Comunicação social, arma da contra-revolução

(José Goulão, in AbrilAbril, 27/04/2024)

1.º de Maio em Lisboa, 1974. Créditos Gerald Bloncourt / O Castendo/Le blog de Gerald Bloncourt

Hoje, quando a comunicação social corporativa e afim, mesmo que em mãos públicas, aborda o 25 de Abril que a libertou, normalmente fá-lo segundo uma versão da revolução infectada pelo vírus de Novembro.


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Sempre que, ao longo das últimas décadas, somos confrontados com mais uma daquelas infindáveis decisões absurdas, quase sempre desumanas, que são próprias daquilo a chamam democracia liberal – outrora ocidental –, lembro-me amiúde das palavras do saudoso e inesquecível cantor-poeta antifascista José Mário Branco, quando ele, na sua desencantada mas ainda esperançosa «Chulinha», nos recorda: «Quando o mês de Novembro se vingou… Houve aqui alguém que se enganou».

Foi a vingança, o reviralho, como se diz na tradição política portuguesa; foram os enganos, mais propriamente as despudoradas mentiras, que trucidaram os ideais nobres do 25 de Abril de 1974 ao longo dos 50 anos que agora assinalamos.

Houve enganos nossos, é certo. Ou melhor, talvez ilusões desfeitas, uma confiança desmedida – compreensível depois dos anos de chumbo salazaristas – numa dinâmica avassaladora e imparável da democracia e do progresso social para recuperar tanto tempo perdido e sofrido.

Talvez não seja necessário chegar ao ponto de afirmar que o povo, correndo solto através dos caminhos abertos por Abril, foi vítima desse excesso de confiança, de uma euforia quantas vezes imprudente perante inimigos traiçoeiros, poderosos, com mil caras e séculos de experiência, total ausência de princípios e um assanhado desprezo pelas pessoas.

O povo, de facto, primeiro iludiu-se, enganou-se, não cuidou de se defender, ao mesmo tempo que avançava, expôs-se àquela espécie de inocência traiçoeira que lhe garantia um futuro melhor apenas por ter a razão, a justiça e a História ao seu lado.

O inimigo atacou forte por aí. A par da conspiração permanente nacional e internacional montou uma poderosíssima estratégia de engano, falsificação e mentira. Senhor de um poder sem fronteiras e suficientemente consolidado para o efeito, foi transformando a incompleta derrota de Abril em sucessivas vitórias, a primeira das quais em Novembro de 1975, o primeiro e decisivo passo da vingança contra a democracia.

Vingança contra uma democracia real que, para o ser, tem de ser antifascista. Ora, a democracia que temos não é antifascista, e não só por haver terroristas bombistas de 1975 reciclados em dignos deputados da República; mas, e sobretudo, porque o sistema a que chamam democracia liberal já nem se incomoda a disfarçar os instintos fascistas em gestos cada vez mais frequentes praticados por uma classe política concebida em Novembro desse ano para usurpar o poder do povo.

Houve realmente alguém que se enganou. Mas houve, principalmente, um povo deliberada e metodicamente enganado. A grande mentira que pesa sobre nós invoca o 25 de Abril contra o 25 de Abril, corrompe a democracia em nome da democracia e pode ufanar-se do seu maior feito: virar grande parte do povo contra o 25 de Abril original, aquele sistema social e político definido e posto em prática pelos militares revolucionários e logo então agarrado pelo povo como coisa sua. O 25 de Abril autêntico, que as gerações de hoje desconhecem.

O que resta de um país…

Avaliar a envergadura da mistificação nada tem de abstracto. Um olhar sobre o Portugal de hoje revela o pouco que resta de um país sonhado naqueles dias entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Um período vibrante, criativo, patriótico, solidário, difamado por narrativas obscenas transformadas em história oficial por uma classe política venal, estrangeirada – apátrida, mesmo – e sempre tendencialmente corrupta; e uma comunicação social assente na mentira, na manipulação dos factos, no controlo da opinião pública e mestre na arte de anestesiar os cidadãos. Convergindo ambas num regime de democracia adulterada que não admite alternativa, cada vez mais diaboliza o contraditório e que, com o afã de explicar às novas gerações um 25 de Abril que nega e calunia a realidade do 25 de Abril, encoraja a ascensão gradual e metódica do velho e novo fascismo; enquanto persegue sem pudor, e sem limites, as forças consequentemente antifascistas com uma sanha que o próprio Salazar não desdenharia.

Do longo combate ao espírito real do 25 de Abril e às transformações sociais alcançadas nos quase 600 dias de revolução resta hoje uma entidade nominalmente designada Portugal, um protectorado da União Europeia impedido de utilizar ferramentas de governação indispensáveis a um Estado independente; um apêndice da aterradora máquina de guerra expansionista do império; um minúsculo território a que a partilha de interesses da oligarquia transnacional que exerce o poder no chamado mundo ocidental atribuiu o papel de reserva turística – depois de destruído e vendido praticamente todo o património produtivo do país.

Houve aqui alguém que nos enganou, a mesma casta que hoje nos governa e que, nos idos de Novembro de 1975, logo se apressou a exigir o regresso dos militares aos quartéis uma vez consumado o golpe, tratando o MFA e o Conselho da Revolução como excrescências incompatíveis com o modelo de regime, dito democrático, que pretendia instaurar – e instaurou.

Uma casta que se autodenominou classe política, que usa e abusa do espaço de liberdade de actuação que lhe foi aberto pela coragem antifascista dos militares revolucionários – e que nunca teria ousado dar o corpo ao manifesto para derrubar o salazarismo. Pelo contrário, na sua concepção, na actuação conspirativa e golpista foi mais um instrumento da CIA, com os indispensáveis colaboracionistas e agentes internos, naquela que terá sido uma das primeiras e mais bem conseguidas revoluções coloridas do império.

O êxito alcançado como que entranhou o espírito golpista no tecido da hoje chamada «democracia liberal» e do qual tivemos recentemente dois exemplos, apenas com dois anos de intervalo, através de uma mistela envenenada amalgamando o aparelho judicial e órgãos de poder, com destaque para o chefe de Estado. Manobras que culminaram na realização de duas eleições gerais, inquinadas desde a origem, que instalaram a direita ultramontana no governo e catapultaram mais de 60 fascistas retintos para o Parlamento – contando com os que ainda permanecem acoitados no PSD e no CDS. Não, não é possível detectar qualquer vislumbre de inocência nos autores destes procedimentos.

Um produto tóxico

Neste contexto de golpismo e viciação dos mecanismos democráticos ao longo de quase 49 anos podemos e devemos escalpelizar a comunicação social actual, a herdeira directa dos meios que conspiraram activamente contra a revolução, deram asas à propaganda perversa e às trapaças políticas que consolidaram o golpe de Novembro. Meios sempre e sempre mais eficazes e que hoje cultivam o ambiente de subserviência à NATO e à União Europeia, o militarismo, o branqueamento dos fascismos, como o nazismo ucraniano e o sionismo, o totalitarismo económico e financeiro neoliberal, a restrição dos espaços de opinião, de liberdade cultural e de escolha política.

Muitos competentes, corajosos e generosos jornalistas da imprensa, rádio e televisão lutaram heroicamente contra a censura salazarista, enfrentaram o regime e alguns passaram pelas câmaras de tortura e pelas celas da ditadura. Ora o que observamos no jornalismo dominante actualmente é a cumplicidade com novos métodos censórios, cada vez mais sofisticados; a promiscuidade com a classe política e os centros de poder; a subserviência provinciana perante a doutrinação da NATO e da União Europeia; a incapacidade – ou ausência total de vontade – para desmontar a hipocrisia comportamental da chamada civilização ocidental, sobretudo quando esta procede de maneira absolutamente contraditória em relação aos valores humanistas de que se apropriou unicamente para efeitos de propaganda.

O jornalismo dominante e os meios de comunicação frequentados pela esmagadora maioria da população portuguesa e do espaço ocidental trocaram a informação pela propaganda, a paz pela guerra e o militarismo, a democracia pelo totalitarismo neoliberal, o primado da lei pelas regras avulsas e arbitrárias emitidas de Washington, o pluralismo pela opinião única, o diálogo pela arrogância, o esclarecimento pelos comentários unanimistas, viciados e multiplicados por gente impreparada, culturalmente indigente, avençada por organizações conspirativas, serviços secretos e sistemas transnacionais de poder.

A resultante deste processo é um produto tóxico multifacetado que dilui as capacidades críticas dos cidadãos, mina o seu processo de reflexão sobre a sociedade em que se inserem, anestesia a sua vontade de contestar, induzindo-os a viver numa espécie de realidade paralela como seres hipnotizados e amorfos – em suma, um rebanho.

Ernest Bevin foi um chefe trabalhista britânico, ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro nos primeiros anos do pós-guerra.

Bevin, como trabalhista, era um feroz anticomunista, segundo os seus biógrafos; e ficou na História como um dos mais entusiastas e empenhados fundadores da NATO. Foi um dos 12 subscritores do Pacto do Atlântico em 1949.

Recordo a figura de Ernest Bevin porque, sendo um atlantista da mais rija cepa, tinha um pensamento político abrangente muito interessante e significativo que, explanado há mais de 75 anos, hoje é tão actual como então. Dizia este progenitor da NATO que «o preço da liberdade é a eterna vigilância». Note-se que ele fala da nossa «liberdade» actual e não podemos deixar de admirar a sua franqueza e, sobretudo, a sua premonição. Ou então, nesta espécie de democracia há coisas que nunca mudam.

«Divertir, entreter, enganar»

Bevin também conhecia a fundo o potencial e os objectivos reservados à comunicação nos ambientes e regimes políticos tutelados pela NATO e outras instâncias de concentração imperialista. Segundo ele, «um jornal tem três tarefas: “uma é divertir, outra é entreter, o resto é enganar”».

É justo que consideremos admirável a perspicácia deste dirigente britânico ao conseguir antever, a uma distância de três quartos de século, a realidade em que hoje vivemos.

Ao jornal podemos acrescentar a rádio, a televisão e a multiplicidade de canais da comunicação dominante, incluindo a internet; e depois submeter esta amálgama às mais apuradas doutrinas de propaganda (Goebbels parece hoje um prosaico amador) e às mais sofisticadas capacidades tecnológicas. Teremos então a visão de Ernest Bevin exponencialmente projectada para patamares estratosféricos de indigência, estupidificação e aldrabice através dos veículos da comunicação social corporativa globalista.

Se todos recordarmos aqui – e basta fazê-lo superficialmente – o comportamento dos canais privados de televisão, ficaremos mais impressionados ainda com o talento visionário de um dos pais fundadores da NATO. «Divertir» é estupidificar, alienar, esvaziar qualquer conteúdo de referências culturais formativas e esclarecedoras; «entreter», da maneira como esses meios o fazem, é o método para formatar cidadãos alheados, passivos, agarrados ao acessório de vidas que não são as suas enquanto se conformam com as próprias existências, mergulhados numa inércia que os impede de combater por melhores condições e pela afirmação de direitos; «enganar», enfim, é o objectivo primeiro e último: os espaços ditos de informação são os cenários privilegiados de mentira, convenientes omissões, comentários à la carte e mistificações para aperfeiçoar uma opinião única, apurá-la o mais possível de acordo com a cartilha do fascismo económico neoliberal, antecâmara de uma qualquer das mil e uma caras do fascismo político – snobe, trauliteiro ou sonso e de falinhas mansas.

A existência de televisões privadas e a adaptação da televisão pública ao espírito «privado», ou seja, a sua transformação num instrumento de poder do bloco que teóricos fascistas da nossa praça designam como «arco da governação», foi, desde sempre, uma arma de guerra da dinastia novembrista lusitana.

O processo desenvolveu-se paralelamente ao assalto aos meios de comunicação públicos pelas clientelas dos partidos governantes, seguido da privatização, em saldos de feira da ladra, à maneira cavaquista, de todos os jornais então em mãos estatais. Esta metodologia assente em benevolentes e viciadas quermesses paroquiais funcionou como forno crematório da quase totalidade dos títulos históricos da imprensa portuguesa, incluindo vários que se tinham mantido privados: O Século, República, A Capital, Diário Popular, Diário de Lisboa. Diário de Notícias e Jornal de Notícias sobreviveram, se bem que, no caso do matutino lisboeta, seja difícil chamar sobrevivência àquele estado vegetativo.

O Diário: um acto brutal e um exemplo

Não posso deixar de abordar aqui o assassínio premeditado do jornal o diário, o único órgão dissonante da doutrina do regime, a voz isolada que refletia os interesses e direitos das camadas mais desfavorecidas da população. Tal como no caso do jornal República, gerido com um alarido que chegou até à agenda de uma cimeira da NATO, o diário foi vítima de uma conspiração com ramificações internas associadas ao soarismo, um takeover não consumado mas que teve como consequência a inviabilização e extinção do jornal. Um acto brutal de censura, um atentado sem quaisquer escrúpulos contra as liberdades por parte de um poder que, decididamente, se dá mal com a diversidade, o pluralismo de opinião e as práticas antifascistas. Sem me alongar nos pormenores de uma história escabrosa que ainda está por contar, recordo apenas que duas das personagens mais envolvidas no processo, uma como colaborador influente e outra como administrador principal da empresa proprietária de o diário, foram pouco depois promovidas a ministros com pastas muito relevantes, respectivamente, nos governos socialistas de António Guterres e José Sócrates: Joaquim Pina Moura, ministro das Finanças e da Economia; Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

No panorama da imprensa nasceram entretanto, e sobrevivem, ainda que com dinâmicas opostas, o tablóide Correio da Manhã e o presunçoso diário snobe da classe média Público, variantes da mesma propaganda doutrinária neoliberal e que assentam naquela ficção oriunda do reino do fantástico segundo a qual os jornais que são propriedade de oligarquias podem ser independentes e refletir interesses contrários aos dos proprietários.

Quanto aos grupos proprietários de canais privados de televisão é relevante notar que são controlados por interesses associados a mecanismos de poder imperiais, entre eles a mais conhecida seita do poder conspirativo globalista, o Grupo de Bilderberg.

A perda de influência dos jornalistas

Nestes ambientes, a influência e as qualidades profissionais dos jornalistas tornaram-se quase irrelevantes, ainda que com incidências muitas vezes perversas ao nível das hierarquias e das chefias, que aceitam executar tarefas censórias contra as quais tantos colegas de há meio século lutaram e se sacrificaram.

Ao mesmo tempo, os profissionais da informação permitiram que as suas associações de classe perdessem poder e que os mecanismos constitucionais de intervenção postos ao seu dispor pela Revolução de 25 de Abril, nomeadamente as Comissões de Trabalhadores e os Conselhos de Redacção, quase morressem de inanição.

Hoje, quando a comunicação social corporativa e afim, mesmo que em mãos públicas, aborda o 25 de Abril que a libertou, normalmente fá-lo segundo uma versão da revolução infectada pelo vírus de Novembro, o mesmo que contribuiu para a transformar num instrumento degenerado ao serviço de um sistema de poder autoritário absolutamente incompatibilizado com o antifascismo e as liberdades de informação e de opinião.

As gerações dos portugueses que não eram nascidos em 1974 só perceberão verdadeiramente o que é a liberdade de opinião, de informar e ser informado quando puderem conhecer – e viver – o que na realidade foi a Revolução de 25 de Abril desse ano glorioso.

Intervenção proferida na conferência «50 anos do 25 de Abril – democracia, paz e liberdade – fascismo nunca mais», promovida pela URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses em 26 de Abril de 2024.

Fonte aqui.


Os “nossos valores” sequestrados

(José Goulão, in Strategic Culture Foundation, 29/03/2024)

No Ocidente os tão invocados “nossos valores partilhados” estão sequestrados, pelo que é fácil subvertê-los e usá-los perversamente como instrumentos para ludibriar e neutralizar o espírito crítico da grande maioria dos cidadãos.


Os nossos dirigentes, tanto os que têm envergadura imperial como os seus súbditos para quem a soberania nacional é coisa arcaica própria de mentes estagnadas, repetem sem descanso, martelando a cabeça dos cidadãos como no método tradicional de ensino da tabuada, que agimos em função dos “nossos valores partilhados”. Nós, o garboso Ocidente, senhores do planeta e dos espaços siderais por mandato divino e usucapião fundado em séculos de expansão e extorsão, assim administrando a “civilização”.

“Nossos valores partilhados” nas bocas dos fundamentalistas ocidentais é todo um programa de dominação, um conceito de ordem mundial assente num único poder centralizado com ambição a tornar-se global e incontestado. Se olharmos o mundo à nossa volta nestes dias assustadores, equipados com lucidez, independência de raciocínio e dose cada vez mais elevada de coragem, concluiremos que a aplicação desses “valores” – a palavra certa é imposição – funciona como um gigantesco exercício de manipulação que transforma princípios universais, humanos, inquestionáveis e comuns a muitas e diversificadas culturas num poder minoritário, de índole mafiosa e níveis de crueldade que vão da mentira institucionalizada à generalização da guerra, passando pelo roubo como forma de governo e de administração imperial/colonial. A este aparelho que pretende impor uma realidade paralela àquela em que vivemos chama-se “ordem internacional baseada em regras”, um catálogo de normas de comando voláteis, casuísticas, não escritas e a que todo o planeta deve obedecer cegamente, sem se interrogar nem defender.

“Ordem internacional baseada em regras” é o código imperial que veio soterrar o direito internacional e transformar as organizações mundiais que devem aplicá-lo em órgãos que rodopiam à mercê das “regras” de cada momento, manipulados, desvirtuados e instrumentalizados segundo as conveniências do funcionamento da realidade paralela.

Liberdade e democracia

Poucos princípios preenchem tanto as prédicas dos dirigentes mundiais e seus apêndices às escalas regional e nacional do que liberdade e democracia.

Uma liberdade para expandir globalmente, porém com uma definição muito específica e padrões limitados pelas “regras” da única ordem internacional permitida.

A liberdade prevalecente, e que condiciona todas as outras, acaba por ser a da propriedade privada e da inexistência de restrições ao funcionamento do mercado. Todas as restantes alavancas que devem fazer funcionar o mundo assentam neste princípio inquestionável que faz da justiça social uma aberração, transforma em servos a grande maioria dos seres humanos, converte as organizações internacionais e a generalidade dos governos nacionais em instrumentos dos casinos financeiros e das oligarquias económicas sem pátria, fronteiras ou limites comportamentais. Uma liberdade condicionada pela ditadura do lucro e a vassalagem ao dinheiro.

Este conceito dominante de liberdade, a liberdade de extorsão própria da realidade em que de facto vivemos, é desde há muitos séculos um alicerce da “civilização” ocidental – a única reconhecida para efeitos de relações internacionais. A ordem “baseada em regras” é extremamente exigente e vigilante em relação a esta mãe de todas as liberdades e, se necessário for, não hesita em recorrer à guerra para a restaurar lá onde estiver ameaçada.

Com a democracia acontece mais ou menos a mesma coisa. Só existe um único formato que permite instituir o “poder do povo”, mesmo que depois o povo em nada se identifique e beneficie com a interpretação da sua vontade que dela fazem os eleitos. É mais ou menos assim, segundo o padrão “representativo” determinado pelo Ocidente: de x em x anos criam-se festivais ditos políticos onde vigoram a violação tácita da igualdade de exposição de opiniões, a manipulação da informação e das chamadas “sondagens” e a divisão ostensiva e “institucionalizada” entre os partidos com “vocação para governar” e os outros; ensinados assim a “decidir”, as maiorias de eleitores escolhem em “liberdade” os seus preferidos, garantidamente aqueles aplicam a doutrina oficial “democrática”, nestes tempos o capitalismo na sua arbitrariedade plena, o neoliberalismo.

Exemplo desta democracia no seu grau máximo de evolução é a União Europeia: neste caso os cidadãos nem precisam de “escolher” os dirigentes máximos da organização, simplesmente nomeados para não haver erros nem desvios à doutrina governativa oficial e única; e supondo que os eleitores “escolhem” directamente o Parlamento Europeu, este tem poderes limitados para não perturbar o trabalho arbitrário dos não eleitos ao serviço dos seus patrões.

Quanto aos Estados Unidos, o paradigma democrático a que deve obedecer-se num mundo unipolar, a escolha imposta aos cidadãos limita-se a dois aparelhos mafiosos de poder que agem em formato de partido único. Sendo esta a democracia que funciona como farol, segundo as sentenças abalizadas dos mestres da opinião única, todas as outras devem seguir tendencialmente o mesmo caminho. Não é opção, é uma ordem “baseada em regras”: a lei do “excepcionalismo” de âmbito planetário gerido pela única nação “indispensável”. E dizem os comentadores autorizados que não existe imperialismo.

Daí que os praticantes da democracia ocidental, a única, tenham ainda como missão fiscalizar os exercícios democráticos dos outros através do mundo. Por isso a União Europeia, por exemplo, arroga-se o direito de “aceitar” ou não os referendos nos quais as populações do Donbass decidiram juntar-se à Rússia. O mesmo acontece em relação às recentes eleições presidenciais russas. O Ocidente declarou-as “falsas” mesmo antes de as realizarem, depois não quis inteirar-se da transparência e da afluência às urnas com que o processo decorreu; tudo isto para, no final, as declarar “fraudulentas”, “falsas”, próprias de um regime “autoritário”

Trata-se, afinal, de aplicar o princípio de reconhecer apenas as eleições e consultas populares que dão os resultados pretendidos pelo Ocidente e rejeitar todas as outras cujos eleitores decidiram de forma não tolerada pelos polícias da ordem internacional, como se tivessem violado as “regras”  -mesmo cumprido os mecanismos processuais das votações definidos como únicos. É à luz desse entendimento discriminatório que os Estados Unidos e os seus satélites não reconhecem resultados eleitorais na Venezuela, na Nicarágua, na Rússia, por exemplo, mas assinam por baixo a legitimidade de fraudes como nas Honduras, de golpes como no Brasil, Paraguai, Bolívia, Ucrânia, Paquistão (só alguns dos mais recentes) ou a designação como presidentes de indivíduos que nem sequer concorreram a eleições – o caso de Juan Guaidó na Venezuela,

A democracia ocidental é, como se prova, bastante elástica em casos que chegam a roçar o absurdo e muito restritiva no reconhecimento de actos eleitorais legítimos, porém menos convenientes para os interesses dos “excepcionalismo”. É uma questão de exercício do poder internacional que o Ocidente julga possuir à luz de “regras” casuísticas determinadas consoante os interesses de uma “civilização” que não envolve mais de 15 por cento da população mundial.

Recorrendo a exemplos recordados ao acaso, eis como a “democracia ocidental” é peculiar no próprio Ocidente. Robert Habeck, ministro da Economia da Alemanha, colosso cada vez mais reduzido a um tapete de Washington, garante que não lhe interessa a opinião do eleitorado, o essencial é que a Rússia seja derrotada pela Ucrânia. E Josep Borrell, o “ministro dos negócios estrangeiros” da União Europeia, que ninguém elegeu, determina que os cidadãos europeus “têm de pagar o preço” necessário para “derrotar a Rússia”. Ora aqui estão “regras” que corrigem a própria democracia padrão.

O mesmo Borrell, espanhol e também socialista, é claríssimo na interpretação dos “nossos valores partilhados”. Considera que na vida internacional há evidentemente “dois pesos e duas medidas”: os nossos, os “correctos”, e os dos outros, que têm comportamentos próprios da “barbárie.

Direitos humanos

Pedra de toque dos “nossos valores partilhados”, os direitos humanos traçam a grande fronteira entre o Ocidente “civilizado” e os outros – 85 por cento da população mundial.

Direitos humanos são, por sinal, valores que ilustram a preceito a tese de Borrell sobre dois pesos e duas medidas: nós sabemos o que são direitos humanos, os outros não.

Os principais acontecimentos da actualidade permitiram até refinar o conceito de direitos humanos a partir da clarificação entre seres humanos e entes sub-humanos – distinção baseada nas práticas de Volodimyr Zelensky, por sua vez inspirada nos conceitos purificadores de Stepan Bandera e seus pares, pais e heróis do regime ucraniano de Kiev, no seu tempo colaboradores dos nazis alemães em massacres de dezenas de milhares de seres humanos – talvez deva escrever-se sub-humanos.

As nações europeias dançam a música tocada por Zelensky segundo partitura das “regras” de Washington, para que os russos do Donbass e os russos em geral, sub-humanos por definição dos nazis que mandam em Kiev, sejam devidamente sacrificados tal como vinha a acontecer, metodicamente, como resultado de uma guerra iniciada há oito anos.

A “democracia ocidental”, apostando a própria vida dos cidadãos por ela regidos para que um regime nazi liquide sub-humanos, é um cenário apropriado para quem defende os direitos humanos acima de tudo? É o aval para a conversão do nazismo à democracia ou, antes de tudo, a demonstração de que a “democracia ocidental” segue na direcção do inferno do fascismo? O que nada tem de ilógico pois foi o fascismo que embalou no berço a ditadura neoliberal que dá forma ao regime financeiro-económico-político dominante em termos internacionais, exercido com ambições globalistas e totalitárias e que, em última instância, dita a “ordem internacional baseada em regras”.

Governantes, comentadores, analistas e outros formatadores da opinião única incomodam-se quando, a propósito da situação no Donbass, se recordam as atrocidades cometidas pelos Estados Unidos e a NATO, ou respectivos braços mais ou menos informais, nas guerras – algumas delas “humanitárias” – levadas até à Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Somália, Líbia, Síria, Iémen. Sem esquecer o caso exemplaríssimo do Kosovo, onde os Estados Unidos e a União Europeia praticaram uma secessão territorial sem qualquer consulta às populações envolvidas e entregaram o governo a terroristas fundamentalistas islâmicos especializados em múltiplos tráficos, todos eles rigorosamente respeitadores dos direitos humanos, como está comprovado.

E que autoridade têm os que condenam a anexação do Donbass, com o presidente norte-americano à cabeça, os mesmos que são cúmplices da anexação de quase toda a Palestina e territórios sírios por Israel, do Saara Ocidental por Marrocos, que esfacelaram o Iraque e a Líbia, que roubam ouro e milhões de milhões de dólares ao Afeganistão, à Rússia, à Venezuela, à Líbia, sem esquecer o petróleo da Síria?

Na sequência natural da definição dos padrões únicos e civilizacionais dos direitos humanos surgem outros direitos tão ou mais invocados como sagrados, por exemplo o de opinião, o de expressão, o respeito pela privacidade de cada um, a liberdade de informar e ser informado.

A situação actual é rica em exemplos de como a “democracia ocidental”, o mundo baseado “em regras” e a partilha dos “nossos valores” andam de mãos dadas com o cinismo, a hipocrisia, a mentira pura e simples e o desrespeito pelo ser humano (para já nem falar nos sub-humanos).

A pressão sobre as opiniões e a liberdade de pensar torna-se cada vez mais asfixiante, intolerante, adquirindo contornos inquisitoriais. Regra geral, a partir sobretudo da implantação do neoliberalismo durante os últimos 40 anos, as opiniões dissonantes da verdade única e tolerada foram desaparecendo da comunicação social, dos espaços de debate público, das instituições de ensino.

O que é silenciado não existe, o comum dos mortais habituou-se a viver com os conceitos que recebe de enxurrada, quase sem tempo para pensar. A individualidade, a faculdade de pensar fundiram-se e dissolveram-se no interior de um imenso rebanho de repetidores de verdades absolutas e incontestáveis que, não poucas vezes, agridem e alienam a sua condição de cidadãos livres e com direitos.

O processo não é estático – evolui no pior sentido, o da agressão de um direito essencial do ser humano, que é o de pensar pela própria cabeça e partilhar as reflexões e conhecimentos com os outros. Os acontecimentos acuais, designadamente a chacina israelita na Faixa de Gaza, a guerra na Ucrânia e o envolvimento profundo e cúmplice do Ocidente institucional no apoio ao regime de inspiração nazi de Kiev, transformou a estratégia de silenciamento das opiniões dissonantes numa perseguição de índole totalitária. Pensar de maneira diferente tornou-se um delito, uma colaboração com entidades maléficas, um atrevimento inaceitável e, por isso, submetido a difamações, ameaças de agressão e às mais rasteiras calúnias públicas. Enquanto a comunicação social se tornou refém da propaganda terrorista.

Nesta “civilização cristã e ocidental”, incapaz de cortar o cordão umbilical com o imperialismo e o colonialismo, sobrevivem reconhecidamente os resquícios inquisitoriais. Que se afirmam com veemência crescente ao ritmo de uma fascização que os horizontes não afastam.

Neste contexto, os “nossos valores partilhados” são cada vez mais instrumentos para criação de uma ficção que arrasta perversamente os seres humanos em direcções contrárias aos seus próprios interesses.

Trata-se de uma armadilha que é, ao mesmo tempo, um esforço desesperado para tentar impedir o fim da era do poder unipolar, que parece inevitável – mas pode ser travado por uma guerra de proporções e consequências catastróficas.

Os “valores partilhados” autodefinidos como um distintivo da pretensa superioridade humanista e civilizacional do Ocidente, e nos quais assenta a arrogância de pretender dar lições a outros povos, culturas e civilizações, são, afinal, universais; não têm donos, proprietários, muito menos polícias e esbirros. E as civilizações não estão hierarquizadas: classificá-las num qualquer ranking entre bondade e maldade, legitimidade e ilegitimidade, correcção e erro é um perigoso jogo de cariz xenófobo – o que parece incomodar cada vez menos os orgulhosos, prepotentes e fundamentalistas praticantes e adeptos da suposta superioridade ocidental,

De facto, no Ocidente esses tão invocados “nossos valores partilhados” estão sequestrados, pelo que é fácil subvertê-los e usá-los perversamente como instrumentos para ludibriar e neutralizar o espírito crítico da grande maioria dos cidadãos.

Fonte aqui.


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A caraterística mais surpreendente do caso Assange

(Paul Craig Roberts, in Resistir, 28/03/2024)

A coisa mais extraordinária sobre Julian Assange é que ele está a ser tratado como se fosse um cidadão americano. “Traição” foi o grito original, agora convertido em “espionagem”.

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