A Natureza e a nossa fragilidade

(Joaquim Vassalo Abreu, 24/03/2020)

Que a força da Natureza nunca ninguém a venceu… ( António Gedeão)

Tempos houve em que as fábricas foram intimidas e obrigadas a bombas e demais material militar fabricar…eram tempos de guerra.

Agora são incentivadas a produzir ventiladores! Será apenas mais uma guerra? Que o é não restem dúvidas, mas contra um inimigo diferente porque invisível.

Insidioso e matreiro ele é, até parece que treinado e comandado, enviado não sabemos por quem nem porquê, para este estilo de vida exterminar… Ou será apenas para nos lembrar que o caminho que o mundo vinha seguindo era para inexoravelmente tudo acabar?

Sem honra nem glória pensemos pois perante o desabar dos seus equilíbrios que um dia a Mãe Natureza se iria a sério zangar! E mostrar que perante a sua força, por muitos desrespeitos e afrontas, ela iria determinar o fim de todos os que durante décadas a hostilizaram e capturaram para negócios próprios e egoístas, sem tratarmos de que ela era de todos e de todos, património a preservar!

Talvez com este aviso queira e exija que mudemos de vida e de paradigma. Talvez esteja exigindo que sendo todos nós mortais e assim sendo iguais a todos os demais, devendo pensarmos no bem comum ela queira dizer, enfim, que somos todos iguais quer para o bem quer para o mal…

E parecendo isto até uma paragem no tempo onde Ela, depois de nos fazer pensar, mais pujante e pródiga renascerá mas sempre pronta a nos censurar se mais uma vez desrespeitada!

A verdade é que a vida neste mundo tem estado em suspenso e envolvida por quatro pequenas letras: M-E-D-O! Mas tanto tem bastado para que as águas dos rios estejam agora mais transparentes e nelas de novo seja possível ver-se os peixinhos serpenteando…E parados os automóveis outro ar seja possível respirar!

Abram pois as janelas e deixem este novo ar entrar. E encham a pleno os pulmões deste ar puro e digam, digamos todos: Obrigado Mãe Natureza por nos ter feito pensar!

Mas finalmente perguntemos-lhe: Mas quando poderemos Mãe Natureza a nossa vida retomar, para dela a nossa mudança podermos provar?


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Covid-19/março-2020

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/03/2020)

Miguel Sousa Tavares

Não creio que o mundo vá acabar. Mas espero e desejo que a nossa forma irresponsável de viver e de habitar o planeta mereça — agora, pelo menos — um momento sério de pausa para reflexão. Espero que coisas como o desfile trendy de Davos, onde é possível juntar um idiota como Trump com uma vedeta assimilável como Greta Thunberg, ou um milionário com dúvidas de consciência, como Bill Gates, com uma milionária que compra caro a sua presença para limpeza de cadastro, como Isabel dos Santos, não voltem a repetir-se. Para fingir que os grandes, os ricos e os poderosos do mundo estão preocupados com o futuro da humanidade. Não estão, nunca estiveram e não passarão a estar quando nos livrarmos deste monstro. Tudo o que eles desejam é voltar ao habitual, ao mundo que era o de antes e que eles controlavam.

Não acredito em deuses nem em bruxas nem em teorias metafísicas para o que é simplesmente evidente. É evidente que o limite da capacidade do planeta em que vivemos é a natureza. Podemos agir sobre ela em muitos domínios e até certo ponto: podemos descobrir antibióticos até que o nosso organismo já não reaja a eles; podemos produzir alimentos transgénicos até que eles já não consigam alimentar mais gente do que aquela que matam; podemos ter 12 milhões de pessoas a voar todos os dias nos céus do mundo até que já não consigamos respirar; podemos produzir carne e soja para alimentar 1400 milhões de chineses e 140 chefes Michelin com os seus bifes Angus, em troca de milhões de hectares da Amazónia a arder todos os anos e a aquecer mais o planeta; e podemos plantar milhares ou milhões de hectares de eucaliptos, que crescem rápido e dão dinheiro rápido a ganhar em terras que nos dizem que, de outra forma, não valem nada, mas depois temos um mês de incêndios descontrolados na Grécia ou em Portugal ou seis meses na Austrália. Mas quando chegamos ao limite — ao limite da cobiça, ao limite da irresponsabilidade, ao limite da loucura — a natureza revolta-se. Depois, podemos dizer que foi um pangolim cruzado com um morcego, algures num mercado chinês — um azar que ninguém, nenhum epidemiologista, nenhum sociólogo, nenhum economista, podia prever, nos seus mais negros modelos de estudo. Mas não foi um azar: foi um aviso da natureza.

Os tempos requeriam grandes líderes. Não líderes locais, nacionais, pequeninos. Mas líderes mundiais, visionários, pelo menos mais fortes do que um morcego e um pangolim. Mas o que temos hoje são apenas duas espécies de líderes à frente das nações que têm armas, poder e dinheiro: os inteligentes e os idiotas. Desgraçadamente, porém, os inteligentes são cínicos e os idiotas são, por natureza, perigosos.

Desçamos aqui à terrinha, a Portugal. Ao contrário de tantos, procuro sempre todos os sinais de optimismo, de esperança, de continuidade. Tenho a imensa vantagem, que é uma escolha própria da primeira hora, de não habitar nas redes sociais. Isso permite-me passar ao lado do WhatsApp dos vizinhos, dos amigos e dos detentores de “informação privilegiada”. Mas não escapo à onda das mensagens de boataria originária das redes sociais e de apelo à cumplicidade no medo e no pânico dos que estão trancados em casa à espera do fim do mundo. São tantos os que transmitem mensagens aterradoras de um “médico meu amigo que está na primeira linha de combate”, que eu só posso chegar a duas conclusões: que toda a gente tem um médico amigo na frente de combate e que todos os médicos lá na frente perdem um tempo precioso a espalhar mensagens de pânico cá para fora. Felizmente, não acredito nisso. Mas ainda bem que eles estão trancados em casa. Não duvido que isso ajuda a conter a disseminação do vírus e é portanto louvável que o façam. Mas há outros que não podem ou não o querem fazer e, enquanto tal for permitido, também é legítimo que o façam. Aliás, só é possível a uns estarem trancados em casa porque outros o não estão.

Exemplo daquilo que não interessa num momento destes são as intervenções do deputado Telmo Correia. Reduzido a cinco deputados, o CDS tinha na anterior líder parlamentar, Cecília Meireles, uma pessoa séria, preparada e competente. Mas optou por substituí-la por Telmo Correia, um tribuno para todas as ocasiões, que tanto podia discutir Orçamentos do Estado no Parlamento como penáltis a favor do Benfica nos execráveis fóruns de debates futebolísticos televisivos. Ou a crise do coronavírus, julgavam eles. E, do primeiro ao 17º dia, Telmo Correia não conseguiu enxergar mais longe do que ver neste momento de excepção governativa e de sobrevivência pública uma oportunidade preciosa de atacar o Governo. Qualquer estagiário para spin doctor lhe teria explicado que este não era o momento para tal — como nem sequer tem sido em Espanha ou Itália, onde a gestão desastrosa da crise é por demais evidente: quando uma nação inteira está ameaçada, o povo quer cerrar fileiras atrás de um líder. Mas Telmo Correia, que no debate sobre a declaração do estado de emergência surgiu munido de ridículas citações churchillianas, optou antes por centrar a sua intervenção nas deficiências do Governo português para enfrentar o ataque à covid-19. É claro que as houve e é claro que foram cometidos erros, que são mais fáceis de ver a posteriori, como sempre sucede numa situação nunca antes vivida. Mas a Espanha, com quatro vezes mais habitantes do que Portugal, tem até sexta-feira, 200 vezes mais infectados do que nós e 300 vezes mais mortos; Itália, que se gaba de ter um dos melhores sistemas de saúde do mundo, é uma catástrofe inimaginável; a Holanda, com menos habitantes, tem o dobro de infectados e dez vezes mais mortos; a Suíça, um dos países mais ricos do mundo, com menos habitantes do que Portugal, tem três vezes mais infectados e oito vezes mais mortos e o seu sistema de saúde está à beira da ruptura; no outrora emblemático sistema de saúde inglês falta tudo: máscaras, ventiladores, médicos, camas, enfermeiros, ao ponto de a estratégia inicial ter sido a de deixar infectar todos; em França, que é o segundo país da UE que mais gasta em saúde pública, o sistema está em ruptura de tudo, após 300 mortos; e nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, o “New York Times” de quinta-feira reportava uma situação em que faltava tudo para acudir apenas à população que tinha cobertura de saúde. Todos foram apanhados de calças na mão. A covid-19 aproveitou aquilo que fazia a prosperidade do sistema — a globalização, a rapidez de comunicação e a interdependência das trocas comerciais, para atacar o centro vital do planeta. E por mais ricos que sejam os países, ter um sistema público de saúde preparado em permanência para responder a uma situação destas, continuando a responder também a todas as outras situações, teria um custo tamanho que ou os Estados esmagavam toda a economia com impostos ou deixavam de acorrer a tudo o resto.

Pelo contrário, eu penso que António Costa tem sabido gerir com um misto de coragem e de sangue-frio praticamente inatacáveis uma situação de uma gravidade que nenhum primeiro-ministro enfrentou antes em democracia. Tenho, como todos, criticas pontuais, das quais a maior é a de que já aqui tinha dado conta a semana passada: o tempo que demorámos a fechar a fronteira com Espanha. Mas não podemos esquecer que as decisões que o Governo tem de tomar todos os dias vão muito além da competência política exigível a governantes, por mais ampla que seja, estando ainda, ou sobretudo, dependente de informações e opiniões técnicas que, por natureza, não lhe cabem. E foi com grande alívio que vi o primeiro-ministro não ceder aos apelos ao pânico dos que queriam ver o país completamente fechado e paralisado, sem se deterem a pensar nas consequências e convencidos de que uma economia completamente morta não mata gente. Até porque, não tenhamos dúvidas: depois de ultrapassada a ameaça de morte sobre a saúde pública, encontraremos uma economia devastada e todos vão querer tudo da varinha mágica do Governo.

Ontem, sexta-feira, ultrapassámos o número de mil casos de infectados. Respiremos fundo, porque fatalmente vamos por aí acima. Mas, com calma: mil casos é ainda menos de 0,01% da população.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Natureza, homem, obra, vida ou morte

(José Pacheco Pereira, in Público, 18/06/2017)

Autor

                  Pacheco Pereira

O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.

A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.

Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. No caso português quase cem por cento do território como ele existe hoje é obra humana. Talvez escapem umas ilhas e pequenas partes de vales profundos, mas o que define com muita certeza, aquilo que pega fogo com facilidade, aquilo que propaga o fogo, aquilo que se inunda numa cheia, aquilo que cai ou aguenta num terramoto, os espaços mais seguros ou os muito inseguros, e, num sentido mais lato, a preparação de cada um, na medida das suas possibilidades para saber fugir, saber para onde não deve ir, conhecer a ecologia onde está ou onde desenvolve a sua vida, é obra humana. Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. Por isso mesmo, há sempre responsabilidades a pedir, conforme o que aconteceu num determinado evento, numa calamidade. Sempre. Nós mexemos com a coisa, nós desequilibramos a coisa, umas vezes a nosso favor, outras vezes estragando-a e agravando os nossos riscos. E a Lei de Murphy diz-nos com clareza que é até um dia, e um dia acontece.

O que é mais grave nesta questão dos fogos é que há muito tempo que depois de cada fogo, em particular os que levam vidas humanas, há uma discussão recorrente, e um eflúvio legislativo, sobre o que é preciso fazer para alterar as características da floresta portuguesa, e as medidas de prevenção necessárias, o aumento de penas para os incendiários, com bastante unanimidade de técnicos e especialistas e autarcas e políticos nacionais e membros do governo. E, no entanto, fogo a fogo, muito pouco se faz, ou pelo menos o que se faz parece estar longe de resolver, quanto mais minimizar o problema.

Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbies poderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém.

Motivada por interesses ou pela inércia, há uma enorme falta de autoridade do Estado, do governo central às autarquias, às forças policiais (esquecemo-nos muitas vezes que uma parte muito significativa do país não tem qualquer espécie policiamento, seja pela PSP, seja pela GNR). Não preciso de ir muito longe do sítio onde estou a escrever para encontrar terrenos abandonados ao mato, à espera de arder, ou de ouvir foguetes em tudo quanto é festa. Para tudo isto há legislação, mas ninguém verdadeiramente quer saber e todos fecham os olhos com a mesma força com que são capazes de ir à procura de culpados quando as coisas correm mal.

Também todos sabemos das mudanças estruturais na agricultura, na pecuária, na exploração de matos e florestas. Está tudo mais que escrito, mas como não há nenhum Serviço Nacional de Camas de Gado, o tojo continua por apanhar e, como dizia uma senhora retirada dos recentes incêndios, como é que se pode esperar que quem tem uma reforma que não chega aos 300 euros possa pagar a limpeza dos seus terrenos. O nosso problema é também o da pobreza nos campos, associado ao fim da agricultura como a conhecemos, que já não sustenta uma população rural considerável.

São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.