A verdadeira diferença

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 10/10/2022)

Hoje, ao sair da minha casa, deparei-me com Katia, a minha porteira. De boné azul-bebé com o tridente de Bandera (agora ucraniano), recebeu-me sempre simpática (e que bem que sabe o que sou), mas triste. Perguntei-lhe: “Então”? “Estás preocupada”? Ao que me respondeu: “Esta noite foi muita bomba”. Desejou-me “bom trabalho”, como faz todos os dias, e eu respondi-lhe “Infelizmente há muito quem queira a guerra”, tendo ainda acrescentado “qualquer coisa que precises, diz”. Nos últimos tempos tenho ajudado vários Ucranianos, que me traz à porta, com a documentação e lhes transmitir, em Inglês, algumas instruções. Foi assim, também, que conheci Ivan, jovem fugido a um dos muitos recrutamentos já feitos pelo Sr. Z.

Ao meio dia, recebo um telefonema de Tatiana. Tatiana também é Ucraniana, mas de Zaporizhie. De mãe Bielorussa, Tatiana fala russo e é ortodoxa, tal como toda a sua família. Disse-me que “o meu tio, um velhote reformado, levou com um estilhaço de uma bomba na barriga e está quase a morrer num hospital”. “Estilhaço de quê”? Perguntei-lhe. Ao que me respondeu “de que haveria de ser, de uma bomba ucraniana”. Este “ucraniana” veio acompanhado de um “ainda bem que já somos russos”, “mas ainda não nos sentimos protegidos”. Ao contrário, de Katia, Tatiana não pode andar na rua com um boné da Novorussya ou mesmo da Rússia. E ela sabe-o melhor do que ninguém.

A primeira vez que me cruzei co alguém que sofria os efeitos da guerra na Ucrânia, foi em 2015, com Natasha. Natasha tinha ido para Donetsk em 2013 – “as coisas estão a melhorar” dizia. Tinha ganho o Partido das Regiões, partido de Rybak e Yanukovich, que era uma coligação de vários partidos “russófonos”. O “Fatherland”, partido de centro direita nacionalista, ficou em segundo. O Partido das regiões ganhava o leste todo, incluindo Kharkov e Kiev, o “Fatherland” ganhava o oeste. Quem não via esta divisão, não queria ver o que era a Ucrânia. Hoje, a propaganda ocidental apagou esta história. Mas o facto é que ela existiu.

Natasha fugiu da guerra. “Como assim, da guerra”? Fugidos os mais ricos, quem ficou no Leste foram os pobres, os trabalhadores, os russos, disse-me Natasha. Em 2014, com o golpe de Maidan e a dissolução do partido das regiões, lá ganhou Poroshenko. E a história é conhecida.

O que a convivência diária com os Ucranianos me proporciona, é a noção de relatividade, mas também de objetividade. O que para uns é libertador, para outros pode ser opressor. Não que estejam em lados diferentes, mas porque a forma como os veem muda consoante a sua perspetiva.

E esta é a grande diferença entre quem abominando a guerra, qualquer guerra, e procurando os factos concretos, com a sua singela objetividade, distinguindo entre “facto” e “perceção” e entre “discurso” e “prática”, e quem, partindo de verdades absolutas, propagadas no Google, nas notícias ao minuto e nas TV’s dos órgãos privados ocidentais, mas que, sem um pingo de conhecimento concreto, objetivo, humano e prático, acha que pode desatar a assumir opiniões definitivas e absolutas sobre a natureza daquela guerra ou de outra, do regime do Sr. Z ou de Putin, dos russos ou dos ucranianos.

E são precisamente os donos dessa “verdade absoluta”, tão religiosa quanto própria do futebolês mais intolerante, quem toma atitudes intolerantes para com quem não alinha na tendência dominante, oprimindo ou ofendendo quem tem a coragem de pelo menos tentar fornecer uma leitura objetiva, histórica e dialética daquele conflito. E é esta gente, que nunca ouviu um russo ou ucraniano que não sejam os que passam e falam nos canais de propaganda ocidental e que, tudo o que vê, ouve e aprende sobre esses países, é filtrado pelo passador dos algoritmos do Vale do Silício, que verborreia a “democracia” de Z e a “ditadura” de Putin, sem perceber que a realidade não é a preto e branco, que não tem de ser uns contra os outros, como um qualquer jogo de futebol, e que é possível analisar, perceber e tomar um lado, sem com isso alienarmos toda a nossa racionalidade e capacidade de discussão e debate.

É por isso que há quem sofra tanto com a dor de Natasha, como com a Katia. E saiba que a dor de uma não tem de ser contrapartida da outra, nem a dor de uma acontece por ser contra, ou por causa, da outra, ou por uma estar uma de um lado e outra do outro. A dor das duas acontece por culpa do mesmo responsável, do mesmo agressor, mesmo que não pareça. A dor que oprime estes dois seres humanos tem, não tem, do outro lado, um russo ou um ucraniano.

Do outro lado, as suas dores, têm os causadores da guerra, desta guerra, de todas as guerras. E é caricato que, quem despreza as dores de uns, ataca precisamente quem honra e sofre as dores dos dois. Porquê? Porque é instrumento de quem quer, precisamente, dividir o mundo em dois lados, dividindo seres humanos, povos, trabalhadores e suas famílias, em nome de um mundo separado entre dominados e não dominados, traduzindo-se daqui para “democracias” e “ditaduras”, se a esta terminologia, o adepto e o fanboy forem mais sensíveis.

E é precisamente esta lógica “hooliganista” que, hoje, justifica que às eleições “democráticas” que elegem Z, se contraponham os referendos “aldrabados” do Kremlin… Como se fosse só escolher, entre o lado Oeste, que extirpa do sufrágio todos os partidos russófonos e tolerantes com a russofonia, ganhando assim as eleições, e o lado Leste que, apenas povoado quase exclusivamente por pró-russos (nem outros lá quereriam ficar), decide juntar-se à Rússia. E tal como escolhem um ou outro, designam o primeiro, o seu, como democracia, e o do outro, como ditadura, desprezando a vontade de todos os que aí quiseram, de facto, votar e exprimir a sua liberdade. Como se a liberdade de uns, valesse mais do que a de outros.

E, ao contrário desse intolerante adepto, há quem fique triste com os bombardeamentos de hoje à Ucrânia, porque sabe que “agora é que a escalada infernal vai acelerar”, como fica triste pela destruição da ponte da Crimeia, por saber que tal constituiria mais um passo numa escalada que vai vitimar inocentes, de um lado e de outro.

E é por isso que há quem não possa estar de acordo com o triunfalismo ocidental o mesmo que comemora a destruição da ponte, demonstrando que o regime de Z vive do ódio ao próximo, ao irmão, que até ontem com ele vivia. Mas é por isso também, que há quem não possa estar de acordo quando extremistas russos chamam de porcos aos soldados Ucranianos, tal como não aceita quando os Azovs chamam de Orcs aos soldados russos.

Hoje, quem toma partido, como no futebol, em 2014 não quis saber. Se quis saber, hoje vendeu-se ou deixou-se toldar com a propaganda. Quem viu Nuland e Ana Gomes a distribuir lanches, dando força aos movimentos neonazis, sabia que ali estava quem representava o outro lado, o reverso da dor e do sofrimento de dois povos, hoje irremediavelmente separados.

Do outro lado está a ganância, o belicismo, o domínio dos recursos alheios, a tentação de impor a sua lei aos outros povos, o neocolonialismo, a cobardia e o seguidismo, a superficialidade e a religiosidade na crença de tudo o que é apresentado como “o ocidente, contra o mundo”, especialmente se, do outro lado, estiver um mundo que não se deixa dominar.

Mas quem se deixa religiosamente manipular, pensando que está obrigado a escolher um de dois lados, quando os dois lados não existem ou são falsos, porque aquela que é a divisão real não lhes é apresentada, mas escondida, é precisamente quem acredita que Putin é comunista e a Rússia um país socialista, mesmo que mais de 90% da propriedade esteja em mãos privadas e a Rússia de Putin seja também um país com tantos oligarcas por 100.000 pobres como uns quaisquer estados unidos ou europa ocidental. Bastou acenarem-lhe com o vermelho, qual arquétipo despertador de antigas e superficiais divisões.

E sabendo-se que Putin pertence ao partido Rússia Unida que congrega vários movimentos conservadores e até liberais, com grande apoio da Igreja, e que a tudo isto se opõe o PCFR, constituindo a real oposição a Putin, mesmo assim, basta Paulo Portas, que cá para nós, deveria estar preso pelos seus escândalos de corrupção e não na TVI aos fins de semana, aparecer com um Lenine ao lado, enquanto fala da Rússia, para o rebanho crente, acrítico, preconceituoso e intolerante, passar a acreditar que Putin é mesmo comunista. E enquanto isso, esquecem-se que, a real luta, não é entre comunistas e não comunistas, mas entre exploradores e explorados, entre capital e trabalho, entre povos e impérios.

E é esta imagem, esta superfície bacoca, mas alienante, de que vive este regime de néons, que tão de repente chora a dor de uns, enquanto goza, despreza e esconde a de outros. É também esta gente, que celebra a liberdade de uns, enquanto oprime a de outros. É esta gente que propagandeia a “nossa” democracia, usando-a como arma de arremesso contra a “tirania” dos outros, bastando, para isso, alguém dizer que, a informação de uns é propaganda, e a propaganda de outros, é informação.

E o mesmo fazem em relação aos povos. Se aqui todos emprenham pelo mesmo ouvido, é porque temos liberdade e podemos exprimir-nos. Se tal sucede nos outros países, eleitos como inimigos pelas caixas-de-ressonância de Wall Street, é porque esses povos estão alienados pela propaganda, condenando essa gente à estupidez e a condescendência paternalista de acharem que, tais povos, não sabem o que querem, apenas porque querem algo que não lhes cabe no seu preconceito, nos seus dogmas futebolísticos.

E, por fim, são estes que escondem as guerras de uns, condenando veementemente, e com tal energia, as de outros, não venha alguém expor a sua hipocrisia, cinismo e cobardia.

E é por isso que eles não são verdadeiramente contra esta guerra… apenas são contra aquele que identificam como agressor.

Tudo porque, como no futebol, se tomam pelo lado que se auto classifica como agredido!

Neste jogo hipócrita, a dor real é secundária… E essa é a diferença!


P.S.1. Já repararam que evito escrever nomes de certos países e pessoas: a censura algorítmica a tal me obriga. As minhas desculpas.

P.S.2. ATENÇÃO!

Como forma de contornar a pressão crescente dos algoritmos, decidi criar dois canais alternativos para os meus escritos:

um blogue:

https://canalfactual.wordpress.com/

(contém todos os textos, incluindo alguns que não publico e mantenho na gaveta)

Um canal Telegram:

https://t.me/canalfactual

Contém links para todos os textos do blogue e notícias que vou destacando, incluindo textos com reflexões muito sintéticas

Para quem segue os meus textos e pretende fazer-me questões sobre assuntos concretos, recomendo que usem o Telegram. Estes são os dois canais, de momento, mais seguros para acompanhar o que escrevo.

Se te interessa, visita e partilha. Só a informação, a reflexão e o debate livre, sério e descomprometido, nos pode conduzir à luz.

Um abraço a todos e todas que comigo partilham o interesse pela procura do conhecimento.


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A UE caminha sonâmbula para a anarquia

(Por Thomas Fazi, in a Viagem dos Argonautas, 08/10/2022)

Biden é o Padrinho… 🙂 Este excelente texto tinha que ser acompanhado por um excelente cartoon – in Resistir, 09/10/2022

Todos os olhos podem estar postos nos resultados das eleições italianas desta manhã, mas a Europa tem problemas muito maiores nas suas mãos do que a perspetiva de um governo de direita. O Inverno está a chegar, e as consequências catastróficas da crise energética europeia autoimposta já estão a ser sentidas em todo o continente.

À medida que os políticos continuam a elaborar planos irrealistas de racionamento energético, a realidade é que o aumento dos preços da energia e a queda da procura já fizeram com que dezenas de fábricas numa gama diversificada de indústrias intensivas em energia – vidro, aço, alumínio, zinco, fertilizantes, químicos – cortassem na produção ou encerrassem mesmo, provocando o despedimento de milhares de trabalhadores. Até mesmo o New York Times pró-guerra foi recentemente forçado a reconhecer o impacto “paralisante” que as sanções de Bruxelas estão a ter sobre a indústria e a classe trabalhadora na Europa. “Os elevados preços da energia estão a atacar a indústria europeia, forçando as fábricas a cortar rapidamente a produção e a colocar dezenas de milhares de trabalhadores em licença”, relatou o New York Times.

Os cortes na produção de zinco, alumínio e silício (que representam uns espantosos 50% da produção) já deixaram os consumidores das indústrias siderúrgica, automóvel e da construção europeia a enfrentar graves carências, que estão a ser compensadas por remessas da China e de outros países. Entretanto, as fábricas de aço em Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países – mais de duas dúzias no total – estão a começar a abrandar ou a parar completamente a sua produção.

A indústria de fertilizantes, que depende fortemente do gás como matéria-prima chave, bem como fonte de energia, está em dificuldades ainda maiores. Mais de dois terços da produção – cerca de 30 fábricas – já foi interrompida. A importante empresa química alemã BASF encerrou temporariamente 80 fábricas em todo o mundo e está a abrandar a produção em mais 100, uma vez que planeia novos cortes de produção, dependendo do que acontecer aos preços do gás. Para piorar a situação, as sanções da UE também limitaram as importações de fertilizantes russos.

A diminuição do fornecimento de fertilizantes está também a ter um efeito de arrastamento dramático sobre os agricultores europeus, que estão a ser forçados a reduzir a sua utilização de nutrientes chave. Isto significa preços mais elevados para uma menor produção, e as consequências são inevitavelmente sentidas muito para além das fronteiras da Europa, provocando potencialmente uma escassez alimentar global.

Mas a escassez de fertilizantes não é o único problema enfrentado pelos agricultores europeus. Em toda a Europa do Norte e Ocidental, os produtores de vegetais estão a ponderar a suspensão das suas atividades devido aos custos energéticos paralisantes – em alguns casos dez vezes superiores aos de 2021 – necessários para aquecer as estufas durante o Inverno e manter as colheitas refrigeradas, para além do aumento dos custos de transporte e embalagem. O grupo da indústria das estufas Glastuinbouw Nederland diz que até 40% dos seus 3.000 membros já se encontram em dificuldades financeiras. Isto ameaça ainda mais o abastecimento alimentar – e levará certamente a preços ainda mais elevados dos alimentos que, juntamente com o aumento das contas de energia, é provável que leve milhões de europeus à pobreza. Por outras palavras, a crise europeia da energia e do custo de vida está em vias de se transformar numa crise humanitária.

No Reino Unido, prevê-se que 45 milhões de pessoas enfrentem a precaridade energética até Janeiro de 2023; como resultado, “o desenvolvimento de milhões de crianças será prejudicado” com danos pulmonares, stress tóxico e desigualdades educativas cada vez mais profundas, à medida que as crianças lutam para acompanhar o trabalho escolar em lares gelados. Perder-se-ão vidas, alertam os especialistas. Entretanto, no distrito alemão de Rheingau-Taunus, as autoridades realizaram uma simulação do que tal apagão significaria para elas, e os resultados são chocantes: mais de 400 pessoas morreriam nas primeiras 96 horas. E isto num distrito de apenas 190.000 habitantes.

Ora, estes números podem estar sobrestimados, mas o governo local não pode dar-se ao luxo de os ignorar. De facto, Gerd Landsberg, director-geral da Associação Alemã de Cidades e Municípios, exortou os residentes a armazenarem água e alimentos para 14 dias. Gerd Landsberg diz que a Alemanha não está “de forma alguma” preparada para tal cenário.

O que é importante compreender é que esta não é uma crise temporária em que tudo o que precisamos de fazer é ranger os dentes durante o Inverno, após o que as coisas voltarão ao normal. A realidade, como o Diretor executivo da Shell deixou claro recentemente, é que se os governos europeus insistirem em dissociar a Europa do abastecimento russo, o continente enfrentará escassez de gás “suscetível de durar vários Invernos”. É uma verdade amarga, mas simplesmente não há alternativa a curto prazo ao gás da Rússia. De facto, a Comissão Europeia prevê que os preços do gás e da eletricidade “permaneçam elevados e voláteis até, pelo menos, 2023”.

Dito de forma simples, se se mantiver no seu rumo atual, a Europa está a ter pela frente anos de contração económica, inflação, desindustrialização, declínio do nível de vida, empobrecimento em massa e escassez – e isto sem ter em conta a perspetiva aterradora de um confronto militar direto com a Rússia. Como pode alguém pensar que a Europa pode sobreviver a isto sem mergulhar na anarquia?

A loucura da situação torna-se ainda mais evidente  quando consideramos que, na sua tentativa de reduzir a sua dependência do gás russo, a UE está a aumentar a sua dependência dos fornecimentos de países como a China e a Índia – que, ao que parece, estão simplesmente a revender à Europa gás que vem da… Rússia (a um preço mais elevado, claro). Se a vida das pessoas não estivesse em risco, tudo isto pareceria uma piada de mau gosto.

É verdadeiramente um sinal da fraqueza dos políticos europeus que, apesar da proximidade do precipício, ninguém se atreva a afirmar o óbvio: que as sanções têm de acabar. Não há simplesmente qualquer justificação moral para destruir o sustento de milhões de europeus simplesmente para  dar uma lição a Putin, mesmo que as sanções estivessem a ajudar a atingir esse objetivo, o que claramente não estão.

E assim, de forma bastante deprimente, a única voz da razão parece ser a do primeiro-ministro da Hungria, Victor Orbán. Há semanas que ele e outros membros do seu governo têm vindo a alertar sobre a calamidade económica que a Europa enfrenta. “As tentativas de enfraquecer a Rússia não tiveram sucesso”, disse ele recentemente. “Pelo contrário, é a Europa que poderia ser posta de joelhos pela inflação brutal e pela escassez de energia resultante de sanções”. Esta é uma afirmação de facto, não uma simples opinião. Mas ninguém parece querer ouvir.

Em resposta, os tecnocratas em Bruxelas estão a provar ser tão insensatos quanto são os dirigentes  nacionais. Não só a delirante abordagem da UE à Rússia é uma das principais causas da presente crise, como a sua liderança continua a deitar gasolina na fogueira. Ainda este mês, Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, disse que “a estratégia contra a Rússia está a funcionar e deve continuar” – e prometeu novas sanções.

Pior ainda, a UE não está sequer a fazer nada para ajudar a amortecer os efeitos da crise que ajudou a criar. Depois de abandonar a ridícula proposta de limitar apenas o preço do gás russo – o que teria levado ao corte imediato deste último – Bruxelas está agora a ponderar um limite a todas as importações de gás, o que até o Ministro de Estado alemão para a Europa advertiu que poderia levar a uma grave escassez.

A proposta também não tem em conta um facto básico: não são os exportadores de energia que estão a aumentar o preço do gás; este último está hoje ligado ao preço a que o gás é comercializado em mercados comerciais virtuais, como o TTF em Amesterdão, onde especuladores têm vindo a aumentar os preços durante meses, obtendo enormes lucros. Além disso, no mercado liberalizado de hoje, que se baseia no chamado preço de custo marginal, o preço final da energia é fixado pelo combustível mais caro necessário para satisfazer todas as exigências – neste caso, o gás. Isto significa que à medida que os preços do gás sobem, também a eletricidade, mesmo que mais barata, contribui para a mistura total.

Assim, se a UE levasse a sério a questão dos preços da energia, dissociaria o preço do gás dos mercados comerciais especulativos e reformularia o sistema de preços de custo marginal. Mas isso iria contra a ideologia fundamental dos tecnocratas europeus: a ideia de que os preços deveriam ser fixados pelos mercados. De facto, a UE estava entre os mais fervorosos apoiantes, contra o conselho de Putin, (n.t. – explicado num artigo da CNBC americana) da mudança de negócios de gás de preço fixo a longo prazo para um sistema em que o preço é fixado por mercados comerciais virtuais.

Dada a improbabilidade de uma reforma radical, o que fará Bruxelas a seguir? Muito provavelmente contentar-se-á com soluções mal cozinhadas – tais como um teto sobre o excesso de receitas feito pelas centrais elétricas que não são de gás e um imposto excepcional sobre os lucros excedentários – bem como com aquilo que faz melhor: aplicar a austeridade. Entretanto, o BCE, em vez de anunciar uma nova ronda de compras de obrigações para proporcionar aos governos o dinheiro de que necessitam para proteger os cidadãos e as empresas da subida dos preços do gás e da energia, começou a reduzir os seus programas de flexibilização quantitativa e a subir as taxas de juro, fazendo com que o spread entre as obrigações do governo a 10 anos emitidas pela Itália e Alemanha se alargasse aos seus níveis mais elevados desde que a pandemia começou. Isto poderia facilmente precipitar uma nova crise da dívida, que é a última coisa de que a Europa precisa.

Sem o apoio dos bancos centrais, os governos da UE têm sido essencialmente deixados à sua sorte. Mais uma vez somos recordados do que significa para os países do euro terem abdicado do poder de emitir o seu próprio dinheiro; não é coincidência que o Reino Unido por si só tenha alocado mais que 50% do que foi reservado pelo conjunto da UE.

Isto já está a conduzir para políticas que remetem para as costas dos outros os custos da resolução dos nossos problemas (beggar-thy-neighbour): países, como a Alemanha, que podem contar com os mercados financeiros para angariar o dinheiro de que necessitam para ajudar os cidadãos e as empresas, e nacionalizar ou socorrer os serviços públicos de energia em dificuldades, irão inevitavelmente ultrapassar os países mais fracos que já enfrentam dificuldades nos mercados obrigacionistas, como a Itália. De facto, isto já está a começar a acontecer, uma vez que cada vez mais países se envolvem no que só pode ser descrito como protecionismo energético.

Em teoria, a segurança do gás na Europa é regida por um regulamento adotado em 2017, que torna obrigatória a solidariedade entre os países europeus. Mas os países da UE nem sempre cumprem essas regras quando confrontados com uma crise de aprovisionamento. Assim, por exemplo, o jornal italiano La Repubblica noticiou recentemente que a Itália tinha recebido uma notificação escrita da EDF, empresa pública estatal francesa, relativa a uma potencial paragem de dois anos nas exportações de energia como parte dos planos de poupança de energia da França. Um porta-voz do Ministério da Transição Ecológica italiano confirmou mais tarde a reportagem do jornal, embora tenha sido negada pela EDF. Do mesmo modo, a Croácia e a Hungria anunciaram ambos que tencionam implementar medidas para limitar as exportações de gás natural para os países vizinhos. Enquanto a Noruega, que suplantou a Rússia como a maior fonte de abastecimento de gás da UE, obtendo lucros gigantescos à custa de preços de gás mais elevados, recusou-se assim a apoiar um limite de preços nas suas exportações de gás.

No entanto, embora lamentar tal “falta de solidariedade” entre os Estados europeus seja fácil, também é ingénuo. Afinal de contas, é simplesmente assim que o capitalismo funciona. Apesar de toda a conversa sobre “capitalismo global”, as nações individuais – ou melhor, as suas respetivas elites capitalistas – ainda estão envolvidas em competição entre si. Enquanto as classes dirigentes de países individuais estão mais do que felizes em colaborar na prossecução dos interesses do capital em geral à custa dos trabalhadores – basta olhar para a União Europeia – os seus interesses concorrentes ressurgem inevitavelmente em tempos de crise.

Na realidade, a UE, longe de encorajar a solidariedade entre países, torna a concorrência inter-capitalista ainda mais feroz, ao privar os países dos instrumentos económicos básicos necessários para lidar com choques externos. Não importa se o continente está a sofrer um colapso financeiro, uma pandemia global ou uma escassez de energia. Na Europa, as políticas de exportar os seus problemas para as costas dos outros não são uma exceção à regra – elas são a regra.

______________

O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


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Crise financeira: até o FMI teme o pior

(Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022)

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.


Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.

Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.


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