A guerra dos 12 dias

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 27/06/2025)


Não deixa de ser insólito, no meio disto tudo, que os EUA tenham avançado rapidamente e do nada com o cessar-fogo, sem exigirem a celebração de qualquer acordo no âmbito nuclear.


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Passados 12 dias de uma confrontação que envolveu inicialmente Israel e o Irão e, posteriormente, os EUA, chegou-se a um cessar-fogo, pelas sete horas de 24 de junho, com uma razoável probabilidade de se manter. Indicador disso é a normalização do quotidiano israelita, com a abertura do comércio e das escolas. É agora, pois, possível avaliar, com a informação já disponível, se os três objetivos políticos que Israel se propunha atingir foram alcançadas – destruição do programa nuclear, mudança do regime político e destruição da capacidade balística iraniana – e o que nos poderá reservar o futuro, decorrente desta primeira avaliação.

Tanto Israel como o Irão cantam vitória e assumem-se como vencedores. Uma leitura dos acontecimentos de maior granularidade leva-nos a outras conclusões. Podemos nesta altura afirmar, sem margem de erro, que apesar de terem sido operações taticamente brilhantes, tanto o ataque israelita como o americano foram estrategicamente inconsequentes.

Mesmo ainda sem dados para se avaliar com detalhe a gravidade dos danos, podemos afirmar que o programa nuclear iraniano foi afetado, mas não foi destruído. Contrariando as afirmações triunfalistas de Trump e de Netanyahu sobre o sucesso da operação, os serviços de inteligência dos EUA sugerem, numa avaliação preliminar, que os ataques não destruíram completamente as instalações nucleares iranianas. Parece que as infraestruturas críticas do ciclo do combustível nuclear não foram afetadas ou terão sofrido apenas danos menores. A confirmar isso, a ausência de sismos na região, provocados por explosões no subsolo. Neste sentido, alguma comunicação social hebraica veio dizer que “não foi Israel, mas os Estados Unidos, que atingiram o objetivo principal, atrasando o programa nuclear do Irão de 6 meses a 1 ano.”

No rescaldo das operações, parece que o regime dos aiatolas saiu reforçado, servindo a agressão para reunir a população em torno da sua liderança, mesmo aqueles que se lhe opunham ou lhe eram indiferentes. As mesquitas ficaram cheias como não se via há muito tempo. As minorias étnicas não se sublevaram. Falamos em particular das azeri e curda, esta última incentivada a fazê-lo pelo líder curdo iraquiano.

Confrontados com a impossibilidade de provocarem uma mudança do regime, Netanyahu e Trump vieram posteriormente dizer que isso não fazia parte do plano. Trump já não queria uma mudança de poder no Irão porque não desejava criar o “caos”. Por outro lado, o sistema balístico iraniano ficou longe de ter sido destruído.

Os EUA e Israel não pretendiam envolver-se numa guerra de atrito, que lhes iria ser desfavorável. Julgaram que o “choque e pavor” do ataque da primeira noite, ajoelharia o Irão e o levaria a sentar-se à mesa das negociações com os EUA, no dia 15 de junho, numa posição de extrema vulnerabilidade e pronto para assinar tudo o que lhe pusessem à frente.

Uma guerra prolongada daria vantagem ao Irão porque possui energia, matérias-primas, agricultura, etc., e também dimensão geográfica. Israel é um pequeno Estado de 20 mil quilómetros quadrados (mais pequeno que o Alentejo), enquanto o Irão tem cerca de 1 milhão e 650 mil. Em termos de área, Israel representa 1,2% do Irão.

Esta guerra veio provocar uma alteração qualitativa profunda no comportamento iraniano. Israel ficou a saber que futuros ataques ao Irão não ficarão sem resposta. As Forças de Defesa de Israel (FDI) destruíram a sua mística e perderam a reputação de invencibilidade que até aqui gozavam.

Apesar do seu poderoso sistema de intelligence, Israel subestimou a capacidade iraniana. Telavive julgou que o Irão estava mais fraco do que nunca a nível interno. Com base em acontecimentos anteriores, pensou que o Irão não iria responder, ou que o faria de um modo tímido, e que a guerra ia ser curta. O Irão iria ser, mais uma vez, humilhado.

Israel não só não conseguiu atingir os seus objetivos políticos como pagou caro a agressão ilegal ao Irão. Embora seja difícil ter uma noção exata dos danos causados pelo Irão, há factos indesmentíveis, como por exemplo, a destruição da capacidade portuária e aeroportuária israelita; a suspensão do comércio marítimo, as quebras generalizadas de energia elétrica, a economia devastada, etc. A Maersk suspendeu o trânsito pelo porto de Haifa, responsável por mais de 60% do comércio do país. As cidades israelitas arderam pela primeira vez. A isto junta-se a situação social no país causada pelas destruições causadas pelos mísseis iranianos.

Foi esta situação de debilidade, resultante dos ataques iranianos, que levou Telavive a pedir, mais uma vez, auxílio aos EUA. Desta vez, para negociar um cessar-fogo que terminasse com uma situação que se tinha tornado insustentável.

Os Estados Unidos

Embora não o reconheça publicamente, Israel está ciente das limitações da sua defesa aérea em deter os mísseis iranianos e da sua incapacidade em destruir o programa nuclear iraniano. O pedido de ajuda aos EUA visava envolvê-los diretamente no conflito, para fazerem aquilo que Telavive, por si só, não tinha possibilidade de realizar.

Se foram sempre claros os objetivos de Israel relativamente ao ataque ao Irão, o mesmo já não se pode dizer dos objetivos dos EUA. Descortinamos como possibilidade e em primeiro lugar, a do fim do programa nuclear iraniano, o que parece não ter corrido bem, apesar das declarações bombásticas de Trump e Netanyahu. Há rumores de que Washington teria informado Teerão antes dos ataques, o que complica ainda mais a análise, porque vem expor a falta de vontade dos EUA em defender o seu protetorado.

O ataque dos EUA às instalações nucleares iranianas foi seguido de ataques retaliatórios do Irão a várias instalações militares norte-americanas na região, em particular àquelas que se encontram sediadas no Catar, tendo sido as autoridades americanas previamente informadas. Teerão marcou, uma vez mais, a sua determinação em responder sempre que fosse atacado, ao mesmo tempo que evitou causar vítimas para não encurralar Trump e o empurrar para um maior envolvimento no conflito, algo que alegraria Netanyahu, mas em que Trump não estava nada interessado.

Com o ataque, Trump procurou agradar ao lobby israelita e aos setores belicistas do establishment político norte-americano, muitos instalados no partido republicano, mas, com a concretização do cessar-fogo a pedido de Telavive reconciliou-se com a sua base apoio. O seu discurso aparentemente errático, por vezes mal-entendido, refletiu a sua necessidade de satisfazer certos equilíbrios de poder internos.

Os ataques americanos às três instalações nucleares iranianas não só não impediram que Teerão desistisse do seu programa nuclear, como se poderão tornar num pretexto para Teerão se retirar do Tratado de Não Proliferação Nuclear (o que foi já declarado pelo seu ministro dos negócios estrangeiros), rever a fatwa de 2003 e obter capacidade nuclear militar.

A decapitação da estrutura superior das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária provocada pelo insensato ataque israelita levou à ascensão dentro do regime da linha mais dura. Os militares vão ganhar mais poder e os gastos com a defesa aumentarão. Tudo isto poderia ter sido evitado, se tivesse sido levado por diante o que se encontrava na mesa de negociações entre os EUA e o Irão, antes do dia 13 de junho, isto é, a venda do urânio enriquecido a 60% a uma potência nuclear.

Não deixa de ser insólito, no meio disto tudo, que os EUA tenham avançado rapidamente e do nada com o cessar-fogo, sem exigirem a celebração de qualquer acordo no âmbito nuclear. Não terá sido apenas porque os israelitas tinham esgotado a sua defesa aérea, nos últimos dias incapaz de intercetar mais de cerca de 50% dos mísseis iranianos, passando estes a atingir as infraestruturas energéticas israelitas, uma vulnerabilidade bem conhecida de Israel, mas porque os danos passaram a ser incomportáveis. Só assim se explica a urgência de Israel em querer parar com os ataques.

O cessar-fogo não vai conduzir a conversações de paz e, por conseguinte, ao fim da guerra. Como afirmou o chefe do Estado-Maior israelita Eyal Zamir “a guerra não acabou — uma nova fase está para vir”, não sem dizer que Gaza continuará a ser a prioridade imediata. Poderão continuar as negociações entre os EUA e o Irão, mas não com Israel, que procurará manter com o Irão um modelo de relações semelhante ao que mantém com o Líbano. Não existirá um acordo de paz formal, mas um entendimento tácito de contenção e uma resposta militar cirúrgica, quando necessário.

Poderemos, pois, encontrar-nos perante uma alteração do modo como Israel fará a guerra no futuro. Em vez de optar por manter um confronto de atrito prolongado, em múltiplas frentes e com custos humanos e políticos elevados, Israel poderá optar por operações cirúrgicas e limitadas no tempo, mas com impacto estratégico. Falamos de golpes de precisão para enfraquecer a capacidade do inimigo, mas sem entrar num conflito total. Manterá a pressão e deterá os avanços do opositor, sem se envolver em guerras convencionais prolongadas.

Falamos de um arranjo funcional e pragmático que permita gerir o conflito sem resolver as suas causas. A situação de guerra não desaparecerá, mas transformar-se-á. Deixará de ser guerra total para se tornar uma gestão permanente e controlada da atrição, como a que se vive no Líbano. Este é o modelo que Israel procurará reproduzir. Nem vitória, nem paz, mas dissuasão e controlo permanente. Simultaneamente, Israel vai manter o equilíbrio de forças na região, evitando tanto a ascensão hegemónica xiita como a sua substituição por forças sunitas radicais.

Tantas vezes vai o cântaro à fonte…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/06/2025)


Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar.


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Nas noites de 30 e de 31 de maio, nas vésperas da segunda ronda de negociações entre russos e ucranianos, em Istambul, com vista a discutir a paz na Ucrânia, Kiev levou a cabo duas poderosas operações militares em território russo. Falamos da destruição de três pontes nos oblasts de Kursk e Bryansk e dos ataques a cinco bases aéreas estratégicas (Murmansk, Irkutsk, Ivanovo, Ryazan e Amur) localizadas na profundidade territorial russa, apenas bem-sucedidos em dois casos (Murmansk e Irkutsk).

A terem sido todos os ataques eficazes, as consequências para a capacidade de bombardeamento estratégico russa teriam sido catastróficas. Não foi o que aconteceu. Estima-se que tenham sido afetadas 13 aeronaves (8xTU-95. 4xT-22M3 e uma de transporte), três delas irreparáveis, de uma frota de 132. Apesar do dano causado, o nível destrutivo dos ataques foi baixo.

O presidente Zelensky assumiu a responsabilidade pelos ataques elogiando publicamente o feito e o seu executor, o general Vasyl Malyuk, chefe do serviço de segurança (SBU). Segundo os ucranianos, foram usados na operação 117 drones, que teriam destruído cerca de um terço da capacidade russa. Estes ataques levantam uma série de questões merecedoras de atenção.

O momento escolhido foi a véspera das negociações, em Istambul, onde os ucranianos estavam obrigados a comparecer. Está longe de ser verdade, esta ideia recorrentemente apresentada, de que os ucranianos se encontram altamente comprometidos com a paz. Estes ataques não podem ser dissociados da tentativa, sem sucesso, de boicotar as negociações. No entanto e dito isto, não se está a afirmar que os russos estejam particularmente empenhados na imediata resolução política do conflito.

Como já nos habituou, o objetivo de Kiev com esta operação prendia-se mais com o seu impacto mediático do que com os reais benefícios militares. “Um espetacular golpe de propaganda”, como lhe chamou a BBC. Mas ia para além disso. Pretendia mostrar aos seus patrocinadores, que não está acabada, que pode provocar dano ao adversário, que pode ser um bom investimento, num momento em que algumas fontes de abastecimento começam a secar, sobretudo do lado norte-americano. Não foi por acaso, que Lindsey Graham, coincidentemente em Kiev na véspera do ataque, dizia que a Ucrânia não estava a perder a guerra, que ainda está em jogo e que é preciso apoiá-la enviando mais armas e munições.

Tudo indica que houve serviços estrangeiros envolvidos no ataque e que alguns norte-americanos tiveram conhecimento prévio. A Axios deu nota disso, retratando-se uma hora mais tarde. O secretário de defesa Pete Hegseth terá acompanhado a operação em tempo real. Parece pois difícil escamotear algum envolvimento norte-americano. Entre outros aspetos, importa saber quem informou os ucranianos da localização exata das aeronaves russas.

Desconhece-se se o presidente Trump estava informado dos ataques, mas não se pode deixar de estranhar o facto de se ter mantido em silêncio, quando antes tinha sido tremendamente vocal sobre os ataques russos da semana anterior à Ucrânia. Estamos recordados do seu post na Truth Social a mandar Putin parar. A isto deve acrescentar-se as suas declarações enigmáticas: “o que Vladimir Putin não compreende é que se não fosse eu, montes de coisas más já teriam acontecido à Rússia, realmente más. Ele está a jogar com o fogo!

O ataque à aviação estratégica russa coloca-nos perante um outro assunto de extrema gravidade. É um facto que os russos já haviam utilizado os TU-95 para atacar a Ucrânia, o que dava aos ucranianos legitimidade para os atacar. Mas os TU-95 também integram a frota de bombardeiros estratégicos russos, que transportam armamento nuclear e isso confere uma outra dimensão, não escamoteável, aos ataques.

Os bombardeiros estratégicos russos encontravam-se estacionados na pista em conformidade com o estabelecido pelo novo Tratado START, que exige a permanência das aeronaves ao ar livre em locais observáveis pelos satélites, de forma a permitir o seu controlo pela outra parte, normalmente em bases aéreas designadas, para verificar não só a sua localização, mas também o tipo de armamento (nuclear ou convencional) com que poderão estar equipadas.

Teoricamente, a Rússia não estava obrigada a fazer esse exercício, uma vez que suspendeu a sua participação no Tratado, em fevereiro de 2023, interrompendo as inspeções e a partilha de dados. A Ucrânia alavancou oportunisticamente este contexto.

Este comportamento dos ucranianos levou o ex-assessor de Trump, Stephen Bannon, a afirmar: “Estamos [EUA] a ser arrastados para uma possível Terceira Guerra Mundial que ofusca as duas primeiras. E isso acontece todos os dias da forma mais flagrante. A Casa Branca disse não ter conhecimento dos planos dos ucranianos. Simplesmente atacaram a tríade nuclear da Rússia… o país que patrocinamos [Ucrânia] e com o qual fazemos negócios está agora a arrastar-nos para a sua guerra. Pensam que podem atacar território russo e arrastar-nos para um conflito com a Rússia. Estamos a ser arrastados para um conflito que se pode transformar em metástase.”

No mesmo sentido, pronunciou-se o ex-conselheiro de segurança nacional Mike Flynn ao afirmar que “a audácia de Zelensky infligiu um insulto geopolítico a Trump e aos Estados Unidos. Zelensky pôs em risco a segurança global sem pensar duas vezes, dando luz verde a ataques a aeroportos russos sem o conhecimento de Trump… se a Ucrânia está disposta a atacar com consequências estratégicas sem notificar a Casa Branca, já não somos apenas aliados com uma certa dessincronização: somos um partido de guerra a voar às cegas e fora de controlo.”

Estes ataques não afetaram a situação no campo de batalha, onde as forças russas continuam a avançar e onde as forças ucranianas começam a demonstrar uma dificuldade cada vez maior em as deter. Para além do impacto mediático, as consequências do ataque não produziram mudanças significativas nas forças estratégicas russas nem produziram alterações no equilibro nuclear estratégico entre os EUA e a Rússia. Se havia a intenção de o alterar, isso, claramente, não foi conseguido.

O dilema da resposta

Estes ataques à aviação estratégica russa foram mais um caso de espetacularidade, a juntar a tantos outros (os ataques ao Crocus City Hall e ao Kremlin, à ponte de Kerch, aos radares de aviso prévio estratégico, os assassinatos seletivos, etc.) e podiam ter justificado uma resposta musculada do Kremlin, que optou até agora por não a dar.

O Kremlin tem demonstrado uma paciência estratégica assinalável. A Rússia tem preferido absorver essas provocações. Os defensores deste comportamento russo argumentam que, estando a Rússia a ganhar a guerra, não é conveniente responder a essas provocações, porque isso daria azo a uma escalada incontrolável e o pretexto para atores exteriores se intrometerem no conflito. Por outro lado, alguns analistas incautos, sobretudo no Ocidente, confundem paciência com passividade, veem fraqueza no comportamento do Kremlin, e caucionam a ultrapassagem de todas as linhas vermelhas. No final do dia, o Kremlin recuará sempre, porque tem medo, segundo eles.

Ao contrário do seu habitual estilo bombástico e fanfarrão, Medvedev veio agora, num tom sério e sem estridência, dizer que a retaliação vai ser inevitável: “tudo o que precisa de explodir, explodirá, aqueles que precisam de ser eliminados, serão eliminados.” Com este ataque ao sistema nuclear estratégico russo, depois de ter atacado os radares de aviso prévio, Kiev ultrapassou todas as linhas vermelhas russas.

Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar. Os desenvolvimentos a que assistimos representam uma mudança na direção de uma guerra em larga escala.

Zelensky sabe que a Ucrânia não tem hipótese de vencer uma guerra contra a Rússia. A única forma de se manter à tona da água é envolver o ocidente num conflito direto com a Rússia, tão cedo quanto possível, mesmo que isso passe pela destruição do seu país e a aniquilação do seu povo. Veremos se os europeus percebem que se estão a envolver num jogo de soma negativa, e não caiem na armadilha. Para além de se procurar perceber quais os termos da escalada retaliatória russa, é preciso perceber como vai o designado ocidente responder.

O encontro de dia 2 de junho em Istambul poderá ter sido a última tentativa de resolver o conflito sem ser pela via militar. Tudo indica que a Ucrânia se irá arrepender desta audácia. E veremos se o arrependimento ficará apenas em Kiev.

Vai a diplomacia sobrepor-se aos canhões?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/05/2025)


Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.


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A estratégia da Rússia e a da Ucrânia para terminar a guerra que travam há três anos são conhecidas: os russos exigem que se comece por negociações diretas, sem condições prévias, baseadas nos “acordos de Istambul” (2022); enquanto os ucranianos pretendem, antes de mais, um cessar-fogo de trinta dias; primeiro cessar-fogo e só depois conversações de paz. Compreendem-se as motivações de uns e de outros. O cessar-fogo iria beneficiar o lado ucraniano, que se encontra numa situação militar difícil, e dificultar o avanço de soluções políticas. Os russos apenas estão disponíveis para o cessar-fogo se determinados pressupostos políticos forem previamente satisfeitos.

A encenação começou no dia 10 de maio, com o ultimato feito pelos dirigentes dos países que integram o “Weimar Group +” (WG+), ou seja, Alemanha, França, Polónia e Reino Unido, a Moscovo. Reunidos em Kiev, com o presidente Volodymyr Zelensky, exigiram a Moscovo o fim incondicional das hostilidades, por 30 dias, com início às zero horas do dia 12 (segunda-feira). Se a Rússia não obedecesse seria varrida por sanções e todo o tipo de punições. Desconhece-se o que aconteceria aos ucranianos caso prevaricassem e cometessem eles as infrações.

Numa evidente falta de criatividade para punir o incumprimento russo, o WG+ insistiu na ineficaz estratégia das sanções, como foi reconhecido à NBC News pelo secretário do tesouro dos EUA, Scott Bessent: “as sanções impostas à Rússia durante a administração Biden foram amplamente ineficazes.” A Rússia tem resistido a mais de 28 mil sanções. Não seria agora que os WG+ conseguiriam descobrir as sanções milagrosas que a fariam soçobrar.

Moscovo rejeitou, de imediato, as exigências do WG+. Numa conferência de imprensa pelas duas horas da madrugada do dia 11 (domingo), o presidente Vladimir Putin convidou Kiev para negociações diretas, sem pré-condições, no dia 15 de maio (quinta-feira), em Istambul. Logo nesse domingo, Zelensky afirmou tratar-se de um “sinal positivo”, mas insistiu que “o primeiro passo para acabar verdadeiramente com qualquer guerra é um cessar-fogo”. Cada um dos opositores continuava no seu canto do ringue. A Alemanha e a França rejeitaram de imediato a proposta de Putin.

Entretanto, o presidente Donald Trump foi dando nos seus posts na Truth Social “uma no cravo e outra na ferradura.” Ora manifestava simpatia pela proposta do WG+ para o cessar-fogo, ora pela proposta de Putin para negociações diretas. Num primeiro momento, os WG+ ficaram satisfeitos com a resposta de Trump, porque sabiam que sem os EUA as “suas” sanções não produziriam efeito algum. Julgavam ter encostado Putin à parede.

Mas, a resposta de Trump ao anúncio de Putin começou a desorientá-los. Afinal, Trump não estava de pedra e cal com os europeus. A tentativa de amarrar Trump à estratégia europeia parecia não estar a resultar. Para que as sanções produzissem efeito precisavam dos norte-americanos, pois sozinhos não iam lá. Trump estava a resistir em prolongar a estratégia de Biden abraçada pelo WG+.

Para “estimular” os russos a aceitar o cessar-fogo, vários países continuaram, entre outras ideias, a defender o armamento da Ucrânia e o estacionamento de tropas ocidentais em solo ucraniano. Essa colocação de forças na Ucrânia já foi, entretanto, abandonada. Para Macron “a proposta de cessar-fogo não significava o fim da entrega de armas à Ucrânia. A trégua proposta por Kiev e seus aliados não incluía a suspensão do fornecimento de armamento”. Os Estados Unidos, a Alemanha e a Austrália, entre outros, concordaram em continuar com a ajuda militar a Kiev.

Putin fez orelhas moucas às ameaças do WG+, não só não cessou as hostilidades como conseguiu implementar o seu plano de sentar os ucranianos à mesa das negociações, como ele desejava, sem nenhum cessar-fogo – a tal pré-condição ucraniana para negociar. É sabido que a Ucrânia necessita desesperadamente de um cessar-fogo para poder restaurar o seu potencial militar e continuar o confronto militar com a Rússia.

As negociações de paz só foram possíveis graças à pressão de Trump sobre Kiev. A França e a Alemanha esforçaram-se por as sabotar, mas os posts de Trump na sua rede social esclareciam inequivocamente ao que ia: “A Ucrânia deve aceitar IMEDIATAMENTE as negociações propostas por Putin na Turquia.” O desconforto crescia no círculo íntimo de Zelensky, pouco satisfeito por Kiev ter de negociar diretamente com os russos sem um cessar-fogo prévio. O próprio Zelensky confirmou isso, quando disse que “por respeito a Trump, enviaria uma delegação ucraniana às negociações.”

Depois de Trump “ter pedido” publicamente a Zelensky para aceitar negociações diretas, ficou claro que o presidente ucraniano não tinha outra alternativa que não fosse a de aceitar a proposta russa. A delegação ucraniana apresentou-se em Istambul apenas por receio das possíveis retaliações de Trump.

Como sublinhou o “Guardian”, ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente negociações de paz com a Rússia, Trump frustrou o plano do WG+ impor sanções a Moscovo pela rejeição do cessar-fogo. E, em resultado disso mesmo, o WG+ não pôde cumprir a sua ameaça e teve de adiar essas novas sanções a Moscovo.

Encurralado, e num golpe de teatro rocambolesco, Zelensky desafiou Putin para uma reunião presencial em Istambul, sabendo antecipadamente que este não aceitaria. Tendo em mente o acontecimento da Casa Branca, Putin nunca iria permitir que Zelensky transformasse a cimeira entre os dois numa armadilha mediática. Não só Putin não reconhece legitimidade a Zelensky, como este ainda não revogou o decreto, assinado no outono de 2022, que o impede de negociar com Putin. Qualquer decisão acordada poderia assim ser posteriormente revogada com base na falta de mandato de Zelensky para negociar em nome da Ucrânia.

Como era previsível, a recusa de Putin para se reunir com Zelensky foi utilizada para uma campanha de Relações Públicas, como numa ópera bufa, em que Putin foi acusado de não querer a paz. O secretário-geral da NATO Mark Rutte juntou-se à comédia dizendo que a ausência do dirigente russo mostrava o quão desesperado estava. Zelensky representava como um ator no palco de um teatro, uma vez que o seu objetivo não era chegar a um acordo de paz, mas sim continuar os combates. Queria somente fazer parecer que a Rússia não estava a falar a sério sobre a paz, esperando assim que Trump voltasse à anterior estratégia de Biden.

A Ucrânia, que tinha abandonado as negociações três anos antes e que andou sistematicamente a recusar negociar com a Rússia, tinha-se tornado agora, num ápice, num paladino da paz. Dada a pressão colocada por Trump, havia que fingir estar do lado das negociações.

Em visita ao Médio Oriente, Trump deu a entender que, eventualmente, se poderia juntar a Zelensky e a Putin dizendo que “nada vai avançar até que eu e Putin nos encontremos… Mas ele [Putin] não iria sem mim. E quer se queira quer não, não acredito que algo vá realmente acontecer até nos encontrarmos pessoalmente.” Entretanto, deixava alguma ambiguidade no ar ao referir “que se a possibilidade de um acordo para resolver o conflito não for encontrada através de negociações, os líderes europeus e os Estados Unidos atuarão em conformidade.”

Afinal, as negociações acabaram por acontecer nos termos propostos por Putin. No dia 16, antes do início das negociações com a delegação russa, em Istambul, altos dignitários do WG+ reuniram-se em Antalya com a delegação ucraniana. Não desistiam de convencer os EUA a impor à Rússia novas sanções económicas. Mas, para se assegurar que o plano iria decorrer conforme o previsto, o secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, e o senador Lindsey Graham também se reuniram com a delegação ucraniana para lhe transmitir as instruções de Trump: Kiev tem de participar em negociações diretas com a Rússia.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre Trump tem sido constante, não perdendo nenhuma oportunidade. Desde a Albânia ao Vaticano, que se tornou no centro da geopolítica mundial. Até a missa inaugural de Leão XIV foi um pretexto para encontros entre altos dirigentes, para se discutir o tema. Os encontros, as cimeiras e as reuniões foram tantas que já se perdeu a sua conta.

Até ser óbvio que não havia escapatória e que a Ucrânia tinha mesmo de avançar para negociações com a Rússia, os líderes do WG+ pensaram que, com as suas exigências e o apoio de Trump, tinham encurralado Putin. Ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente conversações de paz com Moscovo, Trump frustrou assim os planos do WG+. Putin rejeitou o cessar-fogo exigido e Washington não alinhou nas sanções a Moscovo. Entretanto, a Sky News atribuiu a culpa a Trump pela derrota da coligação anti russa.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre o presidente norte-americano aumentou devido ao anúncio da conversa telefónica entre ele e Putin, prevista para o dia 19 de maio, com os líderes europeus a tentarem desesperadamente convencer Trump a não concluir nenhum acordo com Putin e a pressioná-lo para aceitar o cessar-fogo, recorrendo a sanções.

Depois de duas horas e meia de conversa, continuou tudo na mesma. Não houve alterações substantivas na posição russa, e Trump não ameaçou o Kremlin com novas sanções por entender que existe uma hipótese de alcançar a paz, e que o aumento de sanções não iria ajudar. Os europeus não conseguiram o que queriam e o desalento do WG+ e de Zelensky foi imenso.

Mas o que mais os assustou foi o post de Trump, após a conversa com Putin, em que levantava a possibilidade dos EUA se retirarem das negociações. Trump enfatizou que as negociações entre as duas partes deviam iniciar-se imediatamente. Por outras palavras, negociações diretas com a Rússia, sem os EUA.

Trump esclareceu posteriormente que, se no curto prazo não houver progressos significativos no processo de paz, Washington cederá à Europa o seu papel na resolução do conflito. Sem esclarecer, afirmou que outras decisões se seguirão. Fica por saber se, no seguimento do possível abandono das conversações de paz, Washington deixará de apoiar a campanha militar ucraniana, e até onde. Insensível a estes desenvolvimentos, Zelensky continuou a resistir à exigência de Trump para negociar diretamente com a Rússia propondo uma reunião mais ampla envolvendo os EUA, a UE e a Rússia.

Há que perceber o significado da reunião entre as delegações russa e ucraniana, em Istambul, independentemente do âmbito e do mérito do que se acordou, como foi o caso da troca de prisioneiros e do acordo para continuarem as negociações. Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.

Mas antes de fazer o ultimato, o WG+ devia ter assegurado o apoio do presidente norte-americano. Ao não conseguir arregimentar Washington para impor novas sanções a Moscovo, colocou-se numa posição vulnerável. Foi um erro de principiante. A capacidade do WG+ para pressionar Moscovo resume-se agora às sanções incluídas no 17.º pacote de sanções aprovado pela UE de consequências económicas duvidosas. Ao não se amedrontar e fazer tábua rasa do ultimato, Moscovo evidenciou a fraqueza do WG+, daqui em diante difícil de ser levado a sério. Os seus líderes quiseram dar um passo maior do que a perna. Isso paga-se caro em matéria de credibilidade.