Entre a mentira e o logro

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/11/2024)


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Nós, a multidão, passámos estes últimos anos a ser bombardeados com um novo léxico político: “desinformação”, “fakenews”, “nova normalidade”, “intrusão”.

A relação dos seres gregários funda-se na confiança. É assim num formigueiro, numa colmeia, numa alcateia, numa tribo, numa formação militar, num gangue. Na constituição de equipas para operações especiais uma das perguntas aos candidatos era: quem escolhias para te acompanhar na travessia de um rio perigoso? Isto é, em quem confias.

A organização social e a organização política que dela decorre assenta na relação entre autoridade e fiabilidade. As notas de banco são credibilizadas pela assinatura do governador, os decretos reais continham um selo de chumbo e lacre com as armas do soberano. As mobilizações para uma guerra são assinadas pelo comandante-chefe. As grandes campanhas, as fatwa, as cruzadas, as descobertas dos europeus foram decretadas com base numa verdade que as tornava imperiosas. Acreditámos no segredo profissional de médicos e advogados. Na reserva da nossa correspondência. Acreditámos nos editais e nos calendários. Eram a verdade. Hoje a verdade é uma ratoeira. É um som transmitido por um karaoke, é uma mercadoria. As nossas doenças, as nossas confissões, as nossas escolhas são vendidas, na melhor das hipóteses. Na pior, matam, como os pagers que uma empresa de telecomunicações vendeu a Israel para assassinar eventuais inimigos.

Na Bíblia, Cristo, a figura de referência civilizacional do Ocidente, proclamou: Eu sou a verdade! Maquiavel, com os pés na terra e rodeado de semelhantes, adaptou um estado ideal que de facto nunca existiu e preferiu escrever sobre a realidade concreta, estabelecendo o conceito de verdade efetiva das coisas (veritá effetuale), fundamental para compreendermos o interesse pela realidade como ela é e não como uma projeção idealizada. A verdade efetiva serviu de padrão para aferir a correspondência entre o “discurso público” dos políticos e dos dirigentes e a necessidade de obter a adesão a uma realidade. Mas a palavra continha sempre uma intenção de verdade. Os membros da sociedade continuavam a jurar. A honra continuava a ser um valor e a desonra uma nódoa infamante.

A justificação da existência de armas de destruição em massa por parte do governo de Saddam Hussein para George Bush Jr decretar a invasão do Iraque terá sido o exemplo mais próximo e mais marcante da passagem da “verdade efetiva” para a pós-verdade. Pós verdade é um eufemismo para um tipo de mentira, que pode percorrer vários patamares, da pura invenção, por mais inverosímil que seja, à manipulação de factos que podem ser plausíveis e às promessas irrealizáveis de salvação. A pós verdade é o sinónimo do logro declinado nos vários significados, de burla, de engano com dolo, de fraude, de intrujice, ludíbrio, de trampolinice, de trapaça. Vivemos no reino do logro. Do tipo das barras batizadas de “delícias do mar” e que não são nem peixe, nem marisco e que nem passaram pelo mar.

A invasão do Iraque marca uma nova era no Ocidente na relação entre governantes e governados: a vitória dos grandes aparelhos de manipulação sobre a realidade, a transformação dos cidadãos em espetadores de espetáculos de efeitos especiais, a purificação dos canalhas e a sua transmutação em exemplos, como é o caso de Paulo Portas ou Durão Barroso, os videntes que viram as provas da mistificação que justificou a invasão do Iraque e que são hoje criaturas tidas por decentes e respeitáveis. A política passou a replicar os jogos da Marvel e os políticos surgiram como “transformers” e vendedores de delícias do mar como se fossem lagosta.

Do mesmo modo que a metralhadora alterou o modo de fazer a guerra na Grande Guerra, que a arma atómica alterou a a forma de as grandes potencias se relacionarem após a Segunda Guerra, a guerra da comunicação da era da informação proporcionada pelas novas tecnologias alterou de novo as táticas e acentuou a insídia na guerra. A pós-verdade são as imagens mais ou menos manipuladas que surgem nos ecrãs de televisão com paisagens e pontos assinalados por uma cruz-alvo, são atores-comentadores a arengar uma narrativa como antigamente os contadores de histórias faziam nas feiras, são um grande espetáculo de massas. Para os manipuladores da opinião, o genocídio de Gaza é um festival de efeitos especiais. A multidão mundial está tão anestesiada pela mentira que não reage. Estamos impermeabilizados. Os pilotos israelitas que bombardeiam Gaza marcam pontos no seu ecrã de videojogos. A pós verdade é a desumanização. Começa por ser a desumanização dos outros e acabará por ser a desumanização dos detentores das máquinas de jogos, sejam caças F35 ou drones.

Os europeus, com a velha arrogância, têm apresentado a nova arte de manipular as opiniões como uma especificidade americana, de que Trump é o mais exuberante talento. Pura mistificação. A utilização da mentira e do logro sob a designação de pós-verdade está tanto na ordem do dia na Torre Trump em Nova Iorque como no edifício Berlaymont em Bruxelas, sede da Comissão Europeia. Ursula Vaon Der Leyen e os seus comissários mentem, inventam e manipulam tanto quanto a nova administração Trump. E mentem sobre os mesmos grande temas, as guerras na Ucrânia e na Palestina, mentem quanto a promessas de uma nova era de leite e mel se continuarem a drenar fundos para essas guerras, mentem quanto aos objetivos de fazer a América Grande de Novo ou a Europa um continente de prosperidade, desde que derrotem os russos, os chineses, saqueiem África, dominem o Médio Oriente e determinem o preço do petróleo, rasguem os protocolos sobre as alterações climáticas, fechem as fronteiras aos imigrantes provocados pelas suas guerras.

Que diferenças, exceto de forma, existe entre o discurso pistoleiro de Úrsula Von Der Leyen, de Borrell e da sua sucessora Kallas como representante da política externa da U E, da neoliberal Albuquerque dos secretários da nova administração Trump? Que diferença existe entre os e as warmongers americanos e americanas dos e das warmongers da União Europeia? A diferença da relação entre a verdade e a realidade no discurso dos dirigentes americanos e dos dirigentes europeus é a mesma entre um carniceiro e um assassino de arma fina. Os painéis de pastores das TV portuguesas não diferem dos painéis dos pastores nos Estados Unidos. A norma é o televangelismo.

A percepção de que a Europa não é o folclore americano resulta da desinformação a que somos sujeitos através da “armamentização” da comunicação social. O filósofo Marshall McLuhan escreveu há anos que “o meio é a mensagem”. A diferença entre a mentira sob o eufemismo de pós-verdade americana e europeia é que nos Estados Unidos o meio é agora Elon Musk, o homem mais rico do mundo que comprou uma plataforma de comunicação global, o X, e é o chefe de estado sombra do que era a maior superpotência do mundo. Essa é a diferença. Uma diferença de armamento e de dimensão entre uma tromba de água e um regador. Os Estados Unidos com a sua rede de satélites e de empresas de dados e comunicações, da Starlink ao Google, podem fazer descarregar um dilúvio de mentiras, ou de pós-verdades sobre o mundo, uma “dana” como a de Valência à escala planetária e a Europa não consegue provocar mais que chuviscos, mesmo com as tentativas em curso de censura e domínio dos meios de comunicação que ainda restam no domínio público ou fora dos grandes conglomerados.

No essencial, a germinação e cultivo em estufa de dirigentes quer nos Estados Unidos quer na Europa obedece ao mesmo processo: um grande apoderado paga uma generosa bolsa de estudos para um seu pupilo vir a ocupar um lugar na administração do Estado que favoreça os seus negócios. Musk financiou Trump, mas Peter Thiel, o cofundador do PayPal, rastejando nas sombras, garantiu que o seu homem, JD Vance, entrasse no par presidencial como vice-presidente. Jeff Bezos, atrasado para a festa, entrou na onda falhando alguns dias, mas garantindo que o seu Washington Post não endossasse nenhum candidato. Aqui na Europa ninguém que coloque em causa as verdades únicas da guerra na Ucrânia e do aumento das despesas militares chegará a qualquer posto de relevo. Apenas têm lugar à manjedoura os que que puxam a carroça do dono.

Quer nos Estados Unidos quer na Europa existe uma oligarquia no poder que funde os negócios do Estado e os negócios privados e constitui uma elite governante. Os negócios renderão biliões, milhões de pessoas morrerão e incontáveis crimes serão cometidos. Como li em algum lugar: “Estamos além do espelho. Estamos todos a viajar pelos esgotos da informação. Trump é um bacilo, mas o problema são os canos.” E pelos canos escorrem muitos outros dejetos.

O essencial são os valores. O valor da palavra dada. A democracia assenta no caráter dos cidadãos e em particular dos que têm maiores responsabilidades. Quando não há caráter há canalhas. Temos um regime de canalhas. Quando se abicam dos valores criamos um mundo de faquistas e de trafulhas.

Os EUA omnipresentes em todos os grandes projectos da UE

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 10/11/2024, revisão da Estátua)

Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.


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E eis que, subitamente, a comunicação social mainstream parece ter acordado para a vida e, finalmente, constatou que a Comissão Europeia, chefiada por Ursula Von Der Leyen, quando se refere aos tais “valores” da sua Europa, está, afinal, a falar dos valores que atribui, benevolamente, ás famílias europeias bilionárias. Diz o The Guardian que a sua “investigação” revelou que 17 bilionários, listados pela Forbes, constam como beneficiários finais de projetos no valor de 3.3 mil milhões de euros.

Vá-se lá saber o porquê da demora em constatar uma realidade que se repete ininterruptamente há dezenas de anos. Uma realidade que se desenrola ao mesmo ritmo que aumentam os sem abrigos, a crise na habitação, saúde e educação, a guerra e a instabilidade social. Mas ainda mais inexplicável é o confinamento desta “investigação” ao sector agrícola e aos projetos ligados à política agrícola comum. Afinal, sendo mau, uma vez que os pequenos agricultores passam uma crise sem precedentes, mesmo assim, estamos a falar de dinheiro para produzir alimento. Ora, casos existem, muito mais danosos e óbvios, aos quais, como veremos, o The Guardian e a comunicação social mainstream, fazem vista grossa.

Na verdade, as grandes corporações detentoras da comunicação social mainstream, das redes sociais e dos recursos financeiros, financiando as campanhas eleitorais, que se vão sucedendo no âmbito de um processo democrático absolutamente falacioso, do qual as últimas eleições nos EUA são o último dos paradigmas, não apenas conseguem que os governos, sempre domesticados, lhes baixem os impostos, como ainda logram obter mais perdões, isenções fiscais, e ainda o acesso aos fundos públicos para investimento. Uma espécie de “socialismo dos ricos”, em que o estado socializa os custos e os riscos e privatiza os lucros.

O Banco Europeu de Investimento, no seu último “Investment Survey 2004”, demonstra como se passa uma parte importante desta transferência.

Entre o 1.º trimestre de 2020 e o 1.º de 2024, o investimento corporativo apenas cresceu positivamente durante um trimestre (o 3.º trimestre de 2023); em todos os restantes, apenas houve crescimento positivo nos trimestres em que se deu um reforço do investimento realizado pelo Estado e pelas famílias. Apesar das centenas de milhares de milhões de euros que a UE destina para projetos de empresas privadas, no 1.º trimestre de 2024, o investimento corporativo evoluiu negativamente. Ou seja, o dinheiro que “investimos” nestes seres privilegiados, não está a alavancar o investimento, mas, sim, a alavancar a acumulação.

E se olharmos para o lado da acumulação, encontraremos muitas das respostas, nomeadamente, a forma como um país estrangeiro suga muitos dos recursos por nós produzidos. A guerra da Ucrânia tem aqui um papel absolutamente fundamental, como catalisador do crescimento do investimento público e da transferência de rendimento para as grandes corporações e, através destas, para as famílias mais ricas. Daí que as elites oligárquicas ocidentais sintam um desespero brutal na necessidade de manutenção do conflito na Ucrânia. Mesmo os EUA, como veremos, ficam com a sua parte, apesar do investimento continuar a ser suportado quase exclusivamente pela UE.

Vejamos o que se passa, por exemplo, com o Fundo Europeu para a Defesa, que constitui uma fonte inestimável de dinheiro para as maiores corporações e multibilionários do ocidente. Vejamos o caso da alemã RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH, a qual, durante a segunda guerra mundial, cresceu e engordou à custa da destruição da Europa e do mundo, e se prepara, no século XXI, para repetir a dose. Mas, desta feita, reparte o bolo com os amigos do costume.

A RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH é coordenadora e beneficiária de 6 grandes programas de “investimento” em capacidade militar instalada (pólvora, propelentes, munições 155 mm, camuflagem, transporte blindados, proteção de infraestruturas). Só no projeto para aumento de produção de cartuchos de 155mm, esta empresa garante 20.560.755,45€. Ou seja, nós, europeus, pagamos as máquinas e eles ficam com os lucros da venda das munições. No final, morrem mais russos, ucranianos e todos ficamos mais pobres, arriscando uma guerra mundial.

Um simples olhar para a estrutura de capital da Rheinmetall e faz-se luz: Blackrock, UBS, Fidelity ou Goldman Sachs, todos comem do bolo, garantindo as condições políticas e financeiras alinhadas para a alavancagem dos lucros e da concentração da riqueza. A conclusão só pode ser uma, é a de que eles estão por todo o lado e toda a economia conflui, como um grande sifão, para os bolsos de um punhado de privilegiados, pelos quais todos temos de sofrer.

Outro dos grandes comensais deste imenso banquete que são os fundos comunitários, para as empresas, é a também alemã OHB SYSTEM AG, que recebeu 90.000.000,00€ para a construção de um sistema de alerta para ataque por mísseis, a partir do espaço. Se por aqui percebemos por que razão foi lançado o alerta, nunca confirmado, de que a Rússia estaria a desenvolver sistemas de mísseis no espaço, a verdade é que a mensagem foi recebida por quem haveria de ser e, não muito tempo depois, a Comissão Europeia de Ursula Von Der Leyen estava a cumprir o que dela se esperava, aprovando o que fosse necessário ser aprovado.

Um olhar para a estrutura accionista da OHB, que é uma empresa multibilionária na área aeroespacial, e percebemos o porquê de tal facilidade na entrega do nosso dinheiro. O The Guardian, que estava tão preocupado com os fundos para a agricultura, até custa a perceber como deixou esta passar em claro: 65,4% da OHB pertencem à família Fuchs, uma das famílias mais ricas da Alemanha e do mundo. Uma vez mais, como uma organização mafiosa, os amigos do costume ganham a sua parte, através de um fundo sedeado no Luxemburgo (Orchid Lux HoldCo S.a. r.l.)mas que se percebe ser uma fachada de interesses norte- americanos, mas com morada de contacto em Nova Iorque.

Já para a Itália, a comissão de Von Der Leuyen financiou um projeto ligado a “sistemas de propulsão para domínio aéreo”, que atribui 56.202.596,26€ à GE AVIO SRL, uma empresa privada, conhecida como AVIO AERO, ligada ao sector aeroespacial, mas fazendo parte do grupo General Eletric Company, da sua divisão aeroespacial.

Mesmo a maioritariamente pública AIRBUS DEFENCE AND SPACE SAS, não escapa à regra. Sendo outra dos habitués dos fundos comunitários ligados à guerra e à investigação, desenvolve 134 projetos que falam por si, financiados em milhares de milhões de euros em investimentos. Da investigação, ao digital, passando pela defesa, energia atómica e espaço, os impostos dos trabalhadores europeus são os grandes alimentadores deste gigante corporativo. Uma consulta ao portal EU Funding & Tenders, é suficiente para desiludir muitos dos crentes na capacidade de inovação própria das grandes corporações ocidentais. Valha-nos que esta é pública e os seus lucros, são menos impostos que pagamos. Mas existe sempre um “mas”.

A AIRBUS, cuja parte pública ainda é considerável, tem, contudo, entre os investidores privados, nomes como: Vanguard, Goldman Sachs, Fidelity, UBS e uma diversidade de trusts detidos por empresas americanas e não só. Ou seja, a AIRBUS mantém-se pública permitindo a sucção de resultados pela oligarquia, principalmente estado-unidense.

Bem sei que se tratam de investimentos a realizar no espaço europeu, criando empregos e competências para os trabalhadores europeus. Contudo, não posso deixar de identificar um conjunto de circunstâncias padronizadas que tornam tudo isto imensamente suspeito.

Sem fazer uma busca exaustiva, em todos os grandes projetos que consultei, encontrei capitais norte-americanos de alguma forma envolvidos, colocando-se então a seguinte questão: porque razão os grandes investimentos públicos europeus envolvem, sempre, de alguma forma, directa ou indiretamente, capitais estado-unidenses?

Outra questão que surge, na decorrência desta, é a seguinte: em que medida os riscos identificados pelos EUA (risco de “invasão russa”; o risco de “ataque no espaço sideral pela Rússia”; o risco relacionado com as relações comerciais com a República Popular da China) influenciam: primeiro, a criação de necessidades de investimento público e a criação das estruturas empresariais de resposta; segundo, a suscetibilidade de aprovação desses projetos pela Comissão Europeia.

Por fim, se a resposta para a presença de capitais norte-americanos por toda a indústria de defesa – e indústria estratégica – da União Europeia, é a de que o mercado é livre e, como tal, os capitais de Wall Street têm direito de entrar nas estruturas de capital das corporações europeias, então, onde fica a independência e autonomia que Mario Draghi e Ursula Von Der Leyen advogaram para a Europa?

É que não podemos deixar de pensar que será muito difícil à Europa Comunitária – e respectivos estados membros – conseguir almejar a tal independência e autonomia estratégicas, estando o seu complexo militar-industrial e complexo industrial estratégico, tão suportados ou influenciados por capitais estrangeiros.

Mais estranho ainda é que, numa pura lógica de “deRisking”, tão usada como pretexto para o desacoplamento em relação á economia chinesa, não veja a UE de Von Der Leyen qualquer risco nas características corporativas do complexo industrial europeu, principalmente o que tem a ver com aspetos estratégicos da defesa, vigilância e capacidade de resposta.

Para além do cheiro mafioso que tal influência traz consigo, indiciando a existência de uma lógica que aponta para o desenvolvimento de determinados empreendimentos, em espaço europeu, apenas porque os EUA comem uma parte, ou indiciando que a benevolência política dos financiamentos europeus está, em muito, ligada a essa dupla característica, presença de capitais americanos e projetos que respondam a riscos identificados pela Casa Branca, esta realidade demonstra, ainda, a falta de qualquer traço de seriedade na atual estrutura de poder na UE.

Então, no meio de tanto risco, não vê a UE qualquer risco para as empresas europeias, na utilização, pelos EUA, de leis como o “Trade with the enemy act” (Lei do negócio com o inimigo)? Não bastaria o caso da ASML, fabricante de impressoras, EUV e DUV de semicondutores, impedida de vender parte importante da sua produção para a China, apenas e só, por ordem dos EUA, criando graves problemas à economia dos Países Baixos? Tudo porque estes têm relações de capital e propriedade industrial com a ASML, uma empresa que é o que é hoje, essencialmente à custa de fundos comunitários?

E é assim que se apanham as mentiras e as falácias. Então, neste caso, já não existe risco de dependência e submissão estratégica a interesses alheios? Neste caso, Ursula Von Der Leyen já considera que a dependência não faz mal? Será assim, ou será porque, as respostas que Ursula von Der Leyen vai criando no espaço europeu, visam, não responder a necessidades dos povos europeus, mas a necessidades dos EUA, num total, dependente, estratégico e criminoso alinhamento com as políticas da Casa Branca?

Hoje, Von Der Leyen não garante apenas a continuidade dos riscos que alimenta com o seu extremismo. Garante também que esses riscos constituem o pretexto ideal, para que se negue um futuro às próximas gerações europeias. Por que razão a imprensa mainstream não vê nada disto?

Vejam a sua estrutura de capital, e depois falamos. Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.

Fonte aqui.


A falácia do rearmamento da Europa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/11/2024)


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Falar hoje, finais de 2024, de criar e desenvolver uma “indústria de defesa europeia” para se opor aos malvados russos de Putin é uma dupla falácia de quem não tem qualquer pudor em mentir.

Paulo Portas, no seu sermão dominical, falou na necessidade de a Europa investir em defesa para se opor a que Putin “venha por aí abaixo”. O homem que enquanto ministro da Defesa foi o vidente que viu as provas de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, tal como o outro vidente da altura, o recompensado Durão Barroso, que por ter visto o milagre recebeu o prémio de chefe dos comissários europeus.

“Putin vem por aí abaixo!” Repete o coro de comentadores avençados, em sintonia com alguns militares que deviam saber dos “temas” de tática dos cursos de comando e estado-maior, os “garranos”, que a vinda dos russos por aí abaixo apenas terminava com um regimento de infantaria da URSS junto ao rio Lizandro, defendido por um batalhão português saído do Convento de Mafra, assim impedindo o bravo coronel russo que atravessara o Reno e o Danúbio, os Alpes e os Pirenéus e acabava vencido, sem poder tomar banho na Ericeira. É esta a primeira falácia, uma narrativa delirante e até ridícula. Os russos não veem por aí abaixo, Os mesmos que o garantem são os mesmos que sublinham as dificuldades de progressão para atingirem o rio Dniepro, as cidades de Zaporija e de Kharkiv. Ou bem que vêm por aí abaixo, e há que detê-los, ou bem que não vêm e não há necessidade de gastar dinheiro a defendermo-nos de um tigre de papel que não consegue atravessar a Ucrânia.

A segunda falácia diz respeito à necessidade de construir uma indústria de defesa europeia. Uma necessária observação: nenhum estado europeu desde a idade moderna aos nossos tempos se defendeu, a não ser a Rússia, por duas vezes, uma contra Napoleão e outra contra Hitler. A Polónia, nas várias versões territoriais e de soberania nunca se defendeu, mas a teocracia que a governa e constitui o estado mais vassalo dos Estados Unidos realizou o número mediático de instalar uns obstáculos de cimento — ursos — para impedir os tanques russos de avançar, nem o império austro-húngaro, nem a Itália, nem a França, nem a Espanha, nem Portugal, em qualquer época se defenderam, todas os estados atacaram os outros, segundo os seus interesses e os “aparelhos militares” foram sempre de defesa apenas do grupo dominante dentro do Estado, foram sempre, no dizer do rei Luiz XIV de França, a última “razão do rei” contra os seus súbitos. Continuando hoje a ser esse o papel das instituições militares, aquelas que Max Weber considerou serem as únicas legitimadas para o uso da força nos Estados. Do que se trata, então, quando alguém fala em defesa é a defesa de um poder instalado, de um regime, de um grupo no poder ou de dispor de meios para conquistar objetivos noutros espaços.

A questão da “defesa” da Europa é muito clara: O único aparelho militar credível do Ocidente Global é o dos Estados Unidos. Após o final da Segunda Guerra, aproveitando a imposição da desmilitarização da Alemanha nazi e a destruição das indústrias europeias, os Estados Unidos iniciaram a passagem de forças com meios convencionais de controlo das suas armas para os sistemas digitais Nos anos 60 introduziram a internet e a computação na sua panóplia de armas, e partiram para a conquista do espaço não apenas com as operações de demonstração de capacidade tecnológica com a ida à Lua, mas com a criação de uma verdadeira malha de satélites para fins militares de observação e espionagem, de transmissão de dados — que deram origem a duas famílias de instrumentos da guerra espacial e da sua articulação com a guerra no ar, em terra e no mar, os GNSS (Global Navigation Satelite System) de que o GPS é filho, e os GEOSS (Global Earth Observation Satelite System).

Desde os anos 70 do século passado, que as grandes potências, a URSS e a China se aperceberam da importância dos sistemas globais de navegação por satélite. Os americanos desenvolveram o GPS inicialmente apenas para fins militares — o sistema é gerido pelo Departamento de Defesa através da Força Aérea dos Estados Unidos, a União Soviética desenvolveu o seu sistema GLONASS também para fins militares, a China o seu BDS. A União Europeia, finalmente, criou um programa civil que designou por Galileo em 1990, quando os Estados Unidos e a Rússia tinham os seus sistemas operacionais em 1995! Com a operacionalidade dos sistemas GPS e GLONASS, na segunda metade da década de 90, a União Europeia (UE) percebeu a importância estratégica, económica, social e tecnológica da navegação por satélite! Excelente a previsão dos dirigentes europeus. Os mesmos, ou os clones, dos que agora apelam: às armas, europeus!

Também foi já década de 90 que os dirigentes da União Europeia perceberam a importância de programas cooperativos de desenvolvimento de sistemas de armas. Foram então criados programas para desenvolvimento de um caça europeu — o Eurofigther Thiphoon, um fracasso que desapareceu da cena — o programa de um helicóptero naval e de forças terrestres, o Nato Helicóptero, que não revelou ser um sucesso, um programa para uma NATO Fregate que nunca viu a luz do dia. Não foi uma partida brilhante, mas proporcionou ensinamentos, apagados da memória, porque os americanos apresentavam soluções chave na mão. Recebendo o devido pagamento e ainda eliminavam futura concorrência.

Hoje, todos os sistemas de armas europeus estão dependentes dos sistemas de informação, navegação e comunicação americanos. E vão estar pelo menos durante os próximos trinta anos, que é o ciclo de vida mínimo previsto para os sistemas de armas. Todos os aviónicos e sistemas de informação dos cockpits dos aviões, das pontes de comando dos navios, das torres dos carros de combate, das salas de operações das unidades terrestres, das cabeças dos misseis táticos ou estratégicos são e serão americanos. A título de exemplo, a Alemanha adquiriu 50 aviões caça bombardeiros americanos F 35, a Bélgica 30, em detrimento do Raphale francês. Durante os próximos 30 anos, todas as armas europeias terão a “inteligência” americana e apenas poderão ser usadas com o acordo dos Estados Unidos.

Falar em investir na indústria de armamento europeia é uma falácia. A Europa perdeu a oportunidade de ter autonomia estratégica nos anos 90 e essa perda não é remediável! Investir na indústria de armento na Europa significa tão simplesmente substituir a falência da indústria produtiva europeia — as fábricas de automóveis alemãs e francesas, por exemplo, também a Michelin, a Bosch — por inúteis fábricas de peças de artilharia, de carros de combate, que apenas se orientarão nos campos de batalha com os olhos do GPS americano!

A título de exemplo, quando a Agência Espacial Europeia (ESA) comunicou aos Estados Unidos a intenção de desenvolver o Galileo e que o desejava compatível com o GPS, os Estados Unidos avisaram que destruiriam os satélites europeus se estes interferissem com a operação o seu GPS! O governo norte-americano não autoriza outras nações a participarem da manutenção e desenvolvimento do GPS, dado os seus fins militares. Apenas em 2005 foi lançado o primeiro satélite do sistema Galileo o segundo em 2008, dois satélites em 2011 e outros dois em 2012. A primeira determinação de posição utilizando a constelação Galileo foi realizada em março de 2013 e em dezembro de 2016 havia um total de 26 satélites Galileo.

De 1990 a 2024, trinta e quatro anos, a Europa, a U E viveu no doce ripanço, a ver o mundo passar, sem receios de inimigos, entregue aos braços do amigo americano, que dispunha de bases na Alemanha, no Reino Unido, em Itália, armas nucleares nestes três países, além da Bélgica e de Israel. O governo dos Estados Unidos, uma autodenominada democracia liberal, estabelecia parcerias publico privadas com as grandes companhias das novas tecnologias, caso da Microsoft, a grande software house mundial, do Google, da Amazon, do Twiter, hoje X, do Facebook, hoje Meta, da Apple, da Starlink e da Space X de Elon Musk. Não deixa de ser curioso que os dois mais recentes satélites dos sistema Galileo tenham sido lançados por foguetões da Space X, de Elon Musk!

Indiferentes a estas evidências, os manipuladores da opinião impingem a mensagem: é necessário desenvolver uma indústria de material de guerra (eufemisticamente designada por indústrias de defesa europeia). Os e as warmongers fazem o seu trabalho, tocam cornetas e rufam tambores para receberem as suas comissões e prémios à custa dos europeus. A Declaração de Budapeste, da conferência de líderes europeus, que terminou a neste 8 de Novembro, defende “investimentos significativos públicos e privados no setor da Defesa”. O primeiro-ministro português declarou à saída que a indústria portuguesa também pode entra nesta farsa, em especial a indústria têxtil — camuflados para a tropa, atoalhados para as messes… botas e estandartes, presume-se que seja a nossa contribuição depois do envio de ferro velho representado por helicópteros Kamov, uns velhos M113, uns inúteis Leopard.

O inútil rearmamento da Europa significa uma nova era, os recursos que estão dedicados ao investimento produtivo serão desviados para produtos que são mera despesa. Esta transferência traduz-se em pobreza geral e fim do estado de bem-estar, será feita à custa do estado social. Mesmo os sistemas de duplo uso militar e civil num caso geram riqueza, noutra despesa. Colocar um motor num trator ou num carro de combate não é igual. A transferência de recursos para as indústrias militares provocará uma mudança de paradigma civilizacional da Europa, aumentará as desigualdades, a injustiça, a repressão. É o futuro que nos está a preparar esta nova seita de pregadores.

A proposta dos armamentistas lançadores de fogo pela boca, é a de enfiarmos a cabeça num laço e esperar que assim nos salvaremos!