A seita

(Hugo Dionísio, in Facebook, 25/01/2023)

Hoje em dia, quem se libertar para fora da esfera “liderada” pelos EUA e acantonada no G7, EU e NATO, e assim romper com o circuito comunicacional, político-ideológico e também cultural, constituído pelo identitarismo individualista anglo-saxónico e judaico-cristão, identificativo do que se designa como “o bilião de ouro”, não pode senão chegar à conclusão de que a elite privilegiada que exerce, de facto, o poder, está cristalizada numa espécie de seita ou sociedade secreta, tão mais hermética quanto maiores são as ameaças externas ao seu domínio. O clube de Nações “livres” a que aludiu Biden na reunião do G7, é um clube seleto, mas fechado e, como em qualquer seita, para entrar é preciso prescindir de algo importante: da liberdade!

Como todas as seitas, a sua existência parte de uma noção de “exclusividade”, associada a uma certa “excecionalidade”, que justifica diferentes tratamentos e entendimentos. Acho que todos podemos concordar, que aquilo que identificamos como ideologia neoliberal se funda, pelo menos primariamente, numa ideia de excecionalismo civilizacional, fundador de uma cultura única, “eleita” para liderar o Mundo e a Humanidade. Nem os mais empedernidos fanboys da NATO podem negar o ideal, herdado das luzes europeias e do supremacismo britânico e hiperbóreo, que posiciona os EUA como líderes “eleitos” da Humanidade. Sem falar de Hollywood, no canal História (que disso tem muito pouco), sucedem-se os programas, documentários e peças sobre a origem divina, excecional, até “extraterrestre” da nação norte americana e da sua vocação civilizadora.

Aliás, é neste excecionalismo racial que radica a origem do individualismo neoliberal por oposição a uma visão mais coletiva e cooperante da Humanidade. É neste excecionalismo que se funda a lógica da competição – diz a teoria que é o melhor quem ganha (meritocracia) – por oposição à lógica que fundou as sociedades humanas e, em última análise, a própria existência do animal que somos – a cooperação, a capacidade de trabalhar coletivamente, o animal social e político.

Como em todas as seitas, existe um jargão próprio e uma tendência para o ensimesmamento, provocado pelo fechamento do circuito em que opera. Quanto maior a incapacidade para estabelecer pontes e linhas de contacto com outras existências, maior o radicalismo e sectarismo das suas posições, que se corporiza, precisamente, numa contradição a que não conseguem fugir: quanto mais querem arrastar, mais os outros lhes fogem. Se a reação da maioria dos países ao conflito no leste europeu demonstra a desconexão entre a narrativa oficial propalada no Ocidente coletivo e o entendimento que a maioria das nações e da população mundial têm do mesmo, a identificação de nações como a China, a Rússia ou o Irão como entidades agressoras e opressoras é algo que só cabe mesmo nas mentes mais sectárias da seita, ou dos seus seguidores.

Atentemos, por exemplo, ao encontro promovido pela Casa Branca para África (US-Africa Leaders Summit). À partida poderíamos vê-lo como um sucesso; afinal, mais de 40 nações africanas compareceram. Os fundos também não faltavam: à cabeça, prometiam-se 55 biliões de dólares para “ajudar” a África a desenvolver-se, combater as alterações climáticas e o terrorismo. Contudo, foi apresentado um senão: para receber o “investimento” há que “desacoplar” da  China e da Rússia. O habitual jargão da “democracia” e dos “direitos humanos” estava bem identificado, principalmente como forma de garantir a manutenção da dolarização através da adesão às instituições que o impõem (FMI e Banco Mundial). Toda a Casa Branca estava otimista. Contudo, uma vez mais, o grosso dos enviados africanos não pode ter deixado de pensar: “mas quem é que esta seita de brancos anglo-saxónicos pensa que somos? Parvos?” Choveram artigos internacionais dizendo o que soubemos logo: “para convencer África não basta conversa”!

Se nas ideologias com conexão à realidade, é a própria realidade que valida os respetivos pressupostos teóricos (mais fácil dizer do que fazer), as seitas tendem a funcionar ao contrário, optando por uma abordagem mais idealista, no sentido em que é a própria realidade que tem de se moldar às suas ideias. Os EUA não ouviram África, como não ouviram outros. Os EUA tentaram arrastar África para as suas ideias.

Quando a realidade – essa teimosa inexorável – insiste em não validar os pressupostos teóricos que justificam a existência da seita, ela opta por mover uma guerra contra a realidade, identificando os principais agentes da sua transformação e elegendo-os seus inimigos. No fundo, toda a estratégia de “contenção da China” é uma luta contra a própria realidade, consubstanciada em 5000 anos de história. Daí que, como seita que são, o resultado é também ele previsível; ou estás comigo, ou estás contra mim! O sectarismo da seita não deixa espaço para meios-termos, soluções de conjunto ou compromisso.

Analisar, hoje, a privilegiada elite ocidental, aquela que compõe a superestrutura do sistema, as suas características sociais de origem, os percursos académicos e sociais e a postura ideológica profundamente idealista, é constatar, não apenas a existência, mas o reforço e aprofundamento da lógica de seita. Neste caso, uma seita em divórcio acelerado com o mundo real e numa luta desenfreada contra a mudança das condições materiais que, numa primeira fase, não apenas originaram, como sustentaram, alimentaram e fizeram desenvolver a sua própria existência. Dos cursos Ivy League, aos postos CEO, passando por glamorosos e exclusivos cargos institucionais nas instâncias internacionais, fechados ao comum dos mortais, por “incumprimento” originário dos “requisitos” de mérito, a constituição da elite económica e política numa seita, representa também a sua aristocratização e a consequente drástica redução da mobilidade social a que tanto alude o “sonho americano”. É uma espécie de volta ao tempo dos “senhores feudais”, num claro recuo civilizacional em matéria de divisão social de classes.

Outro exemplo concreto deste funcionamento em circuito fechado é o que se passa no conflito no leste europeu. Basta ouvir as notícias no território NATO/EU/G7 para apreciarmos algumas das variáveis em que assenta a narrativa oficial. Como em todas as seitas, são os dogmas que produzem a força agregadora e centrífuga que mantém a periferia fiel ao centro. A repetição destes dogmas até à exaustão tem uma função ritualística que visa manter os fiéis mais periféricos o mais centrados possível, quase como uma reza ou ladainha. São muitas as ladainhas que, neste caso, visam manter a coesão do conjunto:

  • “Tratou-se de um conflito não provocado”, omitindo a sua origem num golpe de estado perpetrado por forças de extrema-direita e neonazis, profundamente racistas contra a população russófona, obrigando esta a acantonar-se no leste.
  • “A guerra começou em 24 de Fevereiro de 2021, com a invasão”, omitindo o real início da guerra em 2014, momento a partir do qual as regiões em secessão foram bombardeadas diariamente.
  • “O povo está todo contra o invasor”, omitindo a profunda divisão étnica da população daquele país, que levava a uma rotação constante do poder entre fações, originando 3 “revoluções coloridas” organizadas pela CIA, como forma de afastar os governos eleitos pela população russófona.
  • “As democracias contra as autocracias”, omitindo o facto de o país que designam como “democrático” ter elegido o seu governo após impedir milhões de cidadãos russófonos de exercerem o seu direito ao voto, de ter ilegalizando cerca de 13 partidos, fazendo apenas restar os que são pró Nato, que por acaso também são os de extrema-direita, sendo que, o país que a narrativa aponta como “autocrático”, assenta num sistema pluripartidário, não se lhe conhecendo casos de ilegalização de partidos.
  • “Foi invadido um país pacífico”, omitindo que este país “pacífico” tinha um exército de 600.000 homens e uma capacidade bélica composta por centenas de aviões, milhares de tanques, centenas de sistemas de defesa aérea, centenas de lançadores de misseis e milhares e canhões, tudo de fazer inveja, em qualidade e quantidade, a qualquer país da NATO, com exceção do pai da aliança, os EUA.

A este propósito, o New York Times ou a CNN surgem como os teólogos de serviço, definindo à partida as linhas dogmáticas a seguir. O editorial do New York Times de dia 21 de Janeiro (órgão que é o verdadeiro farol ideológico da imprensa do Atlântico Norte) demonstra toda a incapacidade que a seita composta pela elite privilegiada que exerce o poder de facto tem, em lidar com uma realidade que, cada vez mais, lhe foge. Como em qualquer seita, para a qual – e também face à cristalização – a realidade não se molda às suas pretensões, a opção pelo histerismo, pela demagogia, hipocrisia e cinismo, constitui um recurso necessário. No fundo, passam a mover uma guerra contra a própria realidade. Vejamos a que ponto o círculo se fecha em si mesmo:

  • A “invasão” é resultado da “loucura de um homem” solitário. Ora, acho que esta apresentação do presidente do país “invasor” como sendo um homem “louco”, é daquelas que não joga, nem na aparência, nem tão pouco na substância. Se há característica que sempre foi apontada ao presidente daquela nação foi a sua “ponderação”, “frieza” e “calculismo”. Nenhuma das características físicas ou psicológicas denuncia qualquer espécie de “loucura”, ainda para mais “descontrolada”. Por outro lado, custa a crer que um homem que colidera organizações regionais importantes – algumas das que reúnem a maioria da população mundial, como a Organização de Cooperação de Xangai, para não falar dos acordos bilaterais que vai fazendo, e das parcerias estratégicas com India, Irão, China, Turquia e muitos outros, sendo sempre visto como um parceiro confiável m-, seja efetivamente um “louco incontrolável”. Acreditar que países como a Argentina, Arábia Saudita, Indonésia, Argélia, Turquia, Emirados, Paquistão e outros – que querem entrar para os BRICS+, o fariam caso o NYT tivesse razão -, vale tanto como a “revelação” do comediante sem graça sobre o facto de tal presidente estar morto. Lá está, uma luta contra a realidade.
  • O “louco” é “cruel” e vai distribuindo um “horror regular” contra “alvos civis”. Ora, quando no mesmo artigo em que se acusa o “invasor” de provocar tais coisas (e se a guerra provoca tais coisas!), o próprio editor chefe, que o redige, vem defender uma escalada da guerra através da entrega pelos EUA de armas ainda mais letais… Afinal, o que é que faz impressão ao NYT? É a morte de civis inocentes por uma guerra que apoia claramente, ou é o facto de o objeto do seu apoio estar a perder, também claramente, essa guerra? E porque não refere, o mesmo editor, os custos que advieram para a Humanidade das outras guerras provocadas pelos EUA nos pós 11 de Setembro, que custaram ao povo americano mais de 8 triliões de dólares e milhões de sem abrigo, cerca de 1 milhão de mortos diretos e mais de 30 milhões de refugiados, cálculos feitos por organizações ocidentais (como o Brown University Watson Institute)?

O artigo continua com um sem fim de acusações deste tipo, apontando para uma narrativa heroica de um lado e uma ilusão, de outro. Esta visão é ela própria resultante de uma incapacidade, também própria da lógica de seita, de se colocar acima dos fenómenos e de os analisar numa perspetiva objetiva. O mesmo NYT que tanta tinta perde neste conflito, é o mesmo NYT que nenhuma tinta gasta relativamente aos 85 países intervencionados, atualmente, do ponto de vista militar, pelos EUA (79 operações de treino contraterrorista; 41 exercícios militares conjuntos; 12 participações em combate; 7 bombardeamentos).

Típico do funcionamento numa lógica de seita é também a pretensão de que as ações dos seus membros são todas justificadas, aceitáveis e benignas; ao passo que as ações dos inimigos são sempre malévolas. Aliás, basta olhar para o que diz a documentação oficial americana (como a 2022 National Defense Strategy, entre muita outra), referindo-se à intervenção da Rússia como “influência maligna”, e recorrendo a uma verborreia de cariz quase-religioso.

E, tal como as seitas, incapazes de fazer uma análise objetiva dos movimentos do real, basta ver como se relaciona o bloco ocidental, formado pelo G7/EU/NATO, com o resto do mundo, para se perceber o estado de negação e fechamento em que operam: “o mundo condena a “invasão””, sendo que, este “mundo” se resume a cerca de 50 países, que votam sempre isolados ou em contradição com os restantes 140, o que é bem patente no caso das sanções, cuja aplicação apenas é assumida por este “mundo” cada vez mais fechado atrás de uma barricada que diz ser “democrática”.

Vejamos o caso do artigo que desmonta totalmente a ideia de que o ocidente formado pelo bloco imperialista lidera uma qualquer pretensão democrática, emancipatória ou de libertação dos países do Sul Global ver aqui. A análise que faz das votações na AG da ONU, permite-nos retirar a conclusão de que este “mundo” unipolar, supremacista, fechado e acantonado atrás da sua própria esquizofrenia – identificando ataques em todos os que não o seguem acriticamente -, está em perfeita contradição com o mundo real, cada vez mais multipolar. Todas as votações da AG da ONU sobre a criação de um sistema económico mais justo, igualdade ou desenvolvimento sustentável, colocam o bloco “ocidental” em oposição à esmagadora maioria da Humanidade. Vejamos:

  • Em 12 de dezembro de 2022, 123 países votaram a favor da criação de uma “nova ordem económica internacional” baseada nos princípios da “igualdade, soberania, interdependência, interesse comum, cooperação e solidariedade entre Nações”. Quem votou contra? Pois… A seita. 50 Nações do Ocidente coletivo.
  • Numa votação sobre “comercio internacional e desenvolvimento”, 122 votaram a favor, 48 contra. A proposta visava regular o abuso de posições dominantes e o uso de sanções unilaterais que não sejam autorizadas pelos órgãos da ONU. Os sancionadores-mor votaram contra os sancionados ou sancionáveis.
  • Na convenção sobre diversidade biológica e o seu papel no desenvolvimento sustentável, 166 votaram a favor e só três nações se opuseram: EUA, Israel e Japão. Todos os 193 países da ONU ratificaram esta convenção, com uma exceção, os EUA.
  • Numa votação sobre a “soberania do povo Palestiniano” (aqui o NYT não consegue ver atrocidades!), 159 países aprovaram, e apenas 8 votaram contra. EUA, Canadá, Israel, Chade, Ilhas Marshall e outros que tais.

Aliás, esta votação é exemplificativa do que sucede de cada vez que se vota a condenação do bloqueio a Cuba, em que EUA e Israel, repetidamente surgem isolados contra o mundo. Este padrão repete-se constantemente quando se tratam de resoluções sobre controlo das armas nucleares de Israel. Recentemente, até em matéria de resoluções que visam condenar a ideologia Nazi e a propagação do fascismo, o mundo todo votou a favor (7 biliões de seres humanos) contra o Ocidente coletivo (1 bilião). Quando a seita bilionária ou capataz de bilionários acusa o presidente da Rússia de ser um Hitler, parece que o resto do mundo continua, muito bem, a saber quem foi Hitler e a não embarcar em hediondas transmutações históricas.

Imaginem o que pensarão os líderes das 140 nações que governam 7 biliões de seres humanos, quando lhes entra um grupo de engravatados de fato azul pela frente, a prometer “democracia” e “direitos humanos”, a troco de guerra, armas e quezílias com os países vizinhos…: “- Mas que seita esta…” – não deixarão de pensar, através dos seus diversos mas ameaçados idiomas e por entre as suas exóticas mas acossadas vestimentas tradicionais!

Como alguém disse: “só a verdade liberta”. E, ao contrário do que se diz, mesmo em guerra a verdade continua a existir, assim a saibamos identificar!

A ideia de que “na guerra a verdade é a primeira baixa” é apenas mais um dogma inventado pela seita aristocrática para poder mentir sem ser, por isso, responsabilizada.

Não espere é encontrar a verdade por entre a informação de quem usa a guerra para mentir.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A guerra na Ucrânia para manter a União Europeia sob tutela

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 24/01/2023)

Mas porque é que Josep Borrell, Charles Michel e Ursula von der Leyen, que foram condenados por corrupção e provaram a sua incompetência, se tornaram os líderes da União Europeia ? Para subscrever aquilo que lhes dita Jens Stoltenberg.

É difícil admitir, mas os Anglo-Saxões não o escondem. Parafraseando uma citação célebre do primeiro Secretário Geral da Aliança, A OTAN foi concebida para « conservar a Rússia fora, os Americanos dentro e a União Europeia sob tutela ».
Não há nenhuma outra interpretação possível sobre a continuação das inúteis « sanções » contra Moscovo e dos vãos combates mortíferos na Ucrânia.


Faz já quase um ano que o Exército russo entrou na Ucrânia para aplicar a Resolução 2202 do Conselho de Segurança. Rejeitando este motivo, a OTAN considera, pelo contrário, que a Rússia invadiu a Ucrânia para a anexar. Nos quatro “oblasts”, os referendos de adesão à Federação da Rússia parecem confirmar a interpretação da OTAN, salvo que a História da Novorossia confirma a explicação da Rússia. As duas narrativas desenrolam-se em paralelo, sem jamais se tocarem.

Pela minha parte, tendo editado um boletim diário durante a guerra do Kosovo [1], recordo-me que a narrativa da OTAN à época era contestada por todas os agências de imprensa dos Balcãs, sem que eu tivesse meio de saber quem tinha razão. Dois dias após o fim do conflito, jornalistas dos países membros da Aliança Atlântica puderam ir até lá e constatar que haviam sido enganados. As agências de notícias regionais tinham razão. A OTAN não tinha parado de mentir. Mais tarde, quando eu era membro do governo líbio, a OTAN, que tinha um mandato do Conselho de Segurança para proteger a população, alterou-o a fim de derrubar a Jamahiriya Árabe Líbia, matando 120 000 pessoas que ela era suposto proteger. Estas experiências mostram-nos que o Ocidente mente sem vergonha para encobrir as suas acções.

Hoje em dia a OTAN garante-nos que não está em guerra, uma vez que não colocou homens na Ucrânia. Ora, assistimos por um lado a gigantescas transferências de armas para a Ucrânia, para que os nacionalistas integralistas ucranianos [2], treinados pela OTAN, resistam a Moscovo e, por outro lado, a uma guerra económica, também ela sem precedentes, para destruir a economia russa. Tendo em conta a amplitude desta guerra por interpostos ucranianos, o confronto entre a OTAN e a Rússia parece possível a qualquer instante.

Uma nova Guerra Mundial é, no entanto, altamente improvável, pelo menos a curto prazo: no entanto, os actos contradizem já a narrativa da OTAN.

A guerra continua e prossegue sem parar. Não que os dois campos estejam em paridade, mas porque a OTAN não quer enfrentar a Rússia. Vimos isso, há três meses, durante a Cimeira do G20, em Bali. Com o acordo da Rússia, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, interveio nos debates por vídeo, desde Kiev. Ele pediu a exclusão da Rússia do G20, como acontecera com o G8 depois da adesão da Crimeia à Federação da Rússia. Para sua grande surpresa e dos membros da OTAN presentes na Cimeira, os Estados Unidos e o Reino Unido não o apoiaram [3]. Washington e Londres acordaram que havia uma linha a não ultrapassar. E por um bom motivo: as modernas armas russas são muito superiores às da OTAN, cuja tecnologia data dos anos 90. Em caso de confronto, não há qualquer dúvida que a Rússia certamente sofreria bastante, mas que ela iria esmagar os Ocidentais em poucos dias.

É à luz deste acontecimento que devemos reler aquilo que se passa à frente dos nossos olhos.

O afluxo de armas para a Ucrânia não passa de um engodo: a maioria dos materiais enviados não chega ao campo de batalha. Já havíamos anunciado que eles estariam a ser enviados para desencadear uma outra guerra no Sahel [4], o que o Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, publicamente confirmou, atestando que muitas armas destinadas à Ucrânia estavam já em mãos dos jiadistas africanos [5]. Além disso, constituir um arsenal do género manta de retalhos, ao adicionar armas de idades e calibres diferentes, não serve para nada. Ninguém tem logística suficiente para abastecer os combatentes com munições múltiplas. Deve-se concluir, portanto, que estas armas não são dadas à Ucrânia para que ela vença.

New York Times deu o alerta explicando que os fabricantes ocidentais da Defesa não conseguiam produzir armas e munições em quantidade suficiente. Os stocks estão já esgotados e os exércitos ocidentais são forçados a dar o material que é indispensável à sua própria defesa. Isso foi confirmado pelo Secretário da Marinha dos EUA, Carlos Del Toro, que chamou a atenção para o actual despojamento dos exércitos americanos [6]. Ele precisou que se o complexo militar-industrial dos EUA não conseguisse, em seis meses, produzir mais armas do que a Rússia, o exército dos EUA não mais seria capaz de cumprir a sua missão.

Primeira observação : mesmo que os políticos dos EUA queiram desencadear o Armagedom, eles não dispõem dos meios para o fazer nos próximos seis meses e não os terão provavelmente, de qualquer forma, no futuro próximo.

Avaliemos agora a guerra económica. Deixemos de lado a sua camuflagem sob uma linguagem castigadora: as «sanções». Já tratei desta questão e sublinhei que não se tratava de decisões de um tribunal e que elas são ilegais face ao Direito Internacional. Vejamos as moedas. O dólar esmagou o rublo durante dois meses, depois ele voltou a descer para o valor que tinha de 2015 a 2020, sem que a Rússia tenha assumido empréstimos maciços. Por outras palavras, as pretensas «sanções» tiveram apenas um efeito insignificante sobre a Rússia. Elas perturbaram seriamente as suas trocas comerciais durante os dois primeiros meses, mas já não a incomodam hoje. Além disso, elas não custaram nada aos Estados Unidos e em nada os afectaram.

Sabemos que, ao mesmo tempo que proíbem aos seus aliados de importar hidrocarbonetos russos, os Estados Unidos importam-nos via Índia e reconstituem assim os stocks que haviam gasto durante os primeiros meses do conflito [7].

Pelo contrário, observamos um abalo na economia europeia que é forçada a pedir emprestado maciçamente para apoiar o regime de Kiev. Não dispomos nem de estatísticas sobre a extensão desses empréstimos, nem da identificação dos credores. É, no entanto, claro que os governos europeus fazem apelo a Washington no quadro da Lei de empréstimo-arrendamento dos EUA (Ukraine Democracy Defense Lend-Lease Act of 2022). Tudo o que os Europeus dão à Ucrânia tem um custo, mas este só será contabilizado depois da guerra. Só nesse momento a factura será apresentada. E ela será exorbitante. Até lá, tudo corre bem.

A sabotagem dos oleodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2 , em 26 de Setembro de 2022, não foi reivindicada após o golpe, mas antes pelo Presidente norte-americano, Joe Biden, em 7 de Fevereiro de 2022, na Casa Branca, na presença do Chanceler alemão Olaf Scholz. É certo que ele só se comprometeu a destruir o Nord Stream 2 em caso de invasão russa da Ucrânia, mas isso apenas porque a jornalista que o interrogava enquadou o assunto sem ousar imaginar que ele o poderia fazer também ao Nord Stream 1. Por esta declaração e mais ainda por esta sabotagem, Washington mostrou o desprezo que tem pelo seu aliado alemão.

Nada mudou desde que o primeiro Secretário-Geral da OTAN, Lord Ismay, declarava que o verdadeiro propósito da Aliança era o de «manter a União Soviética fora, os Americanos dentro e os Alemães sob tutela» (« keep the Soviet Union out, the Americans in, and the Germans down ») [8]. A União Soviética desapareceu e a Alemanha assumiu a chefia da União Europeia. Se ainda estivesse vivo, Lord Ismay provavelmente ainda diria que o objectivo da OTAN é manter a Rússia fora, os Americanos dentro e a União Europeia sob tutela.

A Alemanha, para quem a sabotagem desses oleodutos foi o golpe mais sério desde o fim da Segunda Guerra Mundial, encaixou-o sem pestanejar. Simultaneamente, ela engoliu o plano de Biden de salvação da economia dos EUA às custas da indústria automobilística alemã. A tudo isso, ela reagiu aproximando-se da China e evitando zangar-se com a Polónia, o novo trunfo dos Estados Unidos na Europa. Agora, ela propõe-se reconstruir a sua indústria desenvolvendo fábricas de munições para a Aliança.

Como consequência, a aceitação pela Alemanha da suserania dos Estados Unidos foi partilhada pela União Europeia que Berlim controla [9]

Segunda observação : os Alemães e os membros da União Europeia no seu conjunto tomaram nota de um declínio no seu nível de vida. Eles são, junto com os Ucranianos, as únicas vítimas da guerra actual e a ela se acomodam.

Em 1992, quando a Federação da Rússia acabava de nascer sobre as ruínas da União Soviética, Dick Cheney, então Secretário da Defesa, encomendou ao straussiano [10] Paul Wolfowitz um relatório que só nos chegou depois de amplamente manipulado. Os extractos do original, que a propósito publicaram o New York Times e o Washington Post, mostraram que Washington já não considerava a Rússia como uma ameaça, mas a União Europeia como uma potencial rival [11][11]. Podia ler-se nele:
«Muito embora os Estados Unidos apoiem o projecto de integração europeia, devemos tomar cuidado para prevenir a emergência de um sistema de segurança puramente europeu que minaria a OTAN e, particularmente, a sua estrutura de comando militar integrada».

Por outras palavras, Washington aprova uma Defesa Europeia subordinada à OTAN, mas está pronta a destruir a União Europeia se esta pensar tornar-se uma potência política capaz de lhe fazer frente.

A actual estratégia dos Estados Unidos, que não enfraquece a Rússia, mas a União Europeia com o pretexto de lutar contra a Rússia, é a segunda aplicação concreta da Doutrina Wolfowitz. A sua primeira aplicação, em 2003, consistia em punir a França de Jacques Chirac e a Alemanha de Gerhard Schröder que se haviam oposto a que a OTAN destruísse o Iraque [12].

Foi exactamente o que disse o Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o General Mark Milley, durante uma conferência de imprensa após a reunião dos Aliados, em 20 de Janeiro, em Ramstein. Enquanto exigia que cada participante doasse armas a Kiev, ele reconheceu que «Este ano será muito, muito difícil expulsar militarmente as Forças Russas de cada centímetro quadrado da Ucrânia ocupada pela Rússia» (« This year, it would be very, very difficult to militarily eject the Russian forces from every inch of Russian-occupied Ukraine »). Por outras palavras, os Aliados devem sangrar-se, mas não há nenhuma esperança de ganhar, seja o que for, em 2023 à Rússia.

Terceira observação : esta guerra não é feita contra Moscovo, mas para enfraquecer a União Europeia.

Fonte aqui


[1] Le Journal de la Guerre en Europe.

[2] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.

[3] “Zelensky armadilhado por Moscovo e Washington”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Novembro de 2022.

[4] “Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 24 de Maio de 2022.

[5] «Muhammadu Buhari met en garde contre le flux d’armes de la guerre russo-ukrainienne en Afrique», Actu Niger, 30 novembre 2022.

[6] «Navy Secretary Warns: If Defense Industry Can’t Boost Production, Arming Both Ukraine and the US May Become ‘Challenging’», Marcus Weisgerber, Defense One, January 11, 2023.

[7] « India’s breaking all records for buying Russian oil, but who is the surprise buyer ? », Paran Balakrishnan, The Telegraph of India, January 16, 2022.

[8] Esta citação adorna orgulhosamente o site oficial da Aliança Atlântica.

[9] « Déclaration conjointe sur la coopération entre l’UE et l’Otan », Réseau Voltaire, 10 janvier 2023.

[10] “A Rússia declara guerra aos Straussianos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2022.

[11] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop », Patrick E. Tyler, and « Excerpts from Pentagon’s Plan : “Prevent the Re-Emergence of a New Rival” », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower » Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

[12] « Instructions et conclusions sur les marchés de reconstruction et d’aide en Irak », par Paul Wolfowitz, Réseau Voltaire, 10 décembre 200


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Demissões de altos funcionários na Ucrânia: “Carros desportivos, mansões e férias de luxo com o dinheiro dos ocidentais”

(Redação, In lemediaen442.fr, 25/01/2023, Trad. Estátua de Sal)

Acusações de corrupção em larga escala levaram à demissão de altos funcionários ucranianos, incluindo vice-ministros e governadores regionais. Os fundos de ajuda ocidentais foram desviados para fins ilegais.


O governo da Ucrânia confirmou, na passada terça-feira, a demissão de vários altos funcionários acusados ​​de corrupção de alto nível, no que é visto como o maior escândalo de renúncia em massa e corrupção desde o início da invasão russa. Os fundos de ajuda alocados pelos países ocidentais foram usados ​​para fins ilegais nas costas dos europeus, eles que estão a apertar o cinto.

Demissões em massa

Uma dezena de funcionários deixou os cargos após uma grande convulsão política ligada a acusações e investigações sobre casos que vão desde corrupção, à má administração de fundos de ajuda para a compra de alimentos, enriquecimento de pessoal e posse e condução de carros de luxo, enquanto pessoas comuns sofrem as agruras da guerra.

Os europeus são os perus do recheio

Este escândalo de corrupção é um dos maiores na Ucrânia desde o início da invasão russa e o mais embaraçoso para os países que dão biliões ao presidente ucraniano Zelensky. As acusações são extremamente graves e variam de corrupção a enriquecimento pessoal e má administração de fundos de ajuda. A mídia ocidental tende a minimizar essas revelações, enquanto os europeus pagam um preço alto. Na França, as padarias estão a fechar, os franceses tem que ligar o aquecimento no mínimo. o preço dos alimentos explodiu…

E, enquanto isso acontece, os oligarcas ucranianos no governo conduzem altos carros, vivem em vilas e levam uma vida luxuosa graças aos milhares de milhões de euros provenientes dos bolsos dos contribuintes europeus e americanos.

As personalidades envolvidas

Um conselheiro presidencial de alto nível e quatro vice-ministros – incluindo dois oficiais de defesa – bem como cinco governadores regionais foram forçados a abandonar os cargos. Entre os governadores regionais que renunciaram estavam autoridades responsáveis ​​por regiões onde ocorreram intensos combates, incluindo as regiões de Zaporizhia e Kherson.

As acusações

  • Procurador-geral adjunto Oleskiy Symonenko é acusado de corrupção.
  • O vice-ministro do Desenvolvimento Comunitário e Territorial, Ivan Lukeryu e Vyacheslav Negoda, são acusados ​​de má gestão de fundos de ajuda para a compra de alimentos.
  • O vice-ministro de Política Social, Vitaliy Muzychenk, é acusado de receber um suborno de 400.000 dólares para ‘facilitar’ a compra de geradores a um preço inflacionado e de conduzir carros de luxo à custa da liberalidade ocidental.
  • O vice-ministro da Defesa, Vyacheslav Shapovalov, é acusado de ter assinado contratos para comprar alimentos a preços sobrevalorizados e de ter provavelmente beneficiado de subornos.
  • O vice-chefe do governo Zelensky, Kyrylo Tymoshenko, é acusado de levar um estilo de vida luxuoso durante a guerra.

Estas revelações são apenas a ponta do iceberg e é provável que surjam mais escândalos nos próximos dias/semanas.

Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.