Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


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O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.


O TikTok é uma arma contra a hegemonia americana?

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 19/03/2024)

A derrota imposta pelo TikTok à narrativa sionista não deixa de estar relacionada com o papel de Israel na segurança do petrodólar, da hegemonia e da sua derrota pelo mundo multipolar.


No rescaldo da retumbante vitória de Vladimir Putin; após um acto eleitoral com participação muito assinalável (com uma abstenção inferior ao que se passa em regra no ocidente); uma aprovação do actual presidente da Federação Russa, ainda mais elevada; a contradição entre a informação real, testemunhada e constatada por incontáveis observadores internacionais e a informação veiculada no espectro comunicacional dominado pela Casa Branca, obrigam-nos a colocar em perspectiva toda uma batalha informativa que ocorre no universo virtual.

Quando assistimos a notícias de que esta ou aquela plataforma de Silicon Valley vai abandonar a Rússia, à luz da guerra movida ao TikTok, pela plutocracia estado-unidense, não podemos senão considerar que essa saída é uma sorte para o país e o seu povo. Não tivessem as autoridades russas desenvolvido os necessários esforços para construir um ecossistema digital soberano, deixando o país ao sabor dos veículos propagandísticos da Califórnia, e estaríamos a falar de idênticos resultados? Tenho dúvidas!

Um estudo da Rutgers com a NCRI (Network Contagion Research Institute), sobre o alinhamento do TikTok com as perspectivas geopolíticas do Partido Comunista da China, analisa a informação veiculada pela plataforma chinesa, em comparação com o Instagram, utilizando, claro, esta última como referência de controlo.

Subsequentemente, retiram a conclusão de que existe um alinhamento dizendo que, comparando o número de posts entre as duas plataformas, a “perniciosa” TikTok e a “transparente” Instagram, os posts sobre Uigures são de 1 (no TikTok) para 11 (no instagram); sobre o Tibete 1 para 38, Tiananmen 1 para 82 e “democracia em Hong Kong” 1 para 180. Diz o estudo que estes são tópicos “sensíveis” para o governo chinês. Nem por um momento se questiona a veracidade das tais informações sensíveis para a “China comunista”.

Um exemplo concreto é o caso da guerra na Ucrânia, que opõe a OTAN à Federação Russa, em que os posts têm uma relação de 5 (TikTok) para 8 (instagram), quando se trata do movimento “pela Ucrânia”, ou o caso do genocídio em Gaza, em que a relação é de 2 para 6, quando se trata de “apoiar Israel”. O estudo pouco analisa as métricas ao contrário, ou seja, em relação a hashtags que estão em oposição aos interesses de Washington. Mas o que é deveras conclusivo é a total disparidade entre o que o que é mais ou menos referido em cada uma das plataformas. A mesma acusação que é feita ao TikTok, a respeito dos temas sensíveis para o governo chinês, também poderia ser assacada à administração americana, quando se trata de temas que contrariam a sua propaganda, nas plataformas de Silicon Valley. Desse aspecto não trata a Rutgers, e muito menos dos enviesamentos algorítmicos que justificam a disparidade no tratamento de determinados temas. Sabemos bem porque razão existem. E essa razão não abona em favor da Casa Branca, muito pelo contrário.

Se a análise dos hashtags, que supostamente estão no universo de interesses da China, já nos deixa antever que o que é do interesse deste país é diametralmente do desinteresse de Washington, existe uma questão, em particular, que é muito mais sensível do que as restantes, trata-se da causa palestiniana. Por cada 3 posts de “apoio à palestina” no TikTok, temos apenas 1 no Instagram. Isto diz-nos, na minha opinião, mais sobre os EUA do que sobre a China. Considerando que o governo chinês é conhecido por não se imiscuir nos assuntos internos dos outros países e considerando que mantém importantes relações comerciais com Israel, este desfasamento entre TikTok e Instagram é revelador, acima de tudo, das preocupações dos estados unidos.

E por aqui já temos um breve indício do real motor por detrás desta onda anti-TikTok que se tem observado correr o capitólio. A verdade é que a comunidade judaico-americana tem sido a mais activa no lobbying anti TikTok. Um artigo em  www.jewishreviewofbooks.com , com o título “Israel’s TikTok problem” diz com todas as palavras que “proteger os americanos da influência política do TikTok será um ganho para a relação entre Israel e o seu mais importante aliado”. Palavras para quê?

A grande preocupação é o espaço dado pelo TikTok aos grupos pró-Palestina e com ideias que designam de “antisemitas”, sabendo-se o quão exacerbadas são as sensibilidades antisemitas dos sionistas. O alerta que este artigo dá é extremamente sério, apontando para os graves problemas desta elite com a democracia em si. Para além de referir, como factor negativo, o peso demográfico que países como a Indonésia, Malásia ou Paquistão têm no TikTok, influenciando o algoritmo – esta coisa da democracia tem muito que se lhe diga -, todo o artigo apela à atenção da classe dirigente americana para o facto de estar em causa um confronto geracional entre os jovens e os mais idosos. O que os preocupa mesmo muito é que os mais jovens são amplamente mais “pró-Palestina” do que “pró-Israel”. O culpado? É o TikTok! Porquê? Porque os impede de propagar, com eficácia, a sua propaganda.

Esta realidade é mesmo assumida no artigo, quando critica a administração do TikTok, por não aceitar um anúncio pago que dramatizava a questão do retorno dos cidadãos israelitas sequestrados. Ao mesmo tempo, é o sitio internet www.vox.com quem vem relatar o facto de o ministério dos negócios estrangeiros israelita de gastar 1,5 milhões de dólares em propaganda no Youtube, X e comunicação social dominante sobre a mentira – já confirmada – dos 40 bebés decapitados.

Eis, realmente, o pecado principal do TikTok. Mais do que propagar informação de baixa qualidade ou alinhada com as pretensões chinesas, a plataforma não é controlada aos sabores de Washington ou Telavive.

Como que a dar-me razão relativamente a estas coisas da democracia e dos problemas que a Casa Branca tem com ela – bem reportados no tratamento das eleições russas e nas escolhas do povo russo -, é o americano Pew Research Center que numa análise sobre a importância das redes sociais para a democracia, vem dizer-nos que só em três países, mais de metade da população, diz que as redes sociais são más para a democracia: tal é o caso dos Países Baixos, da França e os Estados Unidos. Sendo caricato que, o país que mais redes sociais tem e que mais as controla – ao contrário do que assume -, é precisamente aquele em que mais pessoas dizem ser as redes sociais uma coisa má para a democracia: no caso, os EUA, com 64% de respostas em sentido negativo. Sintomático, conhecendo-se a exposição à manipulação da Casa Branca. Talvez, os povos americano e europeu, não durmam assim tanto.

O que terá isto a ver com toda a propaganda do “Russiagate”, das “fakenews” anti Trump, ou do recente caso TikTok? A meu ver, tudo!  Trata-se, sobretudo, de um problema em lidar com um facto insofismável: a abertura das redes sociais ao mundo, coloca numa posição desfavorável, do ponto de vista demográfico, as pretensões da casa branca, dissolvendo, numa imensa maioria global, a propaganda que Washington fabrica para denegrir os governos que não lhe obedecem. Como tal, as plataformas que não obedecem aos seus ditames, eliminando os posts ou os usuários que estão em contradição com a propaganda ocidental, têm de ser banidas. O que não faltam são artigos como o da www.nbcnews.com, a referir que “os críticos renovam chamadas para um banimento do TikTok, alegando que tem um desvio anti-israelita”. É todo um modelo unipolar que está em causa.

Assim, o problema dos EUA com o TikTok é simples. O TikTok representa um contraponto digital, ao nível dos contrapontos que já existem no real. O mundo virtual era visto, até há muito pouco tempo, como uma espécie de paraíso celestial – qual jardim do Éden neoliberal – totalmente controlado pela cúpula do poder estado-unidense. Até que, um dia, alguns países começaram a encontrar soluções que favorecessem a criação dos eu próprio ecossistema digital.

A fatídica e estratégica decisão sucedeu com a República Popular da China ao rejeitar um Google e um Facebook “sem travões manuais”, que não funcionassem segundo os trâmites que a Casa Branca havia definido para o seu território, mas segundo os seus próprios. A Huawei, TikTok, Wechat, Aliexpress e outras plataformas digitais de topo, são “filhas” dessa decisão chamada, no ocidente, como a “a grande Firewall da China”. E o mais caricato disto é que a existência da “grande firewall da China” é, sobretudo, responsabilidade da agressiva e intrusiva política externa americana. Se alguma verdade o estudo da Rutgers nos ensina é que a agenda americana anti-chinesa foi responsável, em parte, pelos problemas geracionais que os EUA encontram, hoje, entre a sua população e que respeitam às relações entre o seu território americano e o seu braço no médio-oriente.

E esta leitura pode ser parcialmente confirmada numa poll da Universidade de Quinnipiac de 17 Outubro de 2023, a qual diz que os votantes, com idades entre os 18-34 anos, 39% desaprovam o envio de armas para Israel combater o Hamas, dos 35-49 anos (35%), enquanto os que têm mais do que 50 anos, só 17% desaprovam o envio. Ou seja, verifica-se uma fractura geracional clara (50% de diferença), confirmada no facto de as métricas do TikTok apontarem para uma equidade no número de visualizações, dos últimos 30 dias, relativamente a vídeos com a hashtag “apoio a palestina” e “apoio Israel”. Algo que não sucede nas plataformas de Silicon Valley.

Em resposta à intenção chinesa de não estar dependente de um ecossistema dominado por Washington, choveram ataques. “Na China não há liberdade”; “na China a ditadura é tanta que nem o Google é igual”. Sintomaticamente, quer a China, quer a Rússia, demonstraram, desde cedo, querer desenvolver o seu próprio ambiente digital, antecipando, de forma tão independente como sapiente, os riscos relacionados com o acesso, em larga escala, às mentes dos seus povos. Por portas travessas, a atitude da Casa Branca, dá razão aos dois países. Hoje, é a Casa Branca que quer proteger o seu espaço virtual vital.

Poderia concordar-se, ou não, com as limitações que a RPC, à data, exigiu no motor de busca e cuja renitência em aceitá-las, levou ao bloqueio dessas aplicações. Hoje, percebemos que para a Alphabet e Meta não se tratava de aceitar aplicar “limites”, mas, sim, de quem os definia e mandava aplicá-los. Simplesmente – e paradoxalmente – era ao Tio Sam a quem cabia aplicar limitações, não se reconhecendo ao próprio Estado Chinês o poder de as aplicar em seu território. Inversamente, aplicando-as por cá, mais do que nunca, o Tio Sam acusa a RPC de querer impor uma “autocracia digital”.

Assim, no plano material, com a inauguração do mundo multipolar, a crescente autonomia de nações como o Irão, China, Rússia, India, Brasil, Arábia Saudita, África do Sul, não demorou a que, também no plano do digital, se começasse a fazer sentir a “ameaça” da multipolaridade. Esta imposição da “grande firewall da China” constituiu, na minha opinião, um passo importante neste processo.

O primeiro sintoma deste sucesso foi a Huawei, ao desafiar a ditadura das tecnologias de comunicação, até aí monopolizadas pelos EUA. A Huawei, acima de tudo, significava o acesso às mais avançadas tecnologias do futuro, por parte de um país considerado “menor”, pela elite supremacista anglo-saxónica e seus wannabees. Estancar este desenvolvimento tornou-se uma das principais tarefas dos EUA, do seu empreendimento de “contenção da China”. Um sinal óbvio deste sucesso é que o discurso estado-unidense tem vindo a passar do nível de “contenção da China” para o nível, mais agudo, de “contrariar a China”, o que parece indiciar um reconhecimento do insucesso. Já não se trata de “conter”, mas de contradizer, anular, contra-atacar, “contrariar” o que não foi contido.

Resultado destas escolhas é que, quem ler a proposta H. R. 7521 (Protecting Americans from Foreign Adversary Controlled Applications Act) ou o relatório, que serviu de fundamento à proposta de lei, emitido pelo Comité de Energia e Comércio, pode constatar, pelas próprias palavras dos EUA, aquelas que terão sido as principais preocupações da China, à data da tentativa de entrada, sem limites, do Google e Facebook, no seu território. Todos os riscos que ali se apontam ao TikTok, muitos deles já apontados à Huawei, constituem práticas conhecidas, encetadas pelos EUA, contra os países que não guardam o seu espaço virtual, como deveriam e como exigiria a protecção da sua soberania e os interesses dos seus povos.

Eis o que se diz, logo no início, no relatório do Comité de Energia e Comércio: “adversários estrangeiros usaram o acesso aos dados (…) como disruptor da vida diária dos americanos, conduzem actividades de espionagem e empurram campanhas de desinformação e propaganda na tentativa de minar a nossa democracia e ganhar influência mundial e ao controlo”.

Sintomaticamente, temos de levar muito a sério esta coisa do “controlo” e do “interesse nacional”. De acordo com os dados fornecidos pelo próprio relatório, o TikTok está em 150 países e serve 1 bilião de pessoas, entre as quais, 170 milhões de americanos. E este é um drama real para Washington. Como controlar as mentes de um povo, quando metade segue uma plataforma que não controlam? Como manipular as mentes de 170 milhões de americanos, quando a tecnologia que poderia ser usada para as manipular está na China? Como recolher os dados de 170 milhões de pessoas, agregando-os em perfis e predizendo os seus comportamentos, para que os possam impulsionar nas direcções pretendidas, quando esses dados estão armazenados na China? Se Israel está em perigo, logo, o dólar e a hegemonia também o estão.

Entretanto, o accionar do botão de pânico também está relacionado com o efeito que o TikTok possui enquanto disruptor do ambiente virtual, monopolista, criado em Silycon Valey. A CIA, através da DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), criou todo um ecossistema virtual, transportando para aí cada uma das mentes do seu povo. Esse ecossistema, controlado em todo o ocidente, apenas e tão só, pelas agências de segurança ao serviço de Washington, pretendia um certo grau de invulnerabilidade. Para ser perfeito, o fluxo de dados teria de ser fechado e estanque, para que não houvesse infecção dos algoritmos, e com ela, uma disrupção do funcionamento “harmonioso” do sistema de “capitalismo de vigilância”, como muito bem lhe chamou Shoshana Zuboff.

É este ecossistema, através do qual as agências de segurança dos EUA monitorizam, em tempo real, toda a informação digital dos povos do mundo, prevendo e produzindo comportamentos, promovendo e despromovendo partidos, governos e figuras públicas, acelerando ou atrasando agendas, que está em causa.  Acima de tudo, com o TikTok, a preocupação do regime instalado em Washington ultrapassa os níveis de ansiedade da administração Trump, com a Huawei. Mal ou bem, com a Huawei estavam em causa os aspectos tecnológicos mais estruturais, mais arquitectónicos. Com o TikTok, o que está em causa é o próprio sistema nervoso central da internet. A China passou a ter acesso privilegiado à rede neuronal e ao sistema nervoso central de um corpo, que os EUA haviam criado para dominar o mundo.

Com o monopólio virtual profundamente afectado, no seu próprio território, os EUA optam por dar um tiro no pé, como o fizeram quando decidiram carregar a Rússia de sanções sem fim.  Devido a esta acção sobre o TikTok, os EUA enviam mais um sério aviso aos países que detêm capital e investimentos no ocidente. A qualquer momento, uma alteração legislativa, um pretexto geopolítico, uma falsa denúncia, pode justificar um confisco.

Para posicionar o TikTok na linha de tiro, os EUA voltam a olhar-se ao espelho. No preâmbulo, a proposta de lei H.R. 7521, faz referência à Lei chinesa para a Segurança Nacional, publicada em 2017, fazendo uma clara distorção, quer do seu conteúdo, quer do seu âmbito territorial. Fazendo referência ao que sabemos ser o artigo 7.º dessa lei – através do relatório do comité de energia e comercio –, referem que existe o risco do TikTok ser chamado a partilhar os dados pessoais internacionais com o governo chinês, uma vez que, como alegam, todas as organizações, publicas ou privadas, têm de colaborar com os esforços dos serviços de inteligência chineses. O que é verdade, em parte, pelo menos. O texto do artigo 7.º da Lei de Segurança Nacional da RPC, diz o seguinte: “Todas as organizações e cidadãos apoiarão, auxiliarão e cooperarão com os esforços de inteligência nacional, de acordo com a lei, e protegerão os segredos do trabalho de inteligência nacional de que tenham conhecimento”.

O que o texto da proposta não refere é o que vem no artigo seguinte da Lei de Segurança Nacional da China. Afinal, exige o artigo 8.º da mesma lei “respeitar e proteger os direitos humanos, protegendo os direitos e interesses consagrados aos indivíduos e organizações”. Ou seja, ao contrário do que diz o congresso dos EUA, esse auxílio está condicionado ao cumprimento de lei e dos direitos dos cidadãos e organizações, não se tratando de um poder discricionário, autoritário e autocrático.

Mas, a principal distorção introduzida no relatório do comité de energia e comércio, consiste mesmo na interpretação territorial da Lei Chinesa de segurança nacional. O artigo 7.º da Lei da Segurança Nacional da RPC é para ser lido no quadro da constituição chinesa, ou seja, a cooperação cinge-se a pessoas e organizações de nacionalidade chinesa, relativamente a acções praticadas em território chinês.

E é precisamente na China que a Bytedance mantém a sua base tecnologica fundamental. Essa é mesmo o maior dos obstáculos dos EUA. Ao contrário do que dizem os promotores da proposta que visa “proteger os americanos do adversário estrangeiro – lei de aplicações controladas”, não se trata do receio de que os seus 170 milhões de americanos sejam monitorizados. Afinal, realisticamente, todos sabemos, pela prática e pela teoria, que a China tem uma doutrina de não ingerência nos assuntos internos dos outros países. Por muito que falem da Lei Chinesa de “Protecção de Dados”, de 2020, esgrimindo o argumento de que esta prevê a utilização de dados pessoais e organizacionais para prevenir e antecipar riscos para a segurança nacional, nada disto é inovador nem constitui excepção, nos dias de hoje, em qualquer país que se preze por querer proteger o seu povo. Já monitorizar todo o povo, como fazem os EUA, é totalmente injustificado.

O que realmente preocupa o regime plutocrático e gerontocrático americano, é o monopólio. Um império faz-se de monopólios, e para se ser império não basta ser-se grande, é preciso monopolizar-se. E para construir e manter um império hegemónico, é fundamental monopolizarem-se os sectores estruturais da economia. E este é o problema real. O TikTok, não apenas destrói o monopólio de Silicon Valley, competindo furiosamente com tais plataformas, como lhes rouba o espaço, antes blindado, como acreditava a Casa Branca.

Para proteger o que resta do monopólio, que tal escolher alguém que sentimentalmente se sinta ligado a esse desígnio? A escolha recaiu sobre o ilustre congressista nascido em Nova Deli de descendência indiana, Raja Krishnamoorthi. O certo é que Raja tem tudo a ver com o que seja anti chinês, como por exemplo, as suas responsabilidades no “Comité Selecto da Câmara dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês”. É óbvia a intenção democrata, uma forma de transformar algo político, num desígnio pessoal, que busque o confronto e a provocação directa.

Assim, assistimos a mais um acto de desespero, cujo efeito resultará no incremento da já instalada desconfiança em relação à seriedade com que o ocidente encara a sua própria ideologia de “mercado livre e aberto”. Na liderança de um sector inaugurado pelos próprios EUA, ultrapassando-os no seu próprio jogo, Titok e China demonstram, assim, que os tempos de exclusividade e acesso restrito ao que de melhor o mundo pode dar, são tempos idos. Tal como a Rússia já havia demonstrado que se tinha acabado o tempo de desmandos à volta do seu território.

Daí que, pensando em impérios e monopólios – a propósito de uma resolução recentemente aprovada no Parlamento Europeu que visa “descolonizar, desimperializar e refederalizar a Rússia” -, esta questão do TikTok, uma vez mais, demonstra a existência de um movimento de desagregação.  O TikTok está para o mundo virtual como os BRICS estão para a desdolarização, no mundo material. Ambos são processos inexoráveis que ameaçam acelerar a “desimperialização” do ocidente.

Esta relação do TikTok com Israel é premonitória. A derrota imposta pelo TikTok à narrativa sionista não deixa de estar relacionada com o papel de Israel na segurança do petrodólar, da hegemonia e da sua derrota pelo mundo multipolar. O TikTok coloca tudo em perigo!

Fonte aqui.


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O 5G e o domínio do “multiverso”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 12/06/2023)

No meio de uma discussão, na imprensa ressonante e no “multiverso”, que pulula entre a prometida contraofensiva, exigida por Biden e Sullivan, e as inundações provocadas pela destruição da barragem de Novaya-Kharkovka, em que nos fazem crer que, os inimigos de sempre, provocaram mais um acto do seu já proverbial haraquíri (começa a ser fastidioso tanto tiro nos próprios pés!!!!), há um tema que tem sido abordado com alguma atenção, mas, como sempre, com pouca profundidade e muitíssima propaganda. Trata-se da 5G e da Huawei.

Ao contrário dos tanques Lepard2, que eram apresentados como mais uma “wonderwaffe” ocidental, e que, quando usados pela “wolksstrum”, durante o adiado “blitzkrieg”, falharam em assustar o inimigo, que os tem destruído como outra lata velha qualquer; o desenvolvimento, crescimento e expansão da Huaway e da sua 5G ao redor do mundo, bem como da oferta telemóvel, que antes do ataque ameaçava tornar-se líder mundial de vendas, assusta, e de que maneira, os poderes, de facto, do ocidente colectivo.

Mas não é só da Huawei que a Casa Branca tem medo; tem medo do Tik-Tok, como tem medo do Weechat. No fundo, tem medo de toda a alta tecnologia de qualquer país que não controle, sendo que, no caso concreto das tecnologias digitais, Washington, nem aos seus mais submissos vassalos, permite qualquer intervenção nesse domínio.

Enquanto ouvimos, lemos e vemos, vezes sem conta, o chavão ideológico, segundo o qual, os americanos “gostam da competição” porque “a competição fá-los avançar e extrair o que de melhor têm”, quando assistimos ao que tem sido feito para travar o desenvolvimento de tecnologias de fronteira por países que não controlam, rapidamente nos damos conta de que a propaganda é só isso mesmo… propaganda. A susceptibilidade de outros países deterem tecnologias que concorram e superem as suas, ao contrário de ser visto como um estímulo, é visto como algo a abater.

Daí as sanções à Huawei, à venda de chips e máquinas litográficas, ou à aquisição de lítio, pela China. Adoram competir, portanto. Mas com coxos, estropiados, esfaimados e servos. Como qualquer mafioso e batoteiro, os EUA sentem-se os maiores apenas junto dos desgraçados e graxistas. Daí as ameaças, as sanções e os embargos unilaterais e a disputa férrea pelo controlo das tecnologias e recursos vitais, sempre usados como arma de arremesso.

Não obstante a guerra do 5G, o facto de a Huawei se estar a tornar, à data do primeiro ataque e ainda sob Trump, no líder mundial de vendas de telefones constituía, na minha opinião, uma ameaça ainda maior do que o domínio do mercado 5G – daí o ataque à empresa e não apenas ao negócio 5G. Ainda por cima a Huawei que até é uma espécie de cooperativa, provando que o mundo não precisa de “patrões” ou “empresários”, apenas de quem trabalhe.

Edward Snowden já nos tinha dado a conhecer o porquê deste receio, por parte da Huawei, considerado um ataque frontal à segurança dos EUA. No meio das acusações costumeiras das “ligações ao Partido Comunista Chinês” e do acesso à informação “pelo Partido Comunista Chinês”, Snowden, a seu tempo funcionário da NSA (Agência de Segurança Nacional), denunciou que os Iphone eram instrumentos de espionagem e vigilância, abertos às agências de segurança e de investigação do tio Sam.

Mais recentemente, a também banida Kaspersy – um dos mais conhecidos antivírus do mercado – confirmou as denúncias de que o Iphone pode ser infetado com um malaware que permite às agências de segurança do tio Sam aceder aos dados, mas também ao controlo do próprio aparelho, para que este filme e registe áudios do seu portador. A Apple negou, claro!

Ao fazermos uma análise superficial de que tipo de pessoas utilizam Iphone, principalmente os mais vulneráveis à utilização destas portas traseiras “back door” – os mais caros e modernos -, rapidamente nos damos conta de que se tratam de empresários, políticos, dirigentes partidários e associativos, gente da elite ocidental, em geral. E tal é o conhecimento desta situação – abafada pelo poder mediático da Apple e pelo poder coercivo da Casa Branca -, que em alguns países já existem restrições ao uso de Iphones por altos funcionários e dirigentes do Estado. Não, nenhum desses países é do Ocidente colectivo! Ai deles! O Iphone é a sua trela!

Ora, era também neste mercado “flagship” que a Huawei estava a entrar e não apenas no mercado comum. O facto de apresentar telemóveis cada vez mais sofisticados, com as melhores máquinas e que competem com os melhores Iphone e Samsung, estava a colocar em causa a utilização destas estratégias de vigilância pelos mesmos de sempre. No caso dos Huawei, a existirem vulnerabilidades desse tipo – também amplamente negadas, como seria de esperar -, elas funcionam para o outro lado. O facto é que, com a expansão da Huawei, estava a reduzir-se, lenta mas paulatinamente, o campo de recolha de “inteligência” em relação a pessoas de interesse.

Não é preciso ir muito longe para se perceber a importância destas coisas. Quando o Google se generalizou e todos ficámos a saber que a China se tinha recusado a ter um “Google livre”, desse facto saíram dois tipos de conclusões: 1. A da propaganda, segundo a qual “a China é uma ditadura e tem de condicionar o Google”; 2. O Google é um instrumento de controlo de mentes, monitorização de comportamentos e recolha de dados pessoais, logo, um país como a China não poderia dar essa vantagem aos EUA.

Hoje todos sabemos como funciona o Google, a forma como faz a gestão da informação, como a suprime, promove e bloqueia ao sabor dos poderes dos seus criadores e financiadores de facto. A mim, só me admirou, como foi possível que países como a Rússia, a India, o Brasil, a Indonésia ou Irão tivessem ido no conto do vigário, optando por não criar ferramentas nacionais homólogas. Tratou-se de um erro crasso que muito tem custado a suprimir. No início, estas nações, ao contrário da China, prescindiram da luta pelo “multiverso”.

A questão do 5G já não é tão importante, do meu ponto de vista, para o domínio do multiverso. Embora a Casa Branca tenha a intenção e controlar toda a gama de tecnologias digitais de ponta, o facto é que, mesmo assim, nesta área, permite à Suécia – Erickson – e a Finlândia- Nokia – desenvolverem redes 5G. O que a Casa Branca já não permite a ninguém é o desenvolvimento das próprias tecnologias digitais.

Digam-me uma plataforma digital do Top 20 que tenha origem Europeia, Japonesa, Coreana ou Australiana? Pois é aí que se situa o cerne do controlo e monitorização das mentes. E como recentemente divulgado e confirmado pelo próprio Guterres, o tio Sam monitoriza até a sua mãezinha. Não confia em ninguém e ainda menos nos seus mais submissos servos. O líder real sabe sempre que o seu servo de hoje, pode ser o de outro, amanhã.

Desde muito cedo pudemos constatar que, também em Portugal, a 5G da Huawei iria ser banida. Tive mesmo essa discussão com um utópico da IL, que me dizia não ser assim. A própria lei habilitadora e reguladora do 5G denunciava, a alta voz, essa possibilidade, ao criar condições especiais para a entrada de “novos operadores”. Operadores esses que são a Nokia e a Erickson. Huawei e ZTE nem pensar. Santos “fantoche” Silva ainda falou grosso ao embaixador dos EUA: “em Portugal há um governo soberano para decidir essas coisas”, terá dito! Mas era apenas mais um acto da farsa. Portugal não tem, hoje, líderes capazes de lutar pela sua independência real.

Depois de ameaças, bullying e promessas de apoio à candidatura de Costa à presidência do Conselho Europeu (isto sou eu que digo), eis que o resultado final não poderia ser outro. Só os iludidos não o viram logo desde o ataque de Trump. Os países ocidentais não têm soberania para decidir destas coisas. Isto é decidido por gente como Victoria Nuland e Tony Blinken e transmitido à NATO. A 5G da Huawei é banida e veremos o que dirão os tribunais sobre o assunto, mas vendo como vai a justiça… Para já, as regras da concorrência foram todas atropeladas. E os utópicos neoliberais que gostam tanto do “mercado livre”. Uma utopia construída para permitir a acumulação de riqueza pelos que já eram os mais ricos.

Na Imprensa ressonante não se fizeram esperar as explicações do charlatão. Não, não são dadas para salvar o Governo! São dadas para lavar a face da UE e dos EUA. Então, por entre mesas redondas de comentadores plurais, o diapasão afinava todo pela mesma treta “a avaliação que a UE faz hoje da China, não é a mesma que fazia há uns anos”.

Por amor… Mas a UE faz alguma avaliação de alguma coisa que não seja a de avaliar como aplica as ordens que lhe são transmitidas directamente de Washington? A UE tem tantos problemas com a China, faz uma avaliação tão terrível deste país, que continuou a aumentar o volume de negócios, parecerias e investimentos com o mesmo, havendo inclusive vários países que até fazem parte da BRI. Eis a avaliação que a UE fez!

Quem não gostou foi o tio Sam, logo vindo colocar os seus grãos de areia na engrenagem, porque esta não funciona a seu favor. E através de um sistema de “reinar para dividir” e do conhecido e experimentado método da “cenoura e do burro”, não demorou muito a que os servos europeus, que se fazem passar por dirigentes políticos, mas não passam de fantoches bem pagos e com trela (Iphone), sucumbissem à derrota dos seus povos, dos seus países. Hoje, é certo que a UE irá entrar em recessão e no final disto tudo sairá com uma economia arrasada. Mas “tudo em nome da democracia” certo?

Se a 5G representa o acesso de um país em vias de desenvolvimento – em tanto mais avançado do que os que se dizem “avançados” – a tecnologias da fronteira tecnológica, o Tik-Tok e o Weechat representam o acesso e a capacidade de disputa do “Multiverso”. O multiverso (universo virtual) é o local onde o tio Sam nos quer encarcerar as mentes para que, vivendo uma vida de miséria, possamos fugir para uma vida falsa de ilusões, onde tudo podemos ser nunca sendo nada. O multiverso é a metáfora perfeita da farsa democrática em que vivemos.

Se o Tik-Tok permite o controlo das mentes, neste caso, ao contrário de Twitter, Facebook, Apple e Google, não contém as portas traseiras e os interruptores censórios ao dispor da Casa Branca. A contê-las, funcionam para outros que não os EUA. Mas, a ver pelas publicações em causa, não entrou na onda da censura.

Se o Weechat permite o controlo do dinheiro, ao contrário do Googlepay, Visa, Mastercard e outros, não concorre para a preservação do dólar como moeda de reserva, antes para a sua desagregação. Também não comporta as portas traseiras de acesso, ao dispor das mais de uma dezena de agências de segurança dos EUA.

Eu não sei se, este tipo de tecnologias, funcionam para o governo chinês como funcionam para o dos EUA. Também não sou ingénuo ao ponto para dizer que não o possam fazer. O que sei é que o ladrão tende a ver todos os outros como ladrões e a espelhar nos outros o mesmo comportamento que assume. É um efeito psicológico conhecido: nós lemos os outros com os nossos próprios olhos.

Sei também que, nunca em toda a história humana um regime político teve nas suas mãos um sistema tão perfeito de vigilância, controlo e manipulação. A diferença é que, este sistema, em utilização no Ocidente e bem traduzido em comportamentos acríticos e de rebanho pela maioria das pessoas, incluindo da elite, é apelidado de “defensor da democracia”. Um sistema destes usado num país competidor, é apelidado de tiranizador.

Mas, no final, tal como se passa no mundo real, que vive numa disputa entre quem defende a unipolaridade – EUA e vassalos – e quem defende a multipolaridade – povos e nações livres -, o multiverso também assiste à mesma disputa. E neste caso, a China está para o real como para o virtual. Assume-se como o grande motor e pilar da transformação da arquitectura mundial. Não se trata de uma questão de gosto, é uma realidade e temos de viver com ela. E eu que pensava que os liberais gostavam muito de “mudança” e “reformas”. Está na hora de saíres da zona de conforto, ó Passos Coelho!

No fundo, no fundo, o multiverso não existe…. Pois não passa de uma extensão do mundo real, das relações reais. Existisse ele de per se, como nos querem fazer crer, e seria um mundo de paz, liberdade e felicidade para nos prender a todos. A prova disso mesmo é a sua disputa pelos imperialistas EUA.

Nenhum império se constrói de quimeras virtuais. O poder imperial é bem real. Sentimo-lo todos os dias nos nossos ossos, hoje, como o sentem os povos do Sul Global de há 500 anos a esta parte. Assim, o “multiverso” não é um mundo independente, é uma ferramenta do mundo que temos.

E o que está em questão com a 5G, os telemóveis, os chips, as plataformas digitais, mais não é do que a disputa do mundo real. Um mundo que agora foge, finalmente, ao Ocidente. É esta a realidade e só existe uma!

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