Pobreza material e miséria moral

(Rui Pereira, in Facebook, 22/06/2026)


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Descendo mais um degrau na escadaria da sua mais obscena indecência, o Parlamento Europeu aprovou no final da passada semana uma Resolução em que considera que “após cinco décadas de regime comunista, Cuba está perto de ser um Estado falhado”.

Do alto da pornográfica luxúria dos seus assentos, gabinetes e tapetes vermelhos, com os bolsos ataviados pelos milhares e milhares de euros por mês que lhes são pagos para tarefas mais ou menos indigentes – sem contar com os dinheiros que circulam por trás das portas fechadas dos seus gabinetes-, os parlamentares europeus (dos quais quase duas centenas em 700 estão sob averiguação por suspeitas de condutas ilícitas ou criminais) sublinharam que “a atual emergência humanitária – 89% das famílias cubanas a viver em pobreza extrema – ‘não é produto de qualquer embargo externo, mas sim consequência direta do modelo e das falhas do próprio regime’”.

A Resolução, proposta pela direita no poder na Europa e pela chamada extrema-direita que diz que se lhe opõe, ocupa-se do que clama serem cerca de 1300 presos políticos que afirma estarem submetidos a regimes carcerários de “tortura”. E vai mais longe na ignomínia, propondo que a União se junte ainda mais aos Estados Unidos no cerco criminoso contra a ilha, onde se perpetra um ensaio de extermínio do povo cubano, às mãos do mesmo Trump que critica na sua propaganda quando o assunto é a Ucrânia e o seu regime, o qual atribui às suas tropas de elite as designações dos batalhões colaboracionistas nazis durante a II Guerra Mundial (ver aqui).

.Sobre Israel, os incontáveis relatórios oriundos do próprio interior de Telavive sobre a cruel alucinação da tortura contra crianças, jovens, mulheres e anciãos palestinos – alguns dos quais são militantes do chamado Eixo da Resistência – não impressiona excecionalmente os eurodeputados (Ver aqui).

As recentes revelações do uso de animais especialmente treinados para abusos sexuais sobre os presos palestinianos, (retomando uma prática da polícia política de Pinochet, DINA, ver aqui), não mereceu mais do que um anódino suspiro de resignação dos “democratas” de Estrasburgo e Bruxelas, no intervalo das suas campanhas pró-sionistas.

O facto de um povo de 10 milhões de seres humanos estar a ser vitimado até ao limiar da mais precária sobrevivência (há hoje fome em Cuba, muitas zonas da ilha revolucionária estão 23 horas por dia sem energia elétrica, enquanto o bloqueio energético, financeiro e económico se torna absoluto), é um detalhe para os fariseus das “democracias” europeias. Que, de resto, perante esta situação, exortam a Comissão Europeia a “suspender” também todo “o diálogo político e o acordo de cooperação” da UE com Cuba.

Foi de Cuba que vieram médicos quando deles precisávamos para controlar a COVID-19 nos países em nome dos quais estes eurodeputados são eleitos para sem disfarces se locupletarem com dinheiro dos impostos dos seus povos recebendo lícita e/ou ilicitamente verbas assombrosas, sobre as quais não existem os mais elementares mecanismos de transparência e prestação de contas.

Os eurocratas da ditadura “democrática” teleguiada a partir de Bruxelas e Estrasburgo, de Telavive ou Washington, são incapazes de compreender como, em Cuba, a pobreza material forçada é o oposto da miséria moral de que se faz o arrivismo dos novos-ricos de uma Europa imersa num colapso ético similar ao de há cem anos.

Os terremotos políticos na Europa apontam para mudanças geopolíticas

( Diego Fassnach, in AsiaTimes, 10/06/2024, Trad. Castor Filho in VK)

A rejeição do New Deal Verde e das políticas de apoio à guerra na Ucrânia nas urnas sugere uma mudança de maré na política europeia.


As eleições europeias enviaram ondas de choque por todo o continente, revelando mudanças significativas nos cenários políticos e assinalando potenciais mudanças na dinâmica geopolítica.

Os resultados foram particularmente tumultuosos para o presidente francês, Emmanuel Macron, e para os partidos verdes em toda a Europa, nomeadamente na Alemanha.

As eleições revelaram-se especialmente desastrosas para Macron e os seus aliados.

A coligação pró-europeia de Macron sofreu uma derrota severa, ficando muito atrás do Rally Nacional (RN), de extrema-direita, liderado por Marine Le Pen.

Com o RN garantindo 31,5% dos votos contra os 15,2% de Macron, o presidente francês foi obrigado a dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições parlamentares antecipadas, marcadas para 30.6.2024, com um segundo turno em 7.7.2024 visando contornar a crise política na França e a posição precária de Macron.

Resultados provisórios da eleição do Parlamento Europeu

Na Alemanha, os Verdes enfrentaram um revés substancial, perdendo parte significativa do seu apoio anterior.

O partido, que já foi um forte defensor de políticas climáticas agressivas e do apoio militar à Ucrânia, viu a sua percentagem de votos cair drasticamente para 11,9%, abaixo dos 20,5% nas eleições europeias anteriores.

Este declínio realça a crescente desilusão pública com o New Deal Verde e a agenda mais ampla de Davos, que muitos eleitores rejeitam agora.

Uma tendência notável ao longo destas eleições é a reação contra os líderes que apoiaram o envolvimento militar na Ucrânia.

Macron, um defensor veemente da entrega de armas ou mesmo da possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia, viu-se no lado perdedor, à medida que os eleitores se opunham cada vez mais à continuação do conflito com a Rússia.

Este sentimento ressoa para além da França, uma vez que os eleitores alemães também se afastaram dos partidos que defendem posições agressivas em relação à Rússia.

Os resultados eleitorais em França suscitaram discussões sobre potenciais mudanças políticas na Alemanha. Com a direita AfD (Alternativa para a Alemanha) e a recém-formada esquerda nacional BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht) a obter ganhos significativos, há uma pressão crescente sobre o governo alemão.

O apoio da AfD subiu para 15,9% e o BSW estreou com notáveis ​​6,1%. Ambos os partidos, conhecidos pelas suas políticas orientadas para a paz, capitalizaram o declínio da popularidade dos Verdes e da coligação governante.

À medida que a Alemanha enfrenta as próximas eleições regionais nas regiões orientais, onde a AfD e o BSW são particularmente fortes, a perspectiva destes partidos ganharem mais influência é cada vez maior.

Se a AfD conseguisse na Saxônia o mesmo resultado que obteve nestas eleições europeias, o partido estaria próximo da maioria absoluta e poderia formar o governo de uma regiao federal alemã.

Tal resultado poderia ameaçar a estabilidade do governo do Chanceler Olaf Scholz, conduzindo potencialmente a novas eleições nacionais.

Imediatamente após o resultado das eleições ter ficado claro no domingo, o secretário-geral da oposição CDU, Carsten Linnemann, apelou a Scholz para apresentar um voto de confiança ao parlamento, o que poderia levar a novas eleições se ele não receber tal voto da maioria do parlamento.

Os ganhos eleitorais da AfD e do BSW, ambos defendendo o fim do conflito na Ucrânia, indicam uma mudança geopolítica mais ampla.

Estes partidos, juntamente com figuras como o antigo presidente dos EUA, Donald Trump, enfatizam a diplomacia em vez de soluções militares.

Se estas forças políticas ganharem mais poder, a Europa poderá assistir a uma mudança significativa na sua abordagem ao conflito na Ucrânia e nas relações com a Rússia.

Os comentários recentes de Elon Musk no X refletem essa mudança de sentimento.

Musk questionou o retrato negativo da AfD, observando que as suas políticas não parecem extremistas.

Sua declaração sublinha a reavaliação mais ampla dos rótulos e alianças políticas à luz da evolução das opiniões públicas.

As próximas eleições estaduais na Alemanha Oriental poderão solidificar ainda mais estas tendências.

Com a AfD já a liderar nestas regiões, as suas potenciais vitórias poderão desmantelar a atual coligação governamental, provocando eleições nacionais antecipadas.

Tal cenário provavelmente reforçaria a influência dos partidos orientados para a paz e diminuiria o domínio dos defensores da guerra.

É também notável que a AfD tenha terminado no mesmo nível da CDU entre os eleitores jovens.

Anteriormente, os Verdes eram particularmente fortes entre os jovens.

Nas últimas eleições, os Verdes obtiveram 30% entre os eleitores jovens, mas desta vez esse número caiu para 12%. CDU e AfD obtiveram 17% entre os eleitores jovens.

Os terremotos políticos na Europa são mais do que apenas mudanças eleitorais; representam uma profunda reformulação das estratégias geopolíticas da Europa.

À medida que as estruturas de poder tradicionais enfrentam desafios, surgem novas alianças e prioridades.

O apelo à paz e a soluções diplomáticas, ecoado por figuras políticas europeias e americanas, poderá remodelar o futuro do continente e o seu papel na cena global.

As recentes eleições europeias destacam realinhamentos políticos significativos e mudanças geopolíticas emergentes.

A rejeição do New Deal Verde e das políticas de apoio à guerra, juntamente com a ascensão de partidos orientados para a paz, sugere uma mudança de maré na política europeia.

À medida que a França e a Alemanha navegam nestas águas turbulentas, os resultados influenciarão, sem dúvida, o panorama geopolítico mais amplo, com ramificações que se estendem muito para além do continente.

Fonte aqui.

União Europeia: à deriva entre duas ilusões

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 10/06/2024)

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Tudo indica que as forças do nacionalismo e populismo extremos terão um significativo ganho relativo de deputados no Parlamento Europeu (PE) em 2024. Contudo, já nas eleições de 2014, a mesma corrente política obteve triunfos substanciais. Basta recordar a vitória da Frente Nacional (hoje, Reagrupamento Nacional-RN) de Marine Le Pen, ou o sucesso de Nigel Farage, com o seu UKIP, que seria o instrumento fundamental para o Brexit em 2016. 

Em 2014, sangrava ainda a crise do euro, disfarçada com a máscara oficial da “crise das dívidas soberanas”. Tratava-se, então, de uma clivagem aguda. mas na periferia europeia (Irlanda, Grécia, Portugal, Chipre, a banca espanhola…). A sua narrativa afundava-se numa linguagem económica e financeira errada e moralista: corrigir o pecado coletivo de povos inteiros que teriam vivido acima das suas posses. 

As vitórias populistas, de 2014 e de 2024, pelo contrário, mudam a intensidade, mas também a geografia e o léxico do mal-estar europeu. O fulcro da doença da UE ataca hoje o núcleo dos países da Declaração Schuman de 1950, diria mesmo, o coração da velha Europa Carolíngia. O populismo já governa a Itália e a Holanda, ameaça uma Alemanha, que nunca foi tão desgovernada em democracia (incluo a República de Weimar), e caminha para uma vitória presidencial de Marine Le Pen em 2027, que só a doença ou a guerra poderão travar. 

Para capitalizar os seus ganhos no PE, os partidos populistas deverão fundir os seus dois grupos parlamentares, respetivamente, o ID (Identidade e Democracia), onde pontifica o RN de Marine Le Pen, e o ECR, onde se destacam os Irmãos de Itália, da PM italiana Giorgia Meloni. 

O PE será apenas mais uma plataforma para assaltar o centro do poder da UE, o Conselho Europeu, onde se definem alianças e hierarquias. Mas o que querem, afinal, os populistas? O seu discurso, nem sempre coerente, reclama mais devolução de soberania às nações, menos competências das instituições europeias, em especial da Comissão Europeia (CE). Querem mais autonomia dos Estados nas migrações e na política externa e de defesa. Dividem-se sobre o que fazer perante a guerra na Ucrânia, mas estão unidos na contestação das políticas ambientais e climáticas. A sua natureza, simultaneamente populista e nacionalista, não augura uma cooperação sistemática entre estas forças, à medida que assumam lugares de decisão nos respetivos países. Mais perigoso ainda é o seu desempenho em matéria de Direitos Humanos: chauvinismo, racismo, homofobia, fazem parte de uma agenda de (maus) costumes, que, aliás, é partilhada com alguma da velha direita. 

Contudo, importa não cair na habitual falácia de tomar as causas pelos efeitos. Se a onda populista marca um novo ciclo político, no estado de crise permanente em que a UE entrou, quase desde o início do século, isso deve-se à incapacidade de democratas-cristãos, socialistas e liberais se manterem fiéis a um projeto europeu baseado na defesa da paz, do Estado Social e da proteção ambiental. 

O neoliberalismo e a sua teologia de mercado intoxicaram a construção europeia, desde logo na incompetente arquitetura da Zona Euro, e depois na passividade cúmplice face à subida aguda da desigualdade e da pobreza nos países europeus. Por outro lado, também não foram Governos populistas que arrastaram a UE para a perigosa subordinação à NATO e aos EUA, numa guerra, que segundo inquérito recente do Institute of Global Affairs, de Nova Iorque, conta com a oposição esmagadora de europeus e norte-americanos. 

Vejamos dois dos erros cruciais que alimentaram o populismo. Um dos primeiros países onde o extremismo despontou, com o partido Aurora Dourada, foi a Grécia. Então, sob o duplo peso da austeridade e de vagas de migrantes. Os Governos de Atenas e Roma gerem duas das mais sensíveis zonas de entrada de refugiados na Europa. É extraordinário verificar não só o total improviso e falta de solidariedade da UE, como a criminosa e irresponsável descoordenação entre os Estados-membros na prevenção das causas das migrações. 

O aventureirismo do Reino Unido, e de outros países europeus, esteve patente, no apoio militar à infundada e brutal invasão norte-americana do Iraque, em 2003. As ondas de refugiados nessa altura criadas, aumentaram substancialmente com a intervenção “humanitária” da NATO contra o Governo de Kadhaffi, em 2011. A França de Sarkozy e o Reino Unido de Cameron foram dos mais ativos intervenientes na destruição de um dos mais prósperos países africanos, transformado hoje num santuário terrorista e numa fábrica de refugiados. 

Pior ainda, a CE tinha conseguido em outubro de 2010, depois de anos de negociação com Tripoli, um amplo acordo que tornaria a Líbia num aliado da UE no combate às redes de migração ilegal e no acolhimento temporário de refugiados. Como se tal não bastasse, a França de Hollande e, uma vez mais Cameron, com o apoio de Hillary Clinton, querendo derrubar o Governo sírio a qualquer preço, sustentaram uma guerra civil, causadora de milhões de refugiados, que se abateram em particular sobre a Alemanha, em 2015. O PE aprovou há semanas um Pacto das Migrações e Asilo, mas ele não menciona a responsabilidade dos Estados-membros que agravaram unilateralmente esse problema humanitário, nem confere os meios necessários para o seu cabal financiamento. 

A guerra da Ucrânia é outro expoente da negligência estratégica da UE na defesa da paz e boa vizinhança. O discurso dominante coloca na Rússia a responsabilidade total, mas quem tenha algum pudor intelectual não confundirá propaganda com objetividade. Desde 2008 que a UE e EUA sabiam das objeções fundamentais da Rússia contra a entrada de Kiev na NATO. William Burns, hoje chefe da CIA, então embaixador de Washington em Moscovo, alertou, em 2008, para a insensatez desse alargamento. Em 2010, foi eleito o presidente Yanukovich (em eleições universalmente reconhecidas como limpas), na base de uma plataforma que faria da Ucrânia um país que deveria ser ponte, e não fronteira, entre a NATO e a Rússia (em 2019, Zelensky seria eleito tendo por promessa principal a resolução negociada e pacífica dos diferendos com Moscovo…). 

Em 2014, Yanukovich é derrubado insurrecionalmente em Kiev, precipitando-se uma guerra civil. Ficámos a saber, já depois da invasão de 2022, que a iniciativa russa de resolver diplomaticamente a contenda, através dos Acordos de Minsk I e II (em 2014 e 2015), foi encarada por Merkel e Hollande, em representação da UE, como uma oportunidade para enganar Putin, dando tempo para Kiev se transformar, como escreve John Mearsheimer, num membro de facto da NATO. 

A grande ilusão dos partidos fundadores da UE, e que se consideram como donos da democracia genuína, é a de que a UE low cost do euro poderia ter futuro. A ilusão de que seria possível alimentar a grandiloquência retórica dos valores europeus, da Justiça Social com prosperidade económica e sustentabilidade ambiental, através de uma união monetária, sem união política, nem união orçamental e fiscal, desprovida de um sistema de paz pan-europeu. 

A nova ilusão, dos nacionalismos populistas, é a de que poderemos regressar, tranquilamente, a uma mítica Europa das nações, sem nos cortarmos nos estilhaços que a implosão da atual estrutura da UE inevitavelmente provocaria. Contudo, a primeira e urgente prova de fogo da realidade, na nova paisagem política, será a de travar a escalada suicida para uma guerra frontal da UE com a Rússia.