Von der Leyen apresenta-nos o “dolwar”

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 19/11/2024)

Neste tempo em que as “democracias” defendem a guerra e o fim dos programas sociais, e as “autocracias” preferem a paz e os programas de desenvolvimento, a escolha de von der Leyen e António Costa representa, sobretudo, a escolha pela autodestruição da EU.


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E das trevas se fez luz! Se quem não queria ver poderia argumentar que a informação circulante era esmagadoramente unidireccional e muito pouco esclarecedora sobre as reais intenções, por detrás das manobras belicistas. A cada dia que passa, mais elementos surgem quanto ao papel que o conflito gerado entre a NATO e a Federação Russa assumiu no negócio ligado ao armamento, inteligência e políticas de segurança, em geral. Como demonstra o comunicado de imprensa que a própria NATO lançou em 2003, de 2014 para a frente, nunca mais houve um ano em que a evolução nos orçamentos nacionais de defesa fosse negativa.

De 2021 para 2023, os EUA quase dobraram o valor contratado em armas vendidas para os países da NATO, assumindo-se neste relatório que os países se “assustaram” com a “invasão em larga escala” da Rússia à Ucrânia. Como se constata, a propósito das visões fantasmagóricas da presença de soldados Norte-Coreanos em Kursk, apenas “comprovadas” por fontes ligadas ao regime de Kiev”, regime especialista em “cripto-acontecimentos”, usados como justificação para conflitos bem reais, o negócio das armas passou a ser constituído por um processo do tipo “chave na mão”, que incorpora: a produção do motivo; a justificação da solução; a entrega do equipamento; e, dependendo do preço, o seu uso. Portanto, o negócio do “dolwar” assenta em pressupostos ainda menos substanciais do que o bem real “petróleo” que justifica a existência do seu “irmão”, o “petro”.

O negócio atingiu tal magnitude e razão de ser que, em função do “medo” de uma “invasão” de toda a europa e arredores, o Congresso, constituído por ávidos junkies de “dolwar”, acabou mesmo a rever o processo legal de venda de armas, e ao abrigo do “AECA” (Lei para o Controlo de Exportação de Armas”, a notificação do presidente ao congresso para venda de armas a países da NATO e demais vassalos, bastam 15 dias de aviso prévio, ao invés dos regularmente exigidos 30 dias.

Nada disto é segredo, tudo é assumido de forma clara: o negócio das armas é tido como um acelerador do crescimento económico dos EUA e o conflito Ucraniano é assumido como o combustível que deu energia ao veículo colocado em marcha, ou seja, os programas europeus de compra e fabrico de armamento.

Para garantir que tudo funciona suavemente e sem entraves, colocou-se à frente da Comissão Europeia a melhor “Gestora de Vendas” que o dinheiro pode comprar, Úrsula von der Leyen. Não apenas garante o negócio das armas, mas, refira-se em sua justiça, também é especialista em vacinas, desde que da Pfizer, e de LNG, desde que do Henry Hub. Von der Leyen funciona como uma broker de primeira água. Garantindo, de uma assentada, o cometimento de toda a União Europeia com o “interesse Nacional” dos EUA.

Não existe argumento que não utilize, podendo dizer-se que não tem qualquer problema em usar dos maiores artifícios, para atrair o comprador ao produto do seu fornecedor favorito. Tal como fez, mais recentemente, na Hungria, ao propor a troca do LNG Russo pelo LNG norte-americano porque, este último, é “mais barato” e “baixa a nossa factura energética”. Sobre o porquê de se comprar “LNG” ao invés de gás por pipeline e de se comprar LNG russo on the spot (na hora) ao invés de através de contratos de longa duração, como antes, nem uma palavra. A sales broker von der Leyen garante, desta forma e desde já, a submissão de toda a EU à ameaça de tarifas por Trump. Tudo isto decidindo sem consultar quem quer que seja, mentindo e manipulando sem qualquer vestígio de escrúpulo. Como numa verdadeira “democracia” liberal!

O mais grave disto tudo é que, esta situação, para além de denunciar uma transposição do papel da NATO para o da União Europeia, demonstra a utilidade do conflito Ucraniano e a importância da sua continuidade, não para satisfazer qualquer ansiedade de soberania, mas para que se produza a maior quantidade de “dolwares” possível. O tipo de dólar que só a guerra pode produzir.

Com todo o circuito instalado e os seus brokers e sales managers bem acomodados, von der Leyen e António Costa, com certeza missionariamente acometidos em levar, ainda mais longe, a produção europeia de “dolwar”, acabaram a garantir tudo e o seu contrário: 1. Garantem a lotaria final ao complexo militar industrial dos EUA, ao determinarem que, de ora em diante, o os fundos ligados à política de coesão da UE passam ser utilizados para a compra de armas; 2. Iniciam o processo de destruição e colapso da União Europeia, pois a Política de Coesão constitui um dos principais alimentos do “sonho europeu” que junta todos estes cacos a que chamamos de “estados membros da EU”. Na sua ânsia por fornecer “dolwares” aos seus mestres, acabam os dois como potenciais coveiros da EU. A partir de agora, é só esperar. Vai acontecer, só não sabemos quando e de que forma.

Este é, aliás, o epílogo de uma história com fim previsível. Historicamente, os representantes da política hegemónica dos EUA sempre mostraram ressentimento pelo facto de, nos países da EU, os orçamentos da “defesa” (Why Europe’s defense industry can’t keep up – POLITICO) serem demasiado “baixos” e criarem uma grande “dependência” em relação aos EUA e uma grande vulnerabilidade em relação… À Rússia, claro!

As acusações eram conhecidas e foram verbalizadas com toda a frontalidade. Para os falcões da Casa Branca e da Câmara de Representantes, nunca fez sentido os povos da EU não viverem constantemente na pobreza ou em risco de lá chegar, como uma grande parte dos Norte-Americanos (de acordo com os dados do Census Bureau 58,5% dos americanos experimentam pelo menos um ano de abaixo do limiar da pobreza durante a sua vida adulta dos 20 aos 75 anos, e 76% experimentam pelo menos uma situação próxima da pobreza, ao invés de se investir na defesa.

Mais investimento na esfera social e no desenvolvimento significava menos “dolwares” para Wallstreet, o que sempre foi visto e vendido em Hollywood como um mau hábito europeu, responsável pela falta de “dureza” e “capacidade empreendedora” dos respectivos povos. De um orçamento de mais de um milhão de milhões de euros, retirar apenas uma escassa centena de milhares de milhões para o Fundo Europeu de Defesa, ainda por cima, não podendo ser usado para a compra de armas, era algo de inaceitável. Tal como era inaceitável que, com excepção de EUA, Grécia e Reino Unido, todos os outros estados membros se situassem bastante abaixo dos 2% do PIB em investimento na defesa, como propõe a meta da NATO. Tratava-se de uma quantidade de “Dolwar” que escapavam às garras do complexo militar-industrial dos EUA. Havia que fazer alguma coisa e foi aqui que entrou a Ucrânia, da Revolução Laranja em diante.

Assim, e sem ter em conta as acusações de “velha e nova” europa de Bush e companhia, já no início do século XXI, em Março de 2014, o “Nobel” da Paz, de seu nome, Barack Obama, o presidente dos EUA, mostrou-se preocupado com os cortes nas despesas de defesa nos países europeus (em 2014 o investimento dos países NATO havia descido), dizendo aos membros da NATO, em Bruxelas, que “todos têm de contribuir” para defender as fronteiras, a soberania e a integridade territorial do continente (Obama urges NATO to increase defence spending | News | Al Jazeera). De forma sistemática e cumprindo o guião, em maio de 2017, O Presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a criticar os estados membros da NATO, incluindo a UE, por não gastarem o suficiente em defesa e instou-os a aumentar as suas contribuições (Trump scolds NATO allies over defense spending | CNN Politics).

Como se constata, esta pressão é comum às duas facções do “uniparty” e, desde muito cedo, partilhadas por Ursula von der Leyen, alemã de nascimento, Estado-Unidense de coração e alma. O facto é que a pressão, ao longo dos anos, foi sendo brutal (eis uma cronologia do assédio dos EUA à Ucrânia, desde 1991, Ucrânia que, pela sua posição geográfica, constituiu, desde sempre, uma das pedras de toque da estratégia de acomodação da EU às necessidades de Washington e Wallstreet.

Esta pressão para o militarismo, catalisada por uma vertigem anacrónica do que foram os resultados, irrepetíveis, retirados pelos EUA, a partir da segunda guerra mundial, teve como efeito (e intenção) conduzir a europa para um conflito, indirecto, entre NATO e Federação Russa, que se agravou ao ponto de que é perseguido quem reivindica negociações de paz, um simples cessar fogo ou o fim da guerra. Ao invés de se perseguir quem quer a guerra, persegue-se quem quer a paz.

Para se perceber bem o significado desta questão para o lóbi armamentista dos EUA, ainda estava quente a vitória de Trump e já Blinken embarcava num avião para Bruxelas, visando garantir que, até ao último dia da presidência Biden, seja garantido o “apoio a Kiev” (Blinken in Brussels as Trump win raises alarm over Ukraine – The Frontier Post). O objectivo é muito claro e consiste em garantir que, desta feita, e ao invés do que sucedeu no mandato Biden, a União Europeia se torne “independente” e aumente o seu apoio à guerra. A desejada “independência” europeia, neste caso, significa que a EU e os seus estados membros devem preparar-se para assumir sozinhos o “apoio à Ucrânia” e, sobretudo, a continuidade, em qualidade e quantidade, do fluxo de “dólwares” a caminho de Wallstreet.

Num país com 10 milhões de deslocados e tantos outros emigrados, cujo putativo presidente (isento de actas e eleições “transparentes e justas”) já andará à procura de refúgio (Ground News – U.S. Analyst Claims Zelensky May Seek Refuge in Florida After War) na Flórida, e que iniciou recentemente o processo de redução da idade de conscrição e mobilização para os 18 anos (Ground News – Ukraine will lower the conscription age for mobilization to 18 years), o apoio prometido pelos “aliados” ocidentais passa por sujeitar à morte, não apenas as gerações adultas, as quais ou emigraram ou morreram, mas as gerações mais jovens. Tudo em nome da intenção de manter o conflito em velocidade lenta, à espera que, na lentidão, seja a Rússia a cair primeiro. Notícias como a subida da Taxa de Juro para 19% pelo Banco Central da Federação Russa podem servir de justificação para a continuidade do empreendimento e o renovar das esperanças de sucesso (Russia Hikes Interest Rate to 19% as War Spending Fuels Inflation – The Rio Times).

A verdade é que, como se esperava, as informações sobre o crescimento dos investimentos europeus em “defesa” vão-se multiplicando, em especial a pressão colocada sobre a Alemanha, à medida que se multiplicam os receios de recessão económica generalizada. Afinal, sem Alemanha não existe “investimento” na EU e, muito menos, “investimento” na defesa.

Os Think-Thank norte americanos fazem a sua parte neste sentido e, após o New York acusar a Alemanha de não fazer repercutir no seu orçamento de estado a promessa de maior investimento (Germany Promised to Step Up Militarily. Its Budget Says Differently. – The New York Times), logo veio o Atlantic Council avisar que, “o orçamento tem de reflectir” o compromisso feito por Sholz, Baerbock e companhia (Germany has committed to improving its defense. Its budget needs to reflect this. – Atlantic Council). Mas não se ficou por aqui o aviso à Alemanha e à EU, o Stimson Center veio, através de uma das suas caixas de ressonância, avisar que “desta vez tem de ser diferente” (EU Defense: This Time Might Be Different • Stimson Center).

A Alemanha, país que foi responsável por duas guerras mundiais, ganha assim uma nova oportunidade de fazer uma terceira, tendo, como na segunda, novamente o mesmo contendor, a Rússia. Com toda esta máquina ao serviço da guerra não admira que o Koerber-Stiftung Institute tenha conseguido realizar uma sondagem em que 50% dos respondentes apoiaram a proposta do Ministro da Defesa Pistorius em aumentar o orçamento alemão para a defesa, dos actuais 2%, para 3 a 3,5% do PIB (German poll shows approval for more defense spending as NATO steels itself for Trump 2.0 | Stars and Stripes). Contudo, mesmo atingindo os 50%, a verdade é que 57% disseram que não querem fazê-lo à custa do investimento nas questões sociais.

Se, em artigos anteriores, eu já havia referido o desfasamento entre as bandeiras de Kamala Harris e as necessidades concretas da classe trabalhadora, que constitui a maioria da população, o mesmo se passa na EU. Se, com Kamala, a grande bandeira era a “democracia”, com von der Leyen e a maioria dos governos da EU, esmagadoramente apoiantes deste centrão alargado, em que o neoliberal é “de esquerda” e o “neoconservador” é “de direita”, ambos se unindo pela umbilical relação com Washington e por não deixar espaço a correntes ideológicas não dominantes, apostam nos célebres “valores” europeus, que ninguém sabe bem o que são, mas que cada vez mais sentem que tais enigmáticos “valores” têm colocado a Europa na trajectória da recessão económica, do aumento da pobreza (apesar das manipulações aritméticas e estatísticas) e da degradação da participação democrática.

Assim, para quem investe em armas, sabendo que o povo prefere o investimento na resolução dos seus problemas sociais, não admira que venha a Comissão Europeia de von der Leyen determinar que os fundos da política de coesão passam a pode ser usados para “reforçar a defesa” (UE muda as regras: Estados-membros passam a utilizar fundos europeus para reforçar a defesa e segurança – CNN Portugal). Podemos dizer que finalmente a estratégia iniciada em Bush, quando falava de “uma nova e uma velha europa”, deu finalmente frutos.

Vejamos bem, mantém-se a “proibição de usar o dinheiro para comprar munições e armamento”, mas pode usar-se esse dinheiro para “aumentar a capacidade de produzir munições e armamento”. Eis como funciona hoje a política no ocidente: diz-se que não e que sim ao mesmo tempo, para que, no final, a casta política possa fazer o que muito bem entende. É o próprio artigo que diz “Bruxelas decidiu modificar as políticas de despesa para redirecionar milhares de milhões de euros do orçamento europeu para a defesa e segurança, redirecionando os fundos de coesão.”

O que se pretende é que 1/3 do fundo em causa (mais de 130 mil milhões de euros) seja gasto em armamento ao invés de ser gasto na política de coesão, destinada a reduzir a desigualdade económica entre os estados membros. Ora, se a promessa do “sonho europeu” significava que os países cediam na soberania em troca de receberem apoios ao seu desenvolvimento, convergindo com os mais ricos, o que significa esta inversão no papel dos fundos estruturais da EU é que, após a mesma, os estados membros ficam sem a soberania e sem o apoio ao desenvolvimento.

Esta confirmação de uma tendência, sucedida já com o “socialista” António Costa ao comando do Conselho europeu, acontece na sequência dos avistamentos fantasmagóricos de soldados Norte Coreanos na Rússia. Sem qualquer prova da sua presença, EUA e EU prometem responder a tal pressuposto e incomprovado facto.

É assim que funciona a democracia ocidental, promovem-se as narrativas, para que se possam justificar as inversões políticas e com elas, a degeneração e subversão da própria democracia, que se diz defender. Como podem tais políticos, como António Costa, conhecedores da importância dos Fundos para a Coesão, para o respectivo país, embarcar numa coisa destas, sem que exijam, ao menos, fornecimento provas inequívocas: 1. Da presença de tais forças; 2. Da importância de trais forças para o esforço de guerra Russo; 3. Da importância da presença de tais forças para segurança europeia. Já se esqueceram das “armas de destruição em massa, de Saddam”? Do suposto “massacre” de Bucha?

Já num artigo anterior eu próprio tinha exposto a utilização do Fundo europeu de Defesa para financiar projectos belicistas desenvolvidos pelas maiores corporações europeias. Vejam agora que delicioso bolo as espera. No mesmo artigo, expus também porque razão tal inversão interessa tanto aos EUA: afinal, não existe empreendimento militar europeu sem uma qualquer participação, directa ou indirecta, de capitais e valências norte-americanas.

O investimento europeu na defesa constitui uma fonte interminável de “dolwar” de serviço à reserva federal e aos gananciosos de Wallstreet. Por cada euro investido em armas pela EU, há sempre um premium a pagar a Wall street. Sem a Ucrânia nada disto existiria, sem o papão russo, nada disto se justificaria, sem o fantasma norte coreano, tudo isto acabaria depressão. A presença do fantasma norte coreano é mais uma dose de combustível num fogo que se pretende aceso.

Esta importância e inversão das políticas da EU, em matéria de financiamento militar, trará consigo duas consequências devastadoras: 1. Trump, mesmo querendo, dificilmente conseguirá acabar com a guerra, pois os EUA têm direito a um almoço grátis no investimento em causa; 2. O fim da política de coesão, trará consigo o fim da própria União europeia. Depois disto, muito pouco unirá o ocidente ao leste europeu, por mais que acenem com o papão Russo, pois a cola que une os dois lados, é o dinheiro alemão.

Os próprios EUA, que hoje têm, como nunca, amordaçados os órgãos políticos europeus, podem vir, uma vez mais e à custa das contradições por si criadas, a confrontar-se com uma europa muito mais difícil de dominar. Esta pressão constante para a criação de “dolwares”, como referi, comportará o fim da política de coesão, que tinha esse nome, por alguma razão. Se, na segunda guerra mundial, o lend lease pode muito bem ter sido um dos elementos constitutivos da “nova europa”, tornando os EUA o grande credor mundial (os EUA facturaram o equivalente a 647 mil milhões de dólares com o envio de suprimentos para os “aliados” https://pt.wikipedia.org/wiki/Lend-Lease) com o poder exclusivo de “ajudar” a europa. Com a Ucrânia os EUA já lucraram 84.72 mil milhões de Euros, sendo que, também “comem” uma parte no “apoio” Europeu, uma vez que as participações que têm no complexo militar industrial europeu o garantem. A guerra da Ucrânia é, assim, para o partido da guerra nos EUA, o que a segunda guerra mundial foi para o de então.

O rearmamento da Alemanha, para além dos “dolwares” que implica, pode também constituir um entrave preventivo da aproximação entre Federação Russa e Alemanha, pois uma Alemanha rearmada tenderá, em grande medida, a querer apropriar-se das matérias primas russas, não por via do diálogo, mas por via da força. Uma sociedade militarista e militarizada, para onde caminhamos, nunca será uma sociedade de paz e diálogo. O exemplo acabado disso mesmo são os próprios EUA, que utilizam os conflitos para justificar os investimentos.

Aquele princípio de que “se queres paz, preparas-te para a guerra”, é apenas o princípio da justificação da escalada. É um pouco como a NATO a qual, no final da guerra fria, ou se extinguia ou encontrava novos inimigos. Afinal, as organizações existem enquanto forem úteis e, estado a utilidade da NATO na promoção da corrida armamentista, há que alimentar o monstro com conflitos, quentes ou frios.

Neste tempo em que as “democracias” defendem a guerra e o fim dos programas sociais, e as “autocracias” preferem a paz e os programas de desenvolvimento, a escolha de von der Leyen e António Costa representa, sobretudo, a escolha pela autodestruição da EU.

O que está longe de ser um drama, refira-se! Por este caminho, pode muito bem ser a nossa salvação!

Fonte aqui.


As contradições fundamentais do Ocidente estão a acumular-se

(Alastair Crooke, in Strategic Culture Foundation, 11/11/2024, Trad. da Estátua)

O Ocidente não tem o poder financeiro necessário para ter a primazia global – se é que alguma vez o teve.


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A eleição ocorreu; Trump tomará posse em janeiro; muitos dos atuais elementos da Nomenclatura do Partido serão substituídos; diferentes políticas serão anunciadas – mas, na verdade, tomar o poder (em vez de apenas se sentar na Casa Branca) será mais complexo. Os EUA transformaram-se num emaranhado de muitos feudos díspares – quase principados – da CIA ao Departamento de Justiça. E ‘agências’ reguladoras também foram implantadas para preservar o controlo da Nomenclatura sobre a força vital do Sistema.

Atrair esses adversários ideológicos para um novo pensamento, não será nada fácil nem pacífico.

No entanto, a eleição dos EUA também foi um referendo sobre a corrente intelectual ocidental predominante. E isso provavelmente será mais decisivo do que o o sentido da votação dos EUA – por mais importante que seja. Os EUA afastaram-se estrategicamente da gestão tecno-oligarquia que assumiu o controle na década de 1970. A mudança de hoje reflete-se na totalidade dos EUA.

Em 1970, Zbig Brzezinski (que se tornaria Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Carter) escreveu um livro prevendo uma nova era: O que ele então designou como “A Era Tecnetrónica”. Assim:

“Envolveu o surgimento gradual de uma sociedade mais controlada. Tal sociedade…dominada por uma elite, sem restrições de valores tradicionais… [e praticando] vigilância contínua sobre cada cidadão… [junto com] manipulação do comportamento e funcionamento intelectual de todas as pessoas… [tornar-se-ia a nova norma].”

Noutra passagem, Brzezinski argumentou que “O estado-nação… deixou de ser a principal força criativa: bancos internacionais e corporações multinacionais estão agindo e planeando em termos que estão muito à frente dos conceitos políticos do estado-nação”.

Brzezinski estava completamente errado sobre os benefícios da governação cosmopolita tecnológica. E ele estava decisivamente, e desastrosamente, errado nas prescrições políticas que aduziu sobre a implosão da União Soviética em 1991 – que nenhum país ou grupo de países jamais ousaria enfrentar o poder dos EUA. Brzezinski argumentou em The Grand Chessboard que a Rússia não teria escolha a não ser se submeter à expansão da NATO e aos ditames geopolíticos dos EUA.

Mas a Rússia não sucumbiu. E como resultado da euforia das elites em 1991, o “Fim da História” , o Ocidente lançou a guerra na Ucrânia para provar o seu ponto de vista – que nenhum país poderia esperar resistir ao peso combinado de toda a NATO. Eles disseram isso porque acreditavam. Eles acreditavam no Destino Manifesto ocidental. Eles não entendiam, as outras opções que a Rússia tinha.

Hoje, a guerra da Ucrânia está perdida. Centenas de milhares morreram desnecessariamente – por uma presunção. A “outra guerra” no Médio Oriente não é diferente. A guerra israelita-americana contra o Irão será perdida, e dezenas de milhares de palestinianos e libaneses terão morrido sem sentido.

E as “guerras eternas” também, que eram esperadas pelo Comandante Supremo da NATO após o 11 de setembro para derrubar uma série de estados (primeiro o Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e o Irão), não apenas não resultaram na consolidação da hegemonia dos EUA, mas levaram, em vez disso, a Kazan e aos BRICS, com a sua longa cauda de aspirantes a membros, prontos para enfrentar o colonialismo estrangeiro.

A cimeira de Kazan foi cautelosa. Não projetou uma onda de soluções; alguns estados dos BRICS estavam hesitantes (a eleição dos EUA estava marcada para a semana seguinte). Os comentários de Putin para esses últimos estados foram cuidadosamente calibrados: vejam o que os EUA podem fazer com vocês, caso caiam em desgraça, a qualquer momento. Protejam-se.

Tudo o que o presidente dos BRICS (Putin) pôde dizer, neste momento, foi: Aqui estão os problemas que [temos que resolver]. É prematuro estabelecer uma estrutura alternativa completa de Bretton Woods neste momento. Mas podemos estabelecer o núcleo para uma alternativa prudente para trabalhar na esfera do dólar: um sistema de liquidação e compensação, BRICS Clear; uma unidade de conta de referência; uma estrutura de resseguro e o BRICS Card – um sistema de pagamento no retalho, com um cartão semelhante ao AliPay.

Talvez uma moeda de reserva e toda a parafernália de Bretton Woods se mostrem desnecessárias. A tecnologia financeira está evoluindo rapidamente – e, desde que o sistema de compensação do BRICS seja funcional, uma multidão de canais comerciais separados de fintech pode, em última análise, ser o resultado.

Mas uma ‘semana é muito tempo em política’. E uma semana depois, o paradigma intelectual ocidental foi derrubado. Os Shibboleths dos últimos cinquenta anos foram rejeitados pelos eleitores, em todos os lugares nos EUA. A ideologia de ‘desfazer’ o passado cultural; o descartar das lições da História (pois, alega-se, perspetivas ‘erradas’); a rejeição dos sistemas de ética, refletidos nos mitos e histórias de uma comunidade, foram eles próprios rejeitados!

Está tudo bem para se ser, de novo, um “estado civilizacional”. A dúvida radical e o cinismo da Anglo-esfera estão reduzidos a uma perspetiva entre muitas. E não podem mais ser a narrativa universal.

Bem, depois da eleição dos EUA, o sentimento BRICS deve ser impulsionado. Noções que não eram pensáveis ​​na semana passada, tornaram-se possíveis e pensáveis ​​uma semana depois. Os historiadores podem olhar para trás e observar que a arquitetura futura das finanças globais modernas, a economia global moderna pode ter lutado para nascer em Kazan, mas agora é uma criança saudável.

Tudo acontecerá sem problemas? Claro que não. As diferenças entre os estados-membros e “parceiros” do BRICS permanecerão, mas esta semana uma janela se abriu, ar fresco entrou e muitos respirarão mais facilmente. Se há uma coisa que deve ficar clara, é que uma segunda Administração Trump dificilmente sentirá a necessidade de lançar uma “guerra contra o mundo” para manter sua hegemonia global (como a Estratégia de Defesa Nacional de 2022 insiste que deveria).

Isto porque os EUA enfrentam hoje as suas próprias contradições estruturais internas às quais Trump regularmente aludiu quando falou sobre o desvanecimento da economia real americana devido à deslocalização para o exterior da sua base de manufatura.

Um relatório recente da RAND Corporation afirma, claramente, que a base industrial de defesa dos EUA é incapaz de atender às necessidades de equipamento, tecnologia e munições dos EUA e dos seus aliados e parceiros. Um conflito prolongado, especialmente em múltiplos teatros, exigiria uma capacidade muito maior [– e um orçamento da Defesa radicalmente aumentado].

O plano de recuperação industrial de Trump, no entanto, com taxas alfandegárias dolorosamente altas que afetam a indústria americana; com um fim à prodigalidade federal e impostos mais baixos sugere, assim, uma reversão para a retidão fiscal – após décadas de frouxidão fiscal e empréstimos descontrolados. Não grandes gastos militares! (Os gastos com a Defesa, a propósito, durante a Guerra Fria dependiam de taxas marginais de imposto sobre o rendimento acima de 70% e taxas de imposto sobre as empresas em média de 50% – o que não parece estar de acordo com o que Trump tem em mente).

O professor Richard Wolff comenta em uma entrevista recente que o Ocidente como um todo está em sérios problemas financeiros, precisamente como resultado de tais gastos governamentais desenfreados:

“Pela primeira vez, há alguns anos, os detentores de títulos não estavam dispostos a continuar a financiar os deficits da Grã-Bretanha, e [o governo do Reino Unido foi substituído]. O Sr. Macron agora está seguindo exatamente o mesmo caminho. Os detentores de títulos disseram aos franceses que não continuarão a financiar sua dívida nacional.

É assim que funciona. Os detentores de títulos estão dizendo aos franceses, vocês têm que controlar os gastos… Os detentores de títulos estão dizendo, vocês têm que parar de ter deficits. E, como todo o estudante universitário sabe, a maneira de controlar os deficits poderia ser cortando gastos. Mas há uma alternativa: é chamada tributação. É a tributação das grandes empresas e dos ricos porque os outros não têm mais nada para vocês tributarem – vocês fizeram tudo o que podiam [fazer com impostos sobre cidadãos franceses comuns].

[No entanto] taxar as corporações e os ricos, de alguma forma, não é apenas “inviável”, mas também controverso. Não pode ser colocado na mesa: Nada. (ou algo tão minúsculo que nunca cobrirá o deficit). Agora temos muita dívida. E acontece que o governo, assim como o governo americano, está enfrentando os próximos anos em que terá que gastar tanto no serviço de sua dívida quanto na Defesa. E isso não deixa muito para todos os outros gastos. E todos os outros estão dizendo: não, não, não, não, não, não.

E agora o detentor de títulos fica preocupado, porque uma maneira de resolver isso seria parar de pagar aos detentores de títulos e isso, é claro, nunca deve ocorrer. Então você tem dois absurdos. Você não pode parar de pagar aos detentores de títulos (quando, é claro, poder você pode, mas com consequências terríveis). E você não pode taxar as corporações e os ricos. Mas, é claro que você pode. Acho que estamos chegando a um ponto em que essas contradições se acumularam. Você não precisa ser um hegeliano ou um marxista para entender que essas contradições acumuladas são muito profundas, muito grandes e muito fundamentais”.

Dizem-nos, pois, que por um lado, o mundo não aceita a visão ocidental como sendo de aplicação universal – e, por outro lado, o Ocidente não tem o poder financeiro para buscar a primazia global – se é que alguma vez o teve: Zugzwang.

N.T. Zugzwang é uma situação presente no xadrez, e noutros jogos de jogadas alternadas, em que um jogador é colocado em desvantagem devido à sua obrigação de fazer uma jogada.

Fonte aqui.


Os EUA omnipresentes em todos os grandes projectos da UE

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 10/11/2024, revisão da Estátua)

Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.


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E eis que, subitamente, a comunicação social mainstream parece ter acordado para a vida e, finalmente, constatou que a Comissão Europeia, chefiada por Ursula Von Der Leyen, quando se refere aos tais “valores” da sua Europa, está, afinal, a falar dos valores que atribui, benevolamente, ás famílias europeias bilionárias. Diz o The Guardian que a sua “investigação” revelou que 17 bilionários, listados pela Forbes, constam como beneficiários finais de projetos no valor de 3.3 mil milhões de euros.

Vá-se lá saber o porquê da demora em constatar uma realidade que se repete ininterruptamente há dezenas de anos. Uma realidade que se desenrola ao mesmo ritmo que aumentam os sem abrigos, a crise na habitação, saúde e educação, a guerra e a instabilidade social. Mas ainda mais inexplicável é o confinamento desta “investigação” ao sector agrícola e aos projetos ligados à política agrícola comum. Afinal, sendo mau, uma vez que os pequenos agricultores passam uma crise sem precedentes, mesmo assim, estamos a falar de dinheiro para produzir alimento. Ora, casos existem, muito mais danosos e óbvios, aos quais, como veremos, o The Guardian e a comunicação social mainstream, fazem vista grossa.

Na verdade, as grandes corporações detentoras da comunicação social mainstream, das redes sociais e dos recursos financeiros, financiando as campanhas eleitorais, que se vão sucedendo no âmbito de um processo democrático absolutamente falacioso, do qual as últimas eleições nos EUA são o último dos paradigmas, não apenas conseguem que os governos, sempre domesticados, lhes baixem os impostos, como ainda logram obter mais perdões, isenções fiscais, e ainda o acesso aos fundos públicos para investimento. Uma espécie de “socialismo dos ricos”, em que o estado socializa os custos e os riscos e privatiza os lucros.

O Banco Europeu de Investimento, no seu último “Investment Survey 2004”, demonstra como se passa uma parte importante desta transferência.

Entre o 1.º trimestre de 2020 e o 1.º de 2024, o investimento corporativo apenas cresceu positivamente durante um trimestre (o 3.º trimestre de 2023); em todos os restantes, apenas houve crescimento positivo nos trimestres em que se deu um reforço do investimento realizado pelo Estado e pelas famílias. Apesar das centenas de milhares de milhões de euros que a UE destina para projetos de empresas privadas, no 1.º trimestre de 2024, o investimento corporativo evoluiu negativamente. Ou seja, o dinheiro que “investimos” nestes seres privilegiados, não está a alavancar o investimento, mas, sim, a alavancar a acumulação.

E se olharmos para o lado da acumulação, encontraremos muitas das respostas, nomeadamente, a forma como um país estrangeiro suga muitos dos recursos por nós produzidos. A guerra da Ucrânia tem aqui um papel absolutamente fundamental, como catalisador do crescimento do investimento público e da transferência de rendimento para as grandes corporações e, através destas, para as famílias mais ricas. Daí que as elites oligárquicas ocidentais sintam um desespero brutal na necessidade de manutenção do conflito na Ucrânia. Mesmo os EUA, como veremos, ficam com a sua parte, apesar do investimento continuar a ser suportado quase exclusivamente pela UE.

Vejamos o que se passa, por exemplo, com o Fundo Europeu para a Defesa, que constitui uma fonte inestimável de dinheiro para as maiores corporações e multibilionários do ocidente. Vejamos o caso da alemã RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH, a qual, durante a segunda guerra mundial, cresceu e engordou à custa da destruição da Europa e do mundo, e se prepara, no século XXI, para repetir a dose. Mas, desta feita, reparte o bolo com os amigos do costume.

A RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH é coordenadora e beneficiária de 6 grandes programas de “investimento” em capacidade militar instalada (pólvora, propelentes, munições 155 mm, camuflagem, transporte blindados, proteção de infraestruturas). Só no projeto para aumento de produção de cartuchos de 155mm, esta empresa garante 20.560.755,45€. Ou seja, nós, europeus, pagamos as máquinas e eles ficam com os lucros da venda das munições. No final, morrem mais russos, ucranianos e todos ficamos mais pobres, arriscando uma guerra mundial.

Um simples olhar para a estrutura de capital da Rheinmetall e faz-se luz: Blackrock, UBS, Fidelity ou Goldman Sachs, todos comem do bolo, garantindo as condições políticas e financeiras alinhadas para a alavancagem dos lucros e da concentração da riqueza. A conclusão só pode ser uma, é a de que eles estão por todo o lado e toda a economia conflui, como um grande sifão, para os bolsos de um punhado de privilegiados, pelos quais todos temos de sofrer.

Outro dos grandes comensais deste imenso banquete que são os fundos comunitários, para as empresas, é a também alemã OHB SYSTEM AG, que recebeu 90.000.000,00€ para a construção de um sistema de alerta para ataque por mísseis, a partir do espaço. Se por aqui percebemos por que razão foi lançado o alerta, nunca confirmado, de que a Rússia estaria a desenvolver sistemas de mísseis no espaço, a verdade é que a mensagem foi recebida por quem haveria de ser e, não muito tempo depois, a Comissão Europeia de Ursula Von Der Leyen estava a cumprir o que dela se esperava, aprovando o que fosse necessário ser aprovado.

Um olhar para a estrutura accionista da OHB, que é uma empresa multibilionária na área aeroespacial, e percebemos o porquê de tal facilidade na entrega do nosso dinheiro. O The Guardian, que estava tão preocupado com os fundos para a agricultura, até custa a perceber como deixou esta passar em claro: 65,4% da OHB pertencem à família Fuchs, uma das famílias mais ricas da Alemanha e do mundo. Uma vez mais, como uma organização mafiosa, os amigos do costume ganham a sua parte, através de um fundo sedeado no Luxemburgo (Orchid Lux HoldCo S.a. r.l.), mas que se percebe ser uma fachada de interesses norte- americanos, mas com morada de contacto em Nova Iorque.

Já para a Itália, a comissão de Von Der Leuyen financiou um projeto ligado a “sistemas de propulsão para domínio aéreo”, que atribui 56.202.596,26€ à GE AVIO SRL, uma empresa privada, conhecida como AVIO AERO, ligada ao sector aeroespacial, mas fazendo parte do grupo General Eletric Company, da sua divisão aeroespacial.

Mesmo a maioritariamente pública AIRBUS DEFENCE AND SPACE SAS, não escapa à regra. Sendo outra dos habitués dos fundos comunitários ligados à guerra e à investigação, desenvolve 134 projetos que falam por si, financiados em milhares de milhões de euros em investimentos. Da investigação, ao digital, passando pela defesa, energia atómica e espaço, os impostos dos trabalhadores europeus são os grandes alimentadores deste gigante corporativo. Uma consulta ao portal EU Funding & Tenders, é suficiente para desiludir muitos dos crentes na capacidade de inovação própria das grandes corporações ocidentais. Valha-nos que esta é pública e os seus lucros, são menos impostos que pagamos. Mas existe sempre um “mas”.

A AIRBUS, cuja parte pública ainda é considerável, tem, contudo, entre os investidores privados, nomes como: Vanguard, Goldman Sachs, Fidelity, UBS e uma diversidade de trusts detidos por empresas americanas e não só. Ou seja, a AIRBUS mantém-se pública permitindo a sucção de resultados pela oligarquia, principalmente estado-unidense.

Bem sei que se tratam de investimentos a realizar no espaço europeu, criando empregos e competências para os trabalhadores europeus. Contudo, não posso deixar de identificar um conjunto de circunstâncias padronizadas que tornam tudo isto imensamente suspeito.

Sem fazer uma busca exaustiva, em todos os grandes projetos que consultei, encontrei capitais norte-americanos de alguma forma envolvidos, colocando-se então a seguinte questão: porque razão os grandes investimentos públicos europeus envolvem, sempre, de alguma forma, directa ou indiretamente, capitais estado-unidenses?

Outra questão que surge, na decorrência desta, é a seguinte: em que medida os riscos identificados pelos EUA (risco de “invasão russa”; o risco de “ataque no espaço sideral pela Rússia”; o risco relacionado com as relações comerciais com a República Popular da China) influenciam: primeiro, a criação de necessidades de investimento público e a criação das estruturas empresariais de resposta; segundo, a suscetibilidade de aprovação desses projetos pela Comissão Europeia.

Por fim, se a resposta para a presença de capitais norte-americanos por toda a indústria de defesa – e indústria estratégica – da União Europeia, é a de que o mercado é livre e, como tal, os capitais de Wall Street têm direito de entrar nas estruturas de capital das corporações europeias, então, onde fica a independência e autonomia que Mario Draghi e Ursula Von Der Leyen advogaram para a Europa?

É que não podemos deixar de pensar que será muito difícil à Europa Comunitária – e respectivos estados membros – conseguir almejar a tal independência e autonomia estratégicas, estando o seu complexo militar-industrial e complexo industrial estratégico, tão suportados ou influenciados por capitais estrangeiros.

Mais estranho ainda é que, numa pura lógica de “deRisking”, tão usada como pretexto para o desacoplamento em relação á economia chinesa, não veja a UE de Von Der Leyen qualquer risco nas características corporativas do complexo industrial europeu, principalmente o que tem a ver com aspetos estratégicos da defesa, vigilância e capacidade de resposta.

Para além do cheiro mafioso que tal influência traz consigo, indiciando a existência de uma lógica que aponta para o desenvolvimento de determinados empreendimentos, em espaço europeu, apenas porque os EUA comem uma parte, ou indiciando que a benevolência política dos financiamentos europeus está, em muito, ligada a essa dupla característica, presença de capitais americanos e projetos que respondam a riscos identificados pela Casa Branca, esta realidade demonstra, ainda, a falta de qualquer traço de seriedade na atual estrutura de poder na UE.

Então, no meio de tanto risco, não vê a UE qualquer risco para as empresas europeias, na utilização, pelos EUA, de leis como o “Trade with the enemy act” (Lei do negócio com o inimigo)? Não bastaria o caso da ASML, fabricante de impressoras, EUV e DUV de semicondutores, impedida de vender parte importante da sua produção para a China, apenas e só, por ordem dos EUA, criando graves problemas à economia dos Países Baixos? Tudo porque estes têm relações de capital e propriedade industrial com a ASML, uma empresa que é o que é hoje, essencialmente à custa de fundos comunitários?

E é assim que se apanham as mentiras e as falácias. Então, neste caso, já não existe risco de dependência e submissão estratégica a interesses alheios? Neste caso, Ursula Von Der Leyen já considera que a dependência não faz mal? Será assim, ou será porque, as respostas que Ursula von Der Leyen vai criando no espaço europeu, visam, não responder a necessidades dos povos europeus, mas a necessidades dos EUA, num total, dependente, estratégico e criminoso alinhamento com as políticas da Casa Branca?

Hoje, Von Der Leyen não garante apenas a continuidade dos riscos que alimenta com o seu extremismo. Garante também que esses riscos constituem o pretexto ideal, para que se negue um futuro às próximas gerações europeias. Por que razão a imprensa mainstream não vê nada disto?

Vejam a sua estrutura de capital, e depois falamos. Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.

Fonte aqui.