A ciência política e a fé

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/05/2022)

Um misto de firmeza e moderação é, porventura, a melhor forma de caracterizar a postura de Raymond Aron em relação à política internacional, mas cabe também referir a plena consciência que tinha das complexidades e da necessidade de agir e de fazer escolher, ciente de que, tal como aliás já o referira na sua tese «Introduction à la Philosophie de l’Histoire», uma decisão é sempre tomada entre a ignorância e a incerteza. Contudo, o primeiro princípio do método de Aron consiste em nunca perder de vista a complexidade, mesmo quando se age, nem nunca esquecer a necessidade de efetuar escolhas, inclusivamente quando se analisam essas complexidades. Outros princípios ficaram bem patentes no final da sua sessão inaugural na Sorbonne. E a eles sempre se manteve fiel, fosse qual fosse a polémica: respeito pelos factos e respeito pelos seus interlocutores, disposição para admitir os casos, raros, em que fizera um juízo errado e para alterar a sua postura em consequência. Pierre Hassner.


O que distingue, no atual contexto, um cientista político, indígena luso e televisionável, e das «breaking news» da TVI, da SIC ou da RTP de um pastor religioso da IURD, das Testemunha de jeová ou dos Talibans? Nada!

Pelo que me tem sido dado a ouvir aos “cientistas políticos” com graus de “professores universitários” e a ler o que escrevem nas redes sociais, nas análises sobre a guerra na Ucrânia, o guerra, o fenómeno social mais total e antigo da Humanidade é por eles, “cientistas”, explicado em termos de fé! As mesas dos estúdios são altares, os seus sites nos FB são publicidade patrocinada! Aguardam na Ucrânia a repetição do milagre das muralhas de Jericó! Estamos perante meninos de Deus que vendem bíblias, mas surgem identificados nos rodapés como “cientistas sociais”!

Há, por parte dos ditos “cientistas sociais”, uma proposição de partida: ou se acredita neles e se pertence ao reino dos bons e se vai para o Paraíso, ou se duvida, questiona e pertence-se aos satânicos e vai para um Inferno. Quem já viu televisão num país islâmico percebe bem o que são hoje as sessões de análise do conflito pelos “cientistas políticos”.

Há muitos anos que sou um crítico da atribuição do estatuto de ciência aos estudos sociais. A epistemologia das ciências sociais funda-se em 3 linhas: positivismo, fenomenologia e marxismo. Mas a questão que nenhuma das escolas resolve é a questão de fundo: O cientista das ciências exatas está separado do fenómeno. Newton estava separado da maçã. Uma velha e nunca resolvida questão: O “cientista político” e social está inserido no objeto que analisa, na sociedade, com os seus preconceitos, as suas experiências anteriores. Ele é parte do fenómeno. Está dentro da maçã que cai na cabeça do Newton. É a água que fez o Arquimedes flutuar.

O bombardeamento de análises de uma multidão de “cientistas políticos” chamados aos púlpitos para explicar o fenómeno desta guerra na Ucrânia revelou a ausência de qualquer método científico na abordagem do fenómeno. A ciência assenta da dúvida. A tal dúvida metódica, ou cartesiana que é (era) o beaba da entrada na ciência. Só tenho ouvido certezas. Quando um cientista tem certeza passa, para mim, à categoria de delegado de propaganda. É o que temos, que bonda.

Os princípios da ciência são neutros, tenho visto “cientistas políticos” a cientificarem com base na moral! (E sorridentes!!!)

Alguns chegam ao ponto de considerar bons os projéteis ocidentais e maus os projéteis russos!

A ciência baseia-se na comparação de um dado fenómeno com outro idêntico: por isso podemos fazer tabelas de marés, de eclipses, de terramotos… Os “encartados” “cientistas políticos” e sociais desta guerra, como de outras, diga-se, incluindo a das colónias portuguesas, nunca referem, nunca os ouvi referir, a não ser a alguns militares chamados a colocar alguma racionalidade na algazarra, os princípios da guerra, os tratadistas da guerra, de Sun Tze a Clausewitz, de Napoleão, a Mckinder, não falam de estrategas políticos, de Kissinger a Brzezinski, nem de pensadores políticos, de Platão, Machiavel, Montesquieu, Hobbes, Kant, Sartre, ou ao muito ocidental e atual e felizmente ainda vivo Raymon Aron.

Sobre o pensamento a propósito da guerra, os “cientistas políticos” dizem: Nada! Estão em branco! Presume-se que os desconheçam e que se tomem eles próprios como manancial de saber e conhecimento. Gritam Deus salve a Ucrânia! Acreditam num deus que sabe onde é a Ucrânia e que a Ucrânia tem um Deus, não sei de Biden, se Zelenski! Mas eles sabem. Ciência pura!

Cientistas políticos portugueses (existe um estranho fenómeno de provincianismo que faz os cientistas políticos portugueses ainda mais marginais a qualquer teoria aceite do que noutros países com outras tradições intelectuais) surgem em público a garantir que não admitem quem ponha em causa qualquer outra posição sobre a guerra na Ucrânia que não seja a da condenação. Uma atitude moral, mas que destrói o fundamento de a ciência ser por natureza, materialista (i.e. neutra) e que transforma a análise política em teologia.

Estes cientistas morais (desculpem a contradição) não têm consciência da existência de várias «modalidades do Juízo», vivem em pousio (ou vazio) intelectual, não distinguem entre diversas categorias de juízos: assertóricos ou afirmativos; juízos apodíticos, os que proclamam o carácter necessário ou incontestável de um juízo.

Eles, os “cientistas políticos” televisionáveis e sociáveis, são pela imposição do juízo hipotético: o seu! Para eles, se algo é possível e lhes convém, passa a ser a realidade! Oiçam-nos a falar (divagar), leiam-nos sobre as intenções de Putin, da NATO, de Biden, da China , da Índia, até das Ilhas Salomão!

Como respeitar uma ciência cujos “cientistas” não poem em causa o que vêm? Que são adivinhos e feiticeiros que leem a realidade em búzios e tripas de galinha? Que jamais duvidariam que é o Sol que roda à volta da Terra. Ou que, vendo cair flocos de neve e pedras de granizo, concluiriam que a neve é mais leve que o granizo, pois cai a uma velocidades menor!

Como respeitar “cientistas políticos” que tratam esta guerra como se fosse a primeira guerra de que têm conhecimento na História da Humanidade? E se arregalam de espanto com o que veem?

Acredito que esses “cientistas empíricos” e assentes na investigação com base na moral (na sua), se afastariam de Newton, e até de Arquimedes, não porque a um tenha caído uma maçã na cabeça e o outro surgisse nu a gritar Eureka!, mas porque contrariavam o que se está mesmo a ver que é assim. As maçãs caem e a água serve para o banho!


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A ciência em vez da política

(António Guerreiro, in Público, 12/02/2021)

António Guerreiro

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Como temos visto, os modelos matemáticos para prever a progressão futura da pandemia são belos instrumentos que falham tantas vezes com estrépito porque ainda existe o incalculável e não é possível evitar a sua emergência. É o incalculável que faz com que a estatística não se tenha tornado completamente a arte de governar. A favor do cálculo e do calculável, há hoje números para tudo e são eles que guiam os actos administrativos da governação. Neste tempo de ruína da política, o que fica fora da racionalidade numérica é da ordem do ingovernável. Freud colocou o governar entre as três “profissões” impossíveis. As outras duas eram o educar e o psicanalisar. Todas elas são artes cibernéticas, no sentido em que podem ser definidas através da metáfora da pilotagem de um navio. A “ciência” a que Norbert Wiener chamou “cibernética”, refere-se ao pilotar, ao dirigir.

Boas razões têm levado o poder político a submeter-se ao parecer de comités científicos nas decisões sobre matérias que exigem o saber dos “especialistas”. Mas isso também tem alguns efeitos nefastos, um dos quais é o modo como se tem acentuado bastante uma visão distorcida da ciência, quando nela se investem crenças colectivas na sua capacidades salvífica. Uma leitura necessária nas circunstâncias actuais são duas conferências que Max Weber pronunciou em Munique, em 1917 e 1919: “A Ciência como Vocação” e “A Política como Vocação” (estão ambas publicadas pela Relógio D’Água, com o título: A Ciência e a Política como Ofício e Vocação). Na primeira conferência, Weber defendeu que “as ideias de liberdade e felicidade são estranhas à ciência como vocação” (ou profissão, já que a palavra alemã Beruf tem os dois significados). E rejeitou a tecnocracia como uma opção desejável, argumentando que ela, podendo embora ter a eficácia como característica, não tem a capacidade de exprimir aquilo que se espera do agir político: que toque o fundo não racionalizável da vida. Como noutros domínios, estamos hoje confrontados, no espaço público, com dois extremos: por um lado, temos a emergência das posições obscurantistas, negacionistas e anti-científicas; no pólo oposto, temos a ciência a colonizar a política e a contribuir para que esta seja vista como um problema. Um governo da ciência, dominado por “especialistas” que de certo modo passam a substituir os cidadãos, é já visto como uma alternativa desejável. Entre a ciência e a política, há uma lua-de-mel a festejar publicamente. É, aliás, como “cientista” (de uma incerta “ciência” que se chama Economia) que Mario Draghi acaba de ser chamado para governar a Itália. É o resultado do “casino” político italiano.

Transferida para o domínio da governação, a ciência é uma forma de despotismo que obrigaria a renunciar a direitos civis. Grande parte do nosso comportamento quotidiano não é guiada pelo saber e as prescrições da comunidade científica. Teríamos uma vida infeliz se assim fosse, por mais que respeitemos, admiremos e vejamos a ciência como o principal factor de cultura e civilização. O prolongamento da situação actual de pandemia, tal como ela é gerida, comporta enormes riscos políticos, como já todos percebemos. Um deles é que a democracia se transforme em “democratura”, para usar um neologismo que começa a impor-se e a seguir o seu curso.

Olhando aquém e além da situação excepcional em que vivemos, isto é, analisando uma disposição que não nasceu com a pandemia, é notável que os cidadãos se mostram favoráveis à substituição da política pela ciência. E isso acontece por causa da política fraca em que caímos (e, por todo o lado, os recentes arautos e protagonistas de uma política forte, quando falam de política estão antes a falar de polícia) e da falta de um poder e de um debate políticos que tratem os cidadãos como adultos. O discurso dirigido aos cidadãos durante a epidemia inclinou-se para uma moralidade e infantilidade insuportáveis porque essa é a regra já antes instaurada. Nada exemplifica melhor esse discurso do que os discursos das instituições estatais que zelam pela nossa segurança e bem-estar, como é o caso da Protecção Civil: “Hoje vai chover, proteja-se”, “Não se exponha ao sol porque vão estar mais de 30 graus”, “Agasalhe-se e tome as devidas precauções porque a temperatura vai descer muito”. Amplificadas pelos media, as prescrições, proibições e conselhos que pretendem instalar-nos num mundo seguro criam um ambiente de parque infantil.


Na vertigem da desrazão

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 23/01/2021)

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Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este “vírus bonzinho” continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

O que hoje acontece com a pandemia, e o que irá suceder, salvo ocorra um milagre, daqui a dez ou quinze anos com a entrada em cena de disruptivas reações em cascata, provocadas pela aceleração da crise ambiental e climática, é a confirmação da completa erosão do senso comum, essa faculdade que nos liga ao mundo. Essa erosão resulta de um longo e complexo processo histórico, com raiz na Europa de Quatrocentos, que os académicos costumam designar como modernidade. Estamos a viver o crepúsculo universal do programa renascentista de Pico della Mirandola (1463-1494): compreender o homem como uma criatura destinada por Deus à liberdade de escolher o seu destino. Ao fim de algum tempo, a parceria com Deus deu origem a um afastamento completo. Como Laplace disse a Napoleão: na ciência Deus é uma hipótese desnecessária. O cristianismo tinha sido o amparo espiritual dos europeus nos mil anos de escassez medieval. Mas, quando a ciência trocou o serviço da verdade pela busca fáustica do poderio tecnológico, o narcisismo humanista, exaltado na contemplação das suas possibilidades infinitas, deixou mergulhar Deus num longo eclipse.

A modernidade não só dispensou o Criador, como escravizou o mundo natural da Criação à voragem de uma economia que deixa desertos no seu rasto. A partir do século XIX, o primado tecnológico transformou-se numa infeção cultural, que contaminou todas as esferas da existência. A natureza deveria submeter-se, obedientemente, a todos os desvarios do imperativo tecnológico que perdeu a mínima consciência dos limites. Alguns exemplos. Em 1934, Sydney Chapman (1888-1970) sonhava limpar a atmosfera da camada de ozono para aumentar a sensibilidade dos aparelhos astronómicos à radiação ultravioleta mais remota! Não lhe ocorreu perguntar se isso acarretaria danos colaterais. Seria Thomas Migdley (1889-1944), responsável também pela calamidade para a saúde pública resultante da invenção da gasolina aditivada com chumbo, a produzir os clorofluorcarbonos (CFC), que provocaram a depleção da camada de ozono. Todavia, foi por puro acaso que Migdley usou para o seu novo produto o cloro (CI) em vez do brómio (Br), que teria um efeito destruidor sobre a camada de ozono estratosférico cem vezes maior! De acordo com cálculos do nobel da Química Paul Crutzen, se tal tivesse sucedido, em 1976 a humanidade teria sido aniquilada sem sequer perceber porquê…

A reclusão forçada pela pandemia deu-nos oportunidade de escutar os sons de uma natureza que submetemos e esquecemos, como se dela não fizéssemos parte. Mas que ninguém espere uma nova sabedoria nascida da tragédia. Quando esta pandemia se dissipar, o cruzador da modernidade zarpará de novo a todo o vapor, cumprindo o lema extremo que Pessoa foi buscar ao general romano Pompeu: “Navegar é preciso; viver não é preciso.”

Professor universitário