TU NÃO DESISTAS, PEDRO!

(Joaquim Vassalo Abreu, 05/12/2016)

 

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Nota introdutória: Eu sei que hoje houve uma entrevista da RTP ao Primeiro Ministro mas…não tendo sido mais que o esperado, e onde eu ressalvo a boa educação do Costa perante Passos, nada havendo de novo e de substancialmente não expectável eu, apesar dela, mantenho este texto já escrito. Até mesmo por ela…Aliás, o que dela ressaltou é que a Geringonça já era…agora é um TRICICLO!


É por demais evidente o “cerco” que te estão as fazer os teus, um cerco ignóbil em que tens sido vítima de autênticas facadas pelas costas e que eu aqui até já denunciei aquando da nomeação para a CGD de um dos teus: o Macedo. Alguns, em perfeito delírio, até sustentam que terá havido um acordo entre a Maçonaria e a Opus Dei, vê lá tu, só para te provocarem desilusão e te fazerem desistir…

Foi o Marcelo por causa do famigerado feriado, um dos que já cá canta! Foi o Santana a abdicar de enfrentar o Medina. Ele é o Rio que nunca se decide e é como aquele rio de S. Pedro de Moel,  a que o Zé Mário alude no “FMI” quando diz: “…desagua, porra”! E ontem foi a cereja no topo do bolo: o Mendinhos, esse tal que veio ocupar o lugar deixado em aberto pelo Marcelo, noutro canal, é certo, mas na mesma em sinal aberto. E com nítida vantagem porque…responder à Clara não é o mesmo que responder à Judite, convenhamos!

Eu não o costumo seguir, porque entre ele e o Futebol só se este for mesmo “rasca” mas, ontem, curioso de saber até onde vai o desplante dessa tua gente, esses todos que ainda há dois anos te incensavam, sorriam com os dentes todos e te davam pancadinhas nas costas, quis ver como este Mendinhos se iria portar. Uma desilusão, Pedro! O que ele não disse de ti, Pedro! No fundo corroborou todos os outros e só não te deu a estocada final porque, para bandarilheiro, não tem altura. Ele é mais peão de brega!

Eu vou-me poupar a enumerar todos os adjectivos com que te brindaram e quero, daqui e desde já, manifestar-te a minha inteira solidariedade. Estás admirado, como que dizendo: Tu? Sim Pedro, sim porque eu quero, eu desejo, eu imploro-te que fiques, que continues líder desse teu grande partido, desse grande partido que eles não se importam de fazer pequeno só para te desbancar…Têm o desplante de afirmar que não sabes fazer oposição quando, no meio daquilo tudo, ainda és o único que tem estratégia ( a forma como despachaste o Domingues, por exemplo), e eu quero-te dizer que ontem fiquei apalermado, uma maneira de dizer estupefacto, ou admirado, com a tua mudança radical de táctica. Ás vezes faz bem o intervalo…

Mas o que é que tu disseste assim de tão relevante que até parece que ninguém reparou e só apareceu naqueles rodapés que as televisões põem, como complemento às notícias mil vezes repetidas que vão dando e eu, que muitas vezes tenho a TV em silêncio e apenas por aí sigo as mesmas, pois mesmo que não tivesse observado uma, aquilo parece uma circunferência e, passados uns minutos, ela aparece outra vez e eu então li. E fiquei, vou dizer outra vez pois já expliquei o que é, apalermado com a tua capacidade, a tua acutilância e vontade de dar a volta o jogo!

Foi naquela convenção autárquica do teu partido, mais uma em que se saiu sem nomes se saber, mas onde tu disseste duas coisas, que eu já adjectivei e, por isso., não vou repetir: A primeira: “Portugal podia crescer mais…o Governo é que não quer”! Pimba, vai buscar, como dizia o nosso querido RAP! Ó Pedro, eu vou-te ser franco: eu já dei voltas à cabeça, voltas e voltas, já passei as mãos pela barba vezes sem conta, até já fiz um intervalo para respirar melhor e meter ar nos neurónios, mas…não atinjo!

Eu estava mesmo prestes a desistir quando, entretanto, se me fez luz e perguntei-me, como sempre fazemos: Porque não pensaste nisso antes? Isto afinal é como a história do ovo de Colombo, disse para comigo mesmo! “Portugal podia crescer mais…”, claro que podia. E, por isso, assalta-me agora, essa é a razão por que tu não foste àquelas comemorações do 1º de Dezembro: É que tu, consciente da pequenez deste nosso rectangulozinho aqui à beira do mar plantado, um pigmeu à beira de um gigante, a Espanha, chegaste à pergunta fatal: Crescer para onde? Tomar a Galiza! Eles querem ser independentes, mas com Portugal até que se uniam…Só posso dizer: brilhante! Mas o Governo não quer! Não quer a Galiza, então porque não a Estremadura, assim uma extensão das nossas Beiras e Alentejo? O Governo também não quer! Tomar ao menos Algeciras, Tuy, La Guardia, Badajoz, quiçá Salamanca…tudo isso nos dava já um “apport” de grandeza já justificável, mas…o Governo não quer!

Mas eu sei que tu não vais desistir e, depois dessa redundante afirmação que até, já confessei, conseguiu pôr os meus neurónios quase em curto circuito, tu fizeste ainda outra e esta, sim, da ordem do bombástico: “Nós queremos conquistar Lisboa e Porto”! Alargar para dentro, portanto…

Aqui eu acho que todos meteram a viola no saco e, muito embora muitos digam seres um D. Quixote sem Rocinante nem Sancho Pança, ficaram mudos perante tanto desassombramento. Quem é que ele pensará convidar para ganhar ao Medina em Lisboa e ao Moreira no Porto, perguntam-se todos?

Tu ainda não o disseste, mas eu, julgando depois de todo este meu tórrido raciocínio, alvitro o que, para ti, seja “Ganhar Lisboa e o Porto”: Não são as Câmaras coisíssima nenhuma, é ganhar à Cristas em Lisboa e no Porto a, a…a…não me surge agora o nome!

Continua Pedro, obriga o Costa a crescer pois ele só tem alargado! O Marcelo a alargar pois está escanzelado! O Santana a aparecer pois está muito isolado. E a todos os outros, os que na sombra te fazem figas, que “crecham e apareçam”. São todos uns bebés, que deveriam andar era no jardim escola, assim como aquele de Vila do Conde, que uma vez já aqui referi e se chama: “Creche e Aparece”.

É tudo Pedro, a gente quer que tu fiques e, por isso, da minha parte, a minha solidariedade!

E vai em frente, Pedro, nem que comeces por Verin, ali mesmo ao lado de Chaves…Não tem rio e eles dão-se bem…


Texto original aqui

O Diabo é canhoto

(Daniel Oliveira, in Expresso, 19/11/2016)

Autor

                       Daniel Oliveira

A estratégia de apostar no mercado interno era um engodo. Graças a esse engodo a economia estava condenada a estagnar. A única coisa que este Governo tinha feito era distribuir dinheiro pelos funcionários públicos. Os investidores estavam em fuga e caminhávamos para um novo resgate, como tão sabiamente avisava Wolfgang Schäuble. A tese mais benigna era a de que o Governo até podia estar a distribuir melhor a austeridade mas nada estava a fazer pela economia. Saíram os números do INE e a narrativa instalada sofreu um abalo que nem Teodora Cardoso, empenhada em mostrar que não se enganou, conseguiu contrariar. Limitou-se a abrir um debate metafísico sobre o défice estrutural. A economia acelerou no terceiro trimestre, houve um crescimento homólogo de 1,6% e em cadeia de 0,8%. Num momento externo pouco animador e sem a ajuda da queda do petróleo. O melhor resultado dos últimos três anos e o mais alto de toda a zona euro. Pela primeira vez em muito tempo estamos a crescer em contraciclo com a Europa. As metas irrealistas do Governo poderão ser ultrapassadas e as metas de Bruxelas deverão revelar-se, elas sim, irrealistas no seu pessimismo.

Surgiram, como é normal, várias teses para explicar aquilo que o preconceito ideológico impedia sequer de imaginar. Alguns dos que acusavam o Governo de ignorar as exportações vieram lamentar que este crescimento resulte sobretudo das exportações. O turismo desempenhou aqui um papel central mas não foi o único. E veio pelo menos desmontar uma tese europeia e passista: a de que os custos de trabalho eram o elemento fundamental para a competitividade da nossa economia. Os custos de trabalho aumentaram, o desemprego caiu e as exportações cresceram. Pedro Passos Coelho disse, e com razão, que não se podem lançar foguetes antes da festa. Um bom conselho vindo de quem nem esperou pela enfermidade para dar a extrema unção.

Os números da economia não resultam apenas de medidas tomadas pelo Governo. É possível que uma grande parte destas boas notícias nem sequer resulte de decisões tomadas pelo Estado. Digo isto com a mesma frontalidade com que disse que sem governo Sócrates teríamos vivido uma situação muito semelhante à que nos aconteceu em 2011 e que a estratégia austeritária da Europa era uma escolha que em muito ultrapassava Passos Coelho. Nem os resultados de grandes opções políticas se sentem trimestre a trimestre, nem a difícil situação em que estamos depende exclusivamente deste ou daquele governo. Nem sequer depende apenas de nós. O que está nas mãos da política nacional é empurrar mais para um lado ou para o outro.

Perante estes números, a passagem sem espinhas do Orçamento em Bruxelas e a certeza de que não haverá sanções, a ‘geringonça’ entra numa nova fase e a narrativa de Passos Coelho (e de grande parte da comunicação social) terá de mudar. Anunciar a catástrofe iminente todos os dias só fortalece o Governo de cada vez que a catástrofe não se confirma. E deixa a oposição sem nada para dizer que não dependa dos caprichos do sobe e desce dos números da economia.

O problema do PSD é que, por não mudar de líder, apenas quer provar que a interrupção do ciclo político de Passos foi um erro histórico. Não tem nada para dizer que não dependa da desgraça do país. Nada para propor caso o Diabo nunca chegue a comprar um bilhete da EasyJet para Lisboa.

Coitado do Moscovici

(Por Estátua de Sal, 18/11/2016)

moscovici

O dia de hoje foi muito interessante em termos da agenda noticiosa das televisões, mormente da SICN. Nunca a D. Avoila dos sindicatos da função pública teve tanto tempo de antena nem a manifestação dos sindicatos da função pública exigindo aumentos de ordenados e descongelamento das carreiras teve tantos diretos. O repórter, de guarda-chuva em riste, coitado, lá ia marchando ao lado dos manifestantes. À D. Avoila, a pergunta mais escaldante e repetida era se a manifestação tinha sido encomendada pelo PCP.

A direita anda há meses a exigir que os sindicatos saiam para a rua para criar problemas à coligação que suporta o Governo. Como não tem, nem gente, nem capacidade de mobilização, nem jeito, nem apaniguados capazes de molhar as botas ou partir os saltos altos dos sapatos nas pedras da calçada, só lhes resta implorar ao PCP que exerça os seus bons encómios junto dos sindicatos que contam (os da CGTP) para que se manifestem. E hoje teve um pequeno brinde.

É claro, que os sindicatos já conhecem de ginjeira estes “cantos de sereia” dos próceres da direita, Montenegros, Coelhos e afins. Só saíram para a rua quando lhes conveio. Isto é, quando decidiram pressionar o Governo na fase final de negociação do Orçamento para 2017, na especialidade.

Em simultâneo, tivemos cá o comissário Moscovici, que veio de propósito de Bruxelas, para vir dizer, alto e bom som, que o Orçamento para 2017 é do melhor “vintage” da zona Euro, um tinto de truz, o deficit é da mais fina porcelana, não há sanções para o país, e os Fundos Estruturais vão jorrar em força dos odres cheios da Europa. E mais: que Portugal foi o melhor aluno na cadeira de Austeridade Aplicada, que frequentou durante os anos da troika, tendo saído do exame com um Muito Bom com distinção e louvor. Mas coitado do Moscovici. Ao lado da D. Avoila, a sua mensagem foi apenas um zumbido para as televisões. As boas notícias não agradam aos comentadores de serviço. O Gomes Ferreira não apareceu a opinar: deve também ter ido à manifestação e, como chovia e o guarda-chuva lhe deve ter empancado, constipou-se e ficou em casa a tomar antigripais.

Acresce que, no bom estilo da televisão do Correio da Manhã, outra notícia houve que mereceu grandes parangonas. Prenderam meia dúzia de militares que a Justiça responsabiliza pela morte dos dois comandos em Setembro último. Finalmente parece que há responsáveis e, temos que convir, apurados em tempo record, tendo em conta o que é normal nestas coisas de Justiça em Portugal.

 Este tema dos comandos também tirou o brilho ao Moscovici. Vem um homem de Bruxelas, esfalfa-se todo, evita falar por Skype, que é bem mais confortável e dá menos canseira, e ninguém lhe liga nenhuma. Achou ele que as notícias eram tão boas que mereciam ser dadas de viva voz, em conferência de imprensa, ao lado do Ministro das Finanças. Pois bem, a maior parte das questões que os jornaleiros de serviço acharam por bem colocar foram sobre a novela da CGD. É claro que, estão sempre como vampiros a virar as antenas para donde lhes cheira a sangue. Corja.

Em síntese e em termos de conclusão. Continuamos a ter uma comunicação social, especialmente a televisiva, a fazer descaradamente oposição ao governo. E nem sequer é tanto por aquilo que cala. É pela ênfase que dá a tudo aquilo que pode causar dificuldades à governação, sobretudo tudo aquilo que possa minar a coligação dos três partidos que apoiam o governo. Dividir para reinar é a máxima da direita, como o foi desde sempre, quer nas práticas de César, de Filipe II da Macedónia, de Napoleão, e nas estratégias propostas por Sun Tzu em A Arte da Guerra.

Que a Geringonça se mantenha coesa e vá navegando contra ventos e marés, e tornando o discurso da direita uma catilinária estéril para os súbditos reverentes e saudosos das práticas pafiosas. Que os partidos políticos á esquerda, que suportam este governo, saibam distinguir o acessório do essencial. E o essencial é manter a direita afastada do poder não por dois, não por quatro anos, mas de forma continuada e perene.