Defender “esta” Europa, para nosso azar!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 10/02/2023)

Na reunião que levou este súbito multimilionário – agora 50% mais rico do que no início do conflito que opõe a NATO à Federação Russa, de acordo com os últimos Pandora Papers -, foi possível ouvi-lo afirmar que “é esta Europa que defendemos no campo de batalha”.

Perante o regozijo do batalhão composto por funcionários, capatazes e outros quadros intermédios do aparato político-corporativo que compõe a cúpula do poder da EU – encabeçado pela sua zelosa CEO Úrsula Von Der “Lata” -, o comediante sem graça proferiu o seu vulgar discurso, como sempre carregado de chavões propagandísticos, tão mais vazios quanto mais cheios estão os seus bolsos, devido ao papel execrável que desempenha.

Confrontado com a insuficiência de recursos e apoios para fazer face à sua defesa “desta” Europa, o comediante lá vai assumindo uma tónica catastrofista que não joga minimamente com o tom triunfalista de quem dizia, em Setembro passado, que não perderia mais um metro quadrado que fosse para o inimigo.

Em passo acelerado para completar a destruição do terceiro exército que a NATO lhe coloca ao dispor (o 1.º foi logo no primeiro mês; o 2.º foi no verão passado; o terceiro está a ir agora), e insistindo na chacina de centenas de milhares, às mãos de um exército que decidiu provocar e combater, o comediante promovido a presidente, pelos poderes oligárquicos pró-ocidentais, desdobra-se em reuniões pedindo tudo o que dispare qualquer coisa, velho ou novo, funcionando ou não.

Lembro que a derrota do exército privado que tem ao seu dispor, montado com o dinheiro dos impostos dos europeus e americanos, longe de ser inesperada, era há muito anunciada. Só uma avaliação arrogante, auto-indulgente, imbecil e realizada por gente seguidista sequiosa de agradar aos seus chefes, poderia levar alguém a pensar que a Federação Russa é um país susceptível de se deixar vencer no campo de batalha. Tal como os EUA ou a China, a Rússia é um daqueles colossos orgulhosos da sua pátria e história, que prefere perder milhões dos seus filhos a sucumbir a um qualquer poder estrangeiro. A história demonstra-o à saciedade.

Foram e são muitos os que o disseram desde o início, foram e são muitos, os que hoje o passaram a assumir, foram e são muitos os que disseram que a retirada de Kharkiv, não era uma derrota da Rússia, era o início do fim do exército da NATO na Ucrânia. A retirada tática de Kherson, apresentada pela Ucrânia como vitória, para além das dezenas de milhares de soldados mortos, que se esmagaram, em vagas sucessivas contra o muro defensivo então montado, representou o ponto em que, o lutador, assenta bem os pés no chão, para passar ao assalto final. Na imprensa corporativa quase ninguém o constatou…

Hoje, perante os avanços diários da Rússia em toda a frente, começa a ser indisfarçável o tom derrotista, que denuncia o desespero. Foi esse desespero que o comediante levou a Bruxelas. O que faz todo o sentido, pois ao fazê-lo, assume-se finalmente por conta de quem esta marionete mandou para guerra centenas de milhares de jovens, filhos da classe trabalhadora, enquanto os seus fugiram para “esta” Europa, que lhes franqueou as portas, entrando por elas adentro todo o tipo de representantes das estruturas sociais criminosas que são características de um dos países mais corruptos do mundo. “Esta” Europa recebeu-os de braços abertos! Os trabalhadores ficaram a combater e a morrer por “nós”! É o conto que agora nos é contado!

Mas que Europa diz o comediante defender, no campo de batalha?

Coloca-se a questão de se saber se a Europa que é defendida no campo de batalha será, sequer, uma Europa que valha a pena ser defendida. No fundo, devemos perguntar se esta Europa, não será tão indefensável, quanto o mandatário belicoso contratado será incapaz de a defender. Se não estarão, os dois, bem um para o outro.

Começamos logo pela própria escolha do campo de batalha – o território ucraniano -, como sendo o terreno escolhido para a defesa “desta” Europa. Esta escolha representa, em si mesma, a imagem da razão última, pela qual, “esta” Europa não pode, não deve, nem sequer merece ser defendida! É que não foi “esta” Europa quem escolheu esta batalha; não foi “esta” Europa quem escolheu este campo de batalha! “Esta” Europa não escolhe, decide ou produz, por vontade própria, muito menos, dos seus povos. “Esta” Europa é apenas um instrumento de vontades alheias. Merkel e Hollande bem representam “esta” Europa quando confirmaram o papel execrável que lhes foi encomendado, e que tão honrados se sentiram em cumprir, mesmo contra a vontade dos povos europeus, ucraniano e da Federação Russa.

Como defender “esta” Europa, numa batalha em que actua como mero fio condutor de um poder que não é seu? De um poder que não lhe pertence? De um poder que não controla, mas que, ao invés, por ele é controlada?

A Europa que o comediante diz defender é uma Europa sem ligação à vida real, não passando de uma superestrutura desconectada da vida dos povos que a compõem, apenas funcionando, entre ambos, uma ténue ligação unidireccional, posicionada de cima para baixo, estabelecida pelos órgãos de propaganda institucional a que chamamos imprensa. Se a imprensa transmite aos povos as pretensões dessa Europa, manipulando e construindo o consentimento social necessário (o que Noam Chomsky escreveu sobre isto!), tão pouco esta Europa admite que os povos, resistentes ao consentimento construído, possam ter uma voz no desenho e aplicação das suas ações. Não é a eles que esta Europa responde.

Esta Europa responde mais acima, como um qualquer director corporativo responde ao seu CEO, ou este, aos seus accionistas, aqui transformados na elite oligárquica que financia, emprega, enriquece e suporta, como funcionários bem qualificados – nas universidades e colégios mais caros que só o dinheiro pode comprar –, os directores que compõem “esta” Europa.

A Europa que muitos, enganadamente, pensam ver defendida nos campos de batalha do leste europeu, e que ontem o comediante disse defender, é a Europa que decidiu, sem qualquer discussão democrática, fazer todos os estados membros (com excepção da Áustria e Hungria) entrar em guerra com a Federação Russa. Num total desprezo pelas estruturas representativas nacionais, a cúpula da Comissão Europeia, um organismo sem base democrática, decide, em nome dos povos europeus, enviar biliões de euros de material bélico ofensivo que, directamente, nos coloca em guerra com os alvos finais de tais armas.

Não contente, é esta mesma Europa que decide que os nossos países, uma vez mais, sem qualquer discussão democrática, passem a ser usados como campos de treino para mercenários e emigrantes ucranianos, nesses territórios, colocando-nos como agentes directos do armamento, treino e envio de forças para o campo de batalha.

Esta Europa, sem ouvir o povo português, arrastou o nosso país para a guerra! Claro que, esta Europa é também a mesma Europa que no seu âmago tem governos que não a comprometem, que não a questionam, ou lhe impõem limites. Esta Europa é a Europa da desconsideração das soberanias, da independência e liberdade dos povos para decidirem do seu destino.

Acresce que, comportando-se como meros tentáculos “desta” Europa, como miúdos bem comportados numa escola militar com medo de umas reguadas do professor, os governos nacionais “desta” Europa são os mesmos que não dizem uma palavra sobre o facto de, principalmente, a partir 2014, sabermos que a Ucrânia é um país dominado por milícias paramilitares – agora transformadas em tropas regulares – de extrema-direita, e de se inspirar na doutrina, nos símbolos e na prática, na odiosa ideologia de Bandera, bem visível na profusão da simbologia nazi por todo o país.

E se silenciar isto tudo é extremamente complicado para gente – como Santos Silva que diz querer combater a extrema-direita -, esta Europa é a mesma que, enviando cada vez mais biliões de euros dos nossos impostos, nos diz, ao mesmo tempo, que temos de suportar o aumento das taxas de juro e a perda das nossas casas. Esta Europa, que o comediante diz defender no campo de batalha, convive optimamente com o crescente número de homens e mulheres sem-abrigo, que povoam as pontes e arcadas das nossas cidades mais ricas, enviando tanto mais dinheiro para a guerra, quanto mais o nega para o investimento público necessário, em habitação, saúde, segurança social ou educação.

E se, quando aprovam os inúmeros pacotes de “ajuda”, para uma guerra que visa proteger, não “a” Europa, mas “esta” Europa, não há défice que resista, quando se trata de responder aos graves problemas sociais que crescem de dia para dia, lá vem o Eurogrupo – mais uma estrutura oligárquica não eleita que manda nos ministérios das finanças –, dizer “cuidado com o défice”.

E não havendo défice que resista, também não há cativação ou contenção orçamental que não seja removida quando se trata de pagar biliões à Pfizer (cujos contratos se recusam a divulgar), construir altares megalómanos ou premiar os grandes grupos económicos com isenções e incentivos de toda a espécie, enquanto promovem a desregulação do trabalho, a precariedade e a manutenção dos salários em níveis inaceitáveis. É este o tipo de governo que vive “nesta” Europa.

Uma Europa que nos censura a comunicação social que não se limita a reproduzir os comunicados da NATO, Casa Branca ou G7, que persegue nas redes sociais e pratica a ideologia do cancelamento, contra todos os que têm a coragem de denunciar a sua corrupção moral, material e política.

Numa Europa em que, desde 2002, os salários cresceram em média 0,3%, mas os 1% mais ricos se apropriaram, no mesmo período, de mais de metade da riqueza produzida – enquanto assistimos a uma degradação, sem precedentes, das condições de vida -, ainda temos de assistir a uma escalada belicista, que pode acabar em nuclear, e que vem provocando a destruição e deslocalização da industria europeia, para engordar a elite de um país, que não se encontra neste continente, mas noutro.

Não, quem conhece a História e sabe que a Europa se reconstruiu, no pós-guerra, maioritariamente por ação da energia e matérias-primas baratas vindas da URSS e, mais tarde, da Federação Russa, processo iniciado na “guerra fria”, não pode acreditar que é a Rússia quem quer destruir o modo de vida europeu, quando tanto lucrava com ele. Quem destrói o modo de vida europeu é quem promove uma Europa, “esta” Europa, das divisões, dos blocos e das sanções.

E, quem promove “esta” Europa da pilhagem dos povos, dos seus próprios povos, é quem se diz português, espanhol ou italiano, mas tem o sonho de estudar nas melhores universidades americanas e inglesas, dando voz a um complexo neocolonial, de que, o que é estrangeiro, é que é bom. E fazem-no, sabendo que, só por ali, e mesmo só por ali, acedem à cúpula de poder “desta” Europa. Pois é “só por ali” que recebem os ensinamentos que os amestram como bem-comportados – e acríticos – moços de recados. O selo de qualidade dos “melhores” colégios, das mais “prestigiadas” universidades anglo-saxónicas e das mais bem-sucedidas corporações, equivale a uma mordaça, acompanhada de palas nos olhos. Faz… mas nunca questiones. E se questionares, nunca o faças acima… E, acima de tudo, nunca, mas nunca, questiones a narrativa! A narrativa constitui o fio condutor da acção… Apenas da acção. Porque o pensamento, “nesta” Europa, não existe! Uma vez mais, arrepiante a precisão de 1984 de Orwell!

A Europa que o comediante diz defender no campo de batalha, é uma Europa que só pode ser ali defendida, porque é “esta” Europa! Fosse outra Europa, a “nossa” Europa, e não haveria sequer necessidade de a defender. Porque os povos nunca querem guerra. E quanto mais vejo o regozijo daquela cúpula europeia com a revelação de que “estamos todos em guerra”, mais me convenço disto mesmo. Quem quer a guerra, nunca é quem nela morre!

Ora, por ser o que é, “esta” Europa não merece defesa possível. A “Europa” do comediante não é a Europa dos europeus, é a Europa dos grandes interesses.

Não admira, portanto, que apenas gente como ele, corrupta, vende-pátrias, traidora dos seus povos irmãos, traidor da sua língua (este traidor foi criado e cresceu a falar russo, perseguindo agora no seu país quem agora o fala), considere estar ali a defender tal Europa.

“Esta” Europa, é a Europa que nos oprime, é a Europa que nos mente, que nos censura e que nos desrespeita todos os dias. É a Europa que faz a guerra em vez da paz, que promove a discórdia ao invés da fraternidade, que divide para reinar!

O comediante está certo! É “esta” Europa que ele defende! Para azar do seu povo e do nosso!

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O casamento de sonho

(Hugo Dionísio, in Canal Factual, 03/02/2023)

As ondas de paixão que unem os centros do poder neoliberal e neoconservador à cúpula do poder leal ao regime ultranacionalista ucraniano, encontram muitos pontos em comum, que tornam possível um casamento com potencial altamente destrutivo para o povo pacífico e trabalhador daquele país. Povo, martirizado por um regime belicista e com uma ideologia odiosa, que merece toda a solidariedade, devida a todos os povos do mundo.

Um dos mais importantes dotes a cumprir, para a consecução da união “amorosa”, está bem traduzido na recente reforma laboral do país, que Michael Hudson comparou – não sem razão – à do próprio Pinochet, o que nos permite caracterizar aquele regime não apenas como reminiscente da pior das versões fascistas – o nazismo -, como prossecutor da doutrina do choque neoliberal, inaugurada pelos Chicago Boys de Milton Friedman, religiosamente praticada por Thatcher e agora transposta para o país do leste europeu com a manifesta oposição do seu povo trabalhador.

Vejamos que, mesmo organizações ocidentais, sempre tão branqueadoras da ideologia fundadora daquele regime, foram obrigadas a reconhecer, nos seus comunicados, que “o governo Ucraniano pode usar a lei marcial e a invasão russa para atacar os direitos laborais”. Olhando agora para a extensão da “reforma” laboral e o epílogo do processo com uma carta de amor enviada às maiores corporações de Wall Street – (ver aqui) -, pelo próprio presidente comediante, é razão para nos questionarmos sobre o que unirá tais organizações ditas “democráticas” a uma figura corrupta (vide Pandora Papers) que recruta à força para a guerra, vende o país ao estrangeiro – Blackrock e Monsanto dominam hoje uma parcela enorme da propriedade rural e urbana do país -, e ataca os direitos dos trabalhadores, tornando-os carne para canhão, não apenas nos campos de batalha, mas também nas mãos dos oligarcas que sustentam o seu poder.

Diga-se, em bom rigor, que a tentação da “reforma” neoliberal das leis laborais nesse país já não é de hoje. A cada governo pró-ocidental e nascido de uma qualquer revolução laranja, lá vinha a tentativa de alteração e consequente destruição do património jurídico-laboral do país. Claro que, quando se sabe que a maior central sindical do país tem mais de 50% da população activa sindicalizada nas suas estruturas, bem se percebe que o ataque é aos sindicatos e à própria democracia que sem eles não vive. Para os que ficam tão chocados com os negócios que muitos países fazem com a China, em que esta constrói as infraestruturas e depois obtém benefícios de concessão, no caso concreto, o Fundo da Propriedade Estatal da Ucrânia anunciou a privatização do porto de Belgorod-Dnestrovsky em Odessa. A teoria é a de que o porto não era rentável e a receita nem para os salários dá. Até parece que por cá também não foram geridas, de forma tão danosa quanto criminosa, empresas públicas, apenas para justificar a sua privatização a baixo preço. Ora, se isto aconteceu em países como Portugal, imagine-se como é no país mais corrupto do mundo, nas palavras do próprio Bill Gates.  O facto é que estes fundos abutres ocidentais, não constroem nada, só pilham. Tudo baseado na corrupção, na aquisição com ganhos elevados para o erário público dos países “investidos” e sempre, mas sempre, em lógicas comunicacionais e argumentativas comprovadamente falaciosas. Se houve algo que ficou provado à saciedade, foi que a gestão pública, quando bem feita, não só é mais eficiente, como mais benéfica, para os utentes e para o país. Claro, não está ao dispor da pilhagem medieval, disfarçada pela aura da sofisticação financeira.

Para se ter uma ideia dos efeitos nefastos da “reforma” do passado Verão (como é diabolicamente maligna essa palavra “reforma”), cerca de 70% dos trabalhadores deixam de estar sob a protecção do Código do Trabalho. Nascida das entranhas das cúpulas neoliberais e propagandeada na Conferência de Lugano “Ukraine recovery”, um amplo festival de pilhagem, travestido de “privatizações, liberalização e transparência”, e bem relatado em aqui, no que toca ao trabalho, toda a acção se centra na criação de um regime paralelo que derroga a aplicação a todos os trabalhadores de pequenas e médias empresas, até 250 trabalhadores.

Estes, ao invés de contarem com os sindicatos, a contratação colectiva e o próprio código para regularem as suas condições, passam a “negociar” directamente com os patrões, numa lógica individual. Ou seja, como estabelece a lei em causa “em condições de igualdade”. Condições de “igualdade” que sabemos não existirem entre as partes, sendo precisamente por isso que nasceu o direito do trabalho.

Então, o que há de errado com o Código do Trabalho ucraniano? A bem dizer, nada, apenas não se coaduna às pretensões neoliberais em voga no Ocidente e tão bem conhecidas no nosso país. O Código do Trabalho é de 1971, ou seja, ainda do tempo da URSS, e embora tendo sido alvo de muitas alterações, mantém a matriz protectora do direito do trabalho, própria de um regime jurídico que visa proteger os trabalhadores e o seu direito ao trabalho. Basicamente, o código tem tudo o que tem um qualquer código laboral europeu mais protector: férias, despedimentos com justa causa, contratação colectiva, participação sindical, greve…

De 2000 em diante, sempre que a direita neoliberal e pró-ocidental estava no poder, foram várias as tentativas de afastar este Código do Trabalho, a última das quais em 2021. As massivas manifestações, à data, tornaram impossível a aprovação das leis propostas, tendo o governo recuado nas suas pretensões.

Consequentemente, e perante as dificuldades, vem o Foreign Office Inglês (quem mais?) e, através de um programa financiado pelo UKAid, no valor de 180 milhões de Libras, não apenas estabeleceu os parâmetros da reforma como produziu uma estratégia política e de comunicação, que passou por partir a reforma em vários projectos mais pequenos e em usar a lei marcial para contornar os processos de consulta pública: um procedimento “altamente democrático”, portanto.

O resultado? Para além do que já referi atrás, ainda encontramos coisas como:

•            Contrato de trabalho de 0 horas;

•            Negociação individual com a possibilidade de afastamento do direito à liberdade sindical, à greve e à contratação colectiva, nas PME;

•            Desregulação dos horários de trabalho, férias, despedimento e categorias profissionais.

Na estratégia de comunicação podemos encontrar todo o tipo de chavões neoliberais: “a lei laboral é muito rígida”; “há que simplificar e facilitar o despedimento e a contratação”; “ a liberalização vai levar ao aumento do emprego e melhoria dos salários”; “a liberalização levará a postos de trabalho mais dignos”; “a rigidez da lei laboral afasta os investidores”; “ a lei é protectora, mas não é aplicada”, e por aí fora.

Esta “mãozinha” dada pelo padrinho Inglês Boris Johnson e a madrinha Úrsula, acaba com um casamento de sonho, declarado através de uma carta de amor às maiores empresas de Wall Street, em que o comediante sem graça apresenta o programa AdvantageUkraine e diz, entre outras coisas:

– O meu país tem muitos e bons negócios para quem quiser investir (daí a mão de obra barata);

– São 400 milhões em parcerias publico privadas (leia-se “teta”) e privatizações, incluindo da banca pública;

– Um projecto gerido pelo USAID (esta organização é a encarnação do mal) que ajudará os investidores a identificar as melhores oportunidades (leia-se, os EUA a pilharem a Ucrânia);

– Esta é a maior oportunidade de reconstrução desde a Segunda Guerra mundial (leia-se: paguem-me que eu dar-vos-ei tudo).

Não se conhecendo nenhum país que tenha saído mais rico e desenvolvido de um casamento deste tipo, pois o “dote” é extremamente caro e deixa a família da noiva (o povo) na mais absoluta penúria, até a OIT veio criticar o arranjo. Aliás, são as próprias organizações sindicais europeias e inglesas – com posicionamentos questionáveis sobre este conflito, para não correr o risco de exagerar – que vêm anunciar “o fim da democracia”. É o caso da organização inglesa “Opendemocracy” ligada ao Labour e ao TUC. São estes também que vêm reconhecer que, ao contrário dos tempos da URSS, hoje, os sindicatos ucranianos não têm qualquer participação na gestão das empresas. O que faz o tempo a estas cabeças!

Bem, dizer isto é manifestamente exagerado. Pois quer dizer que, das duas uma, ou consideram o regime ucraniano actual uma “democracia” e isso é preocupante, ou então andaram a dormir este tempo todo, desde o golpe de extrema-direita que apoiaram em 2014.

É que, todo este casamento começou a construir-se aí mesmo. O primeiro partido aniquilado – formalmente, claro – foi logo o partido comunista ucraniano, um partido que, por sinal – e não é para admirar – se opunha, e opõe (agora clandestinamente), à intervenção russa. Portanto, nem foi sequer um problema de ódio racial anti russo, foi mesmo um problema de ódio ideológico.

Depois seguiram-se os sindicatos, hoje mais ameaçados do que nunca, muitos encerrados e eliminados administrativamente, com as suas propriedades confiscadas. Neste caminho, nenhum partido de esquerda, do PC ao Partido Socialista sobrou. Foram mais de uma dezena os partidos extintos e, inclusive, encarcerados alguns dos seus líderes. Nem a Igreja ortodoxa se safou, numa perseguição religiosa baseada também no ódio racial.

Se a isto juntarmos as prisões arbitrárias, as punições e linchamentos públicos de cidadãos russófonos, ucraniano-russófonos, comunistas, ciganos e outros… Tudo bem documentado desde 2014. Dá para pensar no que anda esta gente a ler, para dizer que agora é que vai acabar a democracia. Fazia-lhes falta ler este artigo sobre a natureza do nacionalismo naquele país, o papel da CIA na sua promoção, as ligações entre Bandera e o nazismo e, por fim, a assunção da ideologia de Bandera pelo regime atual, como seu elemento identificativo e fundador – uma ideologia racista, xenófoba e intolerante. Está documentado e é assumido pelos próprios! Não há um único “democrata” que se preze que possa dizer: “não, eu não sei que o regime ucraniano se baseia na ideologia de Bandera!”. Notas, bandeira, hino e outros símbolos, têm consagrado o tríptico de Bandera! O que é preciso mais?  Já não chega de faz de conta?

O mais caricato disto tudo é chamar ditadura ao regime russo. Com limitações óbvias e conhecidas (mas nem sempre reportadas da forma adequada), a Rússia é, mesmo assim, um país que em todos os índices democráticos, sociais, culturais, corrupção e económicos tem uma performance bem mais simpática do que a do regime do comediante sem graça. Têm piada estas classificações fáceis, típicas da ideologia identitária e “woke” que o neoliberalismo injectou nalguns “democratas” e que os levou a trocar as questões do trabalho, pelas das minorias urbanas radicais e intolerantes. O que tanto jeito dá ao desesperado e decadente império! Conseguir desviar uma parte importante da luta pela emancipação humana, das questões essenciais como a desigualdade e injustiça material, as quais impedem a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, orientando as massas para questões que, sendo importantes, são apenas decorrentes das primeiras… foi de mestre! É equivalente a um assaltante conseguir colocar um cão de guarda a correr atrás da própria cauda, ao invés de o ter a correr atrás de si (hei-de voltar a esta comparação!). Eis o que fazem os ingénuos identitários “woke”, correm atrás dos problemas, ao invés de eliminarem o mal que os cria. Ao invés, até são apanhados na armadilha do apoio a “causas” que elas próprias entroncam na natureza dos problemas que dizem combater, como o caso da guerra no leste europeu, que opõe as duas maiores potências militares do planeta.

O desesperado e decadente império agora encontra-se em divórcio acelerado com a China e programa para 2025 a sua próxima batalha. Uma vez mais, uma batalha desesperada, uma perigosa fuga para a frente, que constitui uma tentativa de criar uma situação de caos mundial do qual os EUA – como na Segunda Guerra Mundial – voltem a emergir como única potência não destruída e com os meios para se apoderar – como sucedeu na Europa, Japão e Coreia do Sul – dos mais variolosos recursos desses países, a troco de uma “ajuda” que não podem recusar. Aliás, esse processo já está em curso, hoje e neste preciso momento, nas várias dependências neocoloniais identificadas como UE e G7.

Não obstante, já anda gente muito assustada com isto tudo, ao ponto de Pedro Sanchéz vir dizer que “é preciso falar mais de paz”, o novo primeiro-ministro checo vir criticar as sanções e apelar ao diálogo, a Croácia idem e Lula da Silva ter dado uma lição de humanidade a Mácron, o empregado da Mackinsey e dos Rothschild, quando lhe disse “a nossa guerra é contra a fome”. A de Macronette também deveria ser…. Devia.

Numa UE onde já não chegam as pontes e as arcadas para abrigar o povo que é atirado para a rua, continua a haver dinheiro para enterrar no buraco negro de Zelinsky e companhia. Que só serve para matar mais ucranianos. Dinheiro, esse, bem visível nos bólides de 200.000 euros que, com a matrícula ucraniana, rodam por Lisboa. Dá que pensar: o povo trabalhador é despojado dos seus direitos, para que alguém tenha carros e casas caras. Onde estão agora os defensores do povo ucraniano, com as suas bandeirinhas de Bandera?

Na cimeira UE-Ucrânia temos a celebração do casamento de sonho, de onde sairá a promessa de união na vida (dos EUA) e na morte (da Ucrânia), na saúde (dos EUA e NATO) e na doença (do povo ucraniano e europeu) e na riqueza (das elites oligárquicas e seus capatazes dos EUA/G7 e UE) e na pobreza (dos povos envolvidos).

Uma espécie de casamento por contrato, em que a noiva é arrastada a ferros, pelo pai (o comediante sem graça) que a deveria proteger dos agressores. O pai, neste caso, recebeu um dote bem guarnecido. Agora, alguém que apareça e diga que existe impedimento!

Voluntários? Foi o que pensei!

P.S. Para quem pretender uma informação mais detalhada sobre as alterações à legislação do trabalho na Ucrânia, ver aqui.

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Ações desesperadas!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 30/01/2023)

Alguma coisa está em mudança no monte Olimpo e está a deixar em retalhos a união de tendências ligadas à falcoaria estado-unidense. Perceber e prever as acções da elite política que comanda, através dos seus mandatários transnacionais, os nossos destinos, implica conhecer o que reflecte e publica o mais importante think thank de defesa dos EUA.  Esta pesquisa leva-nos a uma entidade que muito raramente surge nos momentos “informativos” da imprensa do atlântico norte: trata-se da RAND Corporation.

O momento mais conhecido da RAND, no que respeita ao conflito no leste europeu, é sinalizado pela publicação do relatório “Extending Russia – Competing from Advantageous Ground” (estender a Rússia – competir por uma posição vantajosa no terreno). Este relatório contém todo o cardápio de malfeitorias que, nas pretensões tornadas públicas, publicadas e assaz repetidas pela cúpula do poder dos EUA, levaria a uma fulminante derrota do poder político, económico e militar da Federação Russa.

A análise manifestada publicamente, pelos diversos intervenientes políticos, dizia que a Federação Russa não passava de “uma bomba de gasolina com armas nucleares”, um “tigre de papel” com um PIB equiparado ao da Holanda e um povo amordaçado por um “ditador louco” que, apenas pelo “autoritarismo” e “repressão”, se mantinha no poder.

Partindo de uma análise cuja informação parecia consubstanciar tais posicionamentos políticos, o relatório da RAND preconizava um tipo de intervenções, algumas das quais bem reportadas – outras nem por isso – na imprensa oficial. Foi o caso da tentativa de revoluções “coloridas” made in CIA na Bielorrússia, no Cazaquistão e nos países da Ásia central, os quais, em conjunto com a Geórgia e a Moldávia, seriam provavelmente “promovidos” e “apoiados” à condição de uma Ucrânia actual. A Federação Russa, tendo de acorrer a todos os fogos – uns porque se transformavam em exércitos por procuração (como a Ucrânia), outros em bases de operações de desestabilização interna lançadas pela CIA -, acabaria por se “estender” até se partir em bocados e colapsar, colocando um fim à ameaça atual. Mesmo sem esta partição, sempre se poderia chegar a um ponto em que, após a destruição do poder político vigente, seria instalado um “regime” mais dócil, apontando a uma “posição mais vantajosa no terreno”.

Dado a conhecer apenas em 2019, somos forçados a constatar que esta estratégia já estava em preparação há muito, principalmente a partir do momento em que o presidente russo perdeu a esperança de poder contar com uma “parceria” ocidental e anunciar o fim do mundo unipolar. Facto é que, o relatório tem uma ligação lógica com a National Defense Strategy de 2018 (estratégia nacional de defesa dos EUA).

Fosse quando fosse, esta estratégia entronca na estratégia de “jugoslavização” da Federação Russa. A verdade é que o itinerário constante desse trabalho foi cumprido quase escrupulosamente pela cúpula de segurança e defesa dos EUA: revoluções “coloridas”; estados transformados em exércitos por procuração; campanha de comunicação e desinformação; operações de desestabilização e sabotagem; sanções e embargos económicos. Um cardápio de fulminantes actividades “democráticas” em crescendo!

E porque é que é importante falar disto hoje? É importante porque nos últimos dias foi publicado um novo documento da RAND Corporation, mas desta feita em sentido inverso, um estudo intitulado “Avoiding a Long War U.S. Policy and the Trajectory of the Russia-Ukraine Conflict” (evitar um conflito de longa duração – a política dos EUA e a trajectória do conflito russo-ucraniano).

Se os trabalhos anteriores apontavam para os objectivos que tão propalados foram por Anthony Blinken, Biden, Nuland ou Kirby, e que passavam por um conflito duradouro que esgotasse as energias russas, de forma a permitir a remoção do obstáculo, pela força, se necessário fosse, o estudo publicado, desta feita, aponta para a realização de uma análise custo-benefício entre os custos e riscos resultantes de uma guerra longa com Moscovo e os benefícios que os EUA podem retirar de uma trajetória, que se prevê de escalada e que pode resultar numa confrontação directa.

Algo mudou e de que maneira. Primeiro era o triunfalismo e a destruição da ameaça, agora, um conflito longo traz riscos e custos que impedem os EUA de se focarem em prioridades mais prementes. Como ficamos? No início pretendia-se, precisamente, um conflito duradouro… Agora, não apenas comporta custos e riscos, como parece ser a própria Rússia que está mais confortável com a previsível extensão do conflito no tempo, ao ponto de designar Gerasimov como comandante-chefe das forças armadas, prevendo mais do que um teatro de operações em simultâneo (a RAND apontava para a possibilidade bilateral polaca).

Segundo o site Moon of Alabama, uma das melhores fontes sobre política externa dos EUA, a publicação deste estudo não surge por acaso, surgindo após uma tentativa por parte do chefe de gabinete dos EUA, Mark Milley, em promover um debate interno sobre possíveis negociações de paz com a Rússia. Perdida a batalha na Casa Branca, não conseguindo demover Biden – pois este só ouve Nuland, Blinken e Sulivan (falcões de serviço) -, optou pela exposição pública da sua pretensão, vindo apelar ao início das negociações primeiro e, talvez, suscitar a publicação deste estudo, depois.

O problema é, como escreve Tyler Durden, num dos melhores sites de opinião da actualidade que é o ZeroHedge, no seu artigo “The most Egregious Mistake” (o erro mais egrégio), recuar e inverter a direcção da política dos EUA, nesta matéria, não é, simplesmente, uma opção. A Casa Branca levou todo o Ocidente numa direção e velocidade tal, em matéria de triunfalismo, arrogância e “egrégia” imbecilidade, que não existe retorno ou inversão possíveis, sem uma total derrota da narrativa oficial e a consequente vergonha eterna. Daí que, estes esforços de Mark Miller devam resultar em muito pouco, a não ser no aprofundamento das fracturas internas, o que pode ser positivo. O facto é que, já existe gente a pretender destoar deste caminho para o abismo.

Agora, ao contrário dos diversos escritos sobre a matéria – segundo os quais, inicialmente, esta estratégia não resultava propriamente de uma necessidade mas de uma escolha, traduzida no tal “erro egrégio” -, que tendem a explicar a impossibilidade de inversão na direção da estratégia suicida actual, com o sectarismo da narrativa oficial – que só oferece certezas e resultados inequívocos -, eu, pessoalmente, tendo a considerar que não se tratou de um “erro”, nem tão pouco de uma escolha, mas sim, de um acto de desespero.

Diz a narrativa – americana – alternativa à corrente oficial, que a estratégia delineada representava uma ameaça existencial para a Rússia, mas não para os EUA. Para os EUA seria possível enveredar por outros caminhos que não os da criação deste conflito.

A meu ver, esta é uma posição condescendente e que desvaloriza os sentimentos de urgência que resultaram da análise catastrófica (nunca tornada pública) que, provavelmente, muitos terão feito quanto à situação da hegemonia estado-unidense. O facto é que, enquanto os EUA gastaram 8 triliões de dólares na guerra ao terror, canalizando para aí todos os seus esforços diplomáticos, económicos e militares… o que fizeram Rússia e China?

Enquanto os EUA usavam o pretexto do terrorismo (que eles próprios tantas vezes fomentaram e instrumentalizaram como arma de arremesso contra adversários políticos – Síria, por exemplo) para dominarem as maiores reservas mundiais de petróleo (no Médio Oriente), secundarizando outros recursos naturais, hoje com importância (como o lítio, por exemplo), a China desenvolveu as suas infraestruturas, industria, exercito e, sobretudo, a sua plataforma internacional de trocas comerciais, hoje conhecida como Belt and Road Initiative (Novas Rotas da Seda). Neste período, o Sul Global pôde experimentar uma nova forma de “soft power”, que em vez de exigir privatizações, dolarização da economia e reformulação do sistema político à moda do que dava mais jeito, tendo o FMI e o Banco Mundial como os procuradores de serviço, a integração na BRI apenas exige que os projectos facilitem as trocas entre os países (daí as infraestruturas). Em troca de recursos naturais, estes países – ao invés de corporações ocidentais e “investimento” traduzido na compra das empresas publicas -, recebem escolas, hospitais, redes 4G e 5G, portos, aeroportos, pontes, e quanto maiores e mais desafiantes melhor.

Nem a propaganda da “armadilha da dívida”, bem conhecida do FMI e dos tratados de associação com os EUA, impediu mais de 120 países de aderirem a esta rede. Entretanto e no mesmo período de tempo, a Rússia pôde reerguer-se do pesadelo neoliberal dos anos 90, recuperando a sua indústria e, acima de tudo, a sua autoestima e orgulho nacional. Um pecado mortal aos olhos da Casa Branca. Foram feitos projectos de integração euroasiática (EUEA), de cooperação internacional (BRICS) e de infraestruturas (INSTC) que contornam a influência dos EUA através dos mares, o que ajuda a blindar a economia dos países envolvidos.

Enquanto este mundo multipolar nascia nas barbas dos falcões mais arrogantes e sectários, o complexo militar industrial centrava as suas atenções na guerra ao terror. Os nossos noticiários, à data, em vez de Ucrânia, começavam e fechavam com atentados suicidas e bombas-relógio. Até que…

Quando começaram a surgir as informações sobre este mundo, sob a forma de dados concretos, o pânico começou a instalar-se. Foi por alturas de 2017/18. É claro que, na minha perspectiva, este pânico não pode confessar-se. A sua exteriorização começou a surgir através do Euromaidan, da pressão e desestabilização sobre nações da América Latina menos alinhadas, com a prisão de Lula da Silva e de outros líderes nacionais, promotores de políticas com as quais a Casa Branca não estava confortável. Aos poucos fomos vendo a política externa dos EUA dirigir-se novamente para o domínio dos recursos naturais e dos mercados e menos para o terrorismo. Chegaram mesmo a “abandonar” o Médio Oriente, deixando aí apenas os cães de guarda sionista e curdo. Era o tempo dos noticiários que abriam e fechavam com a Venezuela.

Contudo, esta inversão de rumo já denunciava, a meu ver, uma espécie de corrida contra o tempo. Tempo que tinha que ser ganho.

Perante a contínua perda de terreno, lá chegámos ao tempo do Covid (que segundo muitos é uma “cartada” da Casa Branca, provocada ou oportunista, logo veremos, a seu tempo) e à construção de uma estratégia militar que terá sido eleita como, o último dos meios – longe de ser remoto –, para “conter” a China, recém classificada como “ameaça existencial”.  O confronto no Pacífico passaria pela criação de uma NATO oriental, baptizada de AUKUS. Nessa estratégia havia que remover os obstáculos que poderiam fazer pender a balança para o lado do inimigo. Esse obstáculo era a Federação Russa. A celebração de uma verdadeira aliança estratégica entre a Federação Russa e a China demonstra que as lideranças destes dois países deixaram de ter qualquer ilusão sobre as reais intenções dos EUA. Quanto mais juntos estiverem, maior a sua protecção e maior a ameaça para os EUA.

É aqui que surge a opção “ucraniana”! A estratégia de estender a Rússia até que partisse não foi uma opção. Foi uma acção desesperada. Absolutamente! E porquê?

Não o digo apenas por causa do que antes referi e da urgência que os dirigentes da elite das Corporações Transnacionais (a espinha dorsal do Império estado-unidense) deverão ter sentido perante a informação que lhes foi chegando. Nesta fase, convém dizer que o “falhanço” da estratégia chinesa teve a sua importância nesse desespero. Para a elite corporativa que controla o poder político dos EUA, a “abertura” económica da China levaria de certeza (não sei em que ciência se basearam) à destruição do poder do Partido Comunista e à instalação de um governo de tipo neoliberal. Hong-Kong já terá sido uma etapa forçada, pois esta gente acreditava que o processo seria mais ou menos “natural”, resultando num colapso de tipo “URSS”, desta feita, na China. Mas não… Em 2015 já se dizia na Casa Branca que teriam de aprender a viver com a China como ela era. Não haveria um novo “Tiananmen” à vista.

Para a elite corporativa transnacional não existe cooperação. Existe domínio. Afinal é esse o combustível e a adrenalina do império. De qualquer um. Mas, voltando ao leste europeu, porque digo que a opção ucraniana foi desesperada?

Primeiro, foi forçada. E foi forçada porque resultou do fracasso de gente como Navalny e outros fantoches neoliberais, que deveriam ter conseguido produzir um desgaste do poder do Rússia Unida. A opção preferencial é sempre a que passa pela desconstrução e submissão interna do adversário. Não o conseguindo, sobrou apenas a militar. A militar é a componente em que os EUA ainda se consideram superiores.

O relatório da RAND apontava para um conjunto de “tarefas” que deveriam ser cumpridas para atingir-se o objectivo de “estender a Rússia” e assim conseguir uma “posição mais vantajosa no terreno”. Foi atingido esse desiderato? Não, nem por sombras.

Primeiro, falharam as revoluções “coloridas” na Bielorrússia e Cazaquistão. Não apenas não removeram os respectivos governantes como pioraram a sua situação no terreno, reforçando o poder da Rússia sobre esses países (os respetivos governos por ela “salvos”). Segundo, falharam as sanções de 2014 em diante, ao não destruírem a economia russa. Pior, deram ao país uma capacidade de viver com as sanções do Ocidente. As sanções foram “a” oportunidade de desenvolvimento, o pretexto que faltava para passar de uma economia apenas baseada na extracção de recursos, para uma economia industrial, em alguns casos de ponta e de ciclo completo, ou seja, com setores-chave soberanos e blindados contra manobras de sabotagem, a partir do exterior. Terceiro, a Geórgia não mordeu o isco e não se armou em exército por procuração, falhando o plano de criação de várias frentes de batalha. De tudo isto a Federação Russa saiu mais forte.

Enquanto o discurso para fora, por motivos ideológicos e estratégicos, continuava a ser o da “bomba de gasolina”, as acções denunciavam apenas desespero. A própria instrumentalização dos acordos de Minsk, acordos sancionados pela ONU, como forma de ganhar tempo para armar a Ucrânia, descredibilizou totalmente o Ocidente aos olhos do Sul Global. Quem engana assim, um país como a Rússia, apoiando-se num processo como o de Minsk, é capaz de tudo.

O facto de conseguirem “convencer” um país ao sacrifício por causa do poder de outro, fazendo assentar esse “convencimento” na instauração de uma doutrina neonazi, que recupera Bandera (responsável direto pela morte de milhões de polacos, ucranianos e judeus), assente na xenofobia, no ódio racial e cultural, conduzindo esse país a um golpe de estado perpetrado por forças comparáveis às SS, e fazerem esta gente toda passar por mártires e heróis, chegando mesmo a retirar o batalhão Azov da lista de organizações extremistas… Tratou-se de outra facada na confiança, por parte de um mundo composto por nações a quem ainda não foi apagada a memória e conhecem o que de mal o fascismo e o nazismo lhes trouxe. Esse mesmo mundo também sabe a contribuição decisiva que a URSS – e a Rússia, por maioria de razões – deram, no século XX, para a derrota do colonialismo e para a libertação nacional da maioria da Humanidade.

Tratou-se, também, da libertação das garras do imperialismo e colonialismo ocidentais. Do mesmo Ocidente que usou a pilhagem como momento de apropriação primitiva de riqueza, que lhe permitiu chegar primeiro ao desenvolvimento e que depois o usou para submeter, ainda mais, os pilhados. Não, este mundo já não confia no Ocidente. Este mundo não é o mesmo mundo que a média corporativa diz estar com Zelinsky.

O discurso oficial negou toda esta realidade e vendeu uma “banha da cobra”, segundo a qual, a Ucrânia, com a ajuda da poderosa NATO, venceria, sem apelo nem agravo, uma guerra de atrito contra a Rússia. Claro, a vitória seria tão retumbante que o atrito nem se iniciaria, pois, às primeiras sanções, o poder cairia na rua. Nem os milhares de agentes russos que a CIA tem no seu bolso foram capazes de o conseguir. O poder não só não caiu como se reforçou, demonstrando que ainda está por nascer a nação orgulhosa que, sendo acossada a partir de fora, se volta contra si própria. Os pressupostos da RAND continuavam a estar cada vez mais longe de se verificarem.

Segundo a imbecilidade resultante do complexo de superioridade das elites ocidentais, um país com 3% do PIB global não teria hipótese contra o poderoso G7/NATO/EU. O que diz muito da metodologia de mensuração do PIB e do uso deste enquanto forma de caracterização de uma economia. Como explicou o “velhinho” Marx, só o trabalho produz riqueza e só a transformação da matéria em algo com valor de uso traduz essa riqueza. É isso a “economia real” de que tanto fala Martyanov. Ao contrário da economia especulativa e ultra-financeirizada do Ocidente, a Rússia tem uma economia real, que produz coisas com valor de uso. Com valor “real” de uso, sem as quais não vivemos, ao contrário de um Iphone ou de um perfume Chanel. Aliás, o Sul Global tem vindo, paulatinamente, a descobrir que tem os recursos, a tecnologia e a riqueza para possuir uma economia real. E não precisa do Ocidente para isso. É o Ocidente que não vive sem o Sul Global e não o contrário. O Sul Global já o percebeu, e os EUA também.

Ao constatá-lo, e ao assistir ao espectáculo deplorável que é o constante confisco de quantias soberanas depositadas em dólares ou euros, que o Ocidente, a mando dos EUA, tanto rouba, hoje assistimos a um movimento de fuga ao dólar…

Também nisto temos muito desespero, como o processo que levou à “instauração” de um Guaidó na Venezuela ou as sucessivas tentativas de revolução “colorida” no Irão. Em ambos os casos, os dois países viram “congelados” as suas reservas no espaço G7/NATO/EU. Se este movimento, por si, já tinha colocado em sobreaviso muitos países – pois já não eram apenas os “comunistas” Cuba e República Popular da Coreia -, desta feita, o congelamento e intenção de confisco das reservas russas fez, claramente, apertar o botão de pânico. Qualquer país, independentemente da dimensão, se não aceitar a submissão, é alvo de confisco de tudo o que tenha em moedas do Ocidente colectivo.

O resultado? O resultado é BRICS+ e a cesta de moedas, é a proposta de moeda latino-americana entre Brasil e Argentina, é o retorno ao ouro, o criptoyuan e a multiplicação das trocas em moedas nacionais, como já sucede entre países euroasiáticos, Irão, China, India, Turquia e Rússia, a que muito recentemente se juntou o Paquistão, ou o caso da Arábia Saudita e China. O desafio parece ser simples: fugir às moedas “malditas”, mas sem parecer que se está a fazê-lo com urgência, não vá tudo cair aos trambolhões.

Este resultado era óbvio e foi tantas vezes previsto ao longo da última década. Inclusive em canais insuspeitos do ponto de vista da ideologia neoliberal como o Bloomberg ou Politico. Mas nem esses avisos demoveram a suicida arrogância e prepotência que resulta de 500 anos de supremacia racial ocidental.

Hoje, depois de Annalena Berbock nos confirmar que fomos arrastados para uma guerra, sem qualquer discussão democrática de fundo e reflexão pública, a não ser as infindáveis horas de propaganda “slava Ukraini” na média corporativa; tal guerra parte, também ela, de uma subavaliação das capacidades militares e industriais da própria federação russa.  Lêssemos o relatório feito pelo Congresso há uns dois anos sobre as capacidades militares da Federação Russa e veríamos que a conclusão geral era qualquer coisa como: muito armamento, mas pouco sofisticado, com problemas de precisão e ultrapassado em relação ao dos EUA. Ora, não é essa a história que contam os mais de 7500 tanques abatidos, os mais de 300 aviões, mais de 200 helicópteros e, mais importante que tudo, as centenas de milhares de vidas perdidas, principalmente de soldados (Zaluzhny terá dito ao Pentágono que seriam 232.000, fontes da CIA falam em 305.000 e a inteligência Chinesa já fala em 500.000 a 680.000). Seja o maior ou o mais pequeno, especialmente quando comparado com as perdas russas, dá-nos uma ideia catastrófica da desproporção de forças. Assistimos, de facto, a um processo de desmilitarização e desnazificação.

Com este pano de fundo, discutiu-se o envio de tanques, em mais um episódio de “armas maravilha”. Mas, desta feita, e depois de as outras não terem surtido o efeito desejado, os EUA já não querem atirar para a fogueira mais negócios de venda de armamento, como aconteceu com os “maravilhosos” HIMAR ou M777. Enviassem para lá os seus tanques Abrams e logo cairia o número de vendas. Assim, os alemães que mandem para lá os seus Panzer Gepard. Sholz não queria? Quando o ouvi dizer que só os enviaria se… Logo pensei: “ainda não recebeu o pedido não recusável de Biden e companhia”. Não demorou um dia a aparecerem imagens dos tanques a caminho da Polónia, ainda antes do anúncio público. É assim a Alemanha dos nossos dias: um aglomerado de cavaleiros teutónicos identitários montados em unicórnios, com armaduras rosa e com girassóis não mão, em vez de espadas. Uma tristeza!

Seja como for, lá se vai preparando uma campanha de primavera em que, para defender os EUA, mais 100.000 militares ucranianos, recrutados à força, serão sacrificados em nome de Bandera (multiplicam-se a velocidade alucinante os vídeos de gente a ser apanhada nas ruas, nos centros comerciais, a esconder-se da polícia…)!

Podendo já garantir-se a derrota da ofensiva (vá lá… um país como a Rússia prefere sacrificar milhões dos seus melhores filhos a submeter-se a um qualquer império ocidental), os EUA preparam-se já para a próxima manobra desesperada. A jogar em Taiwan, Japão e Coreia do Sul. Entretanto seguem-se as tentativas de revolução “colorida”, até agora frustradas (os outros estão a aprender a desarmar o exército de ONG’s da CIA), para arranjar mais candidatos a “Ucrânia” no Pacífico.

O estudo da RAND aponta precisamente para essa “prioridade”. Mais uma que levará a acções cujos requisitos prévios não se verificam e, por isso mesmo, condenadas ao fracasso. Mas como alguém, dos EUA, disse há algum tempo: “já não existem opções boas”. Só as desesperadas. Faz lembrar os últimos tempos do Reich com a sua procura pelas “armas maravilha”.

Mas se o resto do mundo já viu as cenas dos próximos capítulos, aqui no território da NATO, a média corporativa ainda anda em modo ilusório, segundo o qual, o mundo é um quintal dos EUA e o Ocidente coletivo é a referência civilizacional… É como o chavão “a Ucrânia está a ganhar a guerra”.

Será com prazer que assistirei a toda a uma multidão de jornaleiros, analistas, politólogos e outros charlatães a fazer o pino… e a dizer “ninguém previa isto”!

Não é o que fazem sempre? Em sinal de desespero?

E ainda há quem acredite neles!

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