O melhor dirigente europeu e o pior

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/01/2024)

O alto e o baixo

O melhor é espanhol

O jornal El País, um grande jornal europeu, publica na edição de 1 de Janeiro de 2024 uma entrevista do escritor Arturo Pérez-Reverte ao programa El Hormiguero (O Formigueiro) da cadeia SER, de televisão, para falar do seu último romance. Uma conjugação de acontecimentos impossível de encontrar em Portugal, um grande jornal (que não há) noticiar a ida de um escritor a uma estação de televisão (de onde a literatura está banida, assim como os escritores) e descrever o que o escritor disse sobre a política do seu país e, no caso, a opinião que tem sobre a lei de amnistia que o primeiro-ministro Pedro Sanchez promoveu para comprar os votos dos independentistas catalães que lhe permitiram formar governo.

Antes de falar de Pedro Sanchez, diz Arturo Perez-Reverte, citado pelo El País: “suponho que irei ao programa falar de livros, mas temo que não somente de livros”. Arturo Pérez-Reverte acabou falando sobre o seu livro e sobre outros temas, entre eles a lei de amnistia e a figura de Pedro Sánchez. Reconheceu ser contra a dita lei, mas que compreende a decisão política do presidente do governo; “Pedro Sánchez é uma personagem fascinante.” Depois definiu Pedro Sánchez como um “aventureiro da política”: “É um pistoleiro, um assassino, um tipo que não olha aos meios “. Segundo o ponto de vista do escritor, o líder do PSOE tem “ o instinto assassino do jogador de xadrez” e, simultaneamente, “não leu um livro em toda a vida “. Apesar disso, Pérez-Reverte reconhece que Sanchez lhe parece fascinante porque tem nas veias as teorias de todos os teóricos do Renascimento: “Tem um instinto político extraordinário. É corajoso, tenaz, atrevido, não tem nenhum tipo de escrúpulos” E conclui: “É o político mais interessante de Espanha e provavelmente da Europa. Outra coisa é saber onde te leva, mas como personagem é um tipo fascinante”. Quanto aos outros políticos considera-os uns “monos” e que Pedro Sánchez apenas cairá “ quando já não tiver nada que vender e cairá sozinho. Parece-me imbatível e estou fascinado com ele.”

Os romancistas nos jornais e nas televisões são perigosos porque dizem estas ‘inconveniências’ que afligem a teologia oficial. Em Portugal, que sofre das condicionantes das sociedades de pequena dimensão, paroquiais e senhoriais, os hereges, mesmo que potenciais, os escritores, estão banidos do espaço público.

«Reservado o direito de admissão», uma placa que deixou de estar fisicamente colocada à entrada dos estabelecimentos, mas que continua no subconsciente nacional na entrada de todos os estúdios e redações. Locais reservados aos fiéis que se benzem, persignam e recitam o credo do proprietário!

O pior é alemão

Pedro Sanchez é, segundo Pérez-Rivete, de quem sou leitor e admirador, o melhor exemplo de dirigente europeu. Seria muito interessante conhecer quem ele considera o pior. À falta de uma resposta, avanço com a minha proposta. Deixando no caixote do lixo de onde saíram sem que se saiba quem as convocou as figuras risíveis de Ursula von der Leyen e de Josep Borrel, meros bonifrates, a minha escolha recai no chanceler alemão Olaf Scholz. Não o escolho por ele ser mau, que lhe falta qualidade para o ser, mas por ser o tipo de pastor que cumpre a sua função quando existem boas pastagens para o rebanho e não há ameaça de lobos e isto num tempo em que as pastagens estão quase secas e há alcateias por perto. Um tipo de “mono” perigoso, mais ainda na Alemanha, onde os lideres fracos abrem caminho a esquizofrénicos catastróficos que incendeiam a Europa. De Bismark da guerra Franco-Germânica à Tríplice Aliança do Kaiser Guilherme II e a Welpolitik (a conceção germânica da geoestratégia) da Alemanha imperial, na origem da I Grande Guerra e que teve continuidade no Terceiro Reich. Ora, foi à Alemanha que os Estados Unidos entregaram a “defesa da Europa democrática e livre”! Olaf Scholz é, manifestamente, um dirigente de transição e nós, os europeus estamos à mercê da sua visão de funcionário cumpridor e obediente.

Swedish Institute for European Policy Studies, SIEPS, uma agência independente que realiza investigação e análises sobre política europeia desenvolveu um trabalho da autoria de Katarina Engberg sobre o pensamento oficial e não oficial da Alemanha na nova paisagem geopolítica, dominada pela guerra na Ucrânia, o alargamento de U E e a deslocação do centro de gravidade da Europa para Leste.

Olaf Scholz tem andado às apalpadelas neste ambiente de incertezas. Algumas respostas possíveis da Alemanha foram apresentadas no documento «Estratégia de Segurança Nacional» (Germany’s first National Security Strategy,2) publicado em Junho de 2023. Um documento à imagem de Olaf Scholz, redondo. O governo da Alemanha define como objetivo assegurar a paz, segurança e estabilidade, isto enquanto muitos estados europeus aguardavam respostas esclarecedoras sobre o futuro da Europa. As hesitações do governo alemão podem ser, como têm sido habitual, atribuídas à tradicional relutância da Alemanha do pós-guerra em assumir um papel de liderança na Europa, mas também à incapacidade dos seus governantes de lidar com os complexos problemas resultantes da guerra na Ucrânia e, antes desta, da esquecida agressão contra a Sérvia, do desmantelamento da Jugoslávia em que a Europa se deixou envolver, e de ter agora oito estados do Leste como pretendentes a membros da União Europeia, além da integração da Suécia e da Finlândia na NATO.

A guerra na Ucrânia expôs as fragilidades da Alemanha como potência líder da Europa, e os equívocos em que desde o início assentou o processo que conduziu à criação da União Europeia enquanto espaço político com autonomia no jogo de forças entre grandes atores mundiais. A guerra na Ucrânia revelou que o entendimento Franco-Germânico, que durante décadas foi tido como um pré-requisito para as mais importantes decisões europeias, não passava para os atuais dirigentes da Alemanha de uma falsa colagem e de um casamento de aparências, sem tradução efetiva no estabelecimento de uma política europeia. O eixo franco-alemão, muito publicitado, escondia e escondeu durante anos a opção da Alemanha pela submissão aos Estados Unidos, pelo apoio à sua política para a Ásia Central e para o confronto com a Rússia e a China.

Percebe-se hoje a oposição de chanceleres alemães tão carismáticos como os sociais democratas Willy Brandt ou Helmut Schmidt, ou democratas cristãos como Helmut Khol ou Angela Merkel à constituição de um Exército Europeu, a uma industria militar europeia, a um programa espacial europeu, a uma política europeia para o Médio Oriente e ao apoio mais ou menos encapotado ao programa anglo-americano de extensão da NATO para Leste, em benefício da estratégia dos EUA e violando acordos estabelecidos com Rússia após a implosão da URSS. Hoje percebe-se até o papel da Alemanha, através de Willy Brandt, na normalização do Portugal pós-25 de Novembro de 1975, através de Mário Soares, em que Miterrand, mon ami Miterrand, fez o que pôde para atrair Portugal para a esfera francesa, mas que acabou por fazer o papel de marido enganado.

Apesar de os “quatro grandes” estados-membros da UE, Alemanha, França, Espanha, Itália, se encontrarem na parte ocidental da Europa e representarem dois terços do PIB da UE, e os países da Europa de Leste apenas um décimo, Berlim preferiu seguir as indicações de Washington de privilegiar a frente Leste e de ali ser o seu representante como detentor do poder regional. Para desempenhar esse papel a Alemanha vai gastar 2% do seu PIB, 75,5 mil milhões de euros, em despesas militares a partir de 2024, em grande parte em compras aos Estados Unidos. A liderança por parte da “nova” Alemanha da Europa a partir do Leste, que é a estratégia dos Estados Unidos, levanta questões em Berlim: qual a atitude da Polónia e da Hungria na U E, se a Polónia aspira a um papel de liderança na região, argumentando que sempre esteve certa em relação à Rússia, enquanto a Hungria explora a possibilidade de jogar com as boas relações com a Rússia para obter vantagens junto da UE. Os estados bálticos têm a sua própria orientação, que nunca foi a da Alemanha, mas sim a do guarda-chuva americano. A futura direção política da Eslováquia é incerta. No que diz respeito à Ucrânia, esta terá de decidir se quer aliar-se preferencialmente a um parceiro pouco fiável e com pretensões a parte do seu território, como Polónia, junto às suas fronteiras, ou se prefere um vizinho forte como a Alemanha, mais fiável, embora mais afastado.

Para a estratégia dos Estados Unidos (que a Alemanha parece ter adotado) a Alemanha passou de um estado da frente no combate à Rússia, como foi durante a guerra-fria, para uma área de retaguarda da “defesa do Ocidente”, como um complexo logístico e de trânsito de forças dos Estados Unidos e do Reino Unido, no cenário de invasão russa até Paris, ou a Lisboa que os estrategas criam para justificar despesas militares.

Se o papel estratégico que os dirigentes alemães assumem para a Alemanha é o de área de retaguarda dos Estados Unidos na Europa, parece evidente que o papel político que Alemanha, o mais poderoso estado europeu, assume para si em termos militares e, logo, em termos políticos e económicos, é o mesmo que está disposta aceitar para a Europa, o da subalternidade política, económica, militar, estratégica. É o que pudemos esperar da liderança de Olaf Scholz.

A subalternização da Alemanha e da Europa perante os Estados Unidos ficou patente na triste figura de Olaf Scholz de sorriso amarelo, sentado na Sala Oval da Casa Branca, com a habitual lareira sempre acesa, como um menino a ser repreendido, a ouvir o dicktat de Biden de que o gasoduto NordStream2 jamais entraria em funcionamento. Scholz abanou as orelhas e o gasoduto pago pelos alemães foi destruído numa explosão nas águas territoriais da Suécia, um país soberano e candidato a membro da NATO, que recebeu assim a sua primeira lição de obediência democrática!

O papel de hub logístico dos Estados Unidos que a Alemanha aceitou ser exige grandes investimentos em infraestruturas — desde vias de comunicação a cuidados de saúde e ser o pilar da defesa convencional da Europa implica que forças armadas alemãs passarão dos atuais180.000 militares para 200,000, em 2031. A Alemanha é atualmente o segundo maior contribuinte para as despesas da guerra na Ucrânia, logo após os Estados Unidos, num total de 5.4 mil milhões de euros sem incluir a contribuição para o “fundo europeu para a paz” (sic) de 4.7 mil milhões de euros. Olaf Scholz traduziu o que pretende para a Alemanha ao afirmar que o seu governo pretende alterar o conceito de indústria de defesa com o objetivo, nas suas palavras, de esta se tornar semelhante à indústria automóvel, com capacidade para entregas sustentáveis ao longo dos tempos. Isto é, Olaf Scholz pretende uma indústria alemã de defesa segundo o modelo do complexo militar-industrial dos Estados Unidos, a que corresponde uma política europeia belicista para criar a permanente e continuada necessidade de novos produtos que rentabilizem os investimentos à custa de guerras por todo o planeta. A submissão de Olaf Scholz levará a Europa a acompanhar os EUA nas suas guerras por todo o mundo. O que já fora indiciado por outro dirigente europeu rastejante, o secretário da NATO, quando incluiu a China nas ameaças à organização! Mas terá impacto nos fundos europeus destinados a programas que aumentem a competitividade das economias dos estados membros da União Europeia, da sua coesão. Isto é, a economia da União Europeia será menos competitiva que a dos EUA e da China e até mesmo do que a Rússia. Haverá menos programas sociais, pior saúde e educação, mais desemprego e mais instabilidade política e social.

O objetivo de Olaf Scholz é uma Alemanha militarizada e belicista como potência líder da Europa, como agente dos Estados Unidos. O cinzento Olaf Scholz é o apagado serviçal que fará o trabalho de preparar a vinda de um incendiário que lance a Europa numa ou em várias fogueiras, ao pé de quem Pedro Sanchez será um simpático ferrabrás como o capitão Alatriste, o herói dos romances de Arturo Perez Reverte, um espadachim a soldo que se movimenta no submundo da decadente corte espanhola do século XVII, entre vielas e tabernas, assassinos como Malatesta, conspiradores como o inquisidor frei Emílio Bocanegra.

É uma Alemanha perigosa — mas conhecida — que Olaf Scholz prepara.


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O chanceler do declínio

(Oskar Lafontaine, in Geopol, 22/08/2023)

A genuflexão de Olaf Scholz perante o imperialismo norte-americano destruiu a paz na Europa e a base industrial alemã.


A genuflexão de Olaf Scholz perante o imperialismo norte-americano está a destruir a paz na Europa e a base industrial da Alemanha.”O chanceler federal determina as directrizes da política”, diz a Lei Fundamental. Olaf Scholz é o nono chanceler federal após a Segunda Guerra Mundial. E já está claro que será o chanceler do declínio. 

Konrad Adenauer defendia a integração ocidental, Ludwig Erhard a economia social de mercado. Kurt Georg Kiesinger, o primeiro chanceler de uma grande coligação, foi polémico devido à sua filiação no NSDAP. Willy Brandt recebeu o Prémio Nobel da Paz pela sua política a Leste e pelo desanuviamento. Helmut Schmidt, juntamente com Giscard d’Estaing, apelou à coordenação das políticas económicas dos principais países industrializados e Helmut Kohl tornou-se o chanceler da reunificação. O mandato de Gerhard Schröder foi marcado pela Agenda 2010, a rejeição da guerra do Iraque e o alargamento da parceria energética com a Rússia.

Cinismo insensível em relação às sanções

Angela Merkel organizou o abandono da energia nuclear após Fukushima, aboliu o serviço militar obrigatório e abriu as fronteiras alemãs a mais de um milhão de refugiados sob o lema “Nós conseguimos”. Scholz representa a desindustrialização da Alemanha, o ressurgimento do militarismo e o adeus à Ostpolitik e à política de desanuviamento de Willy Brandt.

É verdade que ele não é responsável pela expansão da NATO para Leste, que políticos americanos como George Kennan ou o atual chefe da CIA, William Burns, advertiram urgentemente que conduziria à guerra. Mas o fim da parceria energética com a Rússia é da sua responsabilidade. Um chanceler alemão tem de saber que uma nação industrial precisa de energia e matérias-primas baratas para competir internacionalmente e que nenhum outro Estado no mundo pode substituir o fornecimento de energia e matérias-primas russas a preços comparáveis. Uma vez que é ele que define as orientações políticas, também não se pode esconder atrás do seu ministro da Economia, Robert Habeck, que justificou as sanções energéticas da seguinte forma:

«É claro que nos estamos a prejudicar com isto [. . .] O objetivo das sanções é que uma sociedade [. . .] suporte encargos [. . .] Todos terão de contribuir [. . .] Teremos uma inflação mais elevada, preços da energia mais elevados e um encargo para a economia, e nós, enquanto europeus, estamos dispostos a suportá-los para ajudar a Ucrânia. Haverá dificuldades, e essas dificuldades terão de ser suportadas.»

Scholz devia ter percebido onde é que este cinismo insensível nos leva. A indústria alemã está a deslocalizar a sua produção para o estrangeiro, de preferência para os EUA ou a China, onde os custos energéticos representam apenas um quinto ou um terço dos custos energéticos alemães. As empresas que não podem fazer isso estão a reduzir a produção e os postos de trabalho.

Não sei quanto tempo Olaf Scholz tem para ler. Mas o infame discurso do geoestrategista norte-americano George Friedman no Chicago Council on Global Affairs, em 2015, deve ser familiar a qualquer político alemão que queira ser levado a sério. Durante mais de cem anos, explicou Friedman, o objetivo da política norte-americana foi impedir que a indústria alemã se fundisse com as matérias-primas russas:

«Unidos, os dois países são a única potência que nos pode ameaçar e o nosso interesse é que isso não aconteça».

É por isso que os EUA estão a construir uma cintura de segurança entre o Mar Báltico e o Mar Negro, e é por isso que os EUA não podem deixar a Ucrânia nas mãos dos russos.

«As cartas estão na mesa. Os russos querem, pelo menos, uma Ucrânia neutral, não uma Ucrânia pró-ocidental. Nós queremos uma cintura de segurança. Quem me puder dizer como é que os alemães se posicionam nesta questão, também me pode dizer como é que a história vai ser escrita nos próximos vinte anos.»

As sábias palavras de Willy Brandt

Já há oito anos, Friedman disse que cabia aos alemães quando os Estados Unidos começaram a transformar a Ucrânia no seu posto militar avançado. E é uma tragédia para a Ucrânia, para a Rússia, para a Alemanha e para a Europa o facto de Olaf Scholz ter sido chanceler alemão durante a fase decisiva da tentativa dos EUA de transformar a Ucrânia num vassalo dos EUA, porque Brandt, Schmidt, Kohl ou Schröder não teriam permitido o abandono arbitrário da política alemã de Leste e de desanuviamento e da sua parceria energética com a Rússia.

Os homens fazem a história, para o bem e para o mal, e as imagens dizem por vezes mais do que as palavras. Inesquecível é a conferência de imprensa em que Joe Biden anunciou a destruição do gasoduto Nord Stream, enquanto o chanceler alemão Olaf Scholz assistia, sorrindo envergonhado como um cão chicoteado.

Tal como a genuflexão em Varsóvia levou a que “o nome do nosso país e o conceito de paz voltassem a ser mencionados no mesmo fôlego” (Willy Brandt), a genuflexão de Olaf Scholz perante o imperialismo norte-americano destruiu a paz na Europa e a base industrial alemã.

Peça traduzida do alemão para GeoPol desde NachDenkSeiten


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Uma alternativa transversal abala a paralisia da Alemanha

(Por Eduardo J. Vior, in Geopol.pt, 27/06/2023)

Expulsa recentemente do partido A Esquerda, Sahra Wagenknecht prepara-se para fundar uma nova formação diferente do sistema atlantista e do populismo de direita.


Ao expulsar a líder histórica da corrente marxista da Esquerda (Die Linke), a direção do partido fez-lhe mais um favor do que um dano. O grande mal, pelo contrário, foi infligido a si própria e, paradoxalmente, ao seu equivalente no outro extremo do sistema político alemão, a Alternativa pela Alemanha (AfD). Rompendo todos os diques do esclerótico sistema político alemão, o discurso pacifista, socialista e popular de Sahra Wagenknecht granjeou-lhe a simpatia tanto dos eleitores de esquerda como dos conservadores. Se agora construir uma força transversal, desencadeará uma torrente que poderá destruir o Estado liberal e ameaçar o domínio dos EUA na Alemanha.

O Partido de Esquerda (Die Linke) apelou no sábado, dia 10, à sua antiga líder, Sahra Wagenknecht, para que renuncie ao seu mandato no Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão). Wagenknecht e outros esquerdistas não citados nominalmente devem devolver os seus mandatos, afirma um comunicado da presidência federal do partido. De acordo com a Lei Fundamental, Sahra Wagenknecht não é obrigada a devolver o seu mandato, mas está desvinculada do partido.

Sahra Wagenknecht, de 54 anos, filha de um iraniano (daí o nome “Sahra”) e de uma alemã, foi membro da Juventude Socialista da Alemanha de Leste e, após a reunificação, aderiu ao Partido da Democracia Socialista (PDS), sucessor do antigo Partido da Unidade Socialista (SED) da extinta República Democrática Alemã (RDA). Na nova estrutura, presidiu à Plataforma Comunista, uma corrente interna ortodoxamente marxista, durante vinte anos. Em diferentes alturas, foi também membro da Presidência do Partido Federal e é deputada no Bundestag desde 2009. Durante a sua carreira, teve muitos confrontos com a maioria da direção do partido, que considerava “demasiado adaptada” à democracia liberal.

No entanto, foi depois das eleições legislativas de 2021, em que a esquerda perdeu metade dos seus votos, que a coexistência se tornou quase impossível. Enquanto a corrente dominante, seguindo a deriva identitária da esquerda europeia, prossegue uma agenda centrada nas políticas de género, no ambientalismo, no europeísmo, na abertura das fronteiras e no antirracismo, a minoria de esquerda acentuou a sua luta pelos direitos sociais, o pacifismo, a boa vizinhança com a Rússia e a integração dos imigrantes. Após a eclosão da guerra na Ucrânia, as diferenças acentuaram-se, porque a maioria adoptou o rumo anti-russo de grande parte do sistema político e a esquerda manifesta-se pela procura imediata de negociações com a Rússia, ao mesmo tempo que denuncia os EUA como o instigador da conflagração na Europa de Leste.

Apesar de Wagenknecht sempre ter entrado em conflito com a linha do partido, a maioria conteve-se até há pouco tempo, porque a líder é muito popular, mas a sua confluência de facto com algumas das posições defendidas pela AfD, de direita, já transbordou. Em março passado, juntamente com a feminista histórica Alice Schwarzer, lançou um “Manifesto pela Paz” que recolheu numerosas assinaturas (incluindo de dirigentes da AfD) e apelou a uma grande manifestação pela paz em Berlim. Desde então, a eurodeputada e os líderes do AfD fizeram uma série de declarações em que apelaram a negociações com a Rússia e condenaram as políticas económicas e sociais da coligação governamental.

Já em março passado, uma sondagem da revista Der Spiegel mostrou que os eleitores conservadores, especialmente os apoiantes da AfD, apoiariam um possível partido a fundar por Sahra Wagenknecht. No total, 25 por cento da população imagina-se a votar num partido liderado pela dirigente. Se entrar em campo com uma força própria, Sahra Wagenknecht pode tornar-se uma concorrência perigosa para a AfD, porque goza de grande popularidade entre os eleitores de direita e, com a sua combinação de críticas à migração descontrolada e à sua consciência social, atinge-os.

Visto em perspetiva, este é o único desenvolvimento que poderia travar o crescimento da direita nacionalista. Uma sondagem do YouGov, publicada na sexta-feira, dia 16, indica que 20% dos eleitores alemães dariam o seu voto à AfD, o que a torna o segundo partido mais forte, atrás da CDU, de centro-direita (28%) e à frente do SPD do chanceler Olaf Scholz (19%). Não há dúvida de que se trata de um terramoto político.

Após apenas um ano e meio no poder, a atual coligação “semáforo” entre o SPD, os Verdes (com 15%) e os liberais do FDP (7%) já não tem mandato para governar. Nas eleições gerais de 2021, o SPD tinha obtido 25,7%, o FDP 11,5% e o Partido Verde 14,8% dos votos. A sua incapacidade para resolver a crise económica e fazer baixar a inflação, a sua insistência numa transição ecológica impopular, a sua imperfeição na gestão do fluxo de requerentes de asilo que entram no país e o seu apoio à guerra dos EUA contra a Rússia retiraram-lhe toda a legitimidade. Esta queda abrupta da coligação deixa um vazio que a AfD, de direita, deveria ser capaz de preencher.

Vinte por cento é já um limiar significativo num sistema político fragmentado como o da Alemanha e alguns observadores políticos colocam o potencial externo da AfD em cerca de 30%. Até agora, uma coligação com a AfD era tabu para os dois maiores partidos, a CDU e o SPD. No entanto, na situação atual, a CDU enfrenta uma escolha: voltar à “grande coligação” paralisante com o SPD da era Merkel ou formar um governo com a AfD de direita.

A questão é que a AfD está a crescer e, quando ultrapassar a marca dos 20%, será mais difícil excluí-la de um governo de coligação. A recessão na Alemanha deverá ser longa e favorecerá as alternativas anti-establishment. O aumento descontrolado da imigração também está a contribuir para o crescimento da AfD. De acordo com dados oficiais, o número de pedidos de asilo na Alemanha aumentou 80% entre janeiro e março de 2023, em comparação com o mesmo período do ano passado. Num contexto de crise e de guerra, este aumento deve-se, sem dúvida, à situação central do país, mas também à força da sua estrutura de acolhimento. No entanto, como salientou Wagenknecht numa entrevista, o problema não é tanto o número de refugiados que o país aceita, mas a falta de políticas de integração para facilitar a convivência entre residentes e recém-chegados.

Igualmente, o SPD, os Verdes e os Liberais gastaram uma fortuna para apoiar a Ucrânia. A AfD, eurocética e defensora de melhores relações com a Rússia, aproveita-se assim do facto de cerca de um terço dos alemães não concordar com a guerra contra a Rússia. Por exemplo, apenas 28% dos inquiridos na última sondagem apoiam a entrega de caças alemães à Ucrânia e 55% dizem que a procura de negociações para acabar com a guerra deve ser intensificada. Apenas a AfD e a esquerda socialista de Wagenknecht levantam estas questões.

Do mesmo modo, a rejeição à União Europeia (UE) está a aumentar. Dezoito por cento dos inquiridos discordam fortemente da noção de identidade europeia. Ao mesmo tempo, o número de eurófobos e de eurocépticos está a aumentar igualmente, respetivamente 41% e 56%. A maioria da população (também noutros países europeus) resiste à delegação de mais poderes soberanos na UE.

Além disso, no ano passado, os Verdes acabaram com a energia nuclear e impulsionaram a transição para as energias renováveis a uma velocidade vertiginosa, gerando uma reação negativa entre os eleitores. Os custos da transição energética são insustentáveis para a classe média baixa e para as famílias mais pobres. A direita e a esquerda também estão a capitalizar este descontentamento.

A curto prazo, o impasse político está a aproximar-se devido à incapacidade dos quatro maiores partidos (CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes) para encontrar soluções para a crise e à sua subserviência à política dos EUA. Ao mesmo tempo, após a expulsão da esquerda socialista, o partido da Esquerda poderá ficar abaixo dos 5% dos votos e perder o estatuto parlamentar. As hipóteses de os partidos estabelecidos formarem coligações governamentais com maiorias suficientes entre si foram significativamente reduzidas. A AfD aspira, portanto, a tornar-se indispensável na formação de um governo federal, mas tem de recear a concorrência da esquerda.

Washington utilizou o pretexto da guerra na Ucrânia para cortar os laços de Berlim com Moscovo e Pequim, através de sanções contra a Rússia. A ascensão do partido de direita sugere agora a possibilidade de a RFA recuperar a sua autonomia. No entanto, as suas componentes xenófobas e racistas suscitam a reação das classes médias liberais e põem em alerta todos os seus vizinhos, tanto mais que a ascensão da direita na Alemanha encorajaria a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos. Uma alternativa de esquerda reduziria essas apreensões, mas provocaria a reação americana.

A Alemanha parece não ter alternativa. Só o reatamento das negociações com a Rússia e a China poderia dar-lhe algum fôlego, razão pela qual a chanceler e os dirigentes das maiores empresas industriais do país se reuniram na terça-feira, em Berlim, com o primeiro-ministro chinês Li Qiang. Ali, reafirmaram a necessidade de reavivar os laços bidireccionais entre as duas potências, mas talvez seja demasiado tarde. A degradação das condições de vida e o pânico crescente entre uma população que se sente insegura farão o seu trabalho. Não é previsível que, no atual mapa político estagnado, uma nova força socialista venha a convergir com o nacionalismo democrático (que também integra a AfD), mas um novo partido de esquerda popular e radicalmente democrático poderia mover o tabuleiro de xadrez.

O desmoronamento crescente do sistema político alemão obrigará a que sejam tomadas decisões antes do final do ano. Ou o governo se mexe ou a sociedade mexer-se-á. Entretanto, novos actores entram em cena.

Traduzido par GeoPol do espanhol desde Télam


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