De como a luta de classes vai matar a democracia

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/03/2019)

Miguel Sousa Tavares

(Considero este o pior artigo que li da autoria do Miguel Sousa Tavares. Toda a argumentação é um chorrilho de banalidades dissertando sobre o que me parece que só conhece de ouvir dizer, a saber, as redes sociais. A Estátua, publica uma crítica no artigo a seguir.

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Estátua de Sal, 16/03/2019)


Passeando-se pelo Facebook, José Pacheco Pereira encontrou ali “bullying, tribalismo, radicalismo, cobardia anónima e ajustes de contas pessoais”. Notável e tardia descoberta, embora não seja verdadeiramente recente. Foi há uns dez anos, estava o monstro nos seus inícios, que ele me tentava convencer de que eu resistia à emergência das redes sociais porque via nelas a ameaça da democratização da opinião do “povo” contra as “elites” cuja opinião monopolizaria todo o espaço público. Era a época em que ele achava também que o jornalismo tinha sempre uma agenda política própria cujo fim último era o de sabotar o poder político legitimamente eleito e constituído. Onde esse tempo já vai! E, todavia, dez anos não foi assim há tanto tempo…

Mas, em dez anos, já houve tempo para que o próprio Pacheco Pereira experimentasse na pele o execrável veneno da “democratização” da opinião consumado através das redes sociais. E, sobretudo, houve tempo para que ele e qualquer espírito lúcido pudessem lamentar a morte lenta do jornalismo de referência, às mãos dos instrumentos de destruição maciça dos senhores Zuckerberg, Bezos e outros que tais. E tempo para que todos aqueles que continuam a acreditar na democracia como instrumento de escolha dos governantes estejam seriamente assustados com a alternativa fornecida pelas fake news e a informação canalizada por algoritmos e dirigida a massas crescentes de eleitores conscientemente mantidos na ignorância e na desinformação. Neste aspecto, a pergunta já não é se existe uma conspiração contra a democracia alimentada através das redes sociais: uma comissão de inquérito do Parlamento Britânico respondeu a isso com um sim taxativo. A pergunta é como lhe fazer frente e a tempo de evitar novas falsificações da vontade dos eleitores, como o foram o ‘Brexit’ ou as eleições americanas ou italianas.

A resposta a essa pergunta não é fácil. O Facebook, o Instagram, o Twitter — o meio favorito para que os idiotas se façam eleger e governar — são verdadeiros instrumentos do Diabo. Olhados de perto, todas essas inócuas redes cujos utilizadores juram só aproveitarem para reencontrar os colegas da primária ou fazerem contactos profissionais, constituem um catálogo sabiamente fundado em todos os defeitos da natureza humana, a que, mais tarde ou mais cedo, eles irão sucumbir. Depois, é claro, é conforme a educação e os princípios de cada um. Mas a grande massa dos que ali desaguam, entregue sem freio a si própria, é um espectáculo lastimável do pior da natureza humana. A tal cobardia anónima é, fatalmente, a primeira tentação irresistível: ofender, insultar, mentir, caluniar, difamar, inventar sobre o outro a coberto do anonimato, podendo tudo dizer sem nada arriscar, deve ser uma verdadeira catarse. A seguir vem o exibicionismo (a par do correspondente voyeurismo, para o qual existem os exibicionistas), e a noção de que se é tão mais importante quanto se expõe a vida aos outros, por mais idiota que ela seja. Para sermos sérios, não foram precisas as redes sociais para descobrir isto: as “massas” foram sempre o território por excelência onde o mito do “bom povo” de desfazia perante a realidade pura e dura — bastava imaginar o Coliseu romano na Antiguidade, as fogueiras da Inquisição ou os estádios de futebol nos tempos de hoje, para o constatar. Sempre me perguntei onde estava, apenas cinco dias antes — a 24 de Abril de 1974 — o bom povo português que desfilou em massa contra o fascismo no 1º de Maio seguinte.

A coragem das multidões é facílima, a sua cobardia é inevitável. Nas redes sociais este saudável exercício de ajuste de contas com tudo e mais alguma coisa está ao alcance de um simples teclado de computador, como ainda recentemente o constatámos com o linchamento popular do juiz-desembargador Neto de Moura — que, por si só, canalizando nele toda a fúria popular, aliviou tantas consciências, elevou tantos cidadãos ao estatuto de heróis e, quem sabe, terá resolvido o problema da violência contra as mulheres. Depois de assistirem ao desfile dos “notáveis” contra o juiz e não desejando ser menos do que eles, o bom povo das redes sociais, ao que li, lançou sobre o homem uma barragem sem precedentes de insultos, ofensas e ameaças, culminando em acto de suprema coragem qual foi a criação de um site com milhares de assinaturas a desafiar o juiz a processá-los, tal como aos “notáveis”. A coisa chegou a tal extremo que até Daniel Oliveira, reconhecendo ter contribuído para tais reacções do lado dos “notáveis”, se viu forçado a escrever contra a “histeria linchadora”.

Mas o erro de Daniel Oliveira não foi o de não ter antecipado a “histeria linchadora” do povo das redes sociais — isso seria demasiado ingénuo para ser credível. O seu erro, tal como o de Pacheco Pereira, foi o de não ter percebido que aquilo que é a essência do mal das redes sociais, além da cobardia e do exibicionismo, é a luta de classes. Para um marxista é difícil aceitar que, ao contrário do dogma, a luta de classes não seja o motor que faz avançar a história, mas sim o que a faz regredir. E, todavia, é disso que se trata. O povo que vomita opiniões nas redes sociais, com a mesma facilidade com que vomita perdigotos, é justamente aquele que acredita, como outrora Pacheco Pereira, que tem direito à “democratização da opinião”. E que isso o dispensa de ter uma opinião informada, dando-se ao trabalho de ler livros, jornais, de ouvir os outros, de reflectir sobre os assuntos, de consultar relatórios, estudos, enfim, de ter trabalho com o assunto. Aliás, basta seguir um qualquer debate sobre qualquer tema nas redes sociais para logo perceber que ali ninguém está interessado em debater o que quer que seja nem sequer em convencer o outro: rapidamente qualquer esboço de troca de argumentos descamba para o insulto pessoal mais rasteiro e ordinário. Não há ali sombra de democratização de opinião, de alternativa popular às elites, do que quer que seja que se possa suportar. É a mediocridade e a inveja a arrombarem a porta, já nem sequer da democracia, mas de um mundo simplesmente habitável. E é esta gente, com estes valores e esta educação cívica e política, que elege os Trumps, os Bolsonaros, as Le Pens e os Salvinis.

Ou então, como fazem as novas gerações, abstém-se de votar, de participar na política e na vida política sob qualquer forma, porque diz que esta não a representa nem lhe interessa. Mas também não lê jornais e, tirando os seus nichos de interesses, não segue o que se passa no mundo. Todos os políticos e todos os editores de informação do mundo inteiro procuram desesperadamente a resposta à pergunta de como trazer as novas gerações para o seu mundo — pois que não têm outro para lhes oferecer. Ninguém encontra a resposta certa, mas uma coisa eu sei: a democracia representativa, tal como a conhecemos (e eu não conheço outra) não sobreviverá sem um jornalismo de referência. O verdadeiro jornalismo não ameaça o poder político democrático, não usurpa a sua legitimidade própria: nunca o fez. Pelo contrário, é a sua primeira trincheira de defesa. Contra si mesmo e contra essa nova e tenebrosa ameaça que é o obscurantismo organizado das massas.

Hoje, assistimos à morte acelerada do jornalismo às mãos daqueles que na sombra descobriram como manipular o sinistro algoritmo capaz de controlar os milhões de brothers das redes sociais. E, a par da morte do jornalismo, perfila-se a morte das democracias. Que ninguém duvide.


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Os cães de guarda

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/10/2015)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Recentemente Arons de Carvalho escreveu um texto no “Público” onde demonstra como, ao contrário do passado, em que havia jornais sem alinhamento político, outros alinhados à esquerda e outros alinhados à direita, hoje temos apenas jornais mais ou menos desalinhados e jornais claramente posicionados à direita. Apesar de considerar que se trata de um problema democrático, conseguiria viver com isto se os jornalistas mantivessem intacto o rigor informativo e não cedessem a agendas estranhas ao seu próprio ofício. Acontece que não é isso que se está a passar. Não foi isso que se passou na campanha eleitoral, não é isso que já se está a passar na campanha presidencial – deixo para outro momento o gravíssimo episódio da despedida de Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, poucos dias depois de se lançar na corrida a Belém – e, acima de tudo, não é isso que está a acontecer no acompanhamento do processo negocial para a possível e legítima formação de um governo de esquerda.

A total ausência de equilíbrio no comentário político – já assisti a vários debates televisivos onde todos os participantes se opõem aos entendimentos à esquerda é apimentada por manchetes sensacionalistas que lançam o pânico, simulando um ambiente pré-PREC.

Com uma queda de 2% no PSI-20 (no início de setembro caiu 2,5% por causa da incerteza na economia chinesa, sem que isso merecesse grande atenção) o “Correio da Manhã” permitiu-se este título: “Medo de Catarina assusta a bolsa”. Mas não seria honesto fazer uma análise do comportamento da comunicação com base num pasquim. Sou exigente e por isso tenho de referir um dos melhores jornais portugueses: aquele onde escrevo. No site, um título anuncia: “Ações descem e juros sobem com medo de um governo de esquerda”. Uma frase arriscada, já que não é fácil estabelecer relações causais evidentes, de uma forma que um jornalista possa afirmar ser objetiva. Ainda mais porque o próprio texto modera essa certeza, explicando que a bolsa nacional “também é afetada pela descida das pares europeias, que seguem a tendência já registada na Ásia” e referindo que “novos dados negativos na China reforçam receios sobre o crescimento da economia a nível mundial”. Na realidade, sem que nada de especial tivesse acontecido, os juros da dívida portuguesa estavam ontem de manhã a subir a dois anos e a cair a cinco e a dez anos. O que terá acontecido ao governo de esquerda que explique isto?

Helena Garrido, uma das mais ferozes defensoras do atual Governo, ajudou a lançar, no “Jornal de Negócios”, o pânico. Dados financeiros absolutamente naturais perante o cenário de incerteza política são transformados numa catástrofe sem precedentes. Não é a primeira vez. Já aconteceu antes, quando, perante a possibilidade de queda do anterior governo, no episódio “irrevogável”, os defensores de Passos Coelho se juntaram para mostrar que os efeitos do BES e do BPN eram uma brincadeira de crianças quando comparados com os efeitos de qualquer mudança política em Portugal.

O alinhamento editorial contra a possibilidade de um entendimento à esquerda (totalmente natural na generalidade das democracias europeias) atravessa a generalidade da comunicação social. Do “Público” ao “Correio da Manhã”, da TVI à SIC, passando pelo “Expresso” e pela TSF. Não me espanta. Estamos a falar numa alternativa real. Agora é a doer. António Costa, se insistir neste caminho, vai ficar a perceber quem manda e como manda. E como a maioria dos supostos “livres pensadores” não se atrevem a desalinhar com a posição de quem manda.

Acompanhar a campanha eleitoral e acompanhar estes momentos tem sido muito instrutivo sobre o estado em que se encontra a comunicação social portuguesa. Não vou aqui apelar a tempos do jornalismo imaculado, em que a maioria dos jornalistas resistia sem vacilar aos poderes político e económico. Esses tempos nunca existiram. A comunicação social não é, nunca foi, um contrapoder. É um palco onde os poderes se digladiam e onde domina o mais forte. Mas não tenho memória de, em democracia, ter visto uma comunicação social tão alinhada com o poder.

Os jornalistas parecem acreditar que a partir de uma determinada fronteira estão dispensados de qualquer isenção política. Catarina Martins, extraordinária quando roubava votos ao PS e podia assim permitir a vitória da coligação, passou a ser uma perigosa radical quando começou a garantir uma maioria de governo. Catarina, a revelação, passou a ser Catarina, a destruidora da bolsa nacional. Nada disse de novo. Pelo contrário, até moderou o discurso.

Recordo-me de Paulo Rangel ter falado da “asfixia democrática”. Entrei para um jornal em 1989. Não me recordo, nestes 26 anos, de ter alguma vez sentido um ar tão difícil de respirar no pluralismo informativo. Sentiu-se na campanha eleitoral, com uma vergonhosa parcialidade em quase todos os órgãos de comunicação social, e continua a sentir-se agora, com um cerco a um processo negocial legítimo, onde é quase impossível ouvir na televisão alguém a defender esta solução. Carlos Silva e Sérgio Sousa Pinto foram transformados nas mais relevantes figuras do Partido Socialista, deixando para segundo plano figuras secundárias como Carlos César, Ferro Rodrigues, João Soares ou António Arnaut.

A questão a que os jornalistas têm de responder é se querem ser o mensageiro ou uma parte na contenda. Depende da escolha que fizerem a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social onde trabalham.

O título deste artigo é inspirado no livro do jornalista Serge Halimi, sobre o papel dos media, “Os novos cães de guarda”.