As contradições fundamentais do Ocidente estão a acumular-se

(Alastair Crooke, in Strategic Culture Foundation, 11/11/2024, Trad. da Estátua)

O Ocidente não tem o poder financeiro necessário para ter a primazia global – se é que alguma vez o teve.


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A eleição ocorreu; Trump tomará posse em janeiro; muitos dos atuais elementos da Nomenclatura do Partido serão substituídos; diferentes políticas serão anunciadas – mas, na verdade, tomar o poder (em vez de apenas se sentar na Casa Branca) será mais complexo. Os EUA transformaram-se num emaranhado de muitos feudos díspares – quase principados – da CIA ao Departamento de Justiça. E ‘agências’ reguladoras também foram implantadas para preservar o controlo da Nomenclatura sobre a força vital do Sistema.

Atrair esses adversários ideológicos para um novo pensamento, não será nada fácil nem pacífico.

No entanto, a eleição dos EUA também foi um referendo sobre a corrente intelectual ocidental predominante. E isso provavelmente será mais decisivo do que o o sentido da votação dos EUA – por mais importante que seja. Os EUA afastaram-se estrategicamente da gestão tecno-oligarquia que assumiu o controle na década de 1970. A mudança de hoje reflete-se na totalidade dos EUA.

Em 1970, Zbig Brzezinski (que se tornaria Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Carter) escreveu um livro prevendo uma nova era: O que ele então designou como “A Era Tecnetrónica”. Assim:

“Envolveu o surgimento gradual de uma sociedade mais controlada. Tal sociedade…dominada por uma elite, sem restrições de valores tradicionais… [e praticando] vigilância contínua sobre cada cidadão… [junto com] manipulação do comportamento e funcionamento intelectual de todas as pessoas… [tornar-se-ia a nova norma].”

Noutra passagem, Brzezinski argumentou que “O estado-nação… deixou de ser a principal força criativa: bancos internacionais e corporações multinacionais estão agindo e planeando em termos que estão muito à frente dos conceitos políticos do estado-nação”.

Brzezinski estava completamente errado sobre os benefícios da governação cosmopolita tecnológica. E ele estava decisivamente, e desastrosamente, errado nas prescrições políticas que aduziu sobre a implosão da União Soviética em 1991 – que nenhum país ou grupo de países jamais ousaria enfrentar o poder dos EUA. Brzezinski argumentou em The Grand Chessboard que a Rússia não teria escolha a não ser se submeter à expansão da NATO e aos ditames geopolíticos dos EUA.

Mas a Rússia não sucumbiu. E como resultado da euforia das elites em 1991, o “Fim da História” , o Ocidente lançou a guerra na Ucrânia para provar o seu ponto de vista – que nenhum país poderia esperar resistir ao peso combinado de toda a NATO. Eles disseram isso porque acreditavam. Eles acreditavam no Destino Manifesto ocidental. Eles não entendiam, as outras opções que a Rússia tinha.

Hoje, a guerra da Ucrânia está perdida. Centenas de milhares morreram desnecessariamente – por uma presunção. A “outra guerra” no Médio Oriente não é diferente. A guerra israelita-americana contra o Irão será perdida, e dezenas de milhares de palestinianos e libaneses terão morrido sem sentido.

E as “guerras eternas” também, que eram esperadas pelo Comandante Supremo da NATO após o 11 de setembro para derrubar uma série de estados (primeiro o Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e o Irão), não apenas não resultaram na consolidação da hegemonia dos EUA, mas levaram, em vez disso, a Kazan e aos BRICS, com a sua longa cauda de aspirantes a membros, prontos para enfrentar o colonialismo estrangeiro.

A cimeira de Kazan foi cautelosa. Não projetou uma onda de soluções; alguns estados dos BRICS estavam hesitantes (a eleição dos EUA estava marcada para a semana seguinte). Os comentários de Putin para esses últimos estados foram cuidadosamente calibrados: vejam o que os EUA podem fazer com vocês, caso caiam em desgraça, a qualquer momento. Protejam-se.

Tudo o que o presidente dos BRICS (Putin) pôde dizer, neste momento, foi: Aqui estão os problemas que [temos que resolver]. É prematuro estabelecer uma estrutura alternativa completa de Bretton Woods neste momento. Mas podemos estabelecer o núcleo para uma alternativa prudente para trabalhar na esfera do dólar: um sistema de liquidação e compensação, BRICS Clear; uma unidade de conta de referência; uma estrutura de resseguro e o BRICS Card – um sistema de pagamento no retalho, com um cartão semelhante ao AliPay.

Talvez uma moeda de reserva e toda a parafernália de Bretton Woods se mostrem desnecessárias. A tecnologia financeira está evoluindo rapidamente – e, desde que o sistema de compensação do BRICS seja funcional, uma multidão de canais comerciais separados de fintech pode, em última análise, ser o resultado.

Mas uma ‘semana é muito tempo em política’. E uma semana depois, o paradigma intelectual ocidental foi derrubado. Os Shibboleths dos últimos cinquenta anos foram rejeitados pelos eleitores, em todos os lugares nos EUA. A ideologia de ‘desfazer’ o passado cultural; o descartar das lições da História (pois, alega-se, perspetivas ‘erradas’); a rejeição dos sistemas de ética, refletidos nos mitos e histórias de uma comunidade, foram eles próprios rejeitados!

Está tudo bem para se ser, de novo, um “estado civilizacional”. A dúvida radical e o cinismo da Anglo-esfera estão reduzidos a uma perspetiva entre muitas. E não podem mais ser a narrativa universal.

Bem, depois da eleição dos EUA, o sentimento BRICS deve ser impulsionado. Noções que não eram pensáveis ​​na semana passada, tornaram-se possíveis e pensáveis ​​uma semana depois. Os historiadores podem olhar para trás e observar que a arquitetura futura das finanças globais modernas, a economia global moderna pode ter lutado para nascer em Kazan, mas agora é uma criança saudável.

Tudo acontecerá sem problemas? Claro que não. As diferenças entre os estados-membros e “parceiros” do BRICS permanecerão, mas esta semana uma janela se abriu, ar fresco entrou e muitos respirarão mais facilmente. Se há uma coisa que deve ficar clara, é que uma segunda Administração Trump dificilmente sentirá a necessidade de lançar uma “guerra contra o mundo” para manter sua hegemonia global (como a Estratégia de Defesa Nacional de 2022 insiste que deveria).

Isto porque os EUA enfrentam hoje as suas próprias contradições estruturais internas às quais Trump regularmente aludiu quando falou sobre o desvanecimento da economia real americana devido à deslocalização para o exterior da sua base de manufatura.

Um relatório recente da RAND Corporation afirma, claramente, que a base industrial de defesa dos EUA é incapaz de atender às necessidades de equipamento, tecnologia e munições dos EUA e dos seus aliados e parceiros. Um conflito prolongado, especialmente em múltiplos teatros, exigiria uma capacidade muito maior [– e um orçamento da Defesa radicalmente aumentado].

O plano de recuperação industrial de Trump, no entanto, com taxas alfandegárias dolorosamente altas que afetam a indústria americana; com um fim à prodigalidade federal e impostos mais baixos sugere, assim, uma reversão para a retidão fiscal – após décadas de frouxidão fiscal e empréstimos descontrolados. Não grandes gastos militares! (Os gastos com a Defesa, a propósito, durante a Guerra Fria dependiam de taxas marginais de imposto sobre o rendimento acima de 70% e taxas de imposto sobre as empresas em média de 50% – o que não parece estar de acordo com o que Trump tem em mente).

O professor Richard Wolff comenta em uma entrevista recente que o Ocidente como um todo está em sérios problemas financeiros, precisamente como resultado de tais gastos governamentais desenfreados:

“Pela primeira vez, há alguns anos, os detentores de títulos não estavam dispostos a continuar a financiar os deficits da Grã-Bretanha, e [o governo do Reino Unido foi substituído]. O Sr. Macron agora está seguindo exatamente o mesmo caminho. Os detentores de títulos disseram aos franceses que não continuarão a financiar sua dívida nacional.

É assim que funciona. Os detentores de títulos estão dizendo aos franceses, vocês têm que controlar os gastos… Os detentores de títulos estão dizendo, vocês têm que parar de ter deficits. E, como todo o estudante universitário sabe, a maneira de controlar os deficits poderia ser cortando gastos. Mas há uma alternativa: é chamada tributação. É a tributação das grandes empresas e dos ricos porque os outros não têm mais nada para vocês tributarem – vocês fizeram tudo o que podiam [fazer com impostos sobre cidadãos franceses comuns].

[No entanto] taxar as corporações e os ricos, de alguma forma, não é apenas “inviável”, mas também controverso. Não pode ser colocado na mesa: Nada. (ou algo tão minúsculo que nunca cobrirá o deficit). Agora temos muita dívida. E acontece que o governo, assim como o governo americano, está enfrentando os próximos anos em que terá que gastar tanto no serviço de sua dívida quanto na Defesa. E isso não deixa muito para todos os outros gastos. E todos os outros estão dizendo: não, não, não, não, não, não.

E agora o detentor de títulos fica preocupado, porque uma maneira de resolver isso seria parar de pagar aos detentores de títulos e isso, é claro, nunca deve ocorrer. Então você tem dois absurdos. Você não pode parar de pagar aos detentores de títulos (quando, é claro, poder você pode, mas com consequências terríveis). E você não pode taxar as corporações e os ricos. Mas, é claro que você pode. Acho que estamos chegando a um ponto em que essas contradições se acumularam. Você não precisa ser um hegeliano ou um marxista para entender que essas contradições acumuladas são muito profundas, muito grandes e muito fundamentais”.

Dizem-nos, pois, que por um lado, o mundo não aceita a visão ocidental como sendo de aplicação universal – e, por outro lado, o Ocidente não tem o poder financeiro para buscar a primazia global – se é que alguma vez o teve: Zugzwang.

N.T. Zugzwang é uma situação presente no xadrez, e noutros jogos de jogadas alternadas, em que um jogador é colocado em desvantagem devido à sua obrigação de fazer uma jogada.

Fonte aqui.


Os EUA omnipresentes em todos os grandes projectos da UE

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 10/11/2024, revisão da Estátua)

Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.


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E eis que, subitamente, a comunicação social mainstream parece ter acordado para a vida e, finalmente, constatou que a Comissão Europeia, chefiada por Ursula Von Der Leyen, quando se refere aos tais “valores” da sua Europa, está, afinal, a falar dos valores que atribui, benevolamente, ás famílias europeias bilionárias. Diz o The Guardian que a sua “investigação” revelou que 17 bilionários, listados pela Forbes, constam como beneficiários finais de projetos no valor de 3.3 mil milhões de euros.

Vá-se lá saber o porquê da demora em constatar uma realidade que se repete ininterruptamente há dezenas de anos. Uma realidade que se desenrola ao mesmo ritmo que aumentam os sem abrigos, a crise na habitação, saúde e educação, a guerra e a instabilidade social. Mas ainda mais inexplicável é o confinamento desta “investigação” ao sector agrícola e aos projetos ligados à política agrícola comum. Afinal, sendo mau, uma vez que os pequenos agricultores passam uma crise sem precedentes, mesmo assim, estamos a falar de dinheiro para produzir alimento. Ora, casos existem, muito mais danosos e óbvios, aos quais, como veremos, o The Guardian e a comunicação social mainstream, fazem vista grossa.

Na verdade, as grandes corporações detentoras da comunicação social mainstream, das redes sociais e dos recursos financeiros, financiando as campanhas eleitorais, que se vão sucedendo no âmbito de um processo democrático absolutamente falacioso, do qual as últimas eleições nos EUA são o último dos paradigmas, não apenas conseguem que os governos, sempre domesticados, lhes baixem os impostos, como ainda logram obter mais perdões, isenções fiscais, e ainda o acesso aos fundos públicos para investimento. Uma espécie de “socialismo dos ricos”, em que o estado socializa os custos e os riscos e privatiza os lucros.

O Banco Europeu de Investimento, no seu último “Investment Survey 2004”, demonstra como se passa uma parte importante desta transferência.

Entre o 1.º trimestre de 2020 e o 1.º de 2024, o investimento corporativo apenas cresceu positivamente durante um trimestre (o 3.º trimestre de 2023); em todos os restantes, apenas houve crescimento positivo nos trimestres em que se deu um reforço do investimento realizado pelo Estado e pelas famílias. Apesar das centenas de milhares de milhões de euros que a UE destina para projetos de empresas privadas, no 1.º trimestre de 2024, o investimento corporativo evoluiu negativamente. Ou seja, o dinheiro que “investimos” nestes seres privilegiados, não está a alavancar o investimento, mas, sim, a alavancar a acumulação.

E se olharmos para o lado da acumulação, encontraremos muitas das respostas, nomeadamente, a forma como um país estrangeiro suga muitos dos recursos por nós produzidos. A guerra da Ucrânia tem aqui um papel absolutamente fundamental, como catalisador do crescimento do investimento público e da transferência de rendimento para as grandes corporações e, através destas, para as famílias mais ricas. Daí que as elites oligárquicas ocidentais sintam um desespero brutal na necessidade de manutenção do conflito na Ucrânia. Mesmo os EUA, como veremos, ficam com a sua parte, apesar do investimento continuar a ser suportado quase exclusivamente pela UE.

Vejamos o que se passa, por exemplo, com o Fundo Europeu para a Defesa, que constitui uma fonte inestimável de dinheiro para as maiores corporações e multibilionários do ocidente. Vejamos o caso da alemã RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH, a qual, durante a segunda guerra mundial, cresceu e engordou à custa da destruição da Europa e do mundo, e se prepara, no século XXI, para repetir a dose. Mas, desta feita, reparte o bolo com os amigos do costume.

A RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH é coordenadora e beneficiária de 6 grandes programas de “investimento” em capacidade militar instalada (pólvora, propelentes, munições 155 mm, camuflagem, transporte blindados, proteção de infraestruturas). Só no projeto para aumento de produção de cartuchos de 155mm, esta empresa garante 20.560.755,45€. Ou seja, nós, europeus, pagamos as máquinas e eles ficam com os lucros da venda das munições. No final, morrem mais russos, ucranianos e todos ficamos mais pobres, arriscando uma guerra mundial.

Um simples olhar para a estrutura de capital da Rheinmetall e faz-se luz: Blackrock, UBS, Fidelity ou Goldman Sachs, todos comem do bolo, garantindo as condições políticas e financeiras alinhadas para a alavancagem dos lucros e da concentração da riqueza. A conclusão só pode ser uma, é a de que eles estão por todo o lado e toda a economia conflui, como um grande sifão, para os bolsos de um punhado de privilegiados, pelos quais todos temos de sofrer.

Outro dos grandes comensais deste imenso banquete que são os fundos comunitários, para as empresas, é a também alemã OHB SYSTEM AG, que recebeu 90.000.000,00€ para a construção de um sistema de alerta para ataque por mísseis, a partir do espaço. Se por aqui percebemos por que razão foi lançado o alerta, nunca confirmado, de que a Rússia estaria a desenvolver sistemas de mísseis no espaço, a verdade é que a mensagem foi recebida por quem haveria de ser e, não muito tempo depois, a Comissão Europeia de Ursula Von Der Leyen estava a cumprir o que dela se esperava, aprovando o que fosse necessário ser aprovado.

Um olhar para a estrutura accionista da OHB, que é uma empresa multibilionária na área aeroespacial, e percebemos o porquê de tal facilidade na entrega do nosso dinheiro. O The Guardian, que estava tão preocupado com os fundos para a agricultura, até custa a perceber como deixou esta passar em claro: 65,4% da OHB pertencem à família Fuchs, uma das famílias mais ricas da Alemanha e do mundo. Uma vez mais, como uma organização mafiosa, os amigos do costume ganham a sua parte, através de um fundo sedeado no Luxemburgo (Orchid Lux HoldCo S.a. r.l.)mas que se percebe ser uma fachada de interesses norte- americanos, mas com morada de contacto em Nova Iorque.

Já para a Itália, a comissão de Von Der Leuyen financiou um projeto ligado a “sistemas de propulsão para domínio aéreo”, que atribui 56.202.596,26€ à GE AVIO SRL, uma empresa privada, conhecida como AVIO AERO, ligada ao sector aeroespacial, mas fazendo parte do grupo General Eletric Company, da sua divisão aeroespacial.

Mesmo a maioritariamente pública AIRBUS DEFENCE AND SPACE SAS, não escapa à regra. Sendo outra dos habitués dos fundos comunitários ligados à guerra e à investigação, desenvolve 134 projetos que falam por si, financiados em milhares de milhões de euros em investimentos. Da investigação, ao digital, passando pela defesa, energia atómica e espaço, os impostos dos trabalhadores europeus são os grandes alimentadores deste gigante corporativo. Uma consulta ao portal EU Funding & Tenders, é suficiente para desiludir muitos dos crentes na capacidade de inovação própria das grandes corporações ocidentais. Valha-nos que esta é pública e os seus lucros, são menos impostos que pagamos. Mas existe sempre um “mas”.

A AIRBUS, cuja parte pública ainda é considerável, tem, contudo, entre os investidores privados, nomes como: Vanguard, Goldman Sachs, Fidelity, UBS e uma diversidade de trusts detidos por empresas americanas e não só. Ou seja, a AIRBUS mantém-se pública permitindo a sucção de resultados pela oligarquia, principalmente estado-unidense.

Bem sei que se tratam de investimentos a realizar no espaço europeu, criando empregos e competências para os trabalhadores europeus. Contudo, não posso deixar de identificar um conjunto de circunstâncias padronizadas que tornam tudo isto imensamente suspeito.

Sem fazer uma busca exaustiva, em todos os grandes projetos que consultei, encontrei capitais norte-americanos de alguma forma envolvidos, colocando-se então a seguinte questão: porque razão os grandes investimentos públicos europeus envolvem, sempre, de alguma forma, directa ou indiretamente, capitais estado-unidenses?

Outra questão que surge, na decorrência desta, é a seguinte: em que medida os riscos identificados pelos EUA (risco de “invasão russa”; o risco de “ataque no espaço sideral pela Rússia”; o risco relacionado com as relações comerciais com a República Popular da China) influenciam: primeiro, a criação de necessidades de investimento público e a criação das estruturas empresariais de resposta; segundo, a suscetibilidade de aprovação desses projetos pela Comissão Europeia.

Por fim, se a resposta para a presença de capitais norte-americanos por toda a indústria de defesa – e indústria estratégica – da União Europeia, é a de que o mercado é livre e, como tal, os capitais de Wall Street têm direito de entrar nas estruturas de capital das corporações europeias, então, onde fica a independência e autonomia que Mario Draghi e Ursula Von Der Leyen advogaram para a Europa?

É que não podemos deixar de pensar que será muito difícil à Europa Comunitária – e respectivos estados membros – conseguir almejar a tal independência e autonomia estratégicas, estando o seu complexo militar-industrial e complexo industrial estratégico, tão suportados ou influenciados por capitais estrangeiros.

Mais estranho ainda é que, numa pura lógica de “deRisking”, tão usada como pretexto para o desacoplamento em relação á economia chinesa, não veja a UE de Von Der Leyen qualquer risco nas características corporativas do complexo industrial europeu, principalmente o que tem a ver com aspetos estratégicos da defesa, vigilância e capacidade de resposta.

Para além do cheiro mafioso que tal influência traz consigo, indiciando a existência de uma lógica que aponta para o desenvolvimento de determinados empreendimentos, em espaço europeu, apenas porque os EUA comem uma parte, ou indiciando que a benevolência política dos financiamentos europeus está, em muito, ligada a essa dupla característica, presença de capitais americanos e projetos que respondam a riscos identificados pela Casa Branca, esta realidade demonstra, ainda, a falta de qualquer traço de seriedade na atual estrutura de poder na UE.

Então, no meio de tanto risco, não vê a UE qualquer risco para as empresas europeias, na utilização, pelos EUA, de leis como o “Trade with the enemy act” (Lei do negócio com o inimigo)? Não bastaria o caso da ASML, fabricante de impressoras, EUV e DUV de semicondutores, impedida de vender parte importante da sua produção para a China, apenas e só, por ordem dos EUA, criando graves problemas à economia dos Países Baixos? Tudo porque estes têm relações de capital e propriedade industrial com a ASML, uma empresa que é o que é hoje, essencialmente à custa de fundos comunitários?

E é assim que se apanham as mentiras e as falácias. Então, neste caso, já não existe risco de dependência e submissão estratégica a interesses alheios? Neste caso, Ursula Von Der Leyen já considera que a dependência não faz mal? Será assim, ou será porque, as respostas que Ursula von Der Leyen vai criando no espaço europeu, visam, não responder a necessidades dos povos europeus, mas a necessidades dos EUA, num total, dependente, estratégico e criminoso alinhamento com as políticas da Casa Branca?

Hoje, Von Der Leyen não garante apenas a continuidade dos riscos que alimenta com o seu extremismo. Garante também que esses riscos constituem o pretexto ideal, para que se negue um futuro às próximas gerações europeias. Por que razão a imprensa mainstream não vê nada disto?

Vejam a sua estrutura de capital, e depois falamos. Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.

Fonte aqui.


O direito à defesa

(Virgínia da Silva Veiga, 27/11/2018)

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Dizem que 57 % dos portugueses já colocam em causa a veracidade das notícias. Contudo, breve consulta ao Facebook permite concluir uma outra faceta: basta dizer mal de uma sentença, criticar a vida de Sócrates ou falar de empréstimos bancários que a malta partilha à exaustão. São estes os três temas que mais agradam aos portugueses e nem é necessário gastar dinheiro em inquéritos.

Um juiz ou juíza, não sabemos, que condene a pena de prisão, ainda que pelo mínimo, um tipo que decide assaltar um pacato cidadão, sob ameaça de arma branca, no entender geral devia ser absolvido. O juiz é um canalha, isto de mandar para a cadeia um gajo que estava em precária, reincidente, “ é a justiça que temos”. Se fosse rico o caso era outro, dizem. Podia recorrer, como se, sendo pobre, não pudesse.

Como e com que fundamento foi assim decidido, os portugueses não estão nem aí, importa passar a imagem de que os magistrados são uma corja de bandidos organizada para libertar gangues, suspender penas de pedófilos ou absolver violadores. Como não sabemos os contornos de cada caso, coisa que, em verdade, não interessa a quase ninguém, bota a desgraçar a imagem do magistrado em causa, nem que esteja a cumprir rigorosamente o seu dever, tanto faz que o próprio e a família se sintam dizimados por um país que assim atormenta pessoas e famílias. O juiz tem que fazer justiça, nós não.

Lembremos o caso de ridicularização pública de um magistrado porque emitiu um despacho mandando devolver ao seu proprietário, findo o processo, uma garrafa vazia de cerveja Super Bock. Não importou a ninguém conhecer a lei a que o decisor estava obrigado, nem pensar duas vezes ficar mais barata uma lei que vale para res nullius, de coisas simples a lingotes de ouro, respeitando por igual o direito de propriedade, do que outra que levantasse excepções. Neste caso, o pobre já não tinha direitos.

Agora é a vida de Sócrates. Mudou de casa, dizem. Ninguém, nem jornalistas, faz a menor ideia se é arrendada ou não é, sequer por quem. A verdade é que para o efeito de se meterem na vida de um cidadão tudo é legítimo e, tal como não dizem que pena davam ao assaltante, sendo juízes, também não nos elucidam onde sugeririam que Sócrates vivesse. Porque é de um amigo – dizem sem saber, (volta a inveja) -, sendo a fonte uma agente imobiliária que, consta, igualmente disse, em boa conclusão, ignorar.

É? Ora, eu não quero saber para nada onde vive uma pessoa que não tem nada a ver comigo, mas sempre posso recordar ser sabido que, vítima das perseguições constantes de uma comunicação social que tudo alimenta, o mesmo terá em tempos arrendado um apartamento e feito um contrato no qual se previa a obrigação de sigilo sobre as condições contratuais, para não dar tripa a tais gatos.

O sigilo não foi cumprido e, suspeitaria eu – também tenho direito -, que desta vez o contrato foi melhor artilhado, numa tentativa, como se nota, frustrada, de evitar ver de novo o assunto nos jornais que não respeitam nem a pessoa, nem – lá volta – as respectivas famílias. No caso, nem familiares, nem companheira, nem sequer visitas. O resto, é o costumado voyeurismo e a tal palavrinha com que Camões selou Os Lusíadas…

Vem agora o outro assunto de que, lamentavelmente, ninguém sabe nada, em boa verdade não querendo saber. Eu gostaria, mas a sério. Muito. Os empréstimos bancários da CGD. Não sabemos nada excepto o que há de mais elementar: um banco vive de fazer empréstimos. Que importa o caso? A mania generalizada de confundir empréstimos com favorecimentos. Seria longa a discussão. Por mim, fico atenta aos casos e expectante com a parte que, em parco entender, mais devia preocupar neste momento os portugueses.

As notícias vindas a lume sobre tal matéria, em dias recentes, encerram uma que, essa sim, é deveras preocupante: os casos andam em investigação há anos. Parece que, sempre segundo as notícias, nada tendo que aponte aos sucessivos administradores do banco público, a título de favorecimento indevido ou crime do género, o MP terá enveredado pelo crime de gestão danosa. Estou para ver no que dá.

Certo é já ter ouvido falar de idêntica tipificação em assuntos que nos deviam fazer saltar em alerta. Porque o que estará, nesse caso, em investigação são decisões de administradores ou de políticos, saber se, sendo o MP que mandasse, teria optado por gerir de outra forma.

Perigoso. Muito perigoso. Porque sabemos o MP que temos, em muitos casos igualmente ignorando o que seja a aprovação de um plano de ordenamento ou a crise do Lehman Brothers, só para dar dois marcantes exemplos. Vermos uma entidade que ninguém elege ou elegeu, por maior preparação que tenha, a apreciar medidas políticas,  não é assunto leve. Faltava agora que um governante ou decisor, volvidos anos, tivesse que ir explicar a procuradores porque decidiu num sentido e não noutro, em caso de gestão a que estava obrigado em razão das funções,  nada mais se tendo encontrado que se lhe apontasse.

Dispenso a partilha deste comentário. Mas tinha algum sentido que quem divulga notícias sem as analisar, nem se importar com a justiça ou injustiça inerentes, partilhasse agora esta outra opinião. Pode ser que também colha adeptos e alguém passe a mandar bocas de igual ligeireza contra quem, afinal, está menos preocupado com a verdade e mais com arrasar vidas alheias. De ricos ou remediados, que, bem vistas as coisas, os pobres têm, por estatuto privilegiado, o direito à defesa.