(Continuamos na alucinação e a brincar com o fogo. Queremos mesmo uma guerra que destrua o mundo. Estamos nas mãos de loucos.Na sequência dos últimos acontecimentos relativos ao conflito na Europa entre a Ucrânia e a Rússia, o especialista em segurança e defesa Major-General Agostinho Costa analisa os principais detalhes dos mais recentes acontecimentos.
• Zelensky continua a dispersar a nossa inteligência.
• Vamos todos pagar as loucuras destes líderes europeus belicistas.
• Não temos dinheiro para o SNS, para as reformas, para escolas e hospitais e temos dinheiro para um país que nem faz parte da União Europeia.
Há políticos que governam. Outros viajam. E há os que viajam para parecer que governam.
Luís Montenegro está em Kiev. Foi levar “apoio e afeto”. Não levou munições, nem dinheiro, nem garantias estratégicas – levou presença, palavras e fotografia. Levou o que Portugal tem em abundância quando falta o resto: boa intenção performativa.
É curioso como certos problemas nacionais resistem a décadas de discursos, mas desaparecem momentaneamente sempre que um líder atravessa fronteiras. A pobreza em Portugal, por exemplo, não cabe na bagagem diplomática. Os serviços públicos cansados não passam no controlo de segurança. A habitação impossível fica sempre em terra. Mas a solidariedade internacional – essa – viaja em classe executiva.
Há qualquer coisa de pedagogicamente invertido neste gesto: um país que ainda não conseguiu organizar mecanismos sólidos de proteção social para os seus próprios cidadãos, apresenta-se solene a apoiar outro Estado em guerra. Não é que o apoio à Ucrânia seja ilegítimo – é que se torna irónico quando feito por quem, em casa, governa com escassez de empatia prática.
E depois há o detalhe que não cabe nos comunicados: o político que discursa sobre valores democráticos enquanto carrega consigo o ruído de investigações, explicações incompletas e arquivamentos que não limpam – apenas silenciam. A chamada “investigação preventiva” pode ter sido encerrada, mas deixou um rasto: não jurídico, mas simbólico. A confiança pública não se arquiva; acumula-se ou perde-se.
Daí o desconforto adicional: ir apoiar um regime frequentemente apontado por organismos internacionais como problemático em matéria de corrupção estrutural, quando em casa ainda se pede aos cidadãos um ato de fé na transparência dos seus governantes. Não é contradição jurídica – é contradição moral, que a crónica tem o dever de sublinhar.
Montenegro surge, assim, na fotografia da resiliência europeia, de pé, sério, alinhado. É o “pôr-se de pé” certo, no sítio certo, ao lado certo. Mas a pergunta persiste, impertinente: quando é que esse mesmo gesto se faz diante da pobreza portuguesa? Quando é que se atravessa a rua – e não o continente – para encontrar quem vive com salários mínimos, rendas máximas e futuros mínimos?
Talvez esta viagem diga mais à União Europeia do que à Ucrânia. Um aceno disciplinado ao dirigismo europeu, esse mesmo que fala fluentemente de valores enquanto tropeça na justiça social. Um gesto de pertença: “estamos aqui, somos confiáveis, alinhamos”.
Em Kiev, com amor. Em Portugal, com comunicados.
E a ironia final é esta: enquanto o político se desloca para simbolizar solidariedade, muitos portugueses permanecem imóveis – não por escolha, mas por impossibilidade. Porque não têm para onde ir. Porque ninguém foi ter com eles.
Talvez um dia a política descubra que a verdadeira coragem não está em ir longe para ser visto, mas em ficar perto para ser útil. Até lá, continuaremos a assistir a estas viagens emocionais, onde se distribui afeto lá fora e se pede paciência cá dentro. Com amor, claro. Sempre com amor.
(Bruno Amaral de Carvalho, in Jornal de Notícias, 19/12/2025)
Nas ruas de Caracas, as lojas vão-se enchendo para as compras de Natal
Ameaça de uma invasão terrestre por parte dos EUA mobilizou milícias. Donald Trump tenta asfixiar economia com bloqueio a petroleiros.
A declaração de Donald Trump caiu como um balde de água fria sobre uma parte da oposição venezuelana que espera uma invasão. Depois de insistir no narcotráfico como razão para pressionar militarmente Caracas, o presidente norte-americano fala agora na devolução do petróleo “roubado” quando o ex-presidente Hugo Chávez nacionalizou as companhias petrolíferas.
A uma semana do Natal, ninguém parece estar mais preocupado com as ameaças dos Estados Unidos do que em encontrar os melhores presentes, no bulício das ruas do centro de Caracas. Enquanto Nicolás Maduro afirmava na televisão, na quarta-feira, que um governo imposto pelos Estados Unidos na Venezuela não duraria mais de 47 horas – numa referência ao tempo que durou o efémero golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002 -, as lojas estavam cheias de clientes. Parece tudo menos um país à beira de uma invasão. Na verdade, ninguém acreditava muito na possibilidade de uma declaração de guerra de Trump contra a Venezuela.
Contudo, um bloqueio naval é por si só suficiente para asfixiar uma economia no qual, em 2024, 58% das receitas estatais vinham da exportação de produtos do setor petrolífero. Sendo uma das principais economias em crescimento na América do Sul, depois de anos de profunda crise económica e social, devido às sanções impostas pelos Estados Unidos, as autoridades venezuelanas olham com preocupação para as consequências desta medida e ordenaram a escolta militar de petroleiros pela marinha. Simultaneamente, o presidente da Venezuela apelou à união dos exércitos da Colômbia e da Venezuela para fazer frente a uma possível agressão terrestre de Washington que, segundo uma sondagem publicada, na quarta-feira, pela empresa britânica de estudos de opinião YouGov, tem a oposição de 60% dos norte-americanos.
A expectativa numa parte da oposição venezuelana que esperava uma declaração de guerra por parte de Donald Trump acabou em desânimo quando o presidente norte-americano terminou o discurso na Casa Branca. As redes sociais encheram-se de memes de quem parece já não acreditar que os EUA possam efetivamente levar a cabo uma operação militar para derrubar o Governo venezuelano.
Milícias mobilizadas
No entanto, os diferentes setores do chavismo não desarmam e organizam-se para uma possível invasão. Em todo o país, para além das forças armadas, o Governo está a mobilizar a população civil para se juntar às milícias. Ontem, os principais dirigentes do movimento político-militar Tupamaro, herdeiro dos grupos de guerrilha urbana dos anos 80 em Caracas, estavam reunidos para preparar a resistência armada.
William Benevides, secretário-geral da organização, garantiu ao JN, rodeado de cerca de uma centena de militantes, que estão preparados para fazer da Venezuela um novo Vietname se os Estados Unidos decidirem atacar. “Temos experiência de combate, somos uma milícia revolucionária, e vamos defender cada palmo do nosso território ao lado do povo. [Se isso acontecer], vamos fazer uma guerra popular prolongada para fazer afundar o império norte-americano neste lamaçal”, advertiu. Este dirigente tupamaro insistiu que a Venezuela é “um país de paz”, mas que estão dispostos a tudo para defender o “legado de Simón Bolívar e de Hugo Chávez”. Com campos de treino em várias zonas do país, o grupo insiste que vai garantir a “soberania” da Venezuela. Sobre as acusações de violação dos direitos humanos e de falta de democracia feitas por vários países, William Benevides rejeitou o que considera ser uma ingerência e lembrou que o Ocidente nunca se preocupou com os direitos humanos em Gaza.
Entretanto, María Corina Machado, Nobel da Paz, que tem apoiado de forma entusiasta uma intervenção militar dos EUA no seu país, abandonou Oslo, fazendo crescer a expectativa sobre se tentará regressar a um país que parece estar mais preocupado com a consoada do que com a guerra.