minha **** é maior do que a tua”, não deixa de ser curioso ver que a China “autocrática” vai crescer já 5,5% em 2023 e a actividade industrial atingiu máximos desde 2012. É razão para perguntar, que raio de tirania é aquela que apresenta níveis de dinamismo económico de fazer corar de vergonha um Ocidente que anda, há 100 anos, a propagar a teoria – e para azar nosso, a prática – de que só existe dinamismo económico com a sua versão de “democracia”.

Algo não bate certo aqui… E ter 5000 anos de história vale de muito nestas coisas das ilusões. Já por aqui, na era da infantilidade política, como no caso russo dos anos 90, no ucraniano de agora, também, na Europa, não serão os traidores como Ieltsin, Zelinsky ou Úrsula que figurarão entre os “heróis mortos” … Adivinhem quem serão? Os nossos filhos!

“Louve-se” a comunicação social do fact-checking que está cá para nos iludir do contrário e de que os culpados são os outros que se defendem, como nós o deveríamos fazer!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Esperança média de vida!

(Hugo Dionísio, in Canal Factual, 28/02/2023)

4 horas… 240 minutos… 14400 segundos…. Eis a esperança média de vida de Bahkmut, para um soldado Ucraniano, de acordo com os testemunhos de um soldado americano regressado da guerra e de um jornalista afecto ao regime de Kiev!

Arrastado pelas calçadas de Odessa; perseguido pelos centros comerciais de Kiev ou arrancado à força do seu lar… Um qualquer civil, com idade compreendida entre os 18 e os 60, com excepção dos que tenham incapacidades muito evidentes, corre sérios riscos de ser legalmente intimado a juntar-se, com força obrigatória geral e sob pena de deserção, à “força” militar que tenta a qualquer custo prolongar a presente guerra até ao próximo verão.

É isto! A sua função não é mais do que esta! Vítimas de um processo de conscrição forçada, homens e algumas mulheres, sem qualquer treino militar, recebem uma formação apressada, num qualquer centro de “treino”, dirigido sob os nada auspiciosos princípios estratégicos dos EUA, estes filhos da classe trabalhadora têm funções bem determinadas e muito precisas:

•            Ocupar os postos de combate nas trincheiras, bunkers e demais fortificações do Donbass, substituindo as melhores e mais combativas forças que são posteriormente encaminhadas para a reserva;

•            Tentar sobreviver o máximo de tempo possível, para que, contados os números e a esperança média de sobrevivência em combate, o regime “Banderista” possa aguentar-se até ao verão.

Porquê o verão? questionarão alguns. Alguns até lhe chamarão primavera. Mas, atentando ao ritmo a que vão as coisas, não será na primavera que as forças armadas, que hoje albergam todo o tipo de representações da extrema-direita mundial, receberão as tão prometidas quanto desejadas armas. Arma, as quais, uma vez mais, adiarão o final do conflito, celebrarão a morte de mais dezenas de milhares de soldados dos dois lados, mas, principalmente, soldados ucranianos. Contudo, não deixarão de encher os bolsos aos que mais lucram com todo este conflito.

Enquanto “poupam” as melhores tropas para a ofensiva que os EUA preparam já desde o outono, a juventude e a classe trabalhadora do país é arrancada às suas vidas, para intervir numa guerra que não queriam. Hoje, para além de uma lei que impede os jovens de 17 anos de saírem do país, o regime banderista requereu às suas embaixadas em todo o Ocidente, para que identifiquem cidadãos ucranianos nos respectivos países, que estejam em idade de combater, os aliciem e encaminhem para os inúmeros campos de treino que já existem nos países da NATO.

Para além de já terem surgido entrevistas de jornalistas ocidentais com jovens ucranianos com 16 anos, em pleno teatro de guerra, surgem também os relatos, segundo os quais, em alguns países, o assédio perpetrado pelos agentes, ao serviço das embaixadas ucranianas, roça a ilegalidade. Gostaria agora de ouvir onde andam os tais que tanto se preocupavam com as alegadas “esquadras chinesas”.

De referir que, neste caldeirão de recrutamentos, ao contrário dos “fugitivos” ucranianos, os mais efusivos e motivados recrutas são os representantes dos mais variados grupos e facções da extrema-direita mundial. Estão bem documentadas as representações dos saudosistas de Mussolini, com as suas bandeiras da República de Salo, aos representantes do Estado Islâmico. O regime de Zelinsky constitui hoje uma celebração viva do 3.º Reich, na sua versão transnacional e transcultural. Um autêntico carnaval do fascismo, do nazismo e do ódio que o move. O que os une não é mais do que um misto de dinheiro e ódio. Não existe qualquer intuito libertador ou emancipador: apenas o dinheiro dos nossos impostos que lhes paga os soldos e o ódio aos russos. Ódio que é instigado e posteriormente usado como motor de guerra.

Se, muitos dos representantes deste ódio, junto do povo ucraniano, já se contam entre os inúmeros cemitérios construídos, é do estrangeiro que se alimenta hoje o regime de Zelinsky, para poder fazer face ao serviço que lhe foi encomendado: instigar, alimentar e arrastar uma guerra em nome da NATO e em representação dos interesses estratégicos dos EUA. Foi o próprio Biden que, na sua visita “surpresa” (surpresa só para quem estivesse a dormir), veio dizer que “não sairemos da Ucrânia”. Nós sabemos…

Enquanto os “músicos” (pronto, eu chamo-lhes mercenários, não há problema) são obrigados a carregar camiões de corpos humanos deixados a apodrecer pelas tropas afetas ao regime banderista, para os deixar – por razões de salubridade e humanidade – à entrada dos postos avançados do inimigo, na Assembleia Geral da ONU, percebemos a razão pela qual estes desgraçados têm de continuar a morrer, não aos milhares, não às dezenas, mas já às centenas de milhares.

Numa mostra de total insensibilidade que confirma que quem não chora a morte de 900.000 iraquianos mortos numa guerra “inventada”, também nunca choraria a desgraça de centenas de milhares de ucranianos, russos ou outros; a votação da resolução condenatória da intervenção russa constituiu mais um momento de celebração da guerra e da sua continuidade. Pudemos ouvir os líderes ocidentais dizer que “a federação russa tem de ser derrotada” porque eles querem e “a Ucrânia está a ganhar a guerra”, mesmo que esteja em farrapos. Nem um só piscar de olhos, fôlego ou olhar que denunciasse uma qualquer compaixão, o receio de uma escalada que nos mate a todos ou o mais ínfimo ou envergonhado desejo de paz e harmonia. Nada, vezes nada!

 E se as leituras ocidentais à votação revelam, uma vez mais, toda a falácia da comunicação que todos os dias nos forçam a ouvir, houve um país que os deixou mesmo muito preocupados. Se choveram as parangonas a dizer “o Brasil condenou o Kremlin”, nem tão pouco os EUA ficaram contentes com a posição. Todos sabem que “o mundo” não é a maioria da humanidade e “a maioria” não aplica as sanções, e muitos votam mais por jogo de cintura do que por convicção.

Esta posição de Lula da Silva já era conhecida e, a meu ver, o que faz a diferença no final, não é a condenação da guerra nem os jogos de cintura que dele já conhecemos. De uma forma ou outra todos os seres humanos justos têm de a condenar. Condená-la pelo que é, pelas suas causas e não pela propaganda desabrida. No final, o que conta, são duas coisas ainda mais fundamentais e que jogam com a matéria, e não com as ideias, que possam ser repetidas até à exaustão como “o mundo está com a Ucrânia”, leia-se, “está com a NATO”. Trata-se, primeiro, da adesão às sanções, e a este respeito, o Brasil permanece firme na rejeição do isolamento do seu parceiro BRICS+; em segundo, o fornecimento de armas, e, também aqui, Lula deu uma resposta de mestre, lembrando que um ser que se diz pacifista e democrata, não combate países, nações, culturas ou civilizações: combate a fome e a miséria.

Pelo que representa Lula da Silva no mundo inteiro, e, a este respeito admitem-se sempre reflexões em torno da ligação entre discurso e realidade das suas políticas concretas, o que é um facto é que o presidente brasileiro é um exemplo para todo o Sul Global, mas não só, também para muita da esquerda europeia e americana, com especial incidência naquela que mais dói ao Império: a penetração do “Lulismo” junto do que hoje se classifica como “esquerda liberal identitária” é muito grande. Se a aceitarmos como “esquerda”… claro.

Ora, quando jogada esta pretensão de Lula em tornar-se um obreiro pela paz, com a proposta chinesa de acordo de paz, com as pressões da Turquia, adicionadas às informações de Bennet, ex-primeiro ministro Israelita que referiu terem sido os EUA que bloquearam os acordos de paz, no final de março de 2022, à data já redigidos… Tudo somado, onde fica o inferno, por mim caracterizado na primeira parte do artigo e, todos os dias, a toda a hora e em “modo de guerra” comunicacional, repetido até à exaustão pela comunicação social corporativa dominante?

Com o que sabemos hoje, apenas quem interpreta a política ao nível do jardim-de-infância ou da pré-primária, ainda pode considerar – com honestidade – que o problema dos EUA e dos seus braços (UE, o político; NATO, o militar) é a proteção da Ucrânia e do povo ucraniano. Aliás, só a esse nível se pode considerar esta uma guerra entre dois países eslavos e não entre a federação russa e os EUA (com os seus tentáculos, claro).

As palavras de Sholz, a esse respeito, dizem tudo: “ainda não é tempo de paz”!

É assim que se comportam aqueles que se consideram Donos Disto Tudo: não é o sofrimento humano que determina a urgência da resposta; é a defesa dos seus egoístas, autocráticos e discricionários interesses! E a Alemanha sabe, melhor do que ninguém, que exército ajudou a formar para se destruir a si própria.

Acolhendo um grupo de aprendizes ucranianos para serem formados na construção de blindagens, fez questão o governo alemão de afixar nas paredes dos dormitórios o seguinte aviso: “Atenção, a exibição de imagens alusivas ao fascismo e ao nazismo é proibida na Alemanha, podendo dar pena de prisão e multa”.

Mas quem se lembraria de colocar um aviso destes numa formação em Portugal? Ou em Espanha? Ou mesmo na Alemanha?

Acho que diz tudo deles… Mas diz ainda mais destes, da sua hipocrisia e desfaçatez!

O fascismo e o nazismo são produto e instrumento do capitalismo e do imperialismo!

Não nascem e prosperam no vácuo. Vejam o que disse Pompeo, ex-secretário de estado de Trump, sobre o aumento de tropas dos EUA em Taiwan: “é um começo”!

Sholz tem razão. Não é tempo de paz, é tempo de luta! Sob pena de, qualquer dia, serem os nossos filhos a terem de enfrentar quatro horas de esperança de vida, em nome de interesses que não apenas não lhes dizem respeito, como são contraditórios aos seus interesses.

Já acontece, está a acontecer e por obra dos mesmos interesses!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.