Rui Rio: um bom adjunto para Costa

(Joaquim Vassalo Abreu, 16/09/2019)

E, digo eu, até é bom que assim seja! Em nome do País e em nome do nosso futuro é bom e salutar que haja um líder da oposição com este porte: que diga abertamente que concorda e apresente, aqui e ali, visões diferentes, mas sempre sem aquele jugo ideológico que tinha, por exemplo, o seu antecessor.

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Ficou vincado que Rio, um homem de números, não conseguindo rebater esses mesmos, adoptou uma postura “estadista”, não se distanciando nem afastando de Costa, como quem diz eu até discordo em alguns pontos (;o Partido a isso obriga) mas, no fundo estamos de acordo, prestou neste debate um bom serviço ao País!

Mostrou ser um homem aberto e pragmático tendo sempre por fundo um País melhor e isso, comparativamente com o seu antecessor até que me agradou!

Mostrou ser um ser aberto e liberal e, acima de tudo, um político ( sem ter ares disso) em quem Costa até pode confiar para, num País como o nosso, levar avante realizações importantes e decisivas de que o País necessita.

É evidente para mim que esse não é, nem de perto nem de longe, o que o PSD de quem ainda é líder, assim pense e esse é o seu maior problema: o de afirmar-se perante os seus na sua maioria distanciados do seu pensamento pragmático e aberto.

Os comentadores de serviço que por alguns instantes ouvi falaram das espectativas e, como tal…mas como tal o quê? Pensavam ser Rio como Passos? Não e faço-lhe essa justiça!

Mas esse é o problema deste PSD, um partido de bases radicais e direitistas e que, a partir de hoje, mais vão odiar este líder que, definitivamente, não é o seu! E não ver ser pela sua prestação de hoje que a sua ideia vai mudar… Então votamos Costa como muitos já decidiram…

É que esta manifesta concordância e abrangência não lhes agrada. É e será um traidor, pensam muitos embora não o digam…

Números são números e ele nenhum dos apresentados por Costa desmentiu ( ele é um homem de números) e isso, para os seus ficou gravado na pele! Concordar com este Governo naquilo que ele é mais forte? Imperdoável..

Foi este debate decisivo? Claro que não mas foi, na minha humilde óptica, decisivo no seu manifesto anuimento aos números, incostentaveis, apresentados por Costa: os atestados e verdadeiros!

De modo que Rui Rio, mesmo pretendendo com esta postura, próxima à de Costa, mobilizar as suas direitistas bases deu um tiro no pé e mostrou à saciedade o quanto delas está distante!

Costa esteve igual a si próprio, ciente do trabalho feito e que todos, com mais ênfase ou menos ênfase, reconhecemos.

Que ficou do debate, afinal?

O de um Rio mortinho por trabalhar com Costa!

Estarei assim tão errado? Mas será que os “seus” deixam?!!!

O debate que Costa e Catarina precisavam

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/09/2019)

Daniel Oliveira

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O debate mais importante desta pré-campanha não era o que vai acontecer no dia 16, entre Rui Rio e António Costa. Aí só se decidirá alguma coisa se Rio conseguir encostar Costa às cordas e assim mobilizar os eleitores de direita em deserção. É para ter uma derrota digna. Mas suspeito que Costa nem sequer vai deixar que haja um verdadeiro confronto. Para ele, quanto mais morno esse debate for melhor. O debate mais importante foi o que aconteceu na última sexta-feira. (Quem não viu o debate pode vê-lo no filme que se segue).

Porque, como Costa deixou bem claro na entrevista ao “Expresso”, é na correlação de forças à esquerda que se decidirá a futura governação. E é entre o BE e o PS que há maior porosidade eleitoral. Se isto já seria assim, tornou-se ainda mais certo depois de Jerónimo ter perdido a oportunidade de anular o abraço sinceramente simpático mas politicamente mortal de Costa.

Para António Costa, o fundamental era não perder a cabeça para não ser ele o responsável por um desentendimento. E falar ao eleitorado de centro, o único que pode ter qualquer interesse em dar-lhe maioria absoluta. Para isso, tinha de sublinhar o que esse eleitor vê como a irresponsabilidade do BE. Não interessa aqui analisar o rigor da acusação, nem o facto de uma boa parte do que sublinhou já existir há quatro anos e não ter impedido a “geringonça”. Alguém acredita que um BE com um bom resultado e a limitar um Governo de Costa o obrigará a nacionalizar seja o que for? O que interessa é que o eleitorado de centro que não goste do BE é sensível a este tipo de argumento. Sem nunca chegar a ser acintoso, Costa conseguiu sublinhar isso. E este foi, mesmo depois de esclarecimentos, o momento mais difícil para Catarina Martins. Que não conseguiu ser suficientemente eficaz a denunciar o truque de ele não apresentar números e esmiuçar os números alheios.

Para Catarina Martins, o fundamental era sublinhar as diferenças, para que o voto no BE sirva para alguma coisa, mas com uma contenção que evitasse a ideia de que os entendimentos serão mais difíceis no futuro. Conseguiu-o plenamente. E, no meio, sublinhou bem as vitórias que teve nos últimos quatro anos, as vantagens da “geringonça” e a posição que resumiu no fim do debate: nunca ajudará a direita, não faltará à estabilidade e não passará cheques em branco.

Garantir firmeza com responsabilidade, que só depois de quatro anos desta experiência é credível. De tal forma credível que a tentativa de exibir a irresponsabilidade do Bloco resulta no eleitorado de centro – que já o acha irresponsável – e no eleitorado militantemente socialista, mas não tem grande efeito no eleitorado flutuante à esquerda. Não há ninguém que não achasse o BE irresponsável há quatro anos e o vá achar agora. Ou que não se tenha assustado com o programa de há quatro anos e se assuste agora.

Costa conseguiu dirigir-se ao eleitorado de centro para que ele sinta que é melhor dar-lhe a maioria absoluta que ele nunca pede. Catarina conseguiu surgir como uma aliada que continua disponível para entendimentos, mas que é firme e não passa cheques em branco. E a comparação com o debate entre Rio e Cristas é mortal para a direita. Ajuda a explicar os resultados eleitorais que as sondagens nos fazem adivinhar

Há uma segunda vitória de Catarina Martins que não sei se terá efeitos eleitorais: a comparação com Jerónimo de Sousa. Ao deixar que o tom do seu debate com Costa se tivesse transformado no que se transformou, Jerónimo deixou campo aberto na esquerda que não confia no PS e quer um aliado firme. Mais uma vez, não está em causa a realidade. Os bloquistas não são mais firmes do que os comunistas na relação com Costa. Uns e outros são mais ou menos firmes em agendas que são mais ou menos importantes para si. E têm estilos diferentes. As maiores dificuldades entre PS e BE resultam apenas de disputarem mais eleitores entre si. Mas a verdade é que, vendo os debates, a diferença funciona mal para o PCP.

António Costa conseguiu o que queria: dirigir-se ao eleitorado de centro para que ele sinta que era melhor dar-lhe a maioria absoluta que ele nunca pede para que o PS não dependa do BE. Catarina Martins conseguiu o que queria: surgir como uma aliada firme, que continua disponível para entendimentos mas não passa cheques em branco, representando o eleitor de esquerda que não confia num PS sozinho. E mostrou-se tecnicamente preparada, o que ajudou a limitar os estragos do discurso de Costa. Como os debates não servem para vencer um adversário, mas para conquistar eleitores, o facto de o debate ter tido conteúdo, diferença e contenção foi excelente para os dois. Porque os dois cumpriram o seu objetivo.

Este foi, de muito longe, o melhor debate até agora. Aquele que teve mais substância, as diferenças ficaram mais claras e mesmo assim a coisa nunca descambou. E a comparação com o debate entre Rui Rio e Assunção Cristas é mortal para a direita. Num debatem-se coisas que contam e no outro não. Porque uns vão tomar decisões e outros não. Num lado está-se a pensar e a agir politicamente e no outro apanham-se cacos. Há um lado que está fora de jogo enquanto o outro joga entre si, podendo até dar-se ao luxo de ser aliado e adversário em simultâneo. Esta comparação ajuda a explicar os resultados eleitorais que as sondagens nos fazem adivinhar.


Se não há material para dramatizar, importam-se dramas de Espanha

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/09/2019)

Daniel Oliveira

(Depois de Passos ter ameaçado com o diabo e ele não ter vindo, bem pode Costa ameaçar de novo com o mafarrico se não lhe derem a maioria absoluta. Ninguém o leva a sério pelo que é falta de tacto político ter usado tal argumento. Não havia necessidade. São tiros no pé uns a seguir aos outros… 🙂

Comentário da Estátua, 02/09/2019)


António Costa disse isto numa entrevista à Lusa: “Seria um pouco incompreensível que nós deitássemos pela janela uma solução que tem funcionado bem para irmos cair numa situação de impasse à espanhola que, manifestamente, creio que não pode ser o futuro que cada um de nós deseja. (…) Se tivéssemos um PS fraco e o Podemos forte, estaríamos na situação do impasse espanhol.” Ou seja, António Costa pede um reforço da sua votação face aos seus concorrentes para não cairmos no impasse em que Espanha se encontra.

Esqueçamos a crise constitucional espanhola, relacionada com as autonomias. Fiquemos por uma diferença essencial: aqui há três partidos nacionais relevantes à esquerda, em Espanha há dois e uma multiplicidade de partidos regionais, o que baralha qualquer comparação. Posto isto, vamos aos resultados das últimas legislativas: o PS teve 32,31% e Bloco e PCP tiveram cerca de 18,5%, juntos. Veja-se o resultado das últimas eleições em Espanha: o PSOE teve 28,7% e o Podemos 14,3% (não está forte, até teve uma grande queda). Ou seja, os aliados à esquerda do PS tiveram mais 4% do que o Podemos e o PS teve mais 4% do que o PSOE. A não ser que António Costa insista no absurdo insultuoso de retirar o PCP desta equação, a correlação de forças é semelhante. A grande diferença é que o PSOE ficou à frente do PP e o PS atrás da aliança de direita. O que quer dizer que o PS partiu bem mais fragilizado do que o PSOE para a negociação com os partidos à esquerda.

A “solução que tem funcionado bem” e que até serviu de inspiração inicial para o tentar em Espanha não resultou da correlação de forças entre socialistas e os aliados à esquerda, que é semelhante lá à que foi cá. Resultou da diferença de comportamento dos interlocutores

Ainda assim, o PS conseguiu fazer um acordo estável com bloquistas e comunistas e o PSOE não o conseguiu fazer com o Podemos. A “solução que tem funcionado bem” e que até serviu de inspiração inicial para a tentar em Espanha não resultou da correlação de forças entre socialistas e os aliados à esquerda. Resultou da diferença de comportamento dos interlocutores. O Podemos exigiu entrar para o governo com pastas ministeriais muitíssimo relevantes, BE e PCP não o fizeram. Pedro Sánchez quis transformar esta negociação numa humilhação do Podemos para o esvaziar e António Costa não o fez. Houve “geringonça” em Portugal porque os três partidos foram adultos, não houve em Espanha porque isso não se passou por lá.

A tentativa de importar uma crise em Espanha quando Portugal demonstrou de forma clara que ela não é inevitável é um argumento desesperado para tentar criar um processo de amnésia coletiva em relação à extraordinária conquista de há quatro anos. E para, a partir dela, vender a estafada ideia do “eu ou caos”, que já teve líderes do PS e do PSD como autores.

Foi por não ter feito este jogo que António Costa entrou na História como alguém que derrubou um tabu de meio século. E é também por isso que, ao contrário de Pedro Sánchez, é admirado na Europa.

Ao ajudar a construir a “geringonça”, Costa esvaziou os argumentos para a dramatização do voto útil. De tal forma que precisa de importar dramas alheios para voltar à velha rábula que PSD e PS sempre usaram para pedir maiorias absolutas sem as pedir. Mas as contas não ajudam. E em condições iguais ou piores do que as que o PSOE tem hoje, conseguiu um acordo com o BE e o PCP. Nada impede a renovação da “geringonça”. Nem sequer seria preciso os socialistas reforçarem a sua votação – e todos sabem que isso vai acontecer. Pelo contrário, um PS com maioria absoluta ou próximo disso é que matará a possibilidade de continuar com a “solução que tem funcionado bem”. Como dizia o outro, é fazer as contas.