Venezuela: agressão dos EUA contra espaço aéreo é “imoral” e exige o repúdio de governos soberanos

(Victoria Korn, in Diálogos do Sul, 01/12/2025)


O Governo de Maduro convocou também a ONU e a comunidade internacional a rejeitar a nova escalada de Trump, que atinge não apenas a Venezuela, mas todo o Caribe e o norte da América do Sul.


No último sábado (29), a Venezuela denunciou como uma ameaça colonialista à sua soberania a advertência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de um fechamento total do espaço aéreo venezuelano, indicou um comunicado da chancelaria, o que marca uma nova escalada de tensões com o presidente Nicolás Maduro.

Além disso, Trump anunciou que as Forças Armadas “começarão muito em breve” a frear os narcotraficantes da Venezuela por terra, após considerar exitosas as operações no mar. Em uma chamada de Ação de Graças com militares a partir de Mar-a-Lago, disse que por terra será mais fácil e que isso começará logo. Desde 1º de setembro, segundo a Casa Branca, as forças estadunidenses teriam matado mais de 80 pessoas e destruído mais de 20 embarcações supostamente vinculadas ao narcotráfico, a maioria com origem venezuelana, em operações no Caribe e no Pacífico. Além disso, o porta-aviões USS Gerald R. Ford opera na região desde 16 de novembro.

Reações do governo venezuelano

Diante da mais recente investida do governo dos Estados Unidos, que pretende bloquear o espaço aéreo venezuelano, Maduro ordenou a execução imediata de um plano especial para assegurar o retorno dos venezuelanos retidos no exterior e facilitar os itinerários de saída daqueles que precisam viajar para fora do país. A medida responde à necessidade de proteger os direitos de mobilidade dos venezuelanos diante de uma ação qualificada como ilegítima e ilícita. A vice-presidente executiva Delcy Rodríguez, por sua vez, afirmou que o governo dos EUA atende à solicitação da dirigente opositora María Corina Machado para tentar bloquear o espaço aéreo da Venezuela.

“A Venezuela denuncia e condena a ameaça colonialista que pretende afetar a soberania de seu espaço aéreo, uma nova agressão extravagante, ilegal e injustificada contra o povo da Venezuela”, assinalou um comunicado divulgado no Telegram pelo ministro das Relações Exteriores, Yván Gil. “Este tipo de declaração constitui um ato hostil, unilateral e arbitrário, incompatível com os princípios mais elementares do Direito Internacional e que se inscreve em uma política permanente de agressão contra nosso país, com pretensões coloniais sobre nossa região da América Latina”, destacou.

Outra medida tomada pelo governo de Nicolás Maduro foi a revogação, a seis empresas aéreas, da concessão para operar no espaço aéreo venezuelano. A determinação considera que as mesmas se somaram à campanha terrorista dos EUA. Em resposta, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), que engloba mais de 300 companhias aéreas de todo o mundo, pediu ao governo venezuelano que “reconsidere” a medida e disse que as empresas aéreas “reafirmam seu compromisso com a Venezuela” e manifestaram sua disposição de restabelecer os serviços de maneira segura, mas “tão logo as condições o permitam”. O governo não respondeu imediatamente a essa comunicação da IATA.

“A Venezuela saberá responder com dignidade”

O governo venezuelano denunciou que as afirmações de funcionários estadunidenses representam uma ameaça explícita do uso da força que, assegura, está claramente proibida pela Carta das Nações Unidas, e considerou que se trata de uma tentativa de intimidação. “A Venezuela exige respeito irrestrito a seu espaço aéreo, protegido pelas normas da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI)”, agregou a nota, que ressaltou igualmente que o país sul-americano não aceitará ordens, ameaças nem ingerências provenientes de qualquer poder estrangeiro. “Nenhuma autoridade alheia à institucionalidade venezuelana tem faculdade para interferir, bloquear ou condicionar o uso do espaço aéreo nacional”, acrescentou.

O governo assegurou que, com a declaração de Trump, os Estados Unidos suspenderam, de maneira unilateral, os voos de migrantes venezuelanos. “Até o momento foram realizados 75 voos de repatriação de 13.956 migrantes venezuelanas e venezuelanos que foram recebidos com amor e absoluta solidariedade”, mencionou a chancelaria, em referência ao acordo alcançado em janeiro passado por ambas as nações, que não mantêm relações diplomáticas desde 2019.

“Fazemos um chamado direto à comunidade internacional, aos governos soberanos do mundo, à ONU e aos organismos multilaterais correspondentes, para rejeitar com firmeza este ato de agressão imoral que equivale a uma ameaça contra a soberania e a segurança da nossa Pátria, do Caribe e do norte da América do Sul”, declarou. “A Venezuela saberá responder com dignidade, com legalidade e com toda a força que o direito internacional e o espírito anti-imperialista do nosso povo conferem”, enfatizou.

Entenda a nova ofensiva de Trump

A tensão envolvendo o espaço aéreo venezuelano avançou quando Trump escreveu em sua plataforma, Truth Social: “A todas as companhias aéreas, pilotos, narcotraficantes e traficantes de pessoas: rogamos que considerem que o espaço aéreo sobre a Venezuela e seus arredores permanecerá fechado em sua totalidade”, sem esclarecer nenhuma circunstância relacionada ao fechamento.

O mandatário republicano difundiu a mensagem após o jornal The New York Times informar sobre uma suposta conversa telefônica que manteve com Maduro para explorar um possível encontro. O diálogo foi confirmado por Trump. A notícia se tornou conhecida um dia após Trump advertir que suas Forças Armadas atuarão muito em breve em terra contra supostos narcotraficantes da Venezuela, enquanto mantém o deslocamento naval no Caribe.

Em 21 de novembro passado, a Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA instou a ampliar a precaução ao sobrevoar a Venezuela e o sul do Caribe diante do que considera “uma situação potencialmente perigosa” na região. A declaração desencadeou uma série de cancelamentos de voos desde e para a Venezuela, que, em resposta, revogou as concessões de operação de seis companhias aéreas internacionais.

A advertência de Trump ocorre no contexto dos bombardeios estadunidenses contra embarcações no Caribe, que causaram vários mortos e que Washington defende como parte de sua luta contra o narcotráfico, mas que Caracas denuncia como uma ameaça que busca propiciar uma troca de governo.

Monroe 2

Sergio Guzmán, cientista político e docente da Universidade Nacional de San Juan (UNSJ), na Argentina, explica que todas essas ações de Trump fazem parte de uma reformulação da Doutrina Monroe, versão Século 21. Essa doutrina, proposta pelo presidente dos EUA James Monroe em 1823, sustentava a ideia de uma “América para os americanos”, em rejeição à intervenção europeia nos assuntos do continente americano.

“É uma ingerência nos assuntos internos de outro país com a desculpa de sempre do narcotráfico, mas além disso, o que Trump tenta não é outra coisa senão a instalação de uma agenda internacional que ele sempre pretende conduzir”, afirma o analista. “Ele marca os temas: se não é Ucrânia, é Gaza, é Rússia, é China, mas ele sempre pretende levar toda a atenção da imprensa mundial a esse tipo de tema e não à gravíssima crise política que enfrenta internamente em razão de, por pressão, ter sido pressionado a desclassificar os arquivos que o envolvem com o caso de Jeffrey Epstein”, destaca.

Guzmán indicou que o fortalecimento de Trump é sempre nesta região do mundo e com adversários ou inimigos seletos, neste caso, Nicolás Maduro. “Há algumas semanas, ele se reuniu com o presidente chinês Xi Jinping para tratar questões comerciais e com o presidente russo Vladimir Putin, no Alasca: há alguns líderes aos quais ele enfrenta e outros que não, e a esses ele respeita”, afirma.

Denúncia dos democratas

Enquanto isso, um grupo de congressistas democratas acusou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, de cometer homicídio e crime de guerra depois que, na sexta-feira (28), a imprensa estadunidense revelou que os Estados Unidos atacaram duas vezes a mesma embarcação no Caribe para matar sobreviventes.

Segundo o jornal The Washington Post, que citava duas fontes com conhecimento direto da operação, depois de o primeiro míssil impactar um barco, os comandantes perceberam que havia dois tripulantes que se agarravam aos restos da embarcação. O comandante encarregado da operação ordenou então um segundo ataque para cumprir as instruções de Hegseth, que havia ordenado matar todos os presentes no barco.

Sam Liccardo, congressista pela Califórnia, assegurou na rede social X que, se as acusações forem verdadeiras, Hegseth deveria ser considerado plenamente responsável por homicídio. O democrata respondeu a uma publicação do funcionário na qual defendia a legalidade do primeiro ataque contra uma lancha de supostos narcotraficantes no Caribe em 2 de setembro passado.

Seth Moulton, congressista por Massachusetts, somou-se às críticas contra o governo de Donald Trump e afirmou no X que matar os sobreviventes era totalmente ilegal. “A ideia de que os restos de uma pequena embarcação em um oceano imenso representem um perigo para o tráfego marítimo é claramente absurda”, apontou. “Ainda que leve tempo, os norte-americanos serão julgados por isso, seja como crime de guerra ou como assassinato a sangue frio”, acrescentou.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Aula de liberalismo dada às crianças da Iniciativa (I)liberal

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 30/11/2025, Revisão da Estátua)


O que mais impressiona no discurso recente da Iniciativa Liberal é a forma como tentam convencer o país de que “regular” greves ou transformá-las em actos simbólicos é uma posição liberal.

É aqui que vale a pena recordar o que é, historicamente, o liberalismo — não o marketing político low-cost que a IL faz, mas a tradição intelectual séria, de Locke a Mill, passando por Tocqueville, Stuart Mill, T. H. Marshall, Beveridge, Hayek e até Friedman.

Porque nenhum liberal sério alguma vez defendeu que um trabalhador é obrigado a vender o seu trabalho em condições impostas unilateralmente. Nenhum.

A base do liberalismo é simples: ninguém deve ser forçado a trabalhar contra a sua vontade. Se eu trabalho numa padaria e não quero fazer pão naquele dia, naquela condição ou por aquele salário, tenho o direito de não o fazer. Não devo ser OBRIGADO a trabalhar só para satisfazer o patrão ou o cliente. Um sistema onde uma pessoa é forçada a trabalhar sem aceitar as condições — e onde a recusa é punida — não se chama trabalho.

Chama-se escravatura. E o liberalismo nasceu precisamente para impedir que um ser humano seja tratado como propriedade.

Para o liberalismo clássico, a liberdade de associação é tão fundamental como a liberdade de expressão — e dela decorre inevitavelmente o direito de se recusar a trabalhar.

Alexis de Tocqueville escreveu, em A Democracia na América, que a força das sociedades livres depende da capacidade dos indivíduos se unirem para equilibrar o poder dos mais fortes.

John Stuart Mill, em On Liberty, lembra que a liberdade individual nada vale quando existe “despotismo económico” e quando uma das partes numa relação contratual tem força esmagadora. Friedrich Hayek — sim, até Hayek! — admitia em The Constitution of Liberty que a negociação colectiva e a liberdade sindical são instrumentos necessários num mercado onde o poder não está distribuído de forma simétrica.

E Milton Friedman, na sua defesa extrema dos mercados, reconhecia que nada é mais liberal do que permitir que um trabalhador diga: “não vendo o meu trabalho nestas condições”.

A greve, na lógica económica liberal, não é mais do que isso: a expressão da liberdade contratual.

Não é socialismo. Não é marxismo.

É um corolário lógico do próprio mercado: se o capital pode retirar-se (desinvestir, deslocalizar), o trabalho também pode retirar-se. Quer lhe chamem “greve”, quer lhe chamem “liberdade de não aceitar o contrato”.

Agora compare-se esta tradição com a prática da Iniciativa Liberal.

Enquanto os liberais clássicos defendiam o direito dos trabalhadores a organizarem-se para equilibrar poder, a IL quer “serviços mínimos reais”, “limites à greve” e uma revisão constitucional para “não impedir o direito ao trabalho dos outros”.

Parece inofensivo, mas na realidade destrói a greve enquanto instrumento eficaz. Uma greve que não interrompe nada não é uma greve — é um desfile.

É o mesmo tipo de lógica que, no século XIX, levou a Lei Le Chapelier a proibir sindicatos e greves em nome da “livre iniciativa”: uma visão profundamente reaccionária, que usava a palavra “liberdade” para concentrar poder económico num só lado.

O que a IL defende hoje não é liberalismo: é uma direita económica autoritária, elegante no discurso mas brutal na prática. É a mesma lógica do Chega, só que com gravata, PowerPoint e vocabulário anglófilo.

Um finge que defende a “Pátria”; o outro finge que defende a “liberdade”. Mas ambos têm o mesmo objetivo: tirar poder a quem trabalha e entregá-lo a quem já o tem de sobra.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Ucrânia, esse poço sem fundo: FBI investiga para onde foram 48 mil milhões de dólares

(Fórum da Escolha, in Facebook, 29/11/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há momentos em que o teatro político se transforma no grotesco absoluto. A investigação americana sobre o desaparecimento de 48 mil milhões de dólares na Ucrânia é precisamente deste calibre. Washington já não está a brincar: o FBI, a CIA e o Pentágono foram mobilizados para rastrear cada cêntimo. Quando os três acordam juntos, não é para organizar um churrasco, é para preparar o equivalente institucional de um ataque cirúrgico.

Os comunicados de imprensa oficiais mudaram repentinamente de tom. A Reuters lembrou desde 2024 que Washington exigia “rastreabilidade completa da ajuda à Ucrânia”. Um departamento do estado americano, o Government Accountability Office, (GAO) foi mais longe: “A ajuda externa pode estar sujeita a uma auditoria completa, independentemente dos destinatários finais”. Tradução: mesmo que estes beneficiários tenham um escritório em Bruxelas, uma residência em Paris ou um motorista em Berlim, terão de explicar os fluxos financeiros.

E aí tudo se complica: os beneficiários finais poderão muito bem ser europeus do mais alto nível. Altos funcionários, representantes eleitos, intermediários muito amigáveis, mas de repente muito nervosos. Porque o denominador comum de todas as transações obscuras é o mesmo nome, hoje reduzido a um código de barras político: Zelensky.

A Europa descobre com terror quase cómico que o seu “herói anti Putin” se tornou uma prova viva capaz de derrubar vários governos. Contanto que desempenhasse o seu papel de símbolo fluorescente, tudo estaria bem. Mas assim que Washington fala em “investigação de peculato”, o herói transforma-se numa carga instável – um barril político pronto a explodir nas mãos daqueles que o elogiaram até aos céus.

Estamos, portanto, a assistir a um bailado grotesco: as capitais europeias procuram freneticamente apagar Zelensky da narrativa, não fisicamente – isso seria demasiado evidente – mas política, mediática e institucionalmente. Este é o método tradicional europeu: não eliminamos os incómodos, desintegramo-los administrativamente.

Elementos da linguagem já estão a circular:

  • “Ciclo político natural”
  • “Transição democrática necessária”
  • “Fim simbólico do mandato”.

Em linguagem humana: “Obrigado, adeus e acima de tudo não fale com ninguém”.

A lógica é implacável: Se Zelensky falar, a cadeia de subornos vem à tona. Se for marginalizado, inaudível ou desacreditado, os europeus estarão a poupar tempo. E precisam desesperadamente de tempo para reescrever uma narrativa onde já não são cúmplices, mas sim vítimas da “má governação ucraniana”.

É fascinante observar como a UE transforma, a uma velocidade supersónica, o homem que descreveu em 2022 como um “defensor da liberdade” (palavras de Ursula von der Leyen) numa variável de eliminação, num ficheiro corrompido que deveria ser enviado para o lixo antes da chegada dos investigadores americanos.

Porque, lá no fundo, a Europa não teme a verdade. Ela teme, sim, quem a poderia contar. E hoje esse “quem” é um homem. Um homem que, apesar de tudo, se torna o cofre de segredos que valem mais de 48 biliões.

Por isso, sim, a UE fez a sua escolha: Zelensky não deve mais ser um ator. Ele deve tornar-se uma memória.