O ultimato ao Reino Unido

(Pacheco Pereira, in Sábado, 02/12/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Uma União Europeia claramente em crise e decadência resolveu empertigar-se com os ingleses e apresentar -lhes um acordo que sabe que a senhora May, primeira-ministra inglesa, tem muito poucas oportunidades de conseguir que passe no Parlamento. O Reino Unido fica assim condenado ou a aceitar muitas regras que os defensores do Brexit consideram inaceitáveis e uma violação do sentido da votação popular, ou ter uma saída dura que sabe ser muito temida principalmente pelos interesses empresariais ingleses.

A capa do Economist, considerando que uma saída sem acordo seria semelhante a um comboio a cair de uma falésia, é o exemplo da enorme pressão que o establishment britânico faz a favor de um acordo que diz ser mau, mas sempre melhor do que não haver acordo. Como quem diz, estão mal seja qual for o resultado, ninguém os mandou votar Brexit.

A “vacina”

De todos os países da União, o Reino Unido era aquele que menos obrigações tinha em relação à União, com muitas políticas próprias. E se, mesmo assim, se considera que sair é uma “catástrofe”, imagine-se o que aconteceria com qualquer outro país. Como se viu com a Grécia e se vai ver com a Itália, a União Europeia tornou-se um bunker onde se pode entrar, mas de onde é muito difícil sair. Os “europeístas” acham que tem de ser assim para haver uma “vacina”, mas esquecem-se que esta doença está dentro e não fora. Fora também está, mas é de outra natureza.

prato

Ilustração de Susana Vilar

Com muito escândalo dos que me ouvem, eu não acho que haja qualquer problema em os ingleses quererem manter o “controlo” sobre o seu país, e considerarem inaceitável que o seu Parlamento deixe de ter os poderes integrais de representação dos votos dos cidadãos do Reino Unido.

Pelos vistos isto agora é um crime, num meio europeu que cada vez mais desvaloriza o valor da democracia e da sua ligação com a soberania. É que o erro iluminista – para lhe dar uma classificação apesar de tudo valorativa – é pensar que se pode na Europa e com as nações europeias restringir a soberania nacional a favor de uma entidade supranacional que ninguém reconhece como tendo mais legitimidade democrática do que os parlamentos nacionais numa democracia.

Quem sabia isto muito bem eram os “fundadores” da Europa, que veriam como uma enorme imprudência este acelerar do upgrade político da Europa, sem ser acompanhado pela vontade dos povos. Por muito federalistas que alguns fossem, também sabiam muita história.

A questão não está em cumprir acordos internacionais que sempre significam limitações a determinados aspectos da soberania, está em aceitar-se que um país possa ser governado de fora em aspectos cruciais como orçamentos, economia, política interna e externa, por uma burocracia internacional, que responde aos seus “donos” que são os outros países que “mandam” nas instituições europeias, antes a França e Alemanha, hoje quase só a Alemanha. E isso acabaria sempre por dar para o torto, por boas ou más razões. E neste contexto, não acho que as razões do Brexit sejam as piores.

As estrelas Michelin

Eu acho muito bem que os restaurantes portugueses tenham cada vez mais estrelas Michelin e dou os parabéns aos seus cozinheiros. Mas não conto ir comer a nenhum dos seus restaurantes porque aquilo não é comida. Pode ser “arte” e “cultura” mas comida não é. Pode excitar-me o palato com sensações únicas e dar-me uma “experiência” rara de sabores, mas, quando eu como, não quero ser maçado com uma explicação técnica e em linguagem cifrada do que vou comer, com muitos “sucos” e “espumas”, nem “braseado”, nem “confitado” e muito menos “resumido”, palavra muito verdadeira visto que de um modo geral basta uma garfada para acabar com o estético montinho de qualquer coisa muito boa e cara deitada “em sua cama” de um prato arranjado como um Pollock.

Os excêntricos ingleses

Ver uma manifestação inglesa é um espectáculo. O número de excêntricos que vão a todas é muito superior a qualquer outro caso europeu. De um modo geral não são gente nova, vestem roupa berrante, cartolas, largos arranjos florais à lapela e as palavras de ordem das manifestações escritas em qualquer parte do corpo. Um traz uma bicicleta cheia de folhas entrelaçadas como uma coroa de imperador, outro vem vestido de Chaplin com uma foca de cartão debaixo do braço, outro tem um balão em formato de dinossauro, por aí adiante.

Mas uma observação mais atenta mostra que há uma continuidade entre os excêntricos e os normais, e que, em bom rigor, aquelas famílias com criancinhas, aquele par homossexual, aquela senhora cristã, com a Bíblia a tiracolo e que sabe os hinos todos, aquele velho sindicalista que traz uma bandeira de um grupo de futebol contra o apartheid, fazem parte daquelas “peculiaridades” dos ingleses que nasceram de muitos anos de democracia. Talvez isso também tenha a ver com o Brexit.

A secessão da União Europeia

(Thierry Meyssan, 20/11/2018)

Voltairenet-org_-_1_2_-163-31a4f

Para Thierry Meyssan, a maneira como a Alemanha e a França recusam ao Reino Unido o direito de sair da União Europeia mostra que esta não é apenas um espartilho. Ela demonstra também que os Europeus se mostram pouco preocupados com os seus vizinhos tal como no período das duas Guerras Mundiais. Manifestamente, perderam a noção que governar, não é simplesmente defender os interesses do seu país a curto prazo, é também pensar a longo prazo e prevenir os conflitos com os vizinhos.


Os povos dos Estados membros da União Europeia não parecem estar conscientes das nuvens negras que se amontoam sobre as suas cabeças. Identificaram os graves problemas da UE, mas tratam-nos com superficialidade e não compreendem o que se joga com a secessão britânica, o Brexit. Lentamente, eles afundam-se numa crise que poderá não ter outra saída senão a violência.

A origem do problema

Aquando da dissolução da União Soviética, os membros da Comunidade Europeia aceitaram vergar-se às decisões dos Estados Unidos e integrar os Estados da Europa Central, muito embora estes não correspondessem, de forma nenhuma, aos critérios lógicos do processo de adesão. Com base nisto, adoptaram o Tratado de Maastricht que fez bascular o projecto europeu, de uma coordenação económica de Estados Europeus, para um Estado supranacional. Tratava-se de criar um vasto bloco político que, sob a proteção militar dos Estados Unidos, iria avançar, junto com eles, na via da prosperidade.

Este super Estado que nada tem de democrático. Ele é administrado por um colégio de altos funcionários, a Comissão, cujos membros são designados, um a um, por cada um dos Chefes de Estado e de Governo. Jamais na história um Império funcionou dessa maneira. Rapidamente, o modelo paritário da Comissão deu à luz uma gigantesca burocracia comum, na qual certos Estados são «mais iguais do que outros».

O projecto supranacional mostrou-se inadaptado ao mundo unipolar. A Comunidade Europeia é originária da componente civil do Plano Marshall, do qual a OTAN é a componente militar. _ As burguesias europeias-ocidentais, preocupadas com o modelo soviético, apoiaram-na a partir do Congresso convocado por Winston Churchill, em Haia, em 1948. Mas, elas não tinham já qualquer interesse em prosseguir por esse caminho após o desaparecimento da URSS. _ Os antigos Estados do Pacto de Varsóvia hesitaram em aderir à União ou em aliar-se directamente aos Estados Unidos. Por exemplo, a Polónia comprou aviões de guerra aos americanos, que ela empregou no Iraque, com os fundos que a União lhe concedeu para modernizar a sua agricultura.

Para além da criação de uma cooperação policial e judicial, o Tratado de Maastricht criou uma moeda e uma política externa únicas. Todos os Estados-Membros tinham que adoptar o euro, assim que a sua economia nacional lhes permitisse. Apenas a Dinamarca e o Reino Unido pressentindo os problemas futuros se mantiveram à parte. A política externa parecia natural num mundo tornado unipolar e dominado pelos Estados Unidos.

Dadas as diferenças no seio da zona euro, os pequenos Estados iam tornar-se a presa do do maior, a Alemanha. A moeda única que, no momento da sua entrada em circulação, fora ajustada ao dólar transformou-se, progressivamente, numa versão internacionalizada do marco alemão. Incapazes de competir, Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha foram simbolicamente qualificados de PIGS («porcos») pelos financistas. Enquanto Berlim pilhava as suas economias, propunha a Atenas restaurar a dela se esta lhe cedesse uma parte do seu território.

Constatou-se que a União Europeia, ao mesmo tempo que prosseguia o seu crescimento económico global, era ultrapassada por outros Estados cujo crescimento económico era várias vezes mais rápido.

A adesão à União Europeia, enquanto para os ex-membros do Pacto de Varsóvia era uma vantagem, tornou-se um fardo para os Europeus Ocidentais.

Tirando lições deste fracasso, o Reino Unido decidiu retirar-se deste super Estado (Brexit) para se aliar com os seus parceiros históricos da Commonwealth e, se possível, com a China. A Comissão ficou com medo que o exemplo britânico abra a via a novas retiradas, à manutenção do Mercado Comum mas ao fim da União. Ela decidiu, portanto, fixar condições dissuasórias de saída.

Os problemas internos do Reino Unido

Servindo a União Europeia os interesses dos ricos contra os pobres, os camponeses e os trabalhadores britânicos votaram para sair dela, ao mesmo tempo que o sector terciário desejou permanecer.

Se a sociedade britânica dispõe, tal como outros países europeus, de uma alta burguesia que deve o seu enriquecimento à União Europeia, ela tem também, ao contrário dos grandes países europeus, uma poderosa aristocracia. Esta dispunha, antes da Segunda Guerra Mundial, de todas as vantagens que a União Europeia oferece, mas também de uma prosperidade que já não pode esperar de Bruxelas. A aristocracia votou, portanto, pelo Brexit contra a alta burguesia, abrindo uma crise no seio da classe dirigente.

Em última análise, a escolha de Theresa May como Primeira-ministro era suposta preservar os interesses de uns e de outros («Global Britain»). Mas isto acabou por não ocorrer, de forma alguma, como previsto.
- Primeiro May não conseguiu concluir um acordo preferencial com a China e sente dificuldades com a Commonwealth, cujos laços foram diluídos pelo tempo.
- Em seguida, ela encontra obstáculos com as suas minorias escocesa e irlandesa, tanto mais que a sua maioria parlamentar inclui protestantes irlandeses ancorados nos seus privilégios.
- Por outro lado, ela esbarra na intransigência cega de Berlim e de Bruxelas.
- Por fim, ela tem de fazer face à colocação em causa da «relação especial» que ligava os seu país aos Estados Unidos.

O problema levantado pela implementação do Brexit

Depois de ter tentado em vão vários ajustes nos tratados, o Reino Unido votou democraticamente pelo Brexit, em 23 de Junho de 2016. A alta burguesia, que não acreditava nisso, tentou imediatamente colocar esta escolha em causa.

Falou-se, então, em organizar um segundo referendo, como se tinha feito com a Dinamarca aquando do Tratado de Maastricht. Parecendo a coisa impossível, distinguem agora um «Brexit duro» (sem novos acordos com a UE) de um «Brexit suave» (com a manutenção de diversos compromissos). A imprensa assegura que o Brexit será uma catástrofe económica para os Britânicos. Na realidade, os estudos anteriores ao referendo e, portanto, a este debate, atestam todos que os dois primeiros anos após a saída da União serão recessivos, mas que o Reino Unido não tardará a relançar-se e a dobrar o crescimento da União. A oposição ao resultado do referendo —e, portanto, à vontade popular— tem conseguido arrastar a sua implementação. A notificação da retirada britânica só feita pelo governo à Comissão após nove meses de atraso, a 29 de Março de 2017.

A 14 de Novembro de 2018 —ou seja, dois anos e quatro meses após o referendo— Theresa May capitula e aceita um mau acordo com a Comissão Europeia. No entanto, assim que ela o apresenta ao seu governo, sete dos seus ministros demitem-se, incluindo o encarregado pelo Brexit. Claramente, ele ignorava elementos do texto que a Primeira-ministra lhe atribui.

Este documento inclui uma disposição que é totalmente inaceitável para um Estado soberano, seja ele qual for. Ele institui um período de transição, cuja duração não é fixada, durante o qual o Reino Unido não mais será considerado como membro da União, mas será forçado a vergar-se às suas regras, aí incluídas as que vierem a ser então adoptadas.

Por trás desta manhosice escondem-se a Alemanha e a França.

Logo que o resultado do referendo britânico foi conhecido, a Alemanha tomou consciência que o Brexit provocaria uma queda, de várias dezenas de milhares de milhões (bilhões-br) de euros, do seu próprio PIB. O governo de Merkel dedicou-se, no entanto, não a adaptar a sua economia, mas, antes a sabotar a saída do Reino Unido da União.

Quanto ao Presidente francês Emmanuel Macron, ele representa a alta burguesia europeia. Ele está, portanto, por natureza, em oposição ao Brexit.

Os homens por trás dos políticos

A Chancelerina Merkel poderá contar com o Presidente da União, o polaco (polonês-br) Donald Tusk. Este, com efeito, não está neste posto por ter sido antigo Primeiro-ministro do seu país, mas, sim por duas razões: durante a Guerra Fria, a sua família, pertencente à minoria Cachúbia, escolheu os Estados Unidos contra a União Soviética e, por outro lado, é um amigo de infância de Angela Merkel.

Tusk começou por levantar o problema do compromisso britânico nos programas plurianuais adoptados pela União. Além de Londres ter de começar por pagar o que se comprometera a financiar, não poderia deixar a União sem pagar uma taxa de saída compreendida entre 55 e 60 mil milhões de libras.

O antigo ministro e Comissário Francês Michel Barnier é nomeado negociador-chefe com o Reino Unido. Barnier tem fortes inimizades na City que ele maltratou durante a crise de 2008. Além disso, os financistas britânicos sonham gerir a convertibilidade do yuan chinês em euros.

Barnier aceita como adjunta a Alemã Sabine Weyand. Na realidade, é esta última quem conduz as negociações com a missão de as fazer falhar.

Simultaneamente, o homem que «fez» a carreira de Emmanuel Macron, o antigo Chefe da Inspecção de Finanças, Jean-Pierre Jouyet, é nomeado embaixador da França em Londres. É um amigo de Barnier com quem geriu a crise monetária de 2008. Para fazer falhar o Brexit, Jouyet apoia-se no líder conservador da oposição a Theresa May, presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros na Câmara dos Comuns, o Coronel Tom Tugendhat.

Jouyet escolheu como adjunta na embaixada francesa em Londres, a esposa de Tugendhat, a enarca francesa Anissia Tugendhat.

A crise cristalizou-se na cimeira (cúpula-br) do Conselho Europeu de Salzburgo, em Setembro de 2018. Theresa May apresenta aí o consenso que ela conseguira estabelecer em casa e que muitos outros deveriam tomar como exemplo: o plano de Chequers (manter apenas o Mercado Comum entre as duas entidades, e não a livre circulação de cidadãos, de serviços e de capitais, deixando de estar sujeita à justiça administrativa europeia do Luxemburgo). Donald Tusk rejeita-o brutalmente.

Aqui chegados é necessário voltar atrás. Os acordos que puseram fim à revolta do IRA contra o colonialismo inglês não resolveram as causas do conflito. A paz só se instalou porque a União Europeia tornou possível a revogação da fronteira entre as duas Irlandas. Tusk exige que, para prevenir o ressurgir desta guerra de libertação nacional, a Irlanda do Norte seja mantida na União Aduaneira. O que implica a criação de uma fronteira controlada pela União, cortando o Reino Unido em dois, separando a Irlanda do Norte do resto do país.

Durante a segunda sessão do Conselho, diante de todos os Chefes de Estado e de Governo, Tusk mandou fechar a porta na cara de May, deixando-a sozinha do lado de fora. Uma humilhação pública que não poderá deixar de ter consequências.

JPEG - 21.8 kb

Reflexões sobre a secessão da União Europeia

Todas estas panelinhas atestam a esperteza dos dirigentes europeus para conceder a mudança. Eles simulam respeitar regras de imparcialidade e decidir colectivamente com o único propósito de servir o interesse geral (mesmo se esta noção é refutada pelos Britânicos). Na realidade, alguns defendem os interesses do seu país em detrimento dos seus parceiros e outros os da sua classe social em detrimento de toda a gente. O pior é, evidentemente, a chantagem exercida contra o Reino Unido: ou ele se submete às condições económicas de Bruxelas ou será reavivada a guerra de independência da Irlanda do Norte.

Este comportamento só pode levar ao despertar dos conflitos intra-europeus que provocaram as duas Guerras mundiais; conflitos que a União mascarou dentro de si, mas que não foram resolvidos e persistem fora da União.

Conscientes de estar a brincar com fogo, Emmanuel Macron e Angela Merkel subitamente evocaram a criação de um exército conjunto incluindo o Reino Unido. Claro, se as três grandes potências europeias se aliassem militarmente o problema seria resolvido. Mas, esta aliança é impossível, porque não se constrói um exército antes de se ter determinado quem será o seu chefe.

O autoritarismo de Estado supranacional tornou-se tal que, durante as negociações sobre o Brexit, ele criou três outras frentes. A Comissão abriu dois processos de sanções contra a Polónia e a Hungria (a pedido do Parlamento Europeu), acusadas de violações sistemáticas dos valores da União; processos cujo objectivo é colocar estes dois Estados na mesma situação que o Reino Unido durante o período de transição: serem forçados a respeitar as regras da União sem poder influenciá-las. Além disso, indisposto pelas reformas em curso na Itália, que vão contra a sua ideologia, o Estado supranacional recusa a Roma o direito de se dotar de um orçamento para executar a sua própria política.

O Mercado Comum da Comunidade Europeia havia permitido estabelecer a paz na Europa Ocidental. O seu sucessor, a União Europeia, destruiu essa herança, e opõe seus próprios membros uns aos outros.


Fonte aqui

Se quer ser milionário, a solução é PDM

(Francisco Louçã, in Expresso, 29/09/2018)

LOUCA3

Em Lisboa há freguesias em que o preço das habitações subiu 40% só no primeiro trimestre deste ano. É razoável que se aplique um adicional de imposto a valorizações empresariais rápidas


Não sei se o esquecido “Progresso e Pobreza” tem edição disponível em Portugal. Mas quando foi publicado por Henry George, nos finais do século XIX, nos EUA, foi o livro mais vendido, depois da Bíblia. A ideia é forte: a terra é de todos, porque não é de alguém, e, por isso mesmo, a sua posse deve ser taxada.

Uma sua discípula, Elizabeth Magie, dedicou-se à ideia do imposto sobre a propriedade, e fê-lo da forma mais imaginosa: criou um jogo, “The Landlord’s Game”, em que percorremos uma cidade optando entre o lucro imobiliário, que paga um imposto punitivo e arrisca a prisão, e o salário do trabalho. Magie patenteou o jogo em 1903. Uns anos mais tarde, a patente foi vendida, e o jogo foi transformado, com imenso sucesso. Quem lê estas linhas tem-no em casa, agora chama-se “Monopólio” e, para fúria de Magie, tornou-se o contrário do que ela pretendia: promove a especulação imobiliária. Resta saber o que fazer com o verdadeiro jogo do monopólio nas nossas cidades.

A PROPRIEDADE É INTRIBUTÁVEL?

Segundo Henry George, a propriedade da terra é legalmente inaceitável, porque não foi construída pelo seu dono, já lá estava. Por isso, o uso da terra deveria ser comum ou, se concessionado, pagar por isso. Algumas constituições nacionais aceitam esse pressuposto, por exemplo, para os seus recursos minerais. Outras regras legais definem que o espaço público, por exemplo as telecomunicações, é por natureza do Estado. Mas a proprie­dade da terra tem vindo a separar-se desta norma por, sendo historicamente a primeira forma de capital, ter definido a classe social dos proprietários.

A força desta tradição é tal que os impostos sobre a propriedade são marginais nos sistemas modernos, que quase só tributam rendimentos. De forma anedótica, isso foi-nos lembrado quando alguns dos raros proprietários de casas de mais de um milhão e meio de euros ameaçaram manifestar-se contra o imposto Mortágua — embora tenham depois escolhido evitar os flashes das revistas cor de rosa. No conjunto da OCDE, a média dos impostos sobre toda a propriedade é só de 2%.

Ora, a valorização da propriedade urbana é das aplicações de capital mais rentáveis, sem requerer esforço do investidor. Nos últimos cinco anos, o preço das habitações subiu em Berlim 63,1%, em Amesterdão 54,4%, em Londres 39,6%, em Xangai 52,5%… mas em Lisboa há freguesias em que subiu 40% só no primeiro trimestre deste ano. É portanto razoável que se aplique um adicional de imposto a valorizações empresariais rápidas, para financiar a construção de habitação municipal a custos controlados.

O MILAGROSO PDM

Se o debate público acerca deste imposto tem sido vivo, há uma outra faceta que tem sido esquecida. É o caso da pressão do crescimento imobiliário: nos últimos anos, com uma ligeira quebra com a troika, construiu-se em Portugal o equivalente a uma Coimbra por ano. O crédito imobi­liário tem sido dez vezes a soma do que é concedido à indústria, agricultura e pesca. Ora, para que isto fosse possível, e dado que a reabilitação só cresceu recentemente, foram-se buscar muitos terrenos: nos últimos 15 anos do século XX terão sido requalificados para usos urbanísticos 70 mil hectares de terrenos rurais e outros e no nosso século pode ter sido outro tanto. São mais de 100 mil milhões de euros.

Esse processo criou fortunas. Um exemplo da margem sul do Tejo, há 20 anos: uma empresa compra por 300 mil euros 27 hectares de terrenos rurais, negoceia com a Câmara a cedência de algumas parcelas a troco da requalificação em uso urbano e vende o resto por 27 milhões. A mudança do PDM é a chave da fortuna. A vice-procuradora-geral Isabel São Marcos denunciava em 2012 este tipo de mais-valias urbanísticas, por estarem no centro de processos de corrupção e branqueamento de capitais, percebe-se porquê. A tributação desta classe de mais-valias, quando a requalificação for imperativa, é portanto justa à luz de Henry George: os proprietários não fizeram nada para se tornarem milionários. Esta receita será sempre a maior de todos os impostos sobre a propriedade e a mais justa.


SUSTOS BRITÂNICOS

A imprensa deu destaque à recusa do plano do ‘Brexit’ de May pelo congresso trabalhista britânico, o que, a confirmar-se a dissidência de algumas dezenas de deputados conservadores, desencadeará eleições gerais em poucas semanas. A questão é de facto da maior importância, mas deixará nas mãos de Corbyn a decisão mais difícil: se ganhar as eleições, qual a pergunta do referendo? Como até hoje tem afirmado que não se volta atrás quanto ao referendo realizado, a manter-se essa atitude a pergunta seria sobre o modelo do ‘Brexit’ e o mandato do novo governo. Se a decisão for diferente, a credibilidade da ideia de soberania democrática estará no centro das discussões.

Em todo o caso, o congresso trabalhista discutiu outras questões de não menor importância e até uma que assusta mais a City do que o ‘Brexit’: é o plano económico de Corbyn, que tem dois pilares. O primeiro é o mais direto: renacionalizar os correios, a energia, a água e os caminhos de ferro, ou seja, as utilidades essenciais. A história da degradação destes serviços depois da privatização dá grande popularidade a estas propostas, que são vistas noutros partidos socialistas, como em Portugal, como arremedos perigosos.

O segundo pilar é a proposta de entregar uma parte do capital e um terço dos lugares das administrações das empresas com mais de 250 trabalhadores aos seus representantes. Experiências anteriores, seja em regime de planeamento (Jugoslávia) ou de mercado (Suécia ou algumas empresas da Alemanha), não demonstraram que esse tipo de medidas altere a mecânica de poder e de acumulação. Mas nunca se viu nada desta dimensão numa grande economia financeira.


CÁ SOBREVIVEMOS À NOITE DAS FACAS LONGAS

Raramente terá sido convocada, nos últimos anos, uma tão intensa fronda de indignação nacional como contra essa aparatosa vitória da corrupção que foi a substituição de Joana Marques Vidal por outra magistrada, depois de cumprir o seu mandato e como aconteceu com os seus antecessores neste século. Não se atrevem, o país marchará para arrasar São Bento, derramaremos o nosso sangue, ouviu-se de tudo.

O certo é que a noite das facas longas amansou cordatamente muito antes da meia-noite e cada um foi à sua vida. O CDS, que decretara a recondução como questão de vida ou morte do regime, desejou felicidades à nova procuradora, e Cristas tomou a atitude mais digna, lá foi fazer uma foto a pisar uvas em Trás-os-Montes. Paulo Rangel, que galhardamente desmascarara a golpaça constitucional, limitou-se a despedir-se de Marques Vidal em nota de pé de página e agora até afirma que a escolha da nova PGR foi a sua vitória. Marques Mendes lançou um tremendo “gato escondido com rabo de fora” e assunto arrumado, cauda incluída. No Parlamento, de cara com o conspirador-mor, Costa, a direita não disse uma palavra sobre a tramoia. Afinal, muita gente concorda com o mandato único: defendem-no os magistrados do Ministério Público, a própria Joana Marques Vidal o deu por garantido quando já estava em funções, o Presidente sempre o terá defendido, o Governo era dessa opinião, Rui Rio concorda e Catarina, que evitou juntar-se ao debate sobre o nome, aprovou o princípio. Em resumo, quase toda a gente prefere um só mandato e quem discorda achou por bem dispensar o incêndio do Terreiro do Paço.

Do espetáculo da dramatização fica mais uma vez um resíduo de folclore que é compreensível mas porventura dispensável. Jogo político, dir-se-á. Mas quantas vezes poderá esse jogo alegar a questão essencial, a da luta contra a corrupção, para depois dar de barato que não se passa nada? Fica tudo dito por uma cartinha do renascido Passos Coelho a insinuar as mais tremendas das mancomunações? E o CDS nem avança com uma moção de censura para arrasar tudo?

O episódio da substituição da procuradora no termo do seu mandato prova assim muito mais sobre a falta de âncoras da direita na sua procura de uma política, uma qualquer política que entretenha, do que sobre o estado das instituições. E desconfio que o povo, tranquilamente, se apercebe de que nem tudo o que grita é voz, ou que as grandes indignações moralistas a rasgar as vestes são somente um triste bálsamo para a estratégia de derrota em derrota até ao final, que há de ser o que for.