Outra Esquerda e outra Direita

(Joseph Praetorius, in Facebook, 19/01/2025)

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A ponderação da evolução política alemã, não dispensa a análise das presenças de Sahra Wagenknecht e Alice Weidel.

A primeira, oferece um percurso consistente desde a sua militância comunista na Alemanha Oriental, tendo seguido todas as transformações do partido, até à rutura, consumada com a fundação do seu próprio partido, agora com a singularidade de trazer o seu nome.

Admiro-lhe a beleza, a elegância, a discrição e a consistência intelectual. Com o doutoramento em Ciências Políticas (o doutoramento na Alemanha não é raro desde Lutero) ela vem formular posições de austeridade severa relativamente à guerra da Ucrânia, aos refugiados e aos imigrantes. Tolera mal os desafios políticos e sociais do Islão dentro das fronteiras, sustentados em minorias de imigrantes. E defende a retoma das relações económicas com a Rússia, como qualquer pessoa sensata. Bate-se pela uniformização das retribuições mínimas do trabalho na União Europeia com um salário mínimo comum a toda a União de 14 euros por hora.

Isto, evidentemente e entre nós, deixará sem um pingo de sangue os homens da CIP e da CAP. Ora, organizem-se por modo a encontrar soluções de rentabilidade além do trabalho que ultrapassa a escravatura em violência e desprezo, designado pelo eufemismo de “mão de obra barata”, quer dizer, gente que trabalha e não tem dinheiro para se alojar com decência, para se alimentar normalmente e para sustentar os filhos. Nem na escravatura estavam em causa o alojamento, a comida e o vestuário. (Escravo era património que não devia desvalorizar-se). Sahra Wagenknecht tem razão. Estas situações são a negação do projeto europeu e a confissão da sua hipocrisia e do seu fiasco. Salário mínimo de 14 euros por hora, em todo o território da União. Como recusar?

Deve-se-lhe, portanto, a salvação da esquerda. Os sistemas políticos europeus não  podem passar sem uma esquerda vigorosa e consistente, lavada das ficções da “terceira via”. A “terceira via” vai remetida a lugar onde melhor caiba. E tenho uma ideia de qual seja, mas não digo.

Recordo Sahra Wagenknecht a deixar constrangida outra antiga militante comunista da Alemanha Oriental, a quem desancava frequentemente com oratória parlamentar certeira e sulfurosa -Ângela Merkel.

No outro lado do leque político, Alice Weidel da AfD é outra figura interessante, por motivos diversos. Fez doutoramento em Economia e pretende também a recuperação dos fornecimentos russos de energia, como o pretenderá quem quer que não seja lunático. 

Também mantém uma perspetiva severíssima relativamente à imigração e é alérgica aos imigrantes islâmicos de quem recorda que a inibiam na adolescência, pelo insulto soez, nas piscinas públicas. Quer aquela corja dali para fora e pode bem dar-se o caso de não ser meiga, se atingir a possibilidade de o decidir. A guerra na Ucrânia é para acabar e já, devendo cessar imediatamente as subvenções alemãs à clique de Kiev. Evidentemente. Há mais que fazer ao dinheiro, cada vez mais escasso.

No plano pessoal, o conservadorismo é de novo tipo. É mãe de dois filhos. E lésbica, vivendo com uma produtora de cinema com ascendência no Ceilão. As posições quanto aos imigrantes não têm portanto substracto racista. É inútil tentarem esse enquadramento.

Ainda no plano pessoal, amadureceu profissionalmente na Goldman Sachs. Isso, evidentemente, não tranquiliza ninguém, sabendo como sabemos que aquilo visa infiltrar os centros de decisão europeus. O apoio de Musk também inquieta (como não?) mas tranquiliza, por outro lado. É mais difícil, agora, manterem-se as fantasias que vão da dissolução da AfD até quaisquer batotas, avulsas ou sistemáticas, no registo e contagem de votos.

Não, os 20% de Weidel nas intenções de voto, erguem-se como uma ameaça letal ao SPD e ao CSU/CDU para quem a morte política não é imerecida.

A China não antipatizará com ela, embora a olhe em silêncio. Será dos raros dirigentes políticos europeus a falar mandarim e viveu na China – não sendo possível viver na China, sem nutrir a maior admiração por aquela terra, pela delicadeza quotidiana daquela gente e pelos níveis assombrosos de desenvolvimento atingidos.

A impostura dos “partidos cristãos” vai pois perder radicalmente a relevância até agora mantida. É uma bênção de Deus. Não há dúvida.

Mas ao lado, há as cedências parvas às conveniências de momento, onde Weidel corre riscos de perder mais do que ganha: dizer que Hitler era comunista é completa idiotice. Completamente escusada. O disparate talvez tenha a utilidade de reforçar Sahra Wagenknecht, a quem não podem imputar-se tolices.

Estas duas senhoras são já e serão por algum tempo figuras de peso notório na vida política alemã. Tal traduz já um primeiro objetivo de importância fundamental: outra esquerda e outra direita. E isso é, em si mesmo, um êxito e um alívio.

A Alemanha era o motor da Europa, porque usava carburante russo

(Ricardo Nuno Costa, in Geopol, 22/10/2024)

A questão fica agora no ar; vai Berlim reconsiderar o seu papel com a Rússia, ou deixar o motor gripar?


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Recentemente um importante canal de geopolítica brasileiro convidou-me para elucidar-lhes um pouco a situação política na Europa e em particular na Alemanha. Desde que estou em Berlim, tenho seguido também com atenção a reação do público brasileiro da internet à decadência da UE e da Alemanha, que já são impossíveis de dissimular. Por aquilo que depreendo, há ainda uma admiração dos brasileiros por um país que se habituaram a conhecer como uma potência económica mundial e “motor do projeto europeu”, mas também é claro o crescente desprezo pela política externa transatlântica que a República Federal tem seguido nos últimos anos, vista de soslaio, como forçada e pouco genuína.

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Quem tem medo de Sahra Wagenknecht?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 07/09/2024)

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As recentes eleições nos estados alemães da Saxónia e da Turíngia têm três leituras imediatas: a queda catastrófica dos partidos que integram o Governo Federal (SPD, Verdes e Liberais); o crescimento da extrema-direita (AfD); o sucesso da nova esquerda alemã obtido pelo terceiro partido mais votado, que assumiu o nome da sua líder: Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça (BSW). A perda de credibilidade do Governo é tanta que a soma dos votos dos partidos que o suportam é praticamente igual à do BSW na Saxónia (cerca de 12%), e bastante inferior na Turíngia (9,3% contra 15,8%). França e Alemanha tornaram-se sociedades clivadas com Governos de legitimidade residual.

Sahra Wagenknecht (doravante, SW) é hoje a mais carismática figura política alemã. Filha de um estudante iraniano e de uma mãe alemã, nasceu em 1969 na ex-RDA, em Jena (Turíngia). Com 3 anos de idade, o pai partiu para o Irão, desaparecendo da vida de SW. Cresceu sob o estigma da sua diferença étnica, habituando-se a resistir em condições adversas. Em 1989 entrou na política em concorrente.

Enquanto a maioria celebrava a reunificação alemã, ela viu uma nação a ser comprada e engolida pela RFA, antecipando o risco de a prosperidade ser acompanhada pelo desenraizamento e por maior desigualdade. Doutorada em Economia, assumiu sempre a importância do marxismo na sua leitura do mundo contemporâneo. Integrou o PDS (Partido do Socialismo Democrático), de Gregor Gysi, em 1991.

Foi deputada no Parlamento Europeu (2004-2009). Participou na criação do partido Die Linke (A Esquerda), resultante da unificação em 2007 do PDS com o partido WASG, formado por Oskar Lafontaine, quando este rompeu com o SPD. Entrou no Parlamento Federal (Bundestag) em 2009, pelo Die Linke, abandonando este partido para fundar, em janeiro último, a BSW. É uma escritora incisiva e uma oradora notável, captando audiências pela elegância e clareza dos seus argumentos.

A imprensa internacional dominante tem tentado esconder a sua originalidade e inteligência sob rótulos pejorativos, encostando-a à extrema-direita nacionalista do AfD, ou designando-a como “populista de esquerda”. Uma análise fria revela, pelo contrário, uma personalidade política corajosa e lúcida, combatendo a mediocridade e a submissão total do Governo alemão ao comando dos EUA, tanto no plano militar, como na esfera económica.

Na verdade, tanto o SPD como os Verdes renunciaram às suas bandeiras originais. O SPD, em coligação com os Verdes (nos Governos entre 1998 e 2005), transformou-se no campeão do neoliberalismo, destruiu parcialmente a Segurança Social através de uma privatização ruinosa, baixou abruptamente a participação da massa salarial no PIB, multiplicou os empregos precários (os minijobs ocupam hoje 20% da mão-de-obra germânica). Pela primeira vez, em 2012, o Índice de Gini alemão, que mede a desigualdade, ultrapassou o francês.

Com a guerra na Ucrânia, o Governo de Olaf Scholz aceitou ser um incondicional escudeiro do Pentágono, apoiado nos ministros Verdes que trocaram a Ecologia pelo belicismo. SW tem exortado, infatigavelmente, ao imperioso calar das armas para evitar envolver a NATO e a Rússia num abraço mortal sem retorno. Berlim aceitou as sanções contra a Rússia, sabendo que se voltariam contra os milhões de alemães mais carenciados.

A Economia de Berlim, que tinha na China, na Rússia e nos parceiros da UE os mercados principais para as suas exportações, está hoje em crise profunda. As medidas protecionistas do Governo de Biden para isso contribuíram. Washington exorta a UE a cortar laços comerciais com Pequim, enquanto trata os seus aliados europeus na NATO como inimigos no plano económico. A legislação de combate à inflação nos EUA (Inflation and Reduction Act) levou, até março de 2023, 5600 empresas germânicas a investir 605 mil milhões de euros nos EUA, tendo algumas delas mudado a sua sede.

SW propõe uma política de defesa dos salários e direitos laborais, com aumento de impostos para os mais ricos. A sua recusa de uma imigração descontrolada liga-se à defesa do Estado social e à necessidade de o acolhimento dos imigrantes ser acompanhado com políticas de língua e cultura, capazes de assegurar uma verdadeira integração nas comunidades locais.

A posição da BSW não se confunde com o racismo da AfD, nem com o oportunismo do Governo Merkel, que em 2015 escancarou as portas – sem denunciar o facto de esses migrantes resultarem das desastrosas intervenções ocidentais no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria – para depois as encerrar através de um acordo bilionário de construção de campos de internamento na Turquia.

SW foi convidada em 2014, pelo artista e professor Karl-Eckhard Carius e por mim, para um livro – editado em Portugal e Alemanha – destinado a celebrar os 40 anos do 25 de Abril. (Muros de Liberdade/Mauern der Freiheit), SW revelou como a sua visão do mundo é inclusiva.

O seu amor à Alemanha não a impediu de criticar o papel do Governo Merkel e o seu pacto diabólico com a “ditadura dos mercados financeiros”. No final do seu capítulo, SW enunciava um desafio que continua válido para os povos europeus: “A minha esperança para a Europa é a de que a melancolia portuguesa possa ceder lugar à indignação.”

A UE foi raptada por uma elite sombria que lhe roubou a alma, arrastando-a na queda dos EUA e na cumplicidade com o Governo genocida de Israel. Chegou a hora dos cidadãos e das nações, se quisermos salvar a paz e libertar a Europa.