O penultimato

(António Gil, in Substack.com, 12/05/2025, Revisão da Estátua)


Vamos brincar aos VIPs?


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Os 30 dias de cessar-fogo eram para ser um ultimato mas não foram. Por que não funcionou? Bom, pela mesma razão que se um funcionário subalterno fizer um ultimato ao seu patrão este último ri-se, na melhor das hipóteses ou despede-o, se não tiver pachorra para insolências.

A princípio, os sinais eram encorajadores: o supervisor dos funcionários concordou com a proposta. O quinteto exultou: sem ‘ses’ nem ‘mas’, chegaram a dizer. Só que depois veio o patrão e disse: nenhum cessar-fogo, retomam-se as negociações de Istambul. Então, o supervisor disse: boa ideia, faça-se.

Pelo meio, 3 membros do quinteto foram apanhados numa carruagem de comboio atuando de forma muito estranha. O funcionário Macron sentiu-se muito embaraçado por ter um lenço exposto na mesa. O funcionário Merz, escondeu uma pequena colher, usada para dosear medicamentos homeopáticos. Ficámos assim a saber que essas coisas eram embaraçosas, pela forma como se comportaram.

Tendo permanecido em Kiev, o funcionário Zelensky primeiro disse ‘NÃO’ ao ultimato, ao verdadeiro, que se seguiu ao penultimato. Seu supervisor, porém, disse-lhe: ‘é melhor aceitares, senão…’

Então ele aceitou e disse: ‘certo, vou a Istambul, espero pelo Patrão lá’. Mas há um problema aqui: o Patrão não disse que vai a Istambul e com toda a probabilidade não irá. Patrões não precisam de ir a todo o lado onde há negócios, enviam representantes. Para já ninguém sabe quem ele enviará.

Eu proponho que ele envie Vovan e Lexus, os brincalhões que de vez em quando telefonam a ‘personalidades’ europeias e americanas para negociar com Zé. Sim, eles são comediantes, até por isso faria sentido. Ficaria tudo entre colegas, a dupla de russos até poderia ir cedendo às exigências de Zé:

– Certo, pá, leva lá os 4 oblasts e mais a Crimeia. Tens a certeza que não queres mais nada? Tens a certeza que não queres Moscovo também? E a Sibéria? É uma região muto fria mas rica em recursos, pá. E ainda podemos tornar a língua ucraniana obrigatória e exclusiva em toda a Federação Russa, se fizeres questão disso.

O acordo seria devidamente assinado por todos os presentes, claro. Não teria qualquer validade jurídica mas isso é só um detalhe. Falsos ultimatos combinam com falsos acordos. No fim, todos agradeceriam a Erdogan a hospitalidade, não esquecendo de elogiar os kebabs locais. Todo o evento poderia ser usado pela Turquia para promoção turística.

Quanto aos funcionários europeus, Zé incluído, seriam recompensados com uma viagem no transiberiano, em vagão selado para impedir incursões de jornalistas indiscretos. Viagem só de ida, claro.

Fonte aqui.

O Hamas e Trump derrotam Israel

(Raphael Machado in Twitter, 19/01/2025)


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A confirmação de que Israel assinará a proposta de cessar-fogo mediada pelos países árabes e pelos EUA é o prego no caixão dos últimos esforços anti palestinos de Israel – bem como na carreira política de Benjamin Netanyahu.

Para todos os efeitos, só pode ser considerado uma derrota esmagadora do sionismo. Certamente não o fim do expansionismo israelense, mas a derrota de suas pretensões mais recentes, animadas pela reação à Operação Dilúvio Al-Aqsa.

Quando se fala em “vitória” e “derrota” numa guerra é necessário retornar a Clausewitz para recordar que a guerra é a continuação da política por outros meios. As guerras são, portanto, travadas para que se alcance objetivos políticos que não se pôde alcançar através de outras ferramentas.

E quais eram os objetivos políticos de Israel em Gaza? 1) Destruir o Hamas; 2) Expulsar a população palestina do norte de Gaza para anexar essa região; 3) Resgatar os prisioneiros israelenses em Gaza pela força; 4) Manter a ocupação militar permanente do resto de Gaza.

Nenhum dos objetivos foi alcançado. Portanto, Israel sofreu uma derrota humilhante. É irrelevante, aqui, falar sobre a quantidade de palestinos mortos ou prédios destruídos porque não é com base em cadáveres ou ruínas que podemos avaliar os resultados finais de um conflito.

O Hamas, em vez de destruído, está mais forte do que nunca, segundo o Jerusalém Times. O seu ritmo de ataques aumentou, bem como as baixas causadas diariamente ao Exército de Israel. A população palestina não vai a lugar algum, ela permanece ocupando todo o território de Gaza. Netanyahu, ademais, não conseguiu resgatar os prisioneiros. E as circunstâncias tornaram inviável cogitar a possibilidade de manter tropas permanentemente em Gaza.

E os termos do cessar-fogo evidenciam bem essa derrota. Israel terá que abandonar Gaza e receberá prisioneiros de volta, mas terá que entregar prisioneiros palestinos em uma troca na qual Israel terá que entregar 3 prisioneiros palestinos para cada 1 prisioneiro israelense. O mesmo acordo foi recusado, em maio de 2024, por Benjamin Netanyahu.

É óbvio que Israel violará o cessar-fogo. E é claro que tanto Israel quanto a Resistência Palestina aproveitarão o cessar-fogo para se rearmarem. Não obstante, ficou claro que o lado em maior desvantagem durante as negociações era o lado sionista.

Mas a peça central para entender esse cessar-fogo é o fato de que o negociador que mais teve influência no aceite israelense foi Steve Witkoff, emissário de Donald Trump para as negociações de paz no Oriente Médio. Witkoff, que é um magnata imobiliário, teria pressionado, ameaçado e desrespeitado Netanyahu até arrancar dele a paz.

Além de obrigar Netanyahu a se reunir no Shabbat, Witkoff teria ameaçado cortar o apoio militar e econômico estadunidense a Israel em caso de recusa da paz. O Times of Israel confirma que o papel principal na mesa de negociações foi do assessor de Trump.

Mas como assim? Os “especialistas” não prometeram que Donald Trump era o “candidato do sionismo” e que ele era mais sionista que Joe Biden? Ele não teria vindo para exterminar os palestinos, destruir a Mesquita Al-Aqsa e, basicamente, atuar como o “Messias” de Israel?

Aparentemente o próprio Trump não recebeu tal memorando.

Os analistas geopolíticos sérios não estão minimamente surpresos. Já no ano passado, durante o período eleitoral, já havia indícios de que Trump estava buscando se distanciar de Netanyahu. Entre as raízes desse distanciamento estaria a rapidez com a qual Netanyahu tratou a vitória de Biden nas eleições anteriores. Mas o próprio fato de que Netanyahu deu início a um genocídio sob a proteção de Biden já designava a figura de Netanyahu como uma personalidade política apodrecida e, portanto, não apenas inútil quanto prejudicial.

Já na campanha, Trump apontou que o principal impedimento para a paz no Oriente Médio era Benjamin Netanyahu. Eventualmente, também o acusou de traição mais de uma vez e por diversos motivos, até o momento em que o insultou de forma bastante dura e agressiva. A rotura se aprofunda com o acordo de paz imposto por Trump, com Netanyahu se recusando a ir à posse do novo presidente dos EUA.

Agora, a questão passa a ser: por que Trump abandonou Netanyahu e está pressionando pela paz na questão Israel-Palestina?

Não é por nenhum anti sionismo, pacifismo ou humanitarismo.

A questão é que, em um primeiro lugar, o ônus de apoiar Israel no contexto geopolítico contemporâneo é muito alto. O apoio a Israel obviamente foi uma das coisas que custou a vitória a Biden. O que Trump ganharia, exatamente, apoiando Netanyahu e Israel? Absolutamente nada.

Em segundo lugar, é necessário apontar para o fato de que em seu novo mandato Trump tem o apoio do Big Oil, das grandes petrolíferas dos EUA que esperam um nível maior de apoio em comparação com o período Biden. Ao contrário do que se costuma acreditar, a Big Oil tende a preferir soluções diplomáticas para os conflitos no Oriente Médio porque conflitos militares reduzem a estabilidade regional e dificulta os investimentos de longo prazo.

Em terceiro lugar, hoje em dia Trump possui também conexões empresariais e familiares com o mundo árabe, como a família Boulos, ao qual ele se vinculou pelo casamento de sua filha Tiffany a Michael Boulos. O pai de Michael é um empresário importante com conexões inclusive no Eixo da Resistência, o que passa a contrapor a influência de Jared Kushner, marido de Ivanka, sua outra filha.

Por outras palavras, os interesses empresariais de Trump e a sua atual base de apoiantes económicos apontam para a estabilização do Levante, o que contrasta com o messianismo escatológico da elite sionista, que empurra para o estabelecimento de uma Grande Israel, independentemente dos custos.

Fonte aqui

Blinken, o amigo do genocídio

(Tiago Franco, in Pagina Um, 22/08/2024)

O criminoso aplaudido de pé no Congresso dos Estados Unidos

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Quando ouvi Antony Blinken, secretário de Estado de Biden, afirmar que os Estados Unidos (EUA) tinham traçado um plano de paz com o qual Israel concordara e, que agora, esperavam o mesmo do Hamas, fiquei ligeiramente desconfiado. Só para não dizer que sorri.

É, no mínimo, estranho que seja uma das partes do conflito a elaborar uma proposta para o fim desse mesmo conflito. E mais estranho seria se esse documento fosse sequer algo justo para ambos os lados.

Ler a parte restante do artigo aqui.