A Alemanha exporta a sua crise para uma Europa atlântica em dissolução

(Por Luigi Tedeschi, in Geopol.pt, 08/10/2022)

A Europa não será certamente desmembrada pela política de chantagem energética de Putin, mas sim por um processo de autodecomposição interna que já está bem avançado.


A retórica de uma Europa unida, de respostas comuns e da solidariedade europeia indispensável para fazer face a emergências, estilhaça face ao plano de 200 mil milhões atribuído pela Alemanha para fazer face aos elevados preços da energia e proteger assim as famílias e as empresas alemãs dos efeitos do aumento dos preços da energia. Os 200 mil milhões de financiamento concedidos pela Alemanha contra os elevados preços da energia e a inflação (que actualmente rondam os 10%) constituem um programa unilateral de ajuda governamental. A soma de 200 mil milhões é equivalente ao total dos fundos do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência concedidos à Itália durante 6 anos e excede em 40% os 140 mil milhões em receitas esperadas do imposto sobre os lucros extra das empresas de energia. Esta manobra será financiada pelo fundo de estabilização económica, mas será excluída do orçamento ordinário, tal como os 100 mil milhões de investimento destinados pela Alemanha para o rearmamento. Por conseguinte, de acordo com a prática bem estabelecida alemã de utilizar truques contabilísticos, este financiamento não constituirá uma nova dívida pública.

Quem irá sancionar a Alemanha?

No entanto, é difícil compreender o tumulto causado na UE pelo unilateralismo prevaricador da Alemanha, que sempre foi praticado na UE, em aberta violação dos regulamentos europeus e em detrimento dos seus outros parceiros. De facto, a supremacia alemã de 20 anos na Europa só poderia ser alcançada através da violação sistemática das normas europeias. A UE tornou-se de facto uma área unitária de expansão económica alemã.

As exportações alemãs invadiram a Europa e perturbaram as economias dos outros estados membros, ignorando os limites impostos aos excedentes comerciais pelos tratados europeus. As regras de concorrência e a proibição de auxílios estatais foram sempre contornadas pela Alemanha, que, ao recorrer ao financiamento público, salvou um sistema bancário já inundado de obrigações de “junk bonds” e próximo do incumprimento após a crise do subprime de 2008. A Alemanha, com ultrapassagens massivas dos parâmetros orçamentais da UE, em 2003, eliminou os subsídios inesperados para apoiar a sua indústria. A mesma Alemanha, com enormes concessões de “crédito fácil” aos países do sul da Europa, causou crises de dívida devastadoras, apenas para depois impor políticas de austeridade e rigor financeiro à Grécia, com os consequentes talhos sociais, a fim de pagar as dívidas pendentes.

O crescimento exponencial das exportações alemãs é também devido à adopção da moeda única europeia. Uma vez que a cotação do euro nos mercados cambiais depende do desempenho global das economias de toda a zona euro, as exportações alemãs puderam beneficiar de uma taxa de câmbio muito favorável, uma vez que o valor do euro é muito inferior ao que teria sido com o marco alemão. Em contraste, a moeda única penalizou as exportações italianas, que já não podiam beneficiar da flexibilidade cambial com o euro.

A UE não produziu crescimento e estabilidade na Europa, mas gerou uma transferência de riqueza do sul para o norte da Europa, pelo que o crescimento alemão foi igualado pela desclassificação dos países mais fracos.

A supremacia alemã é, portanto, o resultado de uma política económica fraudulenta implementada pela Alemanha. Mas quem, ontem como hoje, está em posição de sancionar a Alemanha?

O nacionalismo voraz alemão e a iminente dissolução da UE

O mesmo paradigma repete-se na emergência energética. O plano de financiamento alemão de 200 mil milhões é um flagrante desembolso de fundos públicos para apoiar a economia alemã em crise, dizimada pelos elevados preços da energia e pela inflação. Deve ser considerado que todos os países da UE em tempos de crise (tanto pandemia como energia) recorreram a programas de apoio público. O que emerge, contudo, é uma desproporção escandalosa no montante de financiamento público fornecido por países individuais entre setembro de 2021 e setembro de 2022: a Alemanha atribuiu 384,2 mil milhões, a Grã-Bretanha 238,4, França 81,3, Itália 73,2, Espanha 35,5.

Podemos, portanto, constatar que foi estabelecida uma verdadeira concorrência entre os auxílios estatais concedidos por países individuais, em que os efeitos de distorção da concorrência favoreceram as posições económicas dominantes da Alemanha e dos seus aliados, em detrimento dos países mais fracos. Na verdade, a Itália tem uma margem de manobra orçamental limitada devido à sua elevada dívida pública. A economia italiana, que faz parte da cadeia de valor da indústria alemã, é particularmente vulnerável, uma vez que será penalizada na sua competitividade devido aos custos energéticos mais elevados para as empresas italianas. A Alemanha justificou esta medida unilateral de apoio à economia com base no seu grande espaço de manobra orçamental, tornado possível pelo seu proverbial virtuosismo financeiro rigorista. Mas o que é certo é que o seu poder financeiro foi alcançado através da expansão das exportações e, portanto, em virtude dos excedentes comerciais produzidos à custa da Itália e de outros países.

A UE é assim subserviente aos egoísmos prevaricadores dos países economicamente mais fortes. A sua desunião foi evidente na recusa da Alemanha em aderir à iniciativa da Itália, França e outros países de estabelecer um limite máximo europeu para os preços do gás. De facto, a Alemanha, para além de apoiar a sua economia com um gigantesco plano de ajuda pública, pode beneficiar dos contratos de futuros ainda em vigor (mas que expiram no final do ano) com a Rússia para fornecimento de gás barato.

Os Países Baixos expressaram a sua rejeição tanto do preço máximo como da proposta de desalinhar o preço do gás com o preço da electricidade. A Holanda é obviamente intransigente, dados os enormes lucros especulativos obtidos com o aumento dos preços da energia na bolsa de Amesterdão. E a crise energética, como sabemos, não se deve à guerra, mas à especulação financeira sobre o preço do gás.

A Noruega, que não é membro da UE mas da NATO, aumentou o preço das exportações de gás até 70 por cento e o seu fundo soberano de riqueza obteve lucros de cerca de 80 mil milhões. Na guerra e na crise, existe assim uma parte da Europa que se enriquece à custa da outra.

A unidade da Europa face à crise pandémica tem sido frequentemente exaltada, com a criação de uma dívida europeia comum, ou seja, o lançamento do Fundo de Recuperação. Mas sombras escuras pairam sobre a política de vacinação da UE. A falta de transparência nas negociações entre Von der Leyen e o presidente da Pfizer Albert Bourla sobre a compra de vacinas foi revelada, o que teve lugar através de uma correspondência de texto cujo conteúdo foi inexplicavelmente apagado. Bourla não compareceu então para testemunhar perante a Comissão Covid do Parlamento Europeu, que está a investigar estas negociações. Também surgiu um claro conflito de interesses envolvendo Von der Leyen, cujo marido é director da Orgenesis, uma empresa de biotecnologia controlada pelos fundos de investimento Vanguard e BlackRock, que por sua vez também controlam a Pfizer. O Fundo de Recuperação foi também frustrado pela oposição dos Países Baixos e dos países frugais, que deram o seu consentimento em troca da concessão de benefícios fiscais por parte da UE.

Uma política semelhante não foi replicada durante a crise energética. Devido à oposição da Alemanha, nenhum fundo europeu será criado para apoiar países em dificuldade devido aos elevados preços da energia. Uma vez que nenhum fundo energético europeu comum surgirá, cada país europeu terá de fazer face à crise com os seus próprios recursos. Os países da UE não são produtores de mercadorias nem potências financeiras de classe mundial. A Europa construiu o seu poder económico sobre a manufactura. Por conseguinte, terá de lidar com a crise energética através de derrapagens orçamentais e manobras de défice. Mas o desequilíbrio dos recursos financeiros disponíveis por parte da Alemanha em comparação com outros países para implementar políticas fiscais para contrariar eficazmente o impacto desta crise é evidente.

É portanto justo descrever a política económica de Scholz como uma forma de nacionalismo fiscal voraz que conduzirá fatalmente à dissolução de facto da UE.

A Alemanha exporta a sua crise

A guerra entre os EUA e a Rússia na Ucrânia levou a um drástico declínio geopolítico e económico da Alemanha. O poder económico alemão conseguiu desenvolver-se através do crescimento das suas exportações, fornecimentos de gás russo barato e deslocalizações industriais para a Europa de Leste. A guerra e as subsequentes sanções impostas à Rússia estão gradualmente a levar ao fim dos laços económicos e energéticos entre a Alemanha e a própria Rússia. Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia causou a ruptura da Rota da Seda através da ligação ferroviária entre a China e a Europa (via Ucrânia), e assim, tanto as exportações alemãs como as cadeias de fornecimento de semicondutores, materiais tecnológicos e infra-estruturas para a indústria sofreram um colapso drástico. O modelo económico alemão baseado nas exportações está em processo de dissolução.

Esta guerra levou portanto a Alemanha a levar a cabo o seu reposicionamento económico e geopolítico no seio da NATO. Scholz, tendo em conta a escolha do campo atlântico e a redução do papel económico e geopolítico da Alemanha, quer no entanto reafirmar a primazia alemã na Europa.

Com a crise energética, a Alemanha entrou em recessão. Devido ao aumento dos preços do gás, a inflação será de 8,4% em 2022 e de 8,8% em 2023. O PIB alemão está em declínio, o crescimento será reduzido para 1,4% em 2022 e 0,4% em 2023. O índice de confiança dos consumidores diminuiu 3,5 pontos e atingiu um mínimo histórico.

Scholz, portanto, face à recessão que se avizinha, à dissidência desenfreada da opinião pública, e aos prazos eleitorais que se aproximam em alguns länder alemães, lançou este plano de ajuda de 200 mil milhões de fundos públicos para empresas e cidadãos para fazer face aos elevados custos energéticos. Dada a desigualdade nos custos energéticos que irá ocorrer entre as empresas alemãs e as de outros países da UE, a Alemanha pôs em prática uma manobra de choque que toma a forma de uma gigantesca operação de dumping industrial e financeiro, em detrimento do resto da Europa. A intenção do Scholz é travar a degradação económica da Alemanha resultante do encerramento dos principais mercados de exportação alemães e a queda significativa da competitividade sofrida pela indústria alemã em relação ao mercado americano. Será o reforço das exportações alemãs na Europa, que tem sido realizado de forma a produzir distorções significativas da concorrência, suficiente para fazer face à recessão interna e compensar as perdas sofridas pelas exportações para a Rússia e para os mercados asiáticos? Certamente que não. Na realidade, o dumping alemão só terá o efeito de exportar a sua própria crise para a UE. A recessão europeia apenas produzirá diminuições na procura que também afectarão negativamente a economia alemã.

A Itália está particularmente exposta à concorrência desleal da Alemanha. Numa Itália cuja estrutura industrial já se encontra empobrecida há décadas por manobras agressivas franco-alemãs, podem ocorrer novas crises de dívida com a recessão que se aproxima, seguidas de novas políticas de austeridade. Neste contexto, haverá novas iniciativas agressivas por parte da Alemanha, que sempre desejou apropriar-se dos bens imobiliários e de poupança da Itália, que se encontram entre os mais elevados da Europa.

A estratégia americana de agressão contra a Europa

A Europa não será certamente desmembrada pela política de chantagem energética de Putin, mas por um processo de decomposição interna que já está bem avançado.

O silêncio voluntário de Von der Leyen em relação às iniciativas de nacionalismo predatório da Alemanha também deve ser notado. Limitou-se apenas a apelos retóricos à unidade da UE. O mesmo Von der Leyen que sancionou o soberanismo da Hungria de Orban e foi responsável por interferências graves e indevidas nas eleições italianas ao afirmar que “se as coisas correrem numa direcção difícil, temos os instrumentos para agir”, está agora calada em relação ao nacionalismo predatório de Scholz.

De facto, com o fim da Guerra Fria e a expansão da NATO para a Europa de Leste, a relevância do papel estratégico da Alemanha na contenção da Rússia diminuiu. Este papel é agora desempenhado pela Polónia e pelos países bálticos que fazem fronteira directa com a Rússia.

A guerra EUA-Rússia na Ucrânia levou ao reposicionamento geopolítico da Europa no seio da NATO, com uma função russofóbica. Mas, em perfeita coerência com a estratégia geopolítica dos EUA, a decomposição interna da UE está também a ter lugar. A Europa, privada de uma subjectividade geopolítica autónoma no contexto mundial, diminuída no seu poder económico e tornada dependente dos EUA no campo energético, só progressivamente se desmembrará, dilacerada por conflitos internos. O declínio do euro é uma prova clara disso mesmo. O euro está a depreciar-se face ao dólar devido à política anti-inflacionista implementada pelo Fed, que implica aumentos progressivos das taxas de juro. E os aumentos deliberados das taxas do BCE terão efeitos devastadores sobre uma economia europeia em recessão. Esta corrida do BCE aos aumentos das taxas dos EUA acabará por sangrar a Europa.

A estratégia imperialista americana de agressão contra a Eurásia implica a desconstrução da UE. A crise económica que se avizinha transformar-se-á em breve numa crise política e institucional envolvendo todos os países europeus. Um conflito social alimentado pelo aumento das desigualdades irá também irromper. A responsabilidade das classes políticas pelas escolhas atlantistas suicidas da Europa em breve emergirá. Só a partir da dissolução interna da UE e da implosão do modelo neoliberal poderá emergir a nova Europa dos povos e das pátrias europeias. É isto uma utopia? Bem, só esta utopia nos pode salvar.


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Quando estamos fartos de ler e ouvir a mentira dos média…

(Joaquim Freitas, in Facebook, 07/10/2022)

Muitos cidadãos estão a consciencializar-se de que o mundo vai mal, mas muitas vezes sem conseguirem entender claramente os motivos.

Diante do que veem e ouvem ao seu redor, muitos, mesmo pessoas sensatas, ficam perdidos, às vezes até perturbados. A sua realidade não corresponde ao que lhes é dito. Eles a sentem com razão, mas não conseguem compreender os seus mecanismos. Atirados então entre as declarações do pessoal político-média que os manipula e os faz “perder a cabeça”.

Um dos motivos dessa desordem, e que se verifica quase diariamente, passa a ser a falta de cultura política do maior número. Uma das causas está na educação, que há décadas falha em seu dever: o desenvolvimento do pensamento crítico.

Observação bastante simples de estabelecer, mas que não é suficiente, obviamente.

Com o único objetivo de privatizar tudo o que pode ser privatizado – através de uma competição feroz que deixa os mais pobres no chão -, todo o bem comum é sacrificado em benefício de interesses particulares nas mãos de alguns predadores sem fé ou qualquer outra lei que não a de colher sempre mais, independentemente dos meios utilizados para tal alcançar. São práticas mafiosas, no sentido próprio do termo.

E até hoje, podemos ver que, insidiosamente, até os governos estão sendo privatizados. Aqui no nível dos exércitos usando cada vez mais empresas sob contrato, lá dentro das forças policiais convocando milícias privadas, ou mesmo através de empresas de consultoria ditando aos líderes políticos o roteiro para realizar essas privatizações o mais rápido possível, ignorando desdenhosamente a função parlamentar.

Alguns exemplos: a grande média (nas mãos de bilionários, próximos ao poder) subsidiada pelos governos, há meses, explica-nos que a Rússia invadiu a Ucrânia para fazer guerra, ocupá-la e anexar os seus territórios.

As autoridades russas respondem com infinita paciência que esta abordagem é falaciosa e que é necessário ir às origens das tensões para compreender a decisão russa de uma ‘operação militar especial’ destinada a proteger os habitantes de Donbass, desnazificando e desmilitarizando a Ucrânia.

Ao mesmo tempo que é impedida de estar nas fronteiras de Israel, a NATO – essa organização criminosa responsável por dezenas de milhões de vítimas nos últimos anos (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iémen, etc.) -, procede de acordo com uma agenda comum com o regime do apartheid que pretende enfraquecer por todos os meios qualquer Estado hostil ao seu estabelecimento na terra da Palestina.

Não é a Rússia que está invadindo a Ucrânia, é esta última que vem bombardeando as suas próprias populações de Donbass há quase 10 anos de mãos dadas com o Ocidente – apesar dos tratados Minsk1 e Minsk2 assinados para tentar trazer a paz de volta à região.

O Ocidente e a sua grande média nomearam o culpado e os comentaristas dóceis se revezam, sob o pretexto de trabalhar para difundir as luzes da “democracia” contra o obscurantismo do tirano russo.

No entanto, documentos oficiais atestam que, há vários anos, os Estados Unidos visavam o deslocamento do vínculo que estava sendo tecido lentamente entre a Alemanha e a Rússia.

E que, acima de tudo, era necessário impedir o comissionamento do gasoduto Nord Stream 2, que teria ancorado ainda mais a Alemanha – e depois o resto dos países europeus -, à Rússia.

As últimas explosões nestes dois gasodutos no Mar Báltico falam muito sobre a determinação dos EUA em afundar uma economia europeia pró-russa.

Que elementos mais são necessários para entender os atuais mecanismos belicosos e concluir que os EUA não são os aliados confiáveis ​​que alguns afirmam? A menos que se seja um troll de plantão, os cidadãos que dão algum crédito à narrativa truncada da média e transmitem repetidamente essas falsificações sobre a culpa russa, só o podem fazer por ignorância política e/ou preguiça intelectual.

Os cidadãos são muitas vezes enganados pelas questões que estão surgindo nos altos escalões e não têm ideia do que os Estados são capazes de defender “seus interesses”. Muitos são os que se deixam manipular, adormecer pelo ‘american way of life’. Enganados por propagandas vantajosas, identificam produtos feitos nos EUA com os valores que sustentam a “democracia”.

Nossa noção de “democracia” é muitas vezes reduzida à nossa capacidade de consumir – eu gasto, logo existo!

Convém recordar, portanto, uma coisa, essencial: é preciso sempre ouvir atentamente as declarações oficiais repetidas em loop pelos jornalistas e ‘especialistas’ de todos os tipos de meios de comunicação, a fim de levar o sys-te-ma-ti-que-mente ao contrário do que anunciam.

A ignorância leva ao medo, o medo leva ao ódio e o ódio leva à violência. Esta é a equação. – Ibn Rochd (filósofo, teólogo, jurista e médico muçulmano [1126-1198] conhecido no Ocidente como Averróis).

Joe Biden, havia estimado quinta-feira que o mundo enfrentava pela primeira vez desde a Guerra Fria o risco de um “Armagedom” nuclear.

Extraordinário que o Chefe dum Estado que “trabalha” desde há mais de vinte anos na destabilização da Rússia, através dum golpe de estado na Ucrânia, venha agora alertar sobre o risco maior que ele criou.


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A guerra da Ucrânia está a tornar-se uma guerra mundial? 

(Por François Martin, in Courier des Estrateges, 10/10/2022, Trad. Estátua de Sal)

Um conjunto de fenómenos recentes acaba de marcar uma mudança notável, um passo importante e esperado no conflito ucraniano. A batalha de Izium, o apelo de Putin aos reservistas russos, os referendos dos quatro oblasts, a recente sabotagem dos gasodutos do Báltico e até o ataque à ponte da Crimeia, todos esses eventos estão ligados. Eles são “mudanças de jogo” e tornam as coisas mais claras . Porque este conflito, na realidade global desde o início, foi até agora apresentado como um conflito local, tanto pelos americanos como pelos russos, por vários motivos:

História americana / história russa

Para os americanos, era importante “começar o filme” em 24 de fevereiro, para camuflar a sua estratégia de conquista antissoviética, então anti russa, realizada com grande consistência desde 1991, e mesmo desde a 2ª Guerra Mundial (1 ) . Além disso, esta “narrativa” simplista, sem qualquer profundidade de campo, era muito prática de retransmitir, e permitiu, com a média europeia escandalosamente sob ordens, e opiniões crédulas bem preparadas por um “carpet bombing” mediático muito poderoso para fazer aceitar sem critica a visão maniqueísta fazendo dos russos os “maus agressores” e dos ucranianos os “bons atacados”.

Esta estratégia de média até agora funcionou muito bem internamente. Com efeito, se mal convenceu 80% dos países do planeta, muito mais lúcidos e menos americanófilos do que os ingénuos europeus, permitiu, pelo menos até agora, fazer com que estes “engolissem” os incríveis gastos de apoio à Ucrânia, o risco político comprovado das entregas de armas e o preço muito alto em troca de sanções, embora a política monetária desenfreada anterior já tivesse criado na Europa um aumento significativo de preços e uma promessa de empobrecimento.

Para os russos, os objetivos eram muito diferentes. Aos olhos deles, era importante sair “de vez em quando”. Desejando “quebrar” os laços remanescentes com a Europa o mais rápido possível, eles quiseram, ao longo do processo, mostrar a sua abertura a possíveis negociações. Em primeiro lugar, a escolha de uma força expedicionária de 160.000 homens para sua “operação especial” foi um sinal político suficiente para provar que eles não estavam ali para a conquista, mas para obter, finalmente, a aplicação dos acordos de Minsk (2 ). E, de fato, se as negociações fracassaram, a culpa não é deles. Recordamos os dois negociadores ucranianos da delegação inicial à Bielorrússia, assassinados no seu regresso a Kiev, depois a muito oportuna “descoberta” dos massacres de Boutcha, o bombardeamento da estação de Kramatorsk, etc… Em todo o caso, foi de fato a parte ocidental que alimentou o ímpeto belicista e literalmente fechou a porta às negociações. Mesmo quando houve um acordo parcial em alguns pontos, podemos ver que os ocidentais não cumpriram a sua palavra, como se a superioridade e a provocação fossem parte intrínseca de sua estratégia (3). No entanto, o lado russo, mesmo que não tenha hesitado em denunciar o imperialismo ocidental, nunca adotou um discurso violentamente bélico. Além disso, ao contrário, por exemplo, dos comunistas asiáticos, para quem o “verbo” marcial e agressivo era consubstancial ao seu método político, a filosofia dos russos não consiste na escalada da média, persuadidos como estão de que a vitória militar no terreno e/ou a inversão das opiniões do adversário pelo simples jogo dos acontecimentos são a chave de tudo.

Mas as coisas mudaram, tornando essas estratégias políticas e mediáticas obsoletas para ambos os lados.

O que força americanos e russos a mudar o formato do conflito

O que mudou, em primeiro lugar, foi a recusa permanente dos ocidentais a qualquer “abertura” de um canal de negociação. Pressão na média e até na AIEA para não reconhecer a realidade dos ataques ucranianos à usina Zaporijia (4), quando as evidências são claras (5), o desejo de fechar as fronteiras europeias a turistas russos e até a burocracia para diplomatas russos que deveriam ir aos EUA para sessões da ONU! Tudo era bom para dizer aos russos, em nome dos ocidentais:  “Nós odiamos vocês. Não queremos falar com vocês “. Além da guerra, conscientemente mantivemos um “clima” detestável com nossos adversários. A certa altura e, é preciso dizer, depois de muito tempo (6), os russos acabaram por aceitar essas palavras pelo seu significado literal. Como em algumas lutas, elas significam “O duelo vai até o fim”. Não haverá tréguas”. E essa mensagem passou.

Além disso, as táticas adotadas pelos russos, consistindo em não atacar a “linha Maginot” ucraniana, mas, ao contrário, mantendo uma guerra defensiva (7), e obrigando os adversários a deixar as suas fortificações gradualmente, desvitalizou o exército de Kiev eliminando alguns dos lutadores mais experientes. A guerra mediática, princípio da estratégia ucraniana (8), obrigou-os a descobrir-se e a atacar, correndo o risco de serem esquartejados, ou, como em Mariupol, a fazer “Fort Chabrol” (9), para mostrar que não se renderiam sob nenhum pretexto. De qualquer forma, inépcia militar. O resultado é que o exército ucraniano como tal não existe mais, ou quase. Aqueles que vemos lutando hoje, cada vez mais, são os recrutas de “carne para canhão” (10), reforçados por mercenários estrangeiros.

E para compensar este enfraquecimento ucraniano, o envolvimento dos ocidentais tem sido cada vez mais forte: apoio financeiro gigantesco (11), mas também em armas, logística, inteligência militar e de satélite, em apoio a soldados “mercenários” (12) e comando, planeamento e treino. Na verdade, hoje, as máscaras estão caindo: não é mais a Ucrânia que está lutando, mas a NATO diretamente. A narrativa inicial não se aplica mais. Tornou-se inútil, porque as populações europeias, que a princípio tiveram de ser convencidas pelo simplismo maniqueísta dos “maus contra os bons”, estão agora suficientemente “presas no funil” para se pensar que não serão capazes de saltar fora. Em vez disso, o que agora deve ser “promovido”, para evitar que eles “se libertem” das garras do conflito e do efeito de retorno das sanções, é o risco de uma guerra nuclear.

À volta de Izioum

O melhor sinal dessa mudança é a batalha de Izioum. Com efeito, na opinião de todos os especialistas, marcou uma viragem, não tanto ao nível estratégico (13) ou mesmo ao nível tático (14) mas ao nível do método. Porque rompe, pela primeira vez, com a doutrina defensiva escolhida desde 2014 para quebrar os russos. Consistiu  no ataque rápido, que não estava nos planos. Segundo especialistas, não foi pensado, planejado ou mesmo executado pelos ucranianos, mas diretamente pela NATO. Trata-se, portanto, agora, no plano militar, de uma guerra direta NATO/Rússia, sem se esconder atrás do “proxy” ucraniano.

Putin, que queria deixar um “canal” de discussão aberto, pelo maior tempo possível, imediatamente aprendeu a lição, não do fracasso militar, como foi dito, mas da mudança no formato da guerra. O tempo diplomático acabou. Como a NATO aparece de um lado, a Rússia deve aparecer do outro. O recrutamento parcial por um lado, a implementação de referendos por outro, confirmam esta mudança de “formato”. A “Novarússia” (15) agora será a Rússia, e não será mais defendida por uma “força expedicionária”, mas por soldados russos, e suficiente para garantir os mais de 1000 km desta “nova fronteira”. Da mesma forma, pode-se pensar que os russos também mudarão a doutrina em relação aos seus inimigos. Sendo antes muito parcimoniosos em bombardear civis (16), é provável que agora sejam muito mais intransigentes diante dos ataques aos seus novos territórios. Se Kiev agora se apresentar como um inimigo direto da Rússia, é uma aposta segura que a Ucrânia, em grande parte poupada até agora (17), sofrerá a resposta de um país em guerra, infinitamente mais brutal (18). A Rússia não quererá um conflito internacional, porque tem interesse em preservar, para se proteger, um conflito local. Mas vai endurecer consideravelmente sua resposta local.

Gasodutos

Nesse contexto, também entendemos muito melhor o “caso do gasoduto”. Por um lado, não há dúvida de que este ataque vem do lado ocidental e não do lado russo (19). Além disso, os americanos, por esse fato, enviam um certo número de mensagens extremamente claras:

Aos russos e ao resto do mundo: “Tenham a certeza de que lutaremos contra os interesses russos em todos os lugares do planeta. Não haverá quarteirões nem fronteiras”.

Aos alemães: “Vocês traíram-nos ao aproximarem-se dos russos, quando sabiam que não os queríamos a qualquer preço. Aqui está o vosso castigo (20)  ”.

Para o resto da Europa:  “Não há escolha senão estar connosco ou contra nós. Se vocês saírem da linha estratégica definida, aqui está uma amostra do que vos vai acontecer ”.

Reagiram assim, e muito rapidamente, às tentativas alemãs de “amolecer” o consenso europeu de apoio à Ucrânia, motivados pelo medo que lhes suscitava o esperado colapso económico e social, na sequência da possível falta de gás durante o ‘inverno’. ~

Hoje, não há mais alternativa. Ainda melhor que o conquistador Hernan Cortés (21), os americanos inventaram uma variante de sua famosa ação brilhante: em vez de queimar os seus navios, queimaram os do seu melhor aliado… É provável que poucos líderes da Europa venham agora a demonstrar a sua independência…

Além disso, eles criaram as condições para uma possível superioridade dos russos, que poderiam atacar os interesses americanos noutros lugares que não na Ucrânia. Na verdade, provavelmente, eles estão apenas esperando por isso. Parece duvidoso que o astuto Putin caia na armadilha aqui também.

Gradualmente, a lógica mortal e inelutável deste caso vem à tona, a de um confronto direto entre as duas maiores potências militares e nucleares da terra (22). E ela impõe as duas únicas respostas possíveis: uma é dizer “Pare o fogo!”  finalmente, uma resposta humanitária e não belicista. A outra é dizer “Esse assunto não terá solução militar, apenas solução política“. 

Cada vez mais se impõe um novo e grande discurso de Phnom Penh (23). Mas quem terá coragem e a estatura política para  o fazer?

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Notas

(1) No seu excelente livro, “The American Friend”, o jornalista Eric Branca mostra que durante esta guerra, os americanos perseguiram, em paralelo, dois objetivos aparentemente contraditórios, um consistindo em aliar-se aos russos para combater os nazis, o outro consistindo em aliar-se aos nazistas para combater os russos. A estratégia anti russa, portanto, data bem antes de 1991.

(2) a) Reconhecimento da Crimeia, b) Status autônomo dos oblasts de Donetsk e Luhansk, c) Desmilitarização

(3) No caso do trigo, os russos aceitaram a exportação de trigo ucraniano, por outro lado, os ocidentais ainda não cumpriram as condições ainda aceitas relativas à exportação de trigo russo, segunda parte do acordo. A questão do trigo, a malícia de Putin e a estupidez ocidental – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourrierdesstrateges.fr)

(4) O que há de verdade por trás do “romance Zaporizhia”? por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(5) Durante a visita da AIEA à usina, moradores da cidade vizinha de Energodar apresentaram ao diretor da AIEA, Rafael Grossi, uma petição assinada por 20.000 pessoas, pedindo que os ucranianos parassem de bombardear a usina e a cidade. Grossi promete criá-la, mas não o fez. https://www.lelibrepenseur.org/les-habitants-de-zaporijia-demandent-larret-et-la-condamnation-des-bombardements-de-la-centrale-nucleaire-par-le-regime-de-kiev/

(6) Se podemos censurar Putin por uma coisa, paradoxalmente, é sua ingenuidade. De fato, ele nunca deixou de acreditar, apesar de tudo o que observou desde 1991, que poderia um dia encontrar um acordo com o Ocidente. Se ele decidiu integrar os 4 oblasts, é porque suas últimas ilusões caíram.

(7) Ucrânia: vietnamização, mas para quem? por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(8) Os Estados Unidos e a OTAN cometem o erro capital em uma guerra: subestimar seu inimigo – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(9) https://fr.wikipedia.org/wiki/Fort_Chabrol

(10) Meninos a partir de 16 anos, meninas a partir de 18 anos, idosos até 70 anos. Que loucura empurrar este país para a guerra de novo e de novo!

(11) O Ocidente gastou mais de 80 bilhões de dólares nesta guerra até agora

(12) Parece que se encontram em particular, hoje, muitos combatentes africanos. Os caixões que voltam para o campo fazem menos barulho do que no Ocidente…

(13) As terras da região de Kharkiv até Izium não são estratégicas para os russos. Eles são muito difíceis de proteger, porque são muito planos. Eles não fazem parte das áreas que querem libertar.

(14) A batalha de Izium é para os ucranianos uma “vitória de Pirro”. Contra um ganho de território bastante desinteressante, deixaram no ataque muitas perdas de homens e materiais. Pode-se perguntar seriamente, mesmo que não tenha sido uma armadilha dos russos. Os Estados Unidos e a OTAN cometem o erro do capital em uma guerra: subestimando seu inimigo – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(15) https://fr.wikipedia.org/wiki/New-Russia_(project_d%27State)

(16) Segundo a ONU, esta guerra até agora resultou em “apenas” cerca de 6.000 mortes. Deve ser lembrado que durante a guerra do Iraque, os bombardeios aliados causaram quase 200.000 mortes em poucos dias (sem qualquer protesto internacional, etc.), e ao todo quase um milhão de mortes entre 2003 e 2011.

(17) Porque Putin queria dar uma última chance à negociação e à paz.

(18) Foi o que disse o grande especialista americano John Mearsheimer em uma conferência na primavera de 2022: “Você está louco para querer atacar um dos maiores exércitos do mundo. Se você a colocar em dificuldade, é muito simples. Vai destruir totalmente a Ucrânia”.

(19) Por um lado, não entendemos por que os russos destruiriam uma obra faraónica que exigia 20 anos de esforço, quando é precisamente um de seus melhores meios de chantagem contra a Alemanha. Por outro lado, este episódio é muito caro para eles, pois, além dos reparos, os obriga, para evitar que a água suba no gasoduto e no abismo em sua totalidade, a continuar injetando 200 milhões de m3 de gás por dia. Além disso, a área onde ocorreu a sabotagem é, como o Estreito de Ormuz, uma das mais vigiadas do mundo, acima e abaixo da água. Não há dúvida de que um submarino russo teria sido imediatamente detetado ali. Finalmente, as responsabilidades já foram manifestadas.

 Radek Sikorki apagou o tweet onde agradeceu aos EUA por terem sabotado os gasodutos – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(20) Os americanos odeiam aqueles que querem assumir o poder, depois de terem sido seus vassalos. A lista dos “punidos” é muito longa: Reza Pahlavi, Noriega, Mobutu, Saddam, etc…Olaf Scholz é apenas o último deles.

(21) Hernán Cortés – Wikipedia (wikipedia.org)

(22) A menos que, segundo as análises mais recentes, as reservas de homens e armas dos ucranianos estejam esgotadas, na sequência dos ataques quase suicidas realizados recentemente, bem-sucedidos no norte, mal sucedidos no sul. Nesse caso, a chegada do inverno e dos reservistas pode ser o momento para um contra-ataque russo definitivo.

(23) Phnom Penh Speech – Wikipedia (wikipedia.org)


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