A dor de corno é a maior dor do mundo

(Estátua de Sal, 15/10/2015)

corno

Pronto a coligação pafiosa anda amuada e a precisar de marcar consulta no psiquiatra. Coelho parece um daqueles tipos que foi corneado e anda choroso porque a namorada o traiu com o seu maior inimigo.

Costa é um salafrário. Um bígamo com um apetite amoroso esquisito. Como é que pode preferir Jerónimo que já passa dos setenta, apesar de ainda dançar o tango, em vez daquela estampa de homem garboso e escultural que é Passos? Como é que pode trocar essa figura repentista e vaidosa, esse submarino irrevogável que é o Dr. Portas, pela baixinha da Catarina que não tem mais que uns olhos bonitos e um sorriso maroto?

A PAF chora baba e ranho. Dizem que foram traídos. Encontraram Costa na cama com o Jerónimo à esquerda e a Catarina à direita. Costa, atrapalhado, ainda assim, apanhado de surpresa, tapou-se com o lençol, mas recompôs-se lesto, e foi dizendo, contrariamente ao adúltero clássico: “Aquilo que estás a ver é aquilo que estás a pensar”.
Coelho soltou um grito lancinante em dó menor e resvalou de imediato para a quinta sinfonia de Beethoven, também ela em dó menor, em toda a sua estridência e inquietude.
Vamos a ver. Pode alguém obrigar outrem a ama-lo e a manter uma relação contra vontade? Nas sociedades modernas e civilizadas não. O divórcio é legítimo e mesmo o divórcio litigioso já foi abolido. Pode a PAF obrigar o PS a apoia-la se o PS prefere obter o apoio do PCP e do BE? É óbvio que não.
Pode Passos chorar. Pode a PAF acusar António Costa de querer o poder, nada que ela não queira ter com supremo afã, já que o argumento é reversível. Pode a PAF dizer o que quiser. Mas se o Parlamento não aprovar o seu programa nem o seu orçamento, nada a fazer: a PAF não irá governar. O resto é folclore, por muitos comentários que os jornalistas avençados debitem, por muita teoria catastrófica que se promova, por muito arrazoado acusatório que se expanda contra António Costa e o PS.
Afinal, o que queriam é que Costa se comportasse como as raparigas ciganas que ainda hoje são “prometidas” a um varão de família amiga, como se de uma mercadoria se tratasse, não tendo nessa escolha qualquer arbítrio.
Não, nos países civilizados, os amores e desamores derivam da livre decisão das partes, e o mesmo se passa na vida política.
A dor de corno é a maior dor do mundo. Passos e Portas bem podem chorar o serem preteridos. Acontece aos melhores.
Vão ao psiquiatra. Mudem de visual. Quiçá deixem crescer a barba. Pode ser que fiquem com um ar mais credível e até mais “gauchiste”.
E, no limite, ponham mesmo uma boina à Che Guevara.
Pode ser que dessa forma, consigam cair nas boas graças de António Costa.
É que mais vale cair em graça do que ser engraçado, coisa que Passos e Portas, por muito que se esforcem, não conseguirão nunca a vir a ser.

O óbvio, menos óbvio, disparates e imperfeições

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 15/10/2015)

António José Teixeira

(Nota: Não sei se António José Teixeira é de esquerda, de direita ou do centro. Apenas sei que este texto, em relação ao unanimismo alinhado e propagandístico que vai ululando pela comunicação social escrita e televisionada, é de destacar. No meio de tanto ruído e propaganda encapotada e servida como sendo informação, este texto de AJT é um texto limpo, sério e refletido. Uma pérola no meio do enviesamento pafioso que vai grassando pelo Expresso, jornal que já foi dito “de referência” mas é cada vez mais “de reverência”. AJT ainda é dos poucos que restam pelo Expresso com autonomia para pensar pela sua cabeça. Eu não sei, é se já não haverá alguém a segredar entredentes, qual Cícero: “Quo usque tandem abutere, António José Teixeira, patientia nostra?”) – Estátua de Sal, 15/10/2015.


Pois é. Passos Coelho tem razão. O PS perdeu as eleições e passou esta semana em tamanha ronda de contactos que até parece que foi ele que as ganhou. É óbvio que o Presidente da República se deixou ultrapassar. Menos óbvio é o convencimento do PSD e do CDS de que a sua manutenção no poder é inquestionável. Menos óbvia é também a capacidade de iniciativa de António Costa. E ainda menos óbvia é a disponibilidade do PCP para viabilizar um governo PS sem por condições. É talvez por esta soma de situações menos óbvias que se têm dito tantos disparates. Um deles é a ideia de que uma solução governativa que não passe pelo partido vencedor das eleições é ilegítima. A representação do eleitorado não são os deputados do vencedor. A representação dos portugueses é a totalidade da Assembleia da República. E como não há votos mais importantes do que outros também não há mandatos mais ou menos importantes. Não há nada que impeça entendimentos, a não ser a vontade dos próprios deputados. Os governos podem ser feitos à direita e à esquerda e só cumprirão a legislatura se o Parlamento o permitir. O Presidente da República não é politicamente responsável pelo governo, apenas pode demiti-lo se estiver em causa o regular funcionamento das instituições.

Outro disparate é a ideia de que um entendimento do PS com os partidos à sua esquerda trai o eleitorado. Não se considera o mesmo se o PS se entender com a coligação. O PS não disse na campanha eleitoral que se apoiaria no BE e no PCP. É verdade. Nunca determinaremos em absoluto a motivação de cada um dos votos. Mas alguém poderá dizer, sem nos rirmos, que os votantes socialistas exprimiram a suas vontades a pensar na coligação? Se pensaram, foi decerto para a contrariarem… Ou alguém deu conta nesta campanha de um qualquer indício de de colaboração do PS com a direita? Dir-se-à que não nunca poderemos assegurar que o voto no PS tinha uma largura de banda que apanharia inevitavelmente o BE e o PCP. Também é verdade. Ainda assim, importa recordar dois factos. António Costa contestou há muito o designado ‘arco da governação’, associado a três exclusivos partidos: PSD, PS e CDS. Fez questão de dizer que ninguém pode ser excluído de uma solução governativa, nomeadamente o PCP e o BE. Mais, prometeu chumbar um Orçamento da coligação, o que lhe valeu muitas e justificadas críticas… Aqui chegados, fazem pouco sentido as críticas morais ou de legitimidade. Farão sentido, obviamente, todas as observações políticas. É de política, afinal, que se trata. Apenas isso.

Qualquer solução de governo deve assegurar condições de estabilidade e compromisso com as nossas responsabilidades internas e externas. No horizonte apenas se vislumbram duas soluções plausíveis. Um governo minoritário da coligação ou um governo minoritário do PS

O diálogo à esquerda, encetado por António Costa, poderá produzir um governo. Não é certo. Certo é que deixará fissuras graves no PS. Há traumas vivos do passado e figuras importantes que têm dificuldade em virar a página. E há também divergências profundas não negligenciáveis. Pior, vire à direita ou à esquerda, a divisão do PS é inevitável. Na derrota, o partido charneira é uma escapatória vital. E um risco enorme. Só um acordo blindado com os partidos à sua esquerda e um governo bem sucedido podem garantir alguma coesão. E ainda assim… Tenho dúvidas sobre a consistência de um governo destes. Mas estou certo de que é um insulto à inteligência e à democracia a ideia de que só pode haver governos da direita até ao PS. Quando as diferenças são grandes impõe-se ainda maior racionalidade. Ao Bloco de Esquerda e ao PCP passou a não lhes ser indiferente um governo de direita ou um governo PS. Se os socialistas não fizerem o possível por tirar partido desta atitude sem precedente dificilmente voltará a abrir-se nova oportunidade à esquerda. As motivações do PCP e do BE serão as mais oportunistas – quais não são no jogo político? – mas nem por isso deixam de ser um contributo importante para a respiração do nosso sistema democrático. Induzem abertura, mudança, renovação, menos barreiras ao compromisso.

Qualquer solução de governo deve assegurar condições de estabilidade e compromisso com as nossas responsabilidades internas e externas. No horizonte apenas se vislumbram duas soluções plausíveis. Um governo minoritário da coligação, mais forte por si só, mas insuficiente, sempre dependente do PS. Ou um governo minoritário do PS, menos forte por si só (não ganhou as eleições), mas com apoio maioritário em questões essenciais. Tudo indica que Cavaco Silva nomeie Passos Coelho, ainda que seja confrontado com uma alternativa mais forte. Mesmo perante uma rejeição de um governo da coligação, talvez seja tentado a impedir um executivo alternativo em nome de um alegado ‘governo contra natura’. Em democracia não há governos contra natura. Haverá governos que o Parlamento não suporta. Pode um Presidente da República deixar um governo falhado em gestão, havendo uma solução com apoio maioritário? Pode. Mas não deve. O País não tem tempo a perder. E os riscos da democracia são inerentes à sua imperfeição.

Os cães de guarda

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/10/2015)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Recentemente Arons de Carvalho escreveu um texto no “Público” onde demonstra como, ao contrário do passado, em que havia jornais sem alinhamento político, outros alinhados à esquerda e outros alinhados à direita, hoje temos apenas jornais mais ou menos desalinhados e jornais claramente posicionados à direita. Apesar de considerar que se trata de um problema democrático, conseguiria viver com isto se os jornalistas mantivessem intacto o rigor informativo e não cedessem a agendas estranhas ao seu próprio ofício. Acontece que não é isso que se está a passar. Não foi isso que se passou na campanha eleitoral, não é isso que já se está a passar na campanha presidencial – deixo para outro momento o gravíssimo episódio da despedida de Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, poucos dias depois de se lançar na corrida a Belém – e, acima de tudo, não é isso que está a acontecer no acompanhamento do processo negocial para a possível e legítima formação de um governo de esquerda.

A total ausência de equilíbrio no comentário político – já assisti a vários debates televisivos onde todos os participantes se opõem aos entendimentos à esquerda é apimentada por manchetes sensacionalistas que lançam o pânico, simulando um ambiente pré-PREC.

Com uma queda de 2% no PSI-20 (no início de setembro caiu 2,5% por causa da incerteza na economia chinesa, sem que isso merecesse grande atenção) o “Correio da Manhã” permitiu-se este título: “Medo de Catarina assusta a bolsa”. Mas não seria honesto fazer uma análise do comportamento da comunicação com base num pasquim. Sou exigente e por isso tenho de referir um dos melhores jornais portugueses: aquele onde escrevo. No site, um título anuncia: “Ações descem e juros sobem com medo de um governo de esquerda”. Uma frase arriscada, já que não é fácil estabelecer relações causais evidentes, de uma forma que um jornalista possa afirmar ser objetiva. Ainda mais porque o próprio texto modera essa certeza, explicando que a bolsa nacional “também é afetada pela descida das pares europeias, que seguem a tendência já registada na Ásia” e referindo que “novos dados negativos na China reforçam receios sobre o crescimento da economia a nível mundial”. Na realidade, sem que nada de especial tivesse acontecido, os juros da dívida portuguesa estavam ontem de manhã a subir a dois anos e a cair a cinco e a dez anos. O que terá acontecido ao governo de esquerda que explique isto?

Helena Garrido, uma das mais ferozes defensoras do atual Governo, ajudou a lançar, no “Jornal de Negócios”, o pânico. Dados financeiros absolutamente naturais perante o cenário de incerteza política são transformados numa catástrofe sem precedentes. Não é a primeira vez. Já aconteceu antes, quando, perante a possibilidade de queda do anterior governo, no episódio “irrevogável”, os defensores de Passos Coelho se juntaram para mostrar que os efeitos do BES e do BPN eram uma brincadeira de crianças quando comparados com os efeitos de qualquer mudança política em Portugal.

O alinhamento editorial contra a possibilidade de um entendimento à esquerda (totalmente natural na generalidade das democracias europeias) atravessa a generalidade da comunicação social. Do “Público” ao “Correio da Manhã”, da TVI à SIC, passando pelo “Expresso” e pela TSF. Não me espanta. Estamos a falar numa alternativa real. Agora é a doer. António Costa, se insistir neste caminho, vai ficar a perceber quem manda e como manda. E como a maioria dos supostos “livres pensadores” não se atrevem a desalinhar com a posição de quem manda.

Acompanhar a campanha eleitoral e acompanhar estes momentos tem sido muito instrutivo sobre o estado em que se encontra a comunicação social portuguesa. Não vou aqui apelar a tempos do jornalismo imaculado, em que a maioria dos jornalistas resistia sem vacilar aos poderes político e económico. Esses tempos nunca existiram. A comunicação social não é, nunca foi, um contrapoder. É um palco onde os poderes se digladiam e onde domina o mais forte. Mas não tenho memória de, em democracia, ter visto uma comunicação social tão alinhada com o poder.

Os jornalistas parecem acreditar que a partir de uma determinada fronteira estão dispensados de qualquer isenção política. Catarina Martins, extraordinária quando roubava votos ao PS e podia assim permitir a vitória da coligação, passou a ser uma perigosa radical quando começou a garantir uma maioria de governo. Catarina, a revelação, passou a ser Catarina, a destruidora da bolsa nacional. Nada disse de novo. Pelo contrário, até moderou o discurso.

Recordo-me de Paulo Rangel ter falado da “asfixia democrática”. Entrei para um jornal em 1989. Não me recordo, nestes 26 anos, de ter alguma vez sentido um ar tão difícil de respirar no pluralismo informativo. Sentiu-se na campanha eleitoral, com uma vergonhosa parcialidade em quase todos os órgãos de comunicação social, e continua a sentir-se agora, com um cerco a um processo negocial legítimo, onde é quase impossível ouvir na televisão alguém a defender esta solução. Carlos Silva e Sérgio Sousa Pinto foram transformados nas mais relevantes figuras do Partido Socialista, deixando para segundo plano figuras secundárias como Carlos César, Ferro Rodrigues, João Soares ou António Arnaut.

A questão a que os jornalistas têm de responder é se querem ser o mensageiro ou uma parte na contenda. Depende da escolha que fizerem a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social onde trabalham.

O título deste artigo é inspirado no livro do jornalista Serge Halimi, sobre o papel dos media, “Os novos cães de guarda”.