“O capitalismo “está morto”, mas Varoufakis não está contente: eis o tecnofeudalismo

(Pedro Rios sobre entrevista de Yanis Varoufakis, in Público, 20/11/2025)

O capitalismo morreu e deu lugar a algo pior, defende Yanis Varoufakis em Tecnofeudalismo

Somos servos nos territórios digitais de Bezos, Zuckerberg e companhia, os senhores feudais do século XXI. A tese de Yanis Varoufakis no livro Tecnofeudalismo.


Década de 1770. A vida corria mais ou menos como dantes em vários lugares da Europa. Homens ricos dominavam as zonas rurais e quarteirões urbanos, comandavam exércitos e marinhas. A renda das terras continuava a ser a força económica mais poderosa. Para onde olhássemos, víamos o que ainda podia ser descrito, em termos económicos, como uma forma de feudalismo, mesmo que esse sistema social, económico e político já estivesse teoricamente morto. Noutros sítios, as nuvens de fumo lançadas pelas fábricas alimentadas pelas primeiras máquinas a vapor poderiam levar alguém a falar em “feudalismo industrial” ou “feudalismo de mercado”, mas observadores perspicazes chamaram “capitalismo” a este emergente sistema económico e abriram os olhos da humanidade para a “grande transformação” que estava a acontecer. A imagem está em Tecnofeudalismo, livro de Yanis Varoufakis agora publicado em Portugalpela Objectiva.

Em 2025, o economista e ministro das Finanças grego em 2015 também vê um sistema a nascer nas ruínas de outro. Usa um nome, polémico, audaz, para ele: tecnofeudalismo. “Qual é, então, a minha hipótese? É a de que o capitalismo está morto, no sentido em que a sua dinâmica deixou de governar as nossas economias”, escreve em Tecnofeudalismo, editado originalmente em 2023. Ao Ípsilon, Varoufakis, uma das mais conhecidas figuras da esquerda europeia, diz que “o parasita cresceu mais do que o organismo”: o tecnofeudalismo matou o capitalismo.

Treinar máquinas para que nos treinem para que as treinemos

É uma imagem forte, uma poderosa analogia. No feudalismo, o sistema económico pré-capitalista que marcou a vida na Europa, os servos trabalhavam sem remuneração nas terras dos senhores feudais (ou dos seus vassalos). No tecnofeudalismo, segundo Varoufakis, os utilizadores da Internet são novos servos: com cada scroll, texto, fotografia ou vídeo carregados para a Net, com cada minuto de atenção despendido, contribuímos para a acumulação de riqueza pelos novos senhores feudais — Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Alphabet), Elon Musk (X, Tesla), Tim Cook (Apple) & companhia. Nos feudos digitais destes ultra-ricos, somos “servos não remunerados, cuja função é fornecer as nossas informações, a nossa atenção, a nossa identidade e, sobretudo, os padrões de comportamento que treinam os seus algoritmos”, lemos em Tecnofeudalismo.

A “mutação” do capitalismo

O tecnofeudalismo, um termo já usado em 2020 pelo economista francês Cédric Durand,​ não equivale ao feudalismo, esclarece Varoufakis. “Todos os meus críticos cometem o erro de pensar que estou a sugerir que voltámos ao feudalismo, ao passado. Não, não voltámos. Vamos em direcção ao futuro, a um futuro muito distópico”, diz ao Ípsilon, numa videochamada a partir de sua casa, na Grécia.

Podia ter usado expressões como capitalismo “da nuvem”, “digital”, “algorítmico” ou “da vigilância”, este último cunhado por Shoshana Zuboff​​, socióloga que denunciou a maneira como as big tech extraem os nossos dados e manipulam o nosso comportamento para maximizar receitas. Porém, acredita o ex-ministro grego, a questão hoje não é “quem sabe o quê e o que acontece com os nossos dados”, mas antes quem “detém e quem lucra com este poder exorbitante”. O “jogo intensificou-se”, indo muito além da vigilância: para ele, está em causa uma mudança profunda na economia e uma nova forma de capital, o capital-nuvem (referência à computação em nuvem) — com consequências políticas que já são visíveis.

Socializar o “capital-nuvem”

“O que produz a Uber? O que produz o Airbnb? O que produz a Amazon? Nada, absolutamente nada, excepto o poder de cobrar rendas”, defende. “E depois há máquinas, como esta aqui [mostra o telemóvel] — o Google Assistant — ou a [Amazon] Alexa, que são interfaces com uma forma de capital que nada produz. Treina-se [a máquina] para que ela nos conheça e ela treina-nos para que a treinemos a conhecer-nos melhor. E depois ela dá-nos conselhos — sair ou não de casa consoante a meteorologia, que livro comprar.”

Nesta vida cada vez mais digital, teoriza Yanis Varoufakis, velhos preceitos do capitalismo — o mercado, a competição livre — são derrubados, trocados por territórios digitais controlados por empresas de matriz monopolística. Exemplifica: “Se perguntarmos ‘Alexa, que bicicleta eléctrica recomendas que eu compre?’, somos transportados para um território onde uma máquina — não um anunciante humano, não um especialista em marketing — coloca desejos de consumo na nossa mente.” Ao comprar a bicicleta no site de Jeff Bezos (no seu “feudo”), “parte do que pagámos pela bicicleta vai para a Amazon, que não a produziu”. Uma venda que acontece “fora do mercado” tradicional do capitalismo, um negócio em que o fabricante de bicicletas reduz a sua mais-valia para pagar uma “renda a Jeff Bezos”. Os novos senhores feudais não só exploram o trabalho não remunerado dos servos, apropriam-se também do valor produzido pelos capitalistas tradicionais, os seus vassalos (o fabricante de bicicletas que depende da Amazon é um deles).

O capitalismo “assentava em dois pilares: os mercados e o lucro. Se estiver certo na minha análise, esta nova forma de capital, que triunfou completamente, substituiu os mercados por estas plataformas digitais — ou feudos, como lhes chamo.” Empresas como a Amazon valem mais do que o PIB da larga maioria dos países— cada uma vale mais de 2 biliões (milhão de milhões) de dólares — ​e o seu negócio está sobretudo ligado a “rendas, não a lucros. Já não falamos de capitalismo.” Séculos depois do fim do feudalismo, “a renda voltou a ser a maior fonte de acumulação de riqueza”.

O poder das big tech

As crises de 2008 e da pandemia de covid-19 levaram os bancos centrais a emitir moeda. Em vez de criar empregos ou aumentar salários, os bancos e as empresas preferiram investir nas acções das grandes empresas tecnológicas. Consequência: em vez de reanimar o capitalismo, a “avalanche de fundos públicos” deu início à Era do Capital-Nuvem, lemos em Tecnofeudalismo. As big tech valorizaram em bolsa e ganharam poder. Mais recentemente, aliaram-se a Donald Trump. Varoufakis dá um exemplo recente, vindo dos Estados Unidos: a regulação das stablecoins, criptomoedas indexadas ao dólar. “Pela primeira vez, o Estado cedeu o seu monopólio de imprimir dinheiro. O que a Administração Trump fez foi dizer aos tipos das big tech e aos banqueiros ‘juntem-se e podem imprimir dólares’, o que é uma transição assustadora. Nunca teria acontecido se não tivéssemos tido a ascensão do capital-nuvem.”

Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sundar Pichai e Elon Musk na tomada de posse do Presidente Trump, em Janeiro Pool / getty images

Este tipo de capital cresce quanto mais dependentes dos ecrãs somos. “Não há conspiração aqui: o código do algoritmo está escrito de maneira a maximizar as rendas da nuvem do seu dono. O algoritmo trabalha por conta própria, apoliticamente, de forma totalmente amoral. Acontece que para maximizar as rendas da nuvem de Elon Musk, o Twitter [agora X], o algoritmo procura deixar-nos zangados. Envenena as nossas conversas, envenena a nossa democracia. [Outros algoritmos] canalizam a nossa criatividade através do Spotify, da Netflix — e depois temos a inteligência artificial a escrever guiões de filmes. A lógica do capital-nuvem penetra em todos os recantos da nossa existência, da mesma forma que Marx e Engels descreviam, em A Ideologia Alemã​[1846], que a acumulação de capital estava a mudar a nossa cultura, o nosso ethos, a nossa alma.”

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Como podem os países responder à influência desmesurada das big tech? Varoufakis elogia a “muralha” que a China ergueu para impedir a entrada de empresas norte-americanas na sua economia. Diz ainda que Pequim está mais adiantada do que a União Europeia na interoperabilidade entre plataformas online (por exemplo, permitir que os seus utilizadores recebam mensagens de outras plataformas ou que possam transitar entre elas sem perder informações pessoais) — deixarmos de ser “servos” ou reféns das plataformas que usamos “reduz significativamente” o poder das grandes tecnológicas. Critica o facto de, neste ano, a Comissão Europeia ter abandonado os planos de cobrar um imposto sobre as empresas digitais, uma vitória para Trump e os gigantes tecnológicos dos EUA, como a Apple e a Meta. A “soberania digital” europeia e o combate ao domínio das big tech é uma das bandeiras do Democracy in Europe Movement 2025 (DiEM25), a aliança europeia de esquerda que Varoufakis co-fundou.

Não é um ludita. “Não somos contra o capital-nuvem — somos contra a ditadura do capital-nuvem detido por 0,0001% da população”, diz. “Queremos capital-nuvem, mas queremos socializá-lo. Mas isso exige coragem política e a Europa não a tem.” Imagina, por exemplo, uma versão do Airbnb feita em Lisboa, com “regras votadas pelos cidadãos” para impedir a descaracterização da cidade pelo turismo, uma app compatível e interoperável com outras aplicações do género de outras cidades e com as apps de transportes locais. “Porque é que não a fazemos?”

O erro da esquerda

No capítulo final de Tecnofeudalismo, livro escrito como uma espécie de diálogo com o seu falecido pai, também marxista, Varoufakis arrisca desenhar o que poderia ser uma “fuga ao tecnofeudalismo”, uma visão com “empresas democratizadas”, “dinheiro democratizado”, “a nuvem e a terra como bens comuns”. Uma visão de esquerda: para fazer das ferramentas digitais meios de “colaboração e emancipação humana”, e para voltarmos a ser donos “da nossa mente, temos de possuir colectivamente o capital-nuvem”

As críticas de Varoufakis, que se define como marxista libertário, à esquerda levam-no a recuar ao início do século XX. A esquerda, nas suas várias tipologias, cometeu, então, “um grande erro”.

“Quando a esquerda surgiu com força, no século XIX, era um movimento emancipatório amante da liberdade. Era tudo sobre libertação. Era sobre libertar os trabalhadores da fome e da exploração. Era sobre libertar as mulheres do patriarcado. Era sobre libertar as colónias das metrópoles, do imperialismo. Era tudo sobre liberdade. E algures no início do século XX, abandonámos o conceito de liberdade. Entregámo-lo aos liberais, que não querem saber da liberdade de ninguém que não eles próprios, só se preocupam com a liberdade dos poderosos.” A esquerda focou-se “na igualdade e na justiça”, mas tornou-se “autoritária”, como se viu na União Soviética.

Antes de entrar na política grega, incursão que teria o seu auge em 2015, quando foi, por poucos meses, ministro das Finanças em plena crise da dívida soberana do país, Yanis Varoufakis dava aulas numa universidade. “Ninguém me conhecia excepto pelo trabalho académico”, conta. “Depois de 1929 [o crash da Bolsa de Nova Iorque], com o falhanço da esquerda em fazer avançar uma agenda para transformar a economia social, o descontentamento cresceu devido às políticas de austeridade e o resultado foi o fascismo. Em 2008, senti que isto voltaria a acontecer. Foi por isso que entrei na política, porque sabia que o fascismo teria um ressurgimento. Estava convencido disso por causa desta combinação de austeridade severa para a maioria e de socialismo para os grandes negócios e o grande capital. Isso levaria sempre a descontentamento que seria explorado pelos xenófobos, pelos ultranacionalistas, pelos fascistas.” Ao salvar os bancos, Barack Obama “criou Trump”; na Europa, ao impor austeridade, governos sociais-democratas geraram uma “raiva” que germinou durante anos e alimentou a ascensão da direita radical em vários países, entre os quais Portugal. E a esquerda, o que faz? “Está a travar batalhas de há 50 anos que não podem ser vencidas.”

Ainda assim, Varoufakis não perdeu a esperança. “Figuras como Zohran Mamdani [um socialista democrático eleito presidente da Câmara de Nova Iorque] lembram-nos de que não temos o direito de fazer passar os nossos falhanços por inevitabilidades”, diz. “Faço sempre a distinção entre esperança e optimismo. Não sou optimista. Não tenho o direito a ser optimista. Vivemos num planeta que está a morrer. Há uma catástrofe climática. Temos genocídio. Vivemos sob circunstâncias terríveis. Os historiadores do futuro vão olhar para a nossa geração e não vão ser gentis. O nosso dever moral não é sermos optimistas, mas termos esperança e fazermos dessa esperança algo real.”

Teoria económica e capitalismo

(Prabhat Patnaik, in Resistir, 15/12/2025)


Todas as tentativas de “reformar” o capitalismo, tornando-o mais “humano”, estão fadadas ao fracasso.


É um facto bem conhecido que a teoria económica “mainstream” contemporânea, a única ensinada aos estudantes em grande parte do mundo, não capta a realidade do capitalismo. O que é menos reconhecido é que essa economia “mainstream”, não apenas nas suas encarnações existentes, mas independentemente das novas encarnações que assuma, é incapaz de captar a realidade do capitalismo. Vejamos porquê.

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EUA – um sistema que transforma a pobreza em culpa

(Vitórias da Revolução Cubana, in Facebook, 12/12/2025, Revisão da Estátua)


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Há uma dor que se arrasta pelas ruas dos Estados Unidos, uma dor discreta, mas absoluta, que se espalha como vento frio entre viadutos, avenidas largas e estações de metrô. É uma dor que não aparece nos filmes, que não vira discurso de campanha, que não rende manchetes heroicas. É o sofrimento quotidiano dos pobres, uma multidão silenciosa, invisível e esquecida,  que carrega o peso de viver num país onde o sucesso é um mito vendido como destino universal, mas a miséria é uma realidade tão comum quanto o concreto que cobre as calçadas.

Nas grandes cidades, onde edifícios gigantescos tocam o céu, as pessoas tocam o chão duro com o rosto. Ali, homens e mulheres embrulhados em cobertores rasgados enfrentam noites de inverno que mordem a pele como lâminas. O vento atravessa as frestas das barracas improvisadas, como se até a própria natureza conspirasse contra quem nada tem. A chuva molha colchões sujos, sacolas improvisadas, fotos antigas que sobrevivem como tesouros de uma vida que já não existe. Cada gota que cai lembra que, nos EUA, até o céu parece indiferente aos desamparados.

A poesia da dor está naquilo que ninguém quer ver: olhos que ainda brilham, apesar de tudo; mãos que seguram papelões como se fossem muros frágeis contra a brutalidade do mundo; passos curtos, que procuram um canto seguro, onde a polícia não vá expulsá-los. E, mesmo assim, levantam-se todos os dias, com a coragem de quem tenta sobreviver sem ter o direito ao básico:  nem casa, nem alimento regular, nem mesmo saúde pública.

Porque ali, saúde não é cuidado: é mercadoria. O hospital não é abrigo: é dívida. A doença não é um acidente: é um risco financeiro. Um simples antibiótico pode custar o salário inteiro de uma pessoa pobre. Uma ambulância custa mais do que muitos ganham numa semana. E um internamento, para quem vive na rua, pode significar perder o pouco que possui: roupas, documentos, lembranças. A crueldade do sistema transforma o sofrimento físico em tortura económica.

Nas esquinas, famílias inteiras seguram cartazes pedindo ajuda. Crianças aprendem desde cedo a linguagem dura da sobrevivência. Jovens, expulsos do mercado de trabalho, vagueiam sem perspetivas. Veteranos de guerra, aqueles mesmos que o país aplaudiu em tempos de combate, voltam para casa e descobrem que não há lugar para eles na paz. Muitos dormem debaixo de pontes, sem tratamento, sem apoio psicológico, sem nada. A pátria que os enviou para a frente de batalha não lhes garante sequer um colchão seco.

E, ainda assim, a narrativa oficial fala em prosperidade. Fala em liberdade. Fala em oportunidades. Mas a liberdade que não protege os fracos é apenas uma palavra bonita colocada sobre uma ferida aberta. Oportunidade que não alcança os pobres é só promessa vazia. Prosperidade que convive com milhões de famílias morando em carros, em barracas, em abrigos sobrelotados… isso não é progresso. É abandono.

Enquanto isso, do outro lado do Caribe, Cuba, mesmo pequena, mesmo bloqueada, mesmo enfrentando dificuldades históricas, escolheu um caminho diferente. Lá, nenhum ser humano é deixado na rua por falta de Estado. Lá, saúde não é mercadoria: é um direito. Lá, o médico não pergunta pela sua conta bancária antes de lhe tocar no pulso. Lá, o sofrimento não é visto como falha individual, mas como responsabilidade coletiva.

Cuba não é perfeita, nenhum país o é. Mas há uma diferença moral insuperável entre um sistema que transforma a pobreza em culpa e outro que transforma a dignidade em política de Estado.

Nos EUA, a miséria é um subproduto natural do funcionamento do sistema. Em Cuba, a pobreza existe, mas é combatida com solidariedade, com educação universal, com saúde gratuita, com políticas que reconhecem o ser humano antes do capital.

E é nesse contraste que reside a verdade: a grandeza de um país não está no tamanho da sua economia, mas na forma como trata os seus filhos mais vulneráveis. Nos Estados Unidos, os pobres são invisíveis. Em Cuba, eles são cidadãos.