Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXII

(Por José Neto, in Estátua de Sal, 16/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de André Campos ver aqui, e a um artigo de Garcia Pereira, ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 17/10/2022)


Oi, cá estou eu outra vez.

Honestamente, não li o texto de Garcia Pereira.

O que ele escreve não me interessa porque a pessoa não me interessa e certamente não disse nada que eu não esteja farto de saber. Sei que muito do que ele depositou é verdade, porque ele se baseia no Marxismo-Leninismo-Maoismo, mas todo o percurso político deste triste personagem reflete um esforço resiliente focado na divisão dos trabalhadores para melhor os enfraquecer, e consubstanciado num ódio não disfarçado à única força coerente que desde sempre combateu o Fascismo e o Capitalismo em Portugal, que foi (e continua a ser) precisamente o Partido Comunista Português.

É um dos truques mais queridos do Grande Capital, este de usar fantoches como Garcia Pereira, com linguagem esquerdista muito “prá frentex”, do tipo “vamos fazer a Revolução hoje, abaixo o Revisionismo, Mao é que é bom”, etc. Todo o percurso desse patético indivíduo foi no sentido de destruir a unidade e a luta dos trabalhadores, e é preciso esta pobre criatura não ter nenhuma vergonha na cara para vir agora, que a obra em que ele foi humilde participante, está praticamente acabada, vir para os media dar lições de moral revolucionária.

Nos dias de hoje esse mesmo trabalho é da responsabilidade dos trotskistas do BE, que com um palavreado mais meloso e socialmente equilibrado, foram gerados no seio do PS e existem justamente para retirar influência e apoio eleitoral ao PCP. “Dividir para conquistar” é a máxima que sempre norteou o Capital na sua luta incessante para manter o seu gado humano submisso e controlado. Isso nunca muda.

Quanto ao texto de André Campos, é difícil não nos solidarizarmos com o seu estilo humanista e com as preocupações sinceras que ele apresenta, mas está repleto de erros de análise cuja desmontagem me levaria mais tempo do que disponho neste momento e ter de ficar para outra ocasião. Deixarei por isso aqui apenas umas linhas gerais:

1. O já famoso “Great Reset” é uma “teoria de conspiração” sem nenhum fundamento e muito provavelmente criada e alimentada pelos ideólogos do próprio Grande Capital. Ela apenas nasceu para justificar a enorme crise global do Capitalismo que ele hoje atravessa e impedir a sua real compreensão pelas populações. Procura-se atribuir as culpas de uma situação que resulta da evolução natural do sistema capitalista, e que já aconteceu duas vezes no passado no espaço de um século, tendo os seus momentos culminantes coincidido com as guerras mundiais de 14/18 e 39/45.

O que se tenta fazer é atribuir as culpas deste desenlace inevitável a uma espécie de seita obscura que se terá revelado em Davos, assim uma espécie de história de ficção ao nível dos livrinhos de banda desenhada juvenis.

O Grande Capital não tem interesse absolutamente nenhum em reduzir a população mundial como um propósito em si mesmo. Menos pessoas significam menos consumidores, menos mercados e consequentemente um agravamento da crise da qual o Capitalismo já enferma. Uma redução dessa população poderá ocorrer em consequência da fome e de uma guerra de destruição massiva, mas ela não é um objetivo em si mesma.

Claro que uma redução da população global poderia ser um acontecimento “benéfico” para a raça humana, basicamente porque dentro de cem anos o planeta simplesmente não terá condições para a sustentar e a continuarmos assim muito mais gente terá então de morrer, e morrer muito rapidamente, mas a ecologia planetária não é um objetivo do Capitalismo. Ele vive no momento.

E de resto ninguém que não seja um maldito psicopata iria querer promover hoje um holocausto global em nome da preservação de Gaia. Esse problema terá de ser resolvido pelas gerações vindouras, mas para que a Humanidade seja capaz de mudar os seus atuais padrões de vida destrutivos, será absolutamente necessário que o Capitalismo seja destruído.

É isso, ou a extinção pura e simples de toda a vida no planeta. E bem podem continuar a vender-nos fantasias estúpidas como a aquela da “colonização” de Marte.

2. O que realmente se passa, como foi muito bem colocado num recente texto publicado aqui, é que os Estados Unidos já estão em guerra com a Europa, representada no texto em questão pela Alemanha.

Trata-se de conquistar mercados e destruir concorrentes diretos num momento em que os mercados existentes já não são suficientes para alimentar as oligarquias existentes. Mais uma vez recordo as duas guerras mundiais. Tal como sucedeu na II Grande Guerra, a Rússia só está em palco devido às suas riquezas naturais e pela sua recusa em aceitar submeter-se ao Império Americano, e pelo facto de a sua proximidade geográfica e interesses comuns com a Europa poder colocar em causa a hegemonia de Washington. A segunda parte desta equação foi aparentemente resolvida no curto prazo com recurso a europeus traidores. Mas outros episódios se seguirão.

As verdadeiras causas da crise terminal que assola o capitalismo no Ocidente, elas prendem-se com o encurtamento dos mercados como resultado da ascensão das novas potências asiáticas, do expectável fim das excecionais condições favoráveis à economia liberal, nomeadamente a permanência do dólar como única moeda de referência mundial, e do próprio processo entrópico que está na génese do sistema capitalista e que termina sempre da mesma maneira.

A atual crise, e como já alguém disse não é uma crise, mas sim o fim de uma era, só difere das duas anteriores pela sua elevada componente financeira. A “financeirização” das economias é um fenómeno relativamente recente e posterior à II Guerra Mundial. Basicamente as sociedades ocidentais estão a pagar pelas toneladas de dinheiro falso que têm vindo a imprimir e ao longo dos anos e da gigantesca dívida pública que esse fenómeno gerou. Alguns analistas claramente confiáveis dizem que “a crise programada vem aí”, mas isso não deve ser mal interpretado.

Imaginem uma grande barragem. Já está? Agora imaginem que as águas estrondeiam com violência contra as paredes da estrutura e ameaçam desfazê-la em pedaços. O que se faz? Simples, abrem-se gradualmente as comportas para aliviar a pressão e permite-se uma inundação mais ou menos controlada das terras limítrofes para evitar um desastre maior. É exatamente o que os economistas do FED estão a fazer com a sua gigantesca e super inflada “barragem virtual”. Vai causar muitos problemas e bastante miséria, sim, mas o rebentamento brusco da economia seria mil vezes pior. Seria as pessoas matarem-se nas ruas de Nova Iorque por uma côdea de pão. Também é verdade com os níveis de criminalidade ali existentes que já pouco falta para isso.

Então, podem parar de atirar as culpas para os velhos de Davos. Eles são apenas os bodes expiatórios.

3. O André Campos diz que “a maioria da população não compreende nada”, e isso só é verdade em parte. Eu irei escrever sobre esse tema quando tiver tempo e disposição num texto que tenho na ideia, em que irei falar “de coisas que não existem”. Mas, apesar de ter muita simpatia pela candura do André, tenho que dizer que isso só é meia verdade. Claro que o Povo é ignorante, e é-o por culpa própria, O conhecimento está disponível e se o André e eu próprio, tal como muitos outros aqui, lá conseguem chegar, as outras pessoas com um volume semelhante de massa encefálica também o poderiam fazer. Na minha idade, não penso por nenhuma cartilha e já não tenho pachorra para pieguices.

A questão basilar aqui é que o Capitalismo singrou no mundo porque ele está em conformidade com a natureza humana, egoísta, agressiva e impiedosa. A raça humana sempre foi grande predadora ao longo de toda a sua existência e isso está no código genético. Na sua natureza. Foi o que impediu a sua extinção em confronto com outras espécies animais fisicamente mais poderosas nos tempos primordiais, e é também o que lhe irá ditar o fim.

Há pessoas boas no mundo, claro, mas por cada uma dessas pessoas existem cem que “não prestam”, como eu disse há dias aqui sem papas na língua, provocando algumas ondas de choque que muito me divertiram. A maioria das pessoas aceita o capitalismo porque vive na esperança de ser rica um dia, sabe-se lá por que sopro de sorte, e tornar-se ela própria um tiranete dos outros. Vivem a pensar nisso até que morrem abandonadas num lar miserável. São essas pessoas que elegem os governos.

Um bom exemplo da “solidariedade europeia” e da verdadeira natureza humana pode ser encontrado por exemplo nas manifestações de agricultores espanhóis para pressionar o governo espanhol a fechar as barragens que deixam passar ainda alguma água para Portugal. Outro, é o genocídio de todo um povo no continente americano levado à prática por imigrantes dos mais variados países europeus. Mas eu poderia citar muitos mais, e em todos os continentes. Vamos deixar os Tutsis e os Rohingyas em paz por agora.

Por outro lado, o Socialismo não singrou até hoje nas sociedades ocidentais porque ele fala de partilha e igualdade, e isso é coisa que não interessa a ninguém. Os orientais estão mais suscetíveis a estas ideias pelo seu passado em que foram colónias vítimas da brutalidade ocidental, mas tudo pode mudar no futuro com as “rotas da seda” e as riquezas que elas vão produzir e concentrar nas mãos de alguns. Isto, claro, partindo do princípio de que a Humanidade tem futuro, o que não é líquido de maneira nenhuma.

Alguém aqui acredita que o capitalista é de uma raça diferente da raça humana, como naquele divertido filminho de série B “They Live” (1988) de John Carpenter, e que os trabalhadores atualmente explorados não fariam exatamente a mesma coisa se, por artes mágicas trocassem de lugar?

Abra os olhos, André…

Claro que as coisas podem sempre mudar, basicamente porque, como eu já disse aqui várias vezes, o estômago pensa melhor do que o cérebro. Nada como uma boa dieta para mudar rapidamente a mentalidade das pessoas.

4. Finalmente, onde foi que você sonhou com “uma guerra nuclear” limitada à Europa, André?

Pensa que os russos são parvos assim? Sonhe outra vez…


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A que jogam os Estados Unidos e a Alemanha?

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 18/10/2022)

À frente dos nossos olhos, a Alemanha, que acaba de perder o seu aprovisionamento em gás russo e não poderá obter melhor que um sexto dele na Noruega, afunda-se na guerra da Ucrânia. Ela torna-se a placa-giratória de acções secretas da OTAN que contra ela, em última análise, actua. O conflito actual é particularmente opaco quando se ignoram as ligações entre os Straussianos dos EUA, os sionistas revisionistas e os nacionalistas integralistas ucranianos.


A guerra na Ucrânia funciona como um isco. Não vemos mais do que isso e esquecemos o conflito principal em que ela está inserida. Como resultado, não compreendemos aquilo que se passa no campo de batalha, nem percebemos correctamente a maneira como o mundo se reorganiza e, particularmente, como o continente europeu evolui.

Tudo começou com a chegada de Joe Biden à Casa Branca. Ele rodeou-se de antigos colaboradores que conhecera durante a sua vice-presidência: os Straussianos [1]. Esta pequena seita vai variando de cor política, ora republicana, ora democrata, consoante o partido do presidente em exercício.
Os seus membros, quase todos judeus, seguem o ensinamento oral incendiário de Leo Strauss. Eles estão convencidos de que os homens são perversos e as democracias fracas. Mais: elas não foram capazes de salvar o seu povo da Shoah (Holocausto) e não o serão da próxima vez. Assim, pensam que só poderão sobreviver promovendo uma ditadura e mantendo o controle desta. Nos anos 2000, tinham idealizado o Project for a New American Century (Projecto para um Novo Século Americano-ndT). Desejaram ao máximo um « Novo Pearl Harbor », o qual chocaria de tal modo o espírito dos Norte-Americanos que lhes permitiria impor os seus pontos de vista. Foram os atentados do 11 de Setembro de 2001.

Estas informações são chocantes e difíceis de admitir. Ora, existem muitos obras tidas como sérias sobre este assunto. Acima de tudo, a progressão dos Straussianos desde 1976, data da nomeação de Paul Wolfowitz [2] para o Pentágono, até aos dias de hoje confirma amplamente os piores receios. Na Europa, os Straussianos não são conhecidos, mas os jornalistas que os apoiam são. Qualificam-nos de « neo-conservadores ». É preciso reconhecer que os intelectuais judaicos jamais apoiaram esta minúscula seita judaica.

Retomemos a nossa história. Em Novembro de 2021, os Straussianos enviaram Victoria Nuland para intimar o governo russo a apoiá-los. Mas o Kremlin respondeu-lhes propondo um Tratado que garantisse a paz, ou seja, contestando não só o projecto Straussiano, mas também a pretensa política de segurança dos Estados Unidos [3]. O Presidente Vladimir Putin pôs em causa a expansão da OTAN para o Leste, que ameaça o seu país, e a maneira como Washington não cessa de atacar e de destruir Estados, nomeadamente no « Médio-Oriente Alargado ».

Então, os Straussianos provocaram deliberadamente a Rússia a fim de a irritar. Encorajaram os « nacionalistas integralistas » ucranianos a bombardear os seus compatriotas no Donbass e a preparar um ataque simultâneo ao Donbass e à Crimeia [4]. Moscovo (Moscou-br), que não tinha qualquer fé nos Acordos de Minsk e se preparava desde 2015 para um confronto mundial, julgou que chegara o momento. Entraram na Ucrânia 300. 000 soldados russos para «desnazificar« o país [5].

O Kremlin considera com razão que os « nacionalistas integralistas », que se haviam aliado aos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, continuam a partilhar a ideologia racialista.

Mais uma vez, o que escrevo é chocante. Os livros de referência dos nacionalistas ucranianos nunca foram traduzidos nas línguas ocidentais, incluindo o “Nacionalismo” de Dmytro Dontsov. Se ninguém sabe o que Dontsov fez durante a Segunda Guerra Mundial, toda gente conhece os crimes dos seus discípulos, Stepan Bandera e Yaroslav Stetsko. Estas indivíduos eram devotados ao Chanceler Adolf Hitler. Eles encorajaram e por vezes supervisionaram o assassinato de, pelo menos, 1,7 milhões dos seus compatriotas, entre os quais 1 milhão de judeus. À primeira vista, parece difícil acreditar vê-los aliados aos Straussianos e ao Presidente judeu Zelensky, como declarou o Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Serguei Lavrov. Com efeito, o Primeiro-Ministro israelita, Naftali Bennett, tomou imediatamente posição contra eles [6]. Ele aconselhou mesmo o Presidente Zelensky a ajudar os russos a limpá-los do seu país. Mas a relação de forças é tal que o seu sucessor, Yair Lapid, embora partilhando as ideias de Bennett, e recusando fornecer armas à Ucrânia, mantém um discurso atlantista. Ora, nós recordamos que Paul Wolfowitz presidiu em Washington a um importante congresso com ministros ucranianos. Aí, prometeu apoiar o combate dos nacionalistas integralistas contra a Rússia [7].

No entanto, os laços entre os « nacionalistas integralistas » ucranianos e os « sionistas revisionistas » do Ucraniano Vladimir Jabotinsky são históricos. Em 1921, eles negociaram um acordo segundo o qual se uniriam contra os Bolcheviques. Dada a longa sucessão de “pogroms” que os « nacionalistas ucranianos » haviam já perpetrado, a revelação deste acordo, uma vez que Jabotinsky fora eleito para o Comité dirigente da Organização Sionista Mundial, provocou uma rejeição unânime da diáspora judaica. O Polaco (Polonês-br) David ben-Gurion, que tomou em mãos a milícia de Jabotinsky na Palestina, qualificou-o de «fascista» e «possivelmente nazi». Posteriormente, Jabotinsky exilou-se em Nova Iorque, aonde se lhe juntou um outro Polaco, Bension Netanyahu, o pai de Benjamin Netanyahu, o qual se tornou seu secretário particular [8].

Após a Segunda Guerra Mundial, o ideólogo Dontsov e os dois assassinos principais, Bandera e Stetsko, foram recuperados pelos Anglo-Saxónicos. O primeiro foi exilado para o Canadá, depois para os Estados Unidos, apesar do seu passado de administrador do Instituto Reinhard Heydrich encarregado da coordenação da « solução final » [9], enquanto os outros dois o foram na Alemanha a fim de trabalhar na rádio anti-comunista da CIA [10]. Após o assassinato de Bandera, Stetsko tornou-se co-presidente (com Chiang Kai-chek) da Liga Anti-comunista Mundial, na qual a CIA reúne os seus ditadores e criminosos preferidos, entre os quais Klaus Barbie [11].

Voltemos ao ao nosso assunto. Os Straussianos nada têm a ver com a Ucrânia. O que lhes interessa é a domínio do mundo e, portanto, a subordinação de todos os outros protagonistas: da Rússia [da China] e dos Europeus. Foi isso que Wolfowitz escreveu em 1992 qualificando estas potências de «competidores», o que elas não são [12].

Os Russos não se iludem. Foi por isso que enviaram muito poucas tropas para a Ucrânia. Três vezes menos que o Exército ucraniano. É, portanto, estúpido interpretar sua lentidão como um revés quando se reservam para o confronto directo com Washington.

Discursando em 16 de Outubro por ocasião de um juramento de bandeira de voluntários, o Primeiro- Ministro húngaro, Viktor Orbán, declarou : « Quem quer que pense que esta guerra terminará por negociações russo-ucranianas não vive neste planeta. A realidade é diferente ». Segundo ele, só uma negociação russo-americana lhe poderá por um fim.

Agora, os Straussianos pressionaram a sabotagem dos gasodutos Nord Stream. Contrariamente ao que alguns afirmam, não se trata de quebrar a economia russa, que tem outros clientes, mas a indústria alemã que não pode prescindir destes [13]. Em condições normais Berlim deveria ter reagido ao crime do seu suserano. Mas nada ! Totalmente ao contrário. Desde a chegada de Olaf Scholtz à Chancelaria, o seu governo montou um vasto sistema visando « harmonizar as notícias » [14]. Ele é supervisionado pela Ministra do Interior, a social-democrata Nancy Faeser. Todos os média (mídias-br) russos que se destinam a um público ocidental foram proibidos pelas « democracias » desde 24 de Fevereiro de 2022, quer dizer, a partir da aplicação pelo Exército russo da Resolução 2202 do Conselho de Segurança. Hoje em dia, citar esta Resolução na Alemanha e partilhar a interpretação russa é assemelhado a «propaganda». É realmente surpreendente ver os Alemães afundar as suas instituições eles próprios. No século XX, a Alemanha que tinha sido o farol da Técnica e das Ciências antes da Primeira Guerra Mundial tornou-se, em poucos anos, um país cego que cometeu os piores crimes. No século XXI, quando a sua indústria era a mais performante do mundo, a Alemanha cai de novo na cegueira sem motivo. Assumem a sua própria queda em proveito da Polónia e a da União Europeia em favor da Iniciativa dos Três Mares (Intermarium) [15].

Por seu lado, os Straussianos utilizam seus privilégios na Alemanha. As bases militares dos EUA gozam de uma total extraterritorialidade e o governo federal não tem o direito de limitar a sua actividade. Assim, quando em 2002 o Chanceler Gerhard Schröder se opôs à guerra dos Straussianos no Médio-Oriente, não pôde impedir o Pentágono de usar as instalações na Alemanha como bases de retaguarda para a invasão e destruição do Iraque.

Foi em Ramstein (Renânia-Palatinado) que o Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia se reuniu. Os delegados dos cerca de cinquenta Estados convidados, depois de terem sido extorquidos a fim de dotar Kiev de uma infinidade de armas, tiveram direito a explicações sobre o Conceito de funcionamento da Resistência (Resistance Operating Concept — ROC). Trata-se de reactivar, pela enésima vez, as redes de stay-behind (acção de retaguarda-ndT) montadas no final da Segunda Guerra Mundial [16]. À época, foram criadas primeiro pela CIA norte-americana e o MI6 britânico, antes de serem integradas na OTAN. Os antigos nazis e os « nacionalistas integralistas » ucranianos foram o seu principal componente.

A rede stay-behind actual é coordenada, desde 2013, pela OTAN na sua base de Stuttgart-Vaihingen (Baden-Württemberg), onde estacionam as Forças Especiais dos EUA para a Europa (SOCEUR). Trata-se de criar um governo no exílio e de organizar sabotagens no modelo do que fizeram o General Charles De Gaulle e o Prefeito Jean Moulin durante a Segunda Guerra Mundial. Otto C. Fiala acrescentou-lhe as manifestações não-violentas testadas pelo Professor Gene Sharp no bloco do Leste, e depois durante as « revoluções coloridas » [17]. Lembremos que, contrariamente ao que ele afirmava, Gene Sharp sempre trabalhou para Aliança Atlântica [18]. A primeira manifestação da Stay-behind ucraniana teve lugar em 8 de Outubro com a sabotagem da ponte da Crimeia, sobre o estreito de Kerch.


[1] “A Rússia declara guerra aos Straussianos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2022.

[2] «Paul Wolfowitz, el alma del Pentágono», por Paul Labarique, Red Voltaire , 24 de febrero de 2005.

[3] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas“, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.

[4] Os planos deste ataque foram revelados pelo Ministério russo da Defesa. Podem encontrá-los aqui no nosso sítio.

[5] « Um bando de drogados e de neo-nazis », Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2022.

[6] “Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 8 de Março de 2022.

[7] “Ucrânia : a Segunda Guerra mundial continua”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2022.

[8] Cf. Voltaire, Actualidad Internacional, N°8, 30 de septiembre de 2022.

[9Ukrainian nationalism in the age of extremes. An intellectual biography of Dmytro Dontsov, Trevor Erlacher, Harvard University Press (2021).

[10Stepan Bandera: The Life and Afterlife of a Ukrainian Nationalist: Facism, Genocide, and Cult, Grzegorz Rossoliński-Liebe, Ibidem Press (2015).

[11] «La Liga Anticomunista Mundial, internacional del crimen», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 20 de enero de 2005.

[12] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop » Patrick E. Tyler and « Excerpts from Pentagon’s Plan : “Prevent the Re-Emergence of a New Rival” », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower » Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

[13] «Estados Unidos declara la guerra a Rusia, ‎Alemania, Países Bajos y Francia», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 4 de octubre de 2022.

[14] «Dokumenten-Leak: Wie die Bundesregierung an einer „Narrativ-Gleichschaltung“ zum Ukraine-Krieg arbeitet», Florian Warweg, NachDenkSeiten, 29. September 2022.

[15] “A Polónia e a Ucrânia”, “Afundando a paz na Europa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Julho de 2022.

[16] Sobre a rede “Stay-behind” em geral, ler : Les armées secrètes de l’Otan, Danièle Ganser, Demi-Lune. Sobre a “stay-behind” em França, ler : «Las redes estadounidenses de desestabilización y de injerencia », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 20 de julio de 2001.

[17Resistance Operating Concept (ROC), Otto C. Fiala, Joint Special Operations University Press, 2020.

[18] «La Albert Einstein Institution: no violencia según la CIA », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 10 de febrero de 2005.


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Automutilação

(Manuel Loff, in Público, 18/10/2022)

Manuel Loff

Sem termos recuperado da contração da economia durante os confinamentos, entrámos agora numa crise inegavelmente induzida pela invasão russa da Ucrânia, mas sobretudo pela guerra económica que a UE abriu contra a Rússia e, afinal, contra ela própria e a sua economia.


Há dias, uma amiga mostrou-me fotos de alarmes instalados em embalagens de peixe congelado num dos grandes supermercados da área metropolitana de Lisboa. Claro que sei que isto se faz em lojas de todo o tipo de bens caros, mas com comida…? Nunca tinha visto. Lembrei-me logo do tribunal que condenou em 2012, em pleno Governo da troika, um sem abrigo que tinha roubado um champô e uma embalagem de polvo. Nem o facto de ter sido detetado por um segurança e ter devolvido tudo impediu o Pingo Doce de levar o processo a tribunal. Para dar o exemplo. “Existe em Portugal uma justiça para ricos e outra para pobres. O pobre, se rouba um pão, vai preso. Um rico, se rouba um milhão, sai ileso”, ironizou então o advogado de defesa (PÚBLICO, 31/1/2012).

Levamos vinte anos consecutivos de austeridade (mais orgulhosa e ideológica sob os governos da direita, mais encapotada e disfarçada sob os do PS). Metade deles foram a chamada “década perdida” (2001-10), a que se seguiu a crise da nacionalização da dívida privada que nos pôs a todos a pagar os buracos da banca; em 2015-19, curta pausa de reversão de cortes de salários e pensões acompanhada das famosas cativações, para logo a seguir entrarmos no “Grande Confinamento” de 2020-21 e numa contração súbita sem precedentes.

A pobreza, que só deixara de crescer nos quatro anos da “geringonça”, voltou em força. Há meses o INE revelou que ela se agravou significativamente em 2019-21, logo antes e durante a pandemia. Em 2020, mais de meio milhão de “trabalhadores com emprego estavam na situação de pobreza devido aos baixíssimos salários que auferiam. Também o desemprego é uma causa importante da pobreza. Em 2020, 46,5% dos desempregados viviam abaixo de limiar da pobreza.”

Em 2021, havia 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, 258 mil mais que em 2020. “E o número de vezes que o rendimento dos 10% da população mais rica é superior ao rendimento dos 10% mais pobres aumentou, entre 2019 e 2020, de 8,1 para 9,8 vezes mais.” (Eugénio Rosa, www.eugeniorosa.com, 6/1/2022 e 7/6/2022)

Pobreza. Fome. No último Expresso, Vera Lúcia Arreigoso escreveu sobre os “utentes que vão às urgências para receber comida, e não tratamento”. Eles “não são propriamente idosos, (…) e tendem a permanecer em observação até à distribuição de comida, seja almoço ou jantar. (…) Os profissionais estão atentos, pois a crise económica que se avizinha prenuncia um agravamento deste fenómeno.” Que se avizinha, não: que já cá está.

Sem termos recuperado da contração da economia durante os confinamentos, entrámos agora numa crise inegavelmente induzida pela invasão russa da Ucrânia, mas sobretudo pela guerra económica que a UE abriu contra a Rússia e, afinal, contra ela própria e a sua economia. “A resposta europeia à invasão russa da Ucrânia foi desmesurada, ignorou completamente interesses e fragilidades, curvando-se num servilismo acrítico perante Biden” (Viriato Soromenho Marques, DN, 1/10/2022).

Ela é tão despudoradamente parcial que adotou uma bateria de medidas que jamais Bruxelas e a NATO aplicaram ao cortejo de guerras ilegais do “Fim da História” – e para quê, se a maioria foi da responsabilidade dos EUA e/ou dos seus aliados. A tal ponto é a UE que paga o preço e os EUA que beneficiam que se pode falar de automutilação da economia europeia, desencadeando aquilo a que Ricardo Cabral tem chamado “uma tempestade perfeita”: a subida e o racionamento do preço do gás destrói capacidade industrial, agrava défice comercial, desvaloriza o euro, aumenta a inflação (Ricardo Cabral, PÚBLICO, 3/10/2022).

O passo seguinte já o conhecemos: mais austeridade. E mais pobreza. Entre nós, “ao defender aumentos salariais a taxas muito inferiores à taxa de inflação”, o Governo está a impor “um corte de talvez 4%-5% no rendimento real da generalidade das famílias” que “desestabiliza em vez de contribuir para estabilizar a economia.” (Ricardo Cabral, PÚBLICO, 10/10/2022)

Prosseguir a guerra e retórica inflamada a imitar Churchill. É o que temos. Dispense-se a ONU, os diplomatas, os negociadores, fale-se apenas de heroísmo, mísseis, mapas, Zelensky. E os pobres que aguentem. Não é o que eles sabem fazer?

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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