Pandemia: a Casa Branca e o FMI, os primeiros infectados

(Atílio Boron, in Resistir, 21/03/2020)

Guerras, crises económicas, desastres naturais e pandemias são acontecimentos catastróficos que mostram o pior e o melhor das pessoas – tanto dos dirigentes como das pessoas comuns – e também dos actores e instituições sociais. É nestas circunstâncias tão adversas que as belas palavras se desvanecem no ar e dão lugar às acções e comportamentos concretos.

Há poucas e apenas contendo as lágrimas o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, denunciou perante as câmaras o grande engano da “solidariedade europeia”. Não existe tal coisa, disse Vucic, é um conto infantil, um papel molhado. Logo a seguir agradeceu a colaboração da República Popular da China. E tinha razão na sua queixa. Aqui na América Latina percebemos há muito que a União Europeia é uma trama mesquinha concebida para beneficiar antes de mais nada a Alemanha através do seu controle do Banco Central Europeu (BCE) e, com o euro, submeter os países da eurozona aos caprichos ou os interesses de Berlim.

A hesitante reacção inicial do BCE diante de um pedido excepcional de ajuda da Itália para enfrentar a pandemia que está a devastar a península mostrou o mesmo que havia denunciado o líder sérvio. Um escandaloso “salve-se quem puder” que lança por terra as retóricas edulcoradas sobre a “Europa dos cidadãos”, a “Europa una e múltipla” e outras divagações do estilo. Contos infantis, como disse Vucic.

O mesmo e ainda mais vale para o bando de criminosos que se instalou na Casa Branca pela mão de Donald Trump que, perante um Irão fortemente afectado pela pandemia, só se lembrou de escalar as sanções económicas contra Teerão. Tão pouco deu mostras de reconsiderar sua política genocida de bloqueio a Cuba e à Venezuela. Enquanto Cuba, a solidariedade internacional feita nação, auxilia os viajantes britânicos do cruzeiro Braemar a navegar no Caribe, Washington envia 30 mil soldados à Europa e seus cidadãos, alentados pelo “capo”, tratam de enfrentar a epidemia comprando armas de fogo! Nada mais a argumentar.

Fiel aos seus patronos, o Fundo Monetário Internacional demonstrou pela enésima vez que é um dos focos da podridão moral do planeta que, uma vez passada esta pandemia, terá seguramente seus dias contados. Numa decisão que o afunda nas cloacas da história recusou uma solicitação de 5 mil milhões de dólares apresentada pelo governo de Nicolás Maduro apelando ao Instrumento de Financiamento Rápido (IFR) criado especialmente para socorrer países afectados pelo COVID-19.

A razão alegada para a negação do pedido arrasa qualquer resquício de legalidade porque diz, textualmente, que “o compromisso do FMI com os países membros baseia-se no reconhecimento oficial do governo por parte da comunidade internacional, como se reflecte na condição de membro do FMI. Não há clareza sobre o reconhecimento neste momento”.

Dois comentários sobre este ataque miserável: primeiro, ainda hoje no sítio web do FMI figura a República Bolivariana da Venezuela como país membro. Portanto a clareza “sobre o reconhecimento” é total, ofuscante. Claro que não chega para ocultar o facto de que a ajuda é negada a Caracas por razões políticas rasteiras. Segundo, desde quando o reconhecimento de um governo depende da opinião amorfa da comunidade internacional e não de órgãos que a institucionalizam, como o sistema das Nações Unidas?

A Venezuela é membro da ONU, é um dos 51 países que fundaram a organização em 1945 e integra várias das suas comissões especializadas. A famosa “comunidade internacional” mencionada para hostilizar a Venezuela por personagenzinhas como Trump, Piñera, Duque, Lenín Morono e outros da sua laia é uma grosseira ficção, como Juan Guaidó, que não chegar a somar 50 países dos 193 que integram as Nações Unidas.

Por conseguinte, as razões profundas desta recusa nada têm a ver com o que diz o porta-voz do FMI e são as mesmas que explicam o absurdo empréstimo de 56 mil milhões de dólares concedidos ao corrupto governo de Maurício Macri e que foi utilizado maioritariamente para facilitar a fuga de capitais rumo às guaridas fiscais que os EUA e seus sócios europeus têm disseminadas por todo o mundo.

Espero com fervor que a pandemia (que também é económica) e o desastre do empréstimo a Macri convertam-se nos dois lúgubres coveiros de uma instituição como o FMI que, desde a sua criação em 1944, afundou centenas de milhões de pessoas na fome, na pobreza, na doença e na morte com suas recomendações e condicionalidades. Razões profundas, dizíamos, que em última instância remetem a algo muito simples: o FMI não é outra coisa senão um dócil instrumento da Casa Branca e faz o que o inquilino de turno lhe ordena. Quer asfixiar a Venezuela e o Fundo faz os seus deveres.

Não faltará quem me acuse de que esta interpretação é produto de um anti-imperialismo alucinado. Por isso adoptei o costume de recorrer cada dia mais ao que dizem meus adversários a fim de defender os meus pontos de vista e desarmar a direita semi-analfabeta e reaccionária que medra por estas latitudes. Leiamos que escreveu há pouco mais de vinte anos Zbigniew Brzezinski num texto clássico e um dos meus livros de cabeceira: “O grande tabuleiro mundial. A supremacia estado-unidense e seus imperativos geoestratégicos” em relação ao FMI e ao Banco Mundial.

Ao falar das alianças e instituições internacionais que surgiram após a Segunda Guerra Mundial disse que “Além disso, também se deve incluir como parte do sistema estado-unidense a rede global de organizações especializadas, particularmente as instituições financeiras internacionais. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial consideram-se representantes dos interesses “globais” e de circunscrição global. Na realidade, contudo, são instituições fortemente dominadas pelos EUA e suas origens remontam a iniciativas estado-unidenses, particularmente a Conferência de Bretton Woods de 1944″. (p. 36-37)

Será preciso dizer algo mais? Brzezinski foi um anti-comunista e anti-marxista furioso. Mas como grande estratega do império devia reconhecer os dados da realidade, do contrário seus conselhos seriam pura insensatez. E o que ele disse e escreveu é inobjectável.

Concluo acrescentando minha confiança em que Cuba e Venezuela, seus povos e governos, sairão airosos desta duríssima prova a que se vêm submetidos pela imoralidade e prepotência do ditador mundial, que se crê com direito a dizer a todo o mundo o que tem de fazer, pensar e dizer, neste caso através do FMI. Não será preciso esperar muito para que a história lhe dê uma lição inesquecível, para ele e seus lacaios regionais.




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As grandes carreiras políticas já não dependem dos eleitores

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/07/2019)

Daniel Oliveira

Christine Lagarde foi nomeada presidente do Banco Central Europeu e é preciso substituí-la no FMI. As transferências de verão estão ao rubro e o nosso Ronaldo das Finanças está na shortlist. Alguém confirmou que é provável que seja escolhido a Marques Mendes. Portugal, que se começa a especializar na exportação de burocratas, antecipa mais um momento de êxtase. Depois de Barroso e Guterres, com os enormes ganhos que todos sabemos terem representado para o país, podemos ter mais um dos nossos a brilhar lá fora. O nosso espírito de emigrante vibra com isto. Por mim, torço por Centeno em Washington. Não me parece que por lá possa fazer grandes cativações. Mas quem ache que ganharemos muito com uma possível nomeação deve fazer um balanço sério da passagem de Centeno pela presidência do Eurogrupo.

Não deixa é de ser curioso que uma organização tão ortodoxa como o Fundo Monetário Internacional pense em escolher Mário Centeno, ministro das Finanças de um Governo supostamente socialista. Ou houve uma revolução no FMI ou isto diz alguma coisa sobre o que tem sido a gestão financeira do nosso ministro.

Longe vão os tempos em que a grande ambição de um ministro das Finanças era chegar a primeiro-ministro e a de um primeiro-ministro era chegar a Presidente da República. Isso é tão século XX. Hoje, uns e outros sonham com cargos internacionais. Daqueles onde realmente se manda, os eleitores não chateiam e ainda por cima se ganha bem. O que quer dizer que as grandes carreiras políticas já não se fazem com os olhos na democracia e no povo, fazem-se com os olhos numa classe global de burocratas sem nação, quase sempre amigos dos únicos poderes globais que sobrevivem: os económicos.

Sobretudo os ministros das Finanças, que concentram um poder absurdo nos governos. Escolhidos entre tecnocratas, estão muitas vezes acima dos primeiros-ministros que os cidadãos conhecem e em quem, de alguma forma, votaram.

Isto é bastante perverso. Porque quer dizer que quem governa já não o faz a pensar nos governados. Se tivessem ambições nacionais era isso mesmo que teriam de fazer. Esta nova estirpe de políticos governa para agradar as organizações internacionais, dominadas pelos Estados mais poderosos. E a lógica é tão perversa que já conseguimos convencer os eleitores de que um bom ministro das Finanças é o que nos trata mal para ter a simpatia externa. E é isso que explica que, em países periféricos como Portugal, os ministros das Finanças se tenham transformado em embaixadores das instituições europeias no Governo e não o oposto. Conhecemos as consequências: um défice muito aquém das metas que nos foram exigidas pela Europa. O país não precisa, mas o currículo técnico de Centeno sim.

E se Centeno for para o FMI?

(David Dinis, in Expresso Curto, 18/07/2019)

Mário Centeno

A notícia apareceu primeiro num site especializado em notícias sobre a Europa – mas com algum desdém: Mário Centeno pode ser uma hipótese para liderar o FMI, substituindo a francesa Christine Lagarde, agora a caminho do BCE. Desdém porque Centeno vinha com uma etiqueta: “não é sénior suficiente para o cargo”. Talvez por isso, a segunda notícia que punha o português na “shortlist”, do prestigiado Wall Street Journal, foi desvalorizada por cá – mesmo sendo francamente mais afirmativa e abonatória.

A verdade é que, como escreveu o Expresso esta noite, Centeno não é carta fora do baralho para a liderança do FMI. Tem alguns argumentos a favor, tal como tinha (e o mundo político português desvalorizou) quando concorreu à liderança do Eurogrupo. E tem, sobretudo, um enorme trunfo na mão: no momento em que há uma verdadeira corrida de candidatos europeus ao posto, é ele quem vai representar a Europa na reunião de hoje dos ministros das Finanças do G7, onde o tema está no topo da agenda de trabalhos (como pode ver no link anterior).

Conte, portanto, com isto: Mário Centeno adoraria (como não?), António Costa não teria como dizer que não, até Marcelo apoiaria um português na liderança da única instituição multilateral que ainda não tivemos. Para já, Centeno não será o favorito – há quem nos diga que as hipóteses são “ainda pequenas”. Mas, como expliquei aqui, não é de todo impossível que chegue lá.

A verdade é que a potencial saída de Centeno do Governo (ou, melhor dizendo, da campanha eleitoral socialista) abriria um flanco inesperado no argumentário das legislativas.

Para já, o cenário é o que traçámos na Comissão Política do Expresso de ontem (o podcast está aqui para ouvir): o PS a 15 pontos do PSD, a direita numa profunda crise – de números e de argumentos. Pior, como noticiou ontem a Mariana Lima Cunha, o caso no CDS é tão complicado que os críticos de Cristas já estão no terreno a preparar o day-after; e como escreveu o Miguel Santos Carrapatoso, o ambiente no PSD é tão irrespirável que nem houve direito este ano a jantar de despedida do líder com os seus deputados (assim como não haverá Hugo Soares nas próximas listas, de acordo com o jornal i de hoje).

Mas se o PS não tivesse Centeno, o que mudaria? Quem teria Costa para substituir o seu ministro-de-ferro? Abriria isso espaço a uma maior aproximação à esquerda? Que argumentos podia abrir esse espaço em branco à direita, que não perdeu no ADN o seu apego às contas certas? Que influência teria isso na ambição socialista de obter uma “maioria expressiva” ou proximamente absoluta?

Certo, para já são só cenários. Mas, como é bom de ver no passado recente, em Portugal não têm faltado imprevistos.