Quem tem medo de Sahra Wagenknecht?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 07/09/2024)

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As recentes eleições nos estados alemães da Saxónia e da Turíngia têm três leituras imediatas: a queda catastrófica dos partidos que integram o Governo Federal (SPD, Verdes e Liberais); o crescimento da extrema-direita (AfD); o sucesso da nova esquerda alemã obtido pelo terceiro partido mais votado, que assumiu o nome da sua líder: Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça (BSW). A perda de credibilidade do Governo é tanta que a soma dos votos dos partidos que o suportam é praticamente igual à do BSW na Saxónia (cerca de 12%), e bastante inferior na Turíngia (9,3% contra 15,8%). França e Alemanha tornaram-se sociedades clivadas com Governos de legitimidade residual.

Sahra Wagenknecht (doravante, SW) é hoje a mais carismática figura política alemã. Filha de um estudante iraniano e de uma mãe alemã, nasceu em 1969 na ex-RDA, em Jena (Turíngia). Com 3 anos de idade, o pai partiu para o Irão, desaparecendo da vida de SW. Cresceu sob o estigma da sua diferença étnica, habituando-se a resistir em condições adversas. Em 1989 entrou na política em concorrente.

Enquanto a maioria celebrava a reunificação alemã, ela viu uma nação a ser comprada e engolida pela RFA, antecipando o risco de a prosperidade ser acompanhada pelo desenraizamento e por maior desigualdade. Doutorada em Economia, assumiu sempre a importância do marxismo na sua leitura do mundo contemporâneo. Integrou o PDS (Partido do Socialismo Democrático), de Gregor Gysi, em 1991.

Foi deputada no Parlamento Europeu (2004-2009). Participou na criação do partido Die Linke (A Esquerda), resultante da unificação em 2007 do PDS com o partido WASG, formado por Oskar Lafontaine, quando este rompeu com o SPD. Entrou no Parlamento Federal (Bundestag) em 2009, pelo Die Linke, abandonando este partido para fundar, em janeiro último, a BSW. É uma escritora incisiva e uma oradora notável, captando audiências pela elegância e clareza dos seus argumentos.

A imprensa internacional dominante tem tentado esconder a sua originalidade e inteligência sob rótulos pejorativos, encostando-a à extrema-direita nacionalista do AfD, ou designando-a como “populista de esquerda”. Uma análise fria revela, pelo contrário, uma personalidade política corajosa e lúcida, combatendo a mediocridade e a submissão total do Governo alemão ao comando dos EUA, tanto no plano militar, como na esfera económica.

Na verdade, tanto o SPD como os Verdes renunciaram às suas bandeiras originais. O SPD, em coligação com os Verdes (nos Governos entre 1998 e 2005), transformou-se no campeão do neoliberalismo, destruiu parcialmente a Segurança Social através de uma privatização ruinosa, baixou abruptamente a participação da massa salarial no PIB, multiplicou os empregos precários (os minijobs ocupam hoje 20% da mão-de-obra germânica). Pela primeira vez, em 2012, o Índice de Gini alemão, que mede a desigualdade, ultrapassou o francês.

Com a guerra na Ucrânia, o Governo de Olaf Scholz aceitou ser um incondicional escudeiro do Pentágono, apoiado nos ministros Verdes que trocaram a Ecologia pelo belicismo. SW tem exortado, infatigavelmente, ao imperioso calar das armas para evitar envolver a NATO e a Rússia num abraço mortal sem retorno. Berlim aceitou as sanções contra a Rússia, sabendo que se voltariam contra os milhões de alemães mais carenciados.

A Economia de Berlim, que tinha na China, na Rússia e nos parceiros da UE os mercados principais para as suas exportações, está hoje em crise profunda. As medidas protecionistas do Governo de Biden para isso contribuíram. Washington exorta a UE a cortar laços comerciais com Pequim, enquanto trata os seus aliados europeus na NATO como inimigos no plano económico. A legislação de combate à inflação nos EUA (Inflation and Reduction Act) levou, até março de 2023, 5600 empresas germânicas a investir 605 mil milhões de euros nos EUA, tendo algumas delas mudado a sua sede.

SW propõe uma política de defesa dos salários e direitos laborais, com aumento de impostos para os mais ricos. A sua recusa de uma imigração descontrolada liga-se à defesa do Estado social e à necessidade de o acolhimento dos imigrantes ser acompanhado com políticas de língua e cultura, capazes de assegurar uma verdadeira integração nas comunidades locais.

A posição da BSW não se confunde com o racismo da AfD, nem com o oportunismo do Governo Merkel, que em 2015 escancarou as portas – sem denunciar o facto de esses migrantes resultarem das desastrosas intervenções ocidentais no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria – para depois as encerrar através de um acordo bilionário de construção de campos de internamento na Turquia.

SW foi convidada em 2014, pelo artista e professor Karl-Eckhard Carius e por mim, para um livro – editado em Portugal e Alemanha – destinado a celebrar os 40 anos do 25 de Abril. (Muros de Liberdade/Mauern der Freiheit), SW revelou como a sua visão do mundo é inclusiva.

O seu amor à Alemanha não a impediu de criticar o papel do Governo Merkel e o seu pacto diabólico com a “ditadura dos mercados financeiros”. No final do seu capítulo, SW enunciava um desafio que continua válido para os povos europeus: “A minha esperança para a Europa é a de que a melancolia portuguesa possa ceder lugar à indignação.”

A UE foi raptada por uma elite sombria que lhe roubou a alma, arrastando-a na queda dos EUA e na cumplicidade com o Governo genocida de Israel. Chegou a hora dos cidadãos e das nações, se quisermos salvar a paz e libertar a Europa.

Sobre a Europa em tempo de eleiçoes

(Júlio Marques Mota, 04/06/2024)

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Quando estava a preparar o texto de Adam Tooze sobre a Europa de que não se fala, nesta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu (ver abaixo), recebo uma nota de reflexão de Adão Cruz, acompanhada de um quadro (imagem acima).

Aproveitei a sua nota de reflexão,  adaptando-a, e a correspondente ilustração que a acompanha, como síntese do discurso de Tooze, no que ele diz, explícita ou implicitamente sobre esta Europa perigosamente à deriva, sobretudo quando cita o jornal Político e refere:

“Saiam, Paris e Berlim. Um novo elenco de dirigentes europeus está a querer alcançar o controlo do poder na Europa, e o vosso tempo no lugar do condutor pode estar a acabar. (O sublinhado é meu-JM)”

Hoje, perante a indiferença, o conformismo e a complacência, e em muitos casos a promoção nazi-fascista, por parte dos grandes e pequenos poderes políticos e de uma boa porção da sociedade civil, interrogo-me: ao fazer algum tipo de analogia entre a criação deste transe coletivo, quase irracional, que se está a viver e que se vê crescer de forma assustadora, e o transe colectivo que levou Hitler ao poder, não estará a Europa a ser como o pobre animal do quadro acima, que cegamente e ingenuamente julga caminhar em direção à luz quando, na verdade, caminha para a morte? (período por mim adaptado, partindo de um texto de Adão Cruz)

Não se pense, porém, que o problema que atravessamos resulta da má política do pais A ou B ou C, não é isso,  o problema fulcral é o  modelo neoliberal que estrutura toda a Europa e desde há décadas. A União Europeia  está toda ela como está e o texto de Tooze reflete essa mesma realidade ccrua  e dura. Olhando para fora da União Europeia, vejamos   o que nos diz um importante Conservador britânico, Victor Hill, sobre o que se na passa no Reino Unido   

“Há poucas hipóteses de os serviços públicos britânicos melhorarem consideravelmente até ao final do outono. As listas de espera do Serviço Nacional de Saúde (NHS) continuam a ser de quase 7,5 milhões de pessoas; e a polícia foi aconselhada a não prender criminosos porque as nossas prisões estão literalmente cheias. Prevalece uma sensação de deriva e de declínio, com poucas expectativas de que um governo trabalhista seja capaz de inverter a situação. De facto, há muitos indícios de que o povo  britânico não está particularmente encantado com o Partido Trabalhista de Sir Keir Starmer, enquanto despreza os Conservadores. Em termos eleitorais, é o oposto do MasterChef. Os eleitores são convidados a provar não o prato mais delicioso da ementa, mas o menos revoltante.” (Victor Hill , As eleições gerais no Reino Unido foram muito mal planeadas, 31 de maio de  2024)

Se adicionarmos  aos problemas resultantes de um modelo (des)estruturante, o modelo provadamente falhado da União Europeia e desde há décadas, a incompetência que   grassa por todos os escalões profissionais e políticos de qualquer um dos paises na Europa, a começar por Portugal,  percebemos que a situação está a ficar explosiva. O caricato é-me dado  hoje por um canal televisivo, questionando Bugalho quanto à sua ambição de querer ser ou não, primeiro-ministro no futuro.  A lembrar Kafka, o seu conto  que, salvo erro, se chama O homem do leme. Até onde descemos  na espiral da ignorância e da estupidez em que até se coloca a hipótese de alguém que tenha o paleio de uma  peixeira a ou   de um vendedor ambulante possa, por isso mesmo, chegar a primeiro-ministro!

Júlio Marques Mota


A Alemanha na Europa 2024 – Da hegemonia relutante ao vazio político

Por Adam Tooze (original aqui)

Olhe ao redor do mundo e faça a si mesmo as seguintes perguntas:

P: A guerra na Ucrânia está em jogo. Quem deveria estar mais preocupado? A Europa. Se Putin ganhar, qual será o modelo estratégico mais perturbado?

R: Alemanha.

P: A eleição americana está em jogo. Quem deveria estar mais preocupado? A Europa (ver acima). E se Trump ganhar, quem, na Europa, ficará mais desconcertado?

R: Alemanha.

P: O futuro da transição para a energia verde está em jogo. Qual é a base industrial que está mais na mira da concorrência chinesa? A Europa. Se os veículos elétricos chineses se tornarem uma realidade, quem será o maior prejudicado na Europa?

R. A Alemanha.

P: A economia europeia parece estar a deslizar para a estagnação e está muito atrasada em áreas-chave da inovação. Quem sofreu particularmente com o triplo choque do COVID, a guerra de Putin e a mudança de marcha no crescimento chinês?

R: Alemanha.

P: As eleições europeias estão em suspenso. Se a 9 de junho a direita for declarada vencedora, toda a Europa liberal ficará embaraçada. Mas, onde será mais doloroso esse constrangimento?

R: Alemanha. (Nem mesmo os outros partidos de direita da Europa querem ser associados à AfD, cujo principal candidato gosta de apresentar desculpas para as SS de Hitler.)

P: A demografia europeia está em suspenso. A migração é a questão central que move a extrema-direita. Coloca questões profundas sobre a forma como a Europa pode fazer funcionar uma democracia multicultural e multiconfessional que reconheça tanto a sua própria história profunda, estratificada e traumática como as suas profundas ligações ao Médio Oriente e ao mundo muçulmano – que vêm com o seu próprio peso de bagagem histórica. Onde é que essa história é mais densa e mais tensa, onde foram mais dramáticas as transformações recentes devidas à migração?

R: Sim. O leitor adivinhou! É na Alemanha.

Fonte : FT

O leitor  entende a imagem. Este seria uma aposta  fácil de ganhar!

É evidente que a Europa em geral, e a Alemanha em particular, enfrentam enormes desafios. Desafios urgentes. Desafios que, na pior das hipóteses, poderão culminar, até ao final deste ano, numa nova fase de policrise centrada na Europa.

Tendo em conta toda a conversa sobre a UE emergir como um ator geopolítico mais realista e soberano, seria de esperar uma resposta estratégica. E dos cantos do sistema político ramificado da Europa estamos a obter essa resposta.

Eis o relatório Letta sobre a realização do mercado único.

Há o relatório de Mario Draghi sobre competitividade, que aparentemente apelará a uma “mudança radical”.

Existem, como tem acontecido frequentemente nos últimos anos, propostas sensatas do Governo espanhol no sentido de contrair empréstimos europeus conjuntos para financiar investimentos.

Há conversas desencadeadas pelo Conselho Europeu sobre uma iniciativa de defesa financiada conjuntamente. Há rumores de que Von der Leyen está a chegar à hipótese de dívidas mais comuns. Mario Draghi, o cavalo negro para a presidência da Comissão caso Von der Leyen não consiga formar uma maioria, é um defensor aberto da união orçamental.

Como seria de esperar, há uma variedade de iniciativas do Presidente Macron, nomeadamente em matéria de defesa, mas também de investimento comum europeu, que culminaram num segundo discurso na Sorbonne.

Mas onde fica Berlim? A resposta a todas estas perguntas sinistras é uma palavra: Alemanha. Se a Europa precisa de agir, ninguém precisa mais disso  do que a Alemanha. Mas onde está a resposta de Berlim ao coro crescente de opiniões que apela a que a Europa antecipe o stress futuro com ações ousadas?

Essa é a pergunta que faço na minha última coluna do FT.

Para ser justo com a administração Scholz, ela tem tido um percurso difícil desde 2021. A prioridade número 1 era, naturalmente, sobreviver ao choque do fim das entregas de gás russo.

Volume de importação de gás natural da Rússia na Alemanha de junho de 2021 a junho de 2023 (em milhões de metros cúbicos).

Fonte: Statista

O gás russo foi compensado por compras nos mercados mundiais. Isso exigiu muita luta, mas uma coisa que a Alemanha tem é poder de compra.

Fonte: Clean Energy Wire

A Alemanha até conseguiu construir um cluster de terminais de GNL em tempo recorde – que o chanceler Scholz celebrou como “Deutschland Tempo”. Eles agora representam um pouco menos de 7% das importações de gás alemãs.

Em 2020, o  povo o alemão sofreu um golpe dramático na sua complacência anteriormente profundamente enraizada, um golpe do qual ainda não se recuperou.

Mas a história moderna não deixa de existir.

O governo de Olaf Scholz tem claramente uma noção geral da dimensão da conjuntura de policrise. O chanceler chegou a invocar o termo num discurso recente em Berlim. Mas, o contexto em que ele o estava a utilizar, era o contexto global. No cenário mundial, é fácil para Berlim comportar-se como um ator cooperativo, sendo sede de  “Global Solution Summits”. Mas mais perto de casa, na Europa, onde a Alemanha não é apenas prestativa e cooperativa, mas uma força decisiva, qual é a agenda de Scholz?

Aqui está a versão sem cortes da minha coluna FT.

«A nossa Europa é mortal. Pode morrer.” Assim disse o presidente da França, Emanuel Macron, no seu recente  discurso  na Sorbonne. Tendo em conta os problemas que se colocam no horizonte da Europa, é possível ver o seu ponto de vista.

A guerra na Ucrânia oscilou para a Rússia. A economia europeia está a coxear em relação aos EUA. A questão da imigração paira na fronteira sul. A extrema-direita está a crescer. Para evitar cair de um precipício em 2026, o tão aclamado Green Deal da Europa precisa de refinanciamento.

Se Trump vencer em novembro, retirará os Estados Unidos dos acordos climáticos de Paris e colocará em causa o futuro da NATO.

É claro que reconhecer a sua mortalidade não é o mesmo que enfrentar uma sentença de morte imediata. Mas, até ao final de 2024, é fácil evocar cenários verdadeiramente sombrios. À luz disso, seria de esperar que as capitais europeias, lideradas por Paris e Berlim, estivessem a lutar por um grande acordo sobre defesa comum, investimento e aumento em despesa verde.

Em vez disso, o que emergiu de três dias de cimeira franco-alemã esta semana foi uma declaração conjunta manca. Quem procura inspiração ficará desapontado. Os dois líderes evocaram a soberania, mas não apresentaram  nada da sua substância. Os seus principais chavões – competitividade e união dos mercados de capitais – são o cliché bem mais que gasto dos comunicados da UE. A ênfase na competitividade é um reflexo do ambiente geoeconómico assustador. Uma promissora união dos mercados de capitais evita a questão do recurso em comum de empréstimos europeus.

Paris não tem culpa deste impasse. Enquanto luta para evitar o rótulo de pato coxo, Macron foi estimulado, mais uma vez, a pensar com ousadia. Apelou a uma duplicação do orçamento da UE e a um grande impulso ao investimento. Ele tem um forte aliado na Espanha. No Conselho, houve apelos para que as despesas de defesa fossem financiadas por empréstimos comuns.

Apesar dos riscos no horizonte, nada disso encontra eco em Berlim. Nada de novo que venha desse lado. Berlim tem sido um empecilho para a ambição europeia de Macron. Mas a Alemanha está a  encontrar  novas maneiras de nos dececionar.

No passado, a Alemanha arrastava os pés na Europa porque se sentia forte e achava que o tempo estava do seu lado. Isso sempre foi errado. A Alemanha também pagou um preço pela gestão desastrosa da crise da zona euro. Hoje, a complacência está ainda muito mais deslocada do que no tempo da crise da divida pública europeia.

Ao contrário da França, a Alemanha é militarmente indefesa e dolorosamente dependente dos EUA. Se Trump for eleito para um segundo mandato, ninguém receberá uma receção menos calorosa em Washington do que Olaf Scholz. A política energética da Alemanha está em desordem. O lendário setor manufatureiro da Alemanha enfrenta um futuro incerto. O AfD de direita, que tem subido nas sondagens, é tão desagradável que nem  os outros partidos europeus de extrema-direita   querem nada com eles.

Se o governo da Alemanha está parando diante de tudo isso, não é um sinal de complacência, mas de paralisia.

Em agosto de 2022, quando a Ucrânia estava pronta para lançar a sua arrojada contraofensiva, o chanceler Scholz, no  seu discurso em Praga, apresentou uma visão ousada da expansão europeia para o leste. Avançando para 2024, enquanto a Ucrânia luta para manter a linha, essa perspetiva está recuar em termos de  distância. Em casa, a promessa de reforma do governo de Scholz não envelheceu bem. O que garantiu a surpreendente vitória do SPD em 2021 foi a promessa de uma “vida normal” para o seu eleitorado envelhecido. Dado o padrão de vida da Alemanha, essa é uma perspetiva reconfortante. Mas como ficou claro, para que as coisas permaneçam as mesmas muito deve mudar, e é aqui que Scholz cai. No início, ele deixou para os Verdes o papel de  dinamizar a sua coligação. Mas uma reação selvagem à transição energética e à agricultura transformou os ambientalistas em bodes expiatórios da nação. E o fogo hostil veio não apenas do tablóide Bild Zeitung, mas de dentro da coligação  dos “liberais das Autobahn” do FDP.

Permitir que Christian Lindner reivindicasse o Ministério das Finanças era uma aposta de alto risco. No início, ele mostrou flexibilidade, mas está  cada vez mais encravado em dividas. Sobre a Europa, o ministro e a sua equipa polemizam abertamente contra qualquer nova emissão comum de dívida.

Esta obstrução pode ser compreensível se trouxer os votos. Mas o apoio ao FDP caiu. Numa eleição geral, o Ministro das Finanças da Alemanha, provavelmente seria ultrapassado pelo partido de uma mulher, Sarah Wagenknecht.

Source: Wahlrecht.de

.A última façanha de Lindner é estar contra  o único político verdadeiramente popular no governo, o ministro da Defesa, Boris Pistorius. A exigência  de Lindner é que Pistorious corte 6 mil milhões de euros do planeamento de defesa da Alemanha (Pistorius está a  tentar aumentar o orçamento). Com Berlim neste estado, não é de admirar que a Europa esteja à deriva.

Os otimistas insistirão em que, no pior dos casos, a Europa encontrará novamente uma saída. Podem ter razão. Mas a luta contra as crises a nível da UE  – seja em 2012 ou 2020 – depende das escolhas feitas em Berlim. Em ambas as ocasiões, Angela Merkel derrubou a direita do seu próprio partido. Será que Scholz arriscaria a sobrevivência política para fortalecer o seu Ministro das Finanças em nome da Europa? Está longe de ser certo. E se se trata de uma eleição, qual é a alternativa? Friedrich Merz que, como líder dos democratas-cristãos, está a liderar as  sondagens,  prefere o papel do polemista divisor ao da oposição construtiva.

Quando, no meio da crise da zona euro, Berlim foi apelidada de poder hegemónico relutante da Europa, isso  implicou uma escolha estratégica. Hoje, confrontados com perigos ainda maiores, o que prevalece em Berlim não é uma contenção deliberada, mas sim um vazio da política europeia.

Em resposta ao artigo de opinião, o meu amigo Shahin Vallée, que é tão perspicaz e profundamente informado sobre os assuntos da UE quando estes aparecem (confira seu Substack Geoeconomics), comentou que ele gostou da minha crítica a Berlim, mas ele achou que eu era muito gentil com Paris.

Claramente, Macron é um homem que luta pelo seu legado político. As suas avaliações são terríveis. É provável que o seu partido seja humilhado nas eleições europeias. A dívida da França foi rebaixada pela S&P na sua notação de crédito e Macron está em desacordo com o seu poderoso ministro das Finanças, Bruno Le Maire. Então, como reage Macron? Com um grande discurso. Trata-se agora de um estereótipo e não é segredo que isso  irrita Berlim.

Mas, seja como for, a  França continua a ser a economia número 2 da Europa. É claramente um parceiro indispensável e sem o qual ninguém  quer agir. As ameaças que a Europa enfrenta são graves. A Alemanha precisa de uma forma de contornar o impasse nacional criado pelo seu travão da dívida constitucionalmente ancorado. E se Macron é o pato coxo , Scholz também não está em grande forma. Ele governa, tenta-se dizer, como chanceler de um governo minoritário.

Na Europa expandida, complexa e mais multipolar, o motor franco-alemão de outrora já não é o que era. Como comentou um artigo do Politico:

Saiam,  Paris e Berlim. Um novo elenco de dirigentes  europeus está a querer alcançar o controlo do poder na Europa, e o vosso tempo no lugar do condutor  pode estar a terminar. (O sublinhado é meu-JM)

Mas tudo isto torna mais necessário que Berlim cerre os dentes e se ponha a trabalhar com Paris. A sua ação conjunta foi o núcleo do último grande avanço da Europa, o programa NextGen EU no verão de 2020. Se os apelos de Macron a grandes negociações são demasiado dramáticos, então substituam-nos pela vossa própria versão mais adequada de uma resposta. É evidente que o governo francês de Macron é a parte mais fraca neste caso.  Assim, no seu interesse comum, Berlim deveria inclinar-se para Paris. Em vez disso, o que vemos de Berlim são provocações, sobre entregas militares à Ucrânia, projetos de defesa comum (defesa aérea e antimísseis) e o compromisso da França com a energia nuclear.

É a incapacidade do governo de coligação alemão de se concertar para poder dialogar com a França,  e tirar o melhor partido do peso que ainda tem,  que é o aspeto preocupante do momento atual. A política da coligação tripartida em Berlim pode parecer trivial. Muitas vezes é . Mas, como acontece noutros lugares, outras vezes refletem profundas divisões no seio da sociedade aparentemente pacífica e reconciliada da Alemanha – um tema ao qual regressaremos. Se as coisas se complicarem para a Europa nos próximos meses, essas divisões e a capacidade ou incapacidade da coligação Scholz para as ultrapassar podem tornar-se decisivas para a UE no seu conjunto. Como muitas vezes acontece, as perspetivas de um “grande compromisso” dependem de políticas que estão muito longe de serem grandiosas.

Transcrição de uma conversa entre oficiais de alta patente da Bundeswehr, datada de 19/02/2024

(José Catarino Soares, 04/03/2024)

Em videoconferência vazada pela Rússia, altos oficiais alemães debatiam impacto de mísseis Taurus nos combates e fornecimento de dados sobre alvos para ucranianos. Moscovo acusa Ocidente de “guerra híbrida” e exige explicações.

Nota introdutória

A transcrição publicada mais abaixo foi traduzida para Português a partir do Inglês, [fonte aqui], com o tradutor automático Google e ligeiramente editada. Tem, por isso, seguramente, muitas imperfeições. O documento original foi traduzido e publicado em Russo por Margarita Simonian, jornalista da RT, (ver aqui), em 1 de Março de 2024

A conversa a que a transcrição diz respeito ocorreu em 19 de Fevereiro de 2024, entre o chefe do departamento de operações e exercícios do Comando da Força Aérea da Bundeswehr, o brigadeiro-general Frank Graefe; o inspector da Força Aérea da Bundeswehr, tenente-general Ingo Gerhartz, e dois técnicos do Centro de Comando Espacial das Operações Aéreas da Bundeswehr, os senhores Fenske e Frostedte. A Bundeswehr  (Port. Defesa Federal) está dividida numa parte militar (forças armadas ou Streitkräfte) e numa parte civil.

Entre outros assuntos, estes quatro homens da parte militar da Bundeswehr discutiram, como se verá, sobre o modo de destruir clandestinamente a ponte de Kerch, na Crimeia, com mísseis Taurus (de fabrico alemão) e sobre o modo de encobrir as suas acções clandestinas. Convém lembrar que o Parlamento alemão rejeitou, em 22 de Fevereiro último, uma moção da oposição (CDU [União da Democracia Cristã]) para entregar mísseis de cruzeiro Taurus à Ucrânia, depois de o chanceler Olaf Scholz ter recusado esta transferência, alegando recear o uso que poderia ter contra o território russo. Os mísseis Taurus podem atingir alvos a 500km de distância com grande precisão. 

O Ministério da Defesa Alemão confirmou a autenticidade da gravação desta conversa em 2 de Março de 2024 e informou que o MAD (Serviço Secreto de Informações Militares e Contra-espionagem da Alemanha) encetou uma investigação sobre o assunto, para averiguar a origem da fuga de informação e tomar as medidas necessárias para que outras fugas semelhantes não venham a correr.

Embora muitos comentadores tenham, compreensivelmente, atribuído esta fuga de informação ao GRU [o Serviço Secreto de Informações Militares e Contra-espionagem da Rússia], esta não é única interpretação possível do facto.

Como aventaram alguns analistas, parece igualmente plausível ‒ se não mesmo mais plausível ‒ que esta fuga de informação tenha sido obra de lançadores de alerta alemães, a fim de frustrar os planos dos sectores belicistas que, nos Estados-membros da OTAN e no próprio “Estado paralelo” alemão, parecem estar claramente empenhados em iniciar uma confrontação directa com a Rússia, a qual, a ocorrer, nos mergulharia na Terceira (e derradeira) Guerra Mundial. “Derradeira” porque, com o emprego generalizado de milhares de armas nucleares, ninguém sobreviveria para contar como acabou.

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Gerhartz: Olá a todos! Graefe, você está agora em Singapura?

Graefe: Sim.

Gerhartz : OK. Precisamos verificar as informações. Como já ouviram, o Ministro da Defesa Pistorius tenciona considerar cuidadosamente a questão do fornecimento de mísseis Taurus à Ucrânia. Temos uma reunião marcada com ele. Tudo tem de ser discutido para que possamos começar a trabalhar nesta questão. Até agora, não vejo que a data de início dessas entregas tenha sido indicada. Não foi como o chanceler lhe disse: “Quero obter informações agora, e amanhã de manhã tomaremos uma decisão”. Eu não ouvi nada assim. Pelo contrário, Pistorius avalia toda esta discussão em curso. Ninguém sabe por que razão o chanceler federal está a bloquear estes fornecimentos. Claro, surgem os rumores mais incríveis. Permitam-me que vos dê um exemplo: ontem telefonou-me um jornalista muito próximo do chanceler. Ouviu algures em Munique que os mísseis Taurus não funcionariam. Perguntei quem lhe disse isso. Ela respondeu que alguém com uniforme militar lhe disse isso. Claro que esta é uma fonte de informação de baixo nível, mas o jornalista agarrou-se a estas palavras e quer fazer um grande negócio com a manchete: “Agora sabemos a razão pela qual a chanceler se recusa a enviar mísseis Taurus ― eles não vão funcionar.” Tudo isto é estúpido. Tais tópicos estão disponíveis apenas para um círculo limitado de pessoas. No entanto, vemos que tipo de disparate está entretanto, a espalhar-se, estão a dizer completos disparates. Quero pôr-me de acordo convosco sobre esta questão, para que não avancemos na direção errada. Em primeiro lugar, tenho agora perguntas para Frostedt e Fenske. Alguém já falou com você sobre esse tema? Freuding entrou em contacto com você?

Frostedte: Não. Eu só contactei com Graefe.

Fenske: A mesma coisa, eu só contactei com Graefe.

Gerhartz: Talvez ele entre em contacto convosco novamente. Provavelmente, terei de participar em audições na comissão do orçamento, porque surgiram problemas relacionados com o aumento dos preços da conversão da infraestrutura para o F-35 em Büchel. Já transmiti as minhas recomendações através do Frank para que tenhamos slides para visualizar o material. Mostramos-lhe uma apresentação de teste onde mísseis Taurus foram instalados num avião Tornado ou em outro avião porta-mísseis exigido pela missão. No entanto, tenho dificuldade em imaginar isso. É necessário lembrar que esta é uma reunião de meia hora, então vocês não devem preparar uma apresentação de 30 diapositivos. Deveria haver um breve relatório. É necessário mostrar o que um míssil pode fazer, como pode ser usado. É necessário ter em conta, se tomarmos uma decisão política de transferir mísseis como ajuda à Ucrânia, quais as consequências que isso pode levar. Ficar-lhe-ei grato se me disser não só que problemas temos, mas também como podemos resolvê-los. Por exemplo, se falarmos de métodos de entrega… Sei como os britânicos o fazem. Eles sempre os transportam em veículos blindados Ridgback. Eles têm várias pessoas no local. Os franceses não fazem isso. Eles fornecem o Q7 com mísseis Scalp para a Ucrânia. Storm Shadow e Scalp têm especificações técnicas semelhantes para a sua instalação. Como vamos resolver este problema? Vamos colocar mísseis MBDA com Ridgback nas mãos? Um dos nossos colaboradores será designado para a MBDA? Graefe, informe-nos qual é a nossa posição sobre esta questão. Srs. Fenske e Frohstedte, por favor, digam-me como vêem a situação.

Graefe: Vou começar pelas questões mais sensíveis, com as críticas existentes em relação ao abastecimento. As discussões têm lugar em quase todo o lado. Há aqui vários aspectos muito importantes. Em primeiro lugar, estes são os prazos de entrega. Se o chanceler decidir agora que devemos fornecer mísseis, estes serão transferidos da Bundeswehr. OK, mas eles não estarão prontos para uso senão daqui a oito meses. Em segundo lugar, não podemos encurtar o tempo. Porque se fizermos isso, então um uso errado pode ocorrer, um míssil pode cair sobre um jardim de infância e, novamente, haverá vítimas civis. Estes aspetos devem ser tidos em conta. Deve notar-se durante as negociações que não podemos fazer nada sem o fabricante. Eles podem equipar, rearmar e entregar os primeiros mísseis. Podemos acompanhar um pouco a produção, mas não devemos esperar até se acumularem 20 peças; podemos transferir cinco de cada vez. O tempo de entrega desses mísseis depende directamente da indústria. Quem pagará por isso? Outra questão é em que sistemas de armas serão montados esses mísseis ? Como deve ser mantida a interaação entre a empresa e a Ucrânia? Ou temos algum tipo de integração?

Gerhartz : Eu acho que não. Porque o fabricante TSG disse que eles podem resolver este problema dentro de seis meses, não interessa  se é um Sukhoi ou um F-16.

Graefe : Se o chanceler federal decidir ir em frente, então deve haver um entendimento de que levará seis meses apenas para produzir as fixações. Em terceiro lugar, teoricamente, podemos ser afectados pela questão da formação. Já disse que estamos a colaborar com um fabricante de mísseis. Eles treinam as pessoas na manutenção desses sistemas, e nós treinamo-las no uso táctico. Demora três a quatro meses. Esta parte da formação pode ter lugar na Alemanha. Quando os primeiros mísseis forem entregues, precisamos tomar decisões rápidas em relação a montagens e treino. Talvez tenhamos de recorrer aos britânicos sobre estas questões e tirar partido do seu saber-fazer. Podemos transmitir-lhes bases de dados, imagens de satélite, estações de planeamento. Para além dos fornecimentos dos próprios mísseis, que temos, tudo o resto pode ser fornecido pela indústria ou pelo IABG.

Gerhartz: Temos que imaginar que eles podem usar aeronaves com montagens de mísseis Taurus e montagens Storm Shadow. Os britânicos estavam lá e equiparam os aviões. Os sistemas não são assim tão diferentes e podem ser usados para o Taurus também. Posso falar sobre a experiência de usar o complexo Patriot. No início, os nossos especialistas também calcularam prazos longos, mas conseguiram lidar com a questão em semanas. Eles conseguiram ter tudo pronto a funcionar tão rapidamente e em tal quantidade que nossos funcionários disseram: “Ena! Não esperávamos isso.” Estamos agora a travar uma guerra que utiliza tecnologia muito mais moderna do que a nossa boa e velha Luftwaffe. Tudo isto sugere que, quando planeamos prazos, não os devemos sobrestimar. E agora, Srs. Fenske e Frostedte, gostaria de ouvir a sua opinião sobre possíveis fornecimentos à Ucrânia.

Fenske: Gostaria de abordar a questão da formação. Já estudámos esta questão, e se estivermso a lidar com pessoal que já tem a formação adequada e vai passar por uma formação em paralelo, primeiro vai demorar cerca de três semanas a aprender a técnica e só depois passar diretamente para a formação na Força Aérea, que vai durar cerca de quatro semanas. Portanto, são muito menos de 12 semanas. Naturalmente, tudo isto é possível desde que o pessoal tenha as qualificações adequadas. A formação pode ser realizada sem recorrer aos serviços de tradutores. Mais alguns pontos. Já falámos com a Sra. Friedberger. Se estamos a falar de uso em combate, então, de facto, seremos aconselhados a prestar apoio pelo menos ao primeiro grupo. O planeamento é difícil, levou cerca de um ano a treinar a nossa equipa e agora estamos a tentar reduzir esse tempo para dez semanas e, ao mesmo tempo, esperar que eles possam correr em todo-o-terreno num carro de Fórmula 1. Uma opção possível é fornecer apoio técnico agendado; teoricamente, isso pode ser feito a partir de Büchel, sujeito à criação de uma conexão segura com a Ucrânia. Se isso estivesse disponível, então um planeamento adicional poderia ser realizado. Este é o cenário principal no mínimo ― para fornecer apoio completo do fabricante, apoio através de um serviço de apoio ao utente que irá resolver problemas com os programas informáticos. Em princípio, tudo é igual ao que acontece aqui na Alemanha.

Gerhartz: Espere aí. Compreendo o que você está a dizer. Os políticos podem estar preocupados com a ligação directa e fechada entre Büchel e a Ucrânia, que pode tornar-se uma participação directa no conflito ucraniano. Mas, neste caso, podemos dizer que a troca de informações ocorrerá através da MBDA, e enviaremos um ou dois de nossos especialistas para Schrobenhausen. Claro que isto é um truque, mas do ponto de vista político pode parecer diferente. Se as informações forem trocadas através do fabricante, isso não está associado a nós.

Fenske: A questão de saber para onde vai a informação vai surgir.. Se estamos a falar de informação alvo, que idealmente inclui imagens de satélite com precisão máxima de até três metros, então temos primeiro de processá-las em Büchel. Penso que, independentemente disso, é possível organizar de alguma forma a troca de informações entre Büchel e Schrobenhausen, ou podemos trabalhar a possibilidade de transferir informações para a Polónia, fazendo-o onde se pode chegar lá de carro. Esta questão tem de ser analisada mais de perto; opções certamente aparecerão. Se formos apoiados, na pior das hipóteses podemos até viajar de carro, o que reduzirá o tempo de resposta. É evidente que não poderemos responder no prazo de uma hora, uma vez que teremos de dar o nosso consentimento. Na melhor das hipóteses, apenas seis horas após receber a informação é que a aeronave poderá realizar a encomenda. Para atingir determinados alvos, uma precisão de mais de três metros é suficiente, mas se for necessário iluminr o alvo, é preciso trabalhar com imagens de satélite que permitam que ele seja modelado. E então o tempo de resposta pode ir até às 12 horas. Tudo depende do objectivo. Não estudei esta questão em pormenor, mas creio que esta opção também é possível. Tudo o que precisamos dizer é que precisamos pensar em como organizar a transferência de informações.

Gerhartz: Você acha que é possível esperar que a Ucrânia seja capaz de fazer tudo sozinha? Afinal, sabe-se que há muitas pessoas com roupas civis que falam com sotaque americano. Então, é bem possível que em breve eles próprios possam usá-lo? Afinal, eles têm todas as imagens de satélite.

Fenske: Sim. Eles recebem-nos de nós. Gostaria também de abordar brevemente as questões da defesa aérea. Devemos pensar cuidadosamente em ter equipamentos em Kiev para receber informações do IABG e do NDK. Temos que lhes fornecer isso, então eu tenho que ir para lá de avião em 21 de fevereiro, precisamos de planear tudo da melhor forma, e não como aconteceu com o Storm Shadow, quando eles planearam pontos de controle. Precisamos de pensar em como voar ou voar abaixo do campo de visão do radar. Se tudo estiver preparado, a formação será mais eficaz. E então podemos voltar à questão do número de mísseis. Se  dermos 50 peças, elas serão usadas muito rapidamente.

Gerhartz : Isso mesmo, não vai mudar o curso da guerra. Por isso, não queremos transferi-los todos. E não todos ao mesmo tempo. Talvez 50 na primeira parcela, então talvez haja outra parcela de 50 mísseis. Isto é perfeitamente compreensível, mas tudo isto é grande política. Eu acho que há realmente algo por trás disso. Aprendi com os meus colegas franceses e britânicos que, de facto, a situação com estas armas Storm Shadow e Scalp é a mesma que com as espingardas Winchester ― podem perguntar: “Porque é que devemos fornecer o próximo lote de mísseis, porque já o fizemos, deixem a Alemanha fazê-lo agora.” Talvez o Sr. Frostedte queira dizer algo sobre este tema?

Frostedte: Permitam-me acrescentar um pouco de pragmatismo. Quero compartilhar os meus pensamentos sobre as características de Storm Shadow. Estamos a falar de defesa aérea, tempo de voo, altitude de voo e assim por diante. Cheguei à conclusão de que existem dois alvos interessantes ― a ponte para leste [= a ponte de Kerch, também conhecida como ponte da Crimeia ou ponte do Estreito de Kerch, n.e.] e os depósitos de munições que estão mais acima. A ponte no leste é difícil de alcançar, é um alvo bastante pequeno, mas o Taurus pode fazê-lo, e depósitos de munição também podem atingir. Se levarmos tudo isso em conta e compararmos com quantos Storm Shadow e HIMARS foram usados, então tenho uma pergunta a fazer: “O nosso objectivo é uma ponte ou armazéns militares?” Isso é alcançável com as deficiências atuais que a RED e o Patriot têm? E cheguei à conclusão de que o factor limitante é que eles geralmente só têm 24 cargas…

Gerhartz: Isso é compreensível.

Frostedte: Faz sentido juntar a Ucrânia ao TPP. Vai demorar uma semana. Acho que faz sentido pensar em agendamento de tarefas e planeamento centralizado. Planear tarefas na nossa conexão leva duas semanas, mas se houver interesse nisso, então pode ser feito mais rapidamente. Se olharmos para a ponte [de Kerch], penso que o Taurus não é suficiente e precisamos de ter uma ideia de como pode funcionar, e para isso precisamos de dados de satélites. Não sei se conseguiremos preparar os ucranianos para tal tarefa num curto espaço de tempo, e estamos a falar de um mês. Como seria um ataque de Taurus à ponte [de Kerch]? De um ponto de vista operacional, não posso estimar a rapidez com que os ucranianos serão capazes de aprender a planear tais ações e a rapidez com que a integração ocorrerá. Mas como estamos a falar de uma ponte e de bases militares, compreendo que queiram obtê-las o mais rapidamente possível.

Fenske: Gostaria de dizer mais uma coisa sobre a destruição da ponte [de Kerch]. Estudámos intensamente esta questão e, infelizmente, chegámos à conclusão de que a ponte [de Kerch], devido à sua dimensão, é semelhante a uma pista. Portanto, pode exigir 10 ou mesmo 20 mísseis.

Gerhartz: Há uma opinião de que o Taurus terá êxito se usar o caça francês Dassault Rafale.

Fenske: Tudo o que eles podem fazer é fazer um buraco e danificar a ponte [de Kerch] .

E antes de fazermos declarações importantes, devemos nós mesmos…

Frostedte: Eu não estou a torcer pela ideia da ponte [de Kerch] eu pragmaticamente quero entender o que eles querem. E o que devemos ensinar, acontece que ao planejar essas operações precisaremos indicar os pontos principais nas imagens. Eles terão metas, mas aqui deve-se levar em conta que, ao trabalhar em pequenas metas, você precisa planear com mais cuidado, e não analisar imagens no computador. No caso de metas confirmadas, tudo é mais simples e o planeamento levará menos tempo.

Gerhartz: Todos sabemos que eles querem destruir a ponte [de Kerch], o que isso significa, em última análise, como estão a protegê-la ― não só porque tem um importante significado estratégico-militar, mas também político. Embora agora tenham um corredor terrestre. Há certas preocupações se tivermos uma comunicação direta com as forças armadas ucranianas. Portanto, surge a pergunta: podemos usar tal truque e secundar nosso pessoal para MBDA? Assim, a comunicação directa com a Ucrânia será apenas através da MBDA, isso é muito melhor do que se tal conexão existisse com a nossa Força Aérea.

Graefe: Gerhartz, isso não interessa. Temos de nos certificar de que, desde o início, não existe uma linguagem que nos torne parte no conflito. Claro que estou a exagerar um pouco, mas se agora dissermos ao senhor ministro que vamos agendar reuniões e viajar de carro da Polónia para que ninguém se aperceba, isto já é participação, não o faremos. Se estamos a falar de um fabricante, então, em primeiro lugar, devemos perguntar à MBDA se eles podem fazer isso. Pouco importa se o nosso povo o fizer em Büchel ou em Schrobenhausen ― não deixa de ser participação. E penso que isso não deve ser feito. Logo no início, identificámos este como um elemento central da linha vermelha, pelo que estaremos envolvidos na formação. Digamos que vamos preparar um roteiro. É necessário dividir o processo de aprendizagem em partes. <O roteiro longo durará quatro meses, vamos treiná-los minuciosamente, inclusive trabalhando na opção da ponte [de Kerch]. O roteiro curto ― será projectado por duas semanas para que eles possam usar os mísseis o mais cedo possível. Se já estão formados, então perguntaremos se os britânicos estão dispostos a lidar com eles nesta fase. Creio que tais acções serão correctas ― imaginem se a imprensa descobrir que o nosso povo está em Schrobenhausen ou que estamos a conduzir automóveis algures na Polónia! Considero esta opção inaceitável.

Gerhartz: Se essa decisão política for tomada, devemos dizer que os ucranianos devem vir até nós. Primeiro, precisamos saber se tal decisão política não está directamente envolvida no planejamento de tarefas, caso em que o treinamento levará um pouco mais de tempo, eles serão capazes de executar tarefas mais complexas, o que é bem possível que eles já tenham alguma experiência e usem equipamentos de alta tecnologia. Se é possível evitar a participação directa, não podemos participar no planeamento de tarefas, fazê-lo em Büchel e depois transmiti-lo a eles ― para a Alemanha, essa é uma “linha vermelha”. Podemos treiná-los por dois meses, durante os quais eles não aprenderão tudo, mas serão capazes de fazer alguma coisa. Só temos de nos certificar de que são capazes de processar toda a informação e trabalhar com todos os parâmetros.

Graefe: Seppel disse que é possível fazer um roteiro longo e curto. A questão é obter resultados em pouco tempo. E se na primeira etapa a tarefa é atingir depósitos de munição, e não objectos tão complexos como pontes, então, neste caso, podemos prosseguir com um programa encurtado e obter resultados rápidos. Quanto às informações do IABG, não considero esse problema crítico, uma vez que não estão vinculadas a um local específico, elas próprias devem realizar o reconhecimento. É evidente que a eficiência depende disso. Foi exactamente sobre isso que falamos, que vale a pena levar isso em conta ao transferir mísseis. Ainda não foi decidido. Mas é assim.

Gerhartz: E esse seria o destaque. Existem depósitos de munições para os quais não é possível realizar treinos curtos devido a uma defesa aérea muito activa. Esta questão terá de ser abordada com seriedade. Penso que o nosso povo encontrará uma opção. Só precisamos de ser autorizados a tentar primeiro, para podermos dar melhores conselhos políticos. Precisamos estar mais bem preparados para não falhar, porque o KSA pode não ter ideia de onde os sistemas de defesa aérea realmente estão. Os ucranianos têm essas informações, temos dados de radares. Mas se estamos a falar de um planeamento preciso, então temos de saber onde estão instalados os radares e onde estão as instalações fixas, como contorná-los. Isso permitirá que você desenvolva um plano mais preciso. Temos uma superferramenta e, se tivermos coordenadas precisas, poderemos usá-la com precisão. Mas não há base para dizer que não podemos fazer isso. Há uma certa escala em que a “linha vermelha” está politicamente, há um caminho “longo” e um caminho “curto”, há diferenças em termos de utilização de todo o potencial, que com o tempo os ucranianos vão poder usar melhor, uma vez que vão ter prática, vão fazer isso o tempo todo. Acho que não devo participar pessoalmente na reunião. É importante para mim que apresentemos uma avaliação sóbria e não atirar  lenha para a fogueira, como outros fazem ao fornecer Storm Shadow e Scalp.

Graefe: Quero dizer que, quanto mais tempo demorarem a tomar uma decisão, mais tempo demoraremos a implementar tudo isto. Temos de dividir tudo em fases. Primeiro, começar com as simples e, em seguida, passar para as complexos. Ou podemos dirigir-nos aos britânicos, podem dar-nos apoio na fase inicial e assumir questões de planeamento ? Podemos forçar o que está dentro da nossa área de responsabilidade. O desenvolvimento de suportes para mísseis não é uma das nossas tarefas. A Ucrânia tem de resolver esta questão de forma independente com os fabricantes.

Gerhartz: Nós não gostaríamos de ter problemas agora por causa da comissão de orçamento. Isso pode impossibilitar o início das obras de construção da base aérea de Büchel em 2024. Todos os dias agora contam no programa.


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