Xi e Putin: da promessa multipolar à prática seletiva da soberania

(Por Ilhéus, in Diálogos do Sul, 09/01/2026)


A análise das posturas da China e da Rússia em relação à Venezuela e à Palestina revela que a multipolaridade não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou em responsabilidade compartilhada.


A conjuntura internacional contemporânea evidencia, de forma cada vez mais nítida, a primazia do interesse estratégico sobre qualquer noção consistente de ordem normativa global. A reação limitada da Rússia e da China diante das ações unilaterais conduzidas pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump — incluindo intervenções diretas, coerções extraterritoriais e a ruptura explícita de princípios de soberania — não pode ser compreendida como simples omissão. Trata-se do resultado de um cálculo racional fundamentado na lógica do sistema internacional. Portanto, diz respeito menos a uma suposta incapacidade e mais a uma escolha estratégica. Isso mesmo.

A análise desses comportamentos revela um traço estrutural do mundo atual. A coexistência de múltiplos centros de poder (EUA, China e Rússia) não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou, ainda, em responsabilidade compartilhada. Ao contrário, frequentemente produz uma fragmentação da resposta internacional, na qual cada potência avalia os acontecimentos externos à luz de seus próprios interesses imediatos, priorizando estabilidade interna, projeção regional e, logicamente, as vantagens econômicas. 

Cálculo estratégico

A questão palestina ilustra, de forma emblemática, essa dinâmica de omissão seletiva. Apesar de décadas de violações reiteradas do direito internacional humanitário por Tel Aviv, das resoluções ignoradas e de um histórico contínuo de assimetria de poder, as grandes potências mantêm uma postura que oscila entre o silêncio estratégico e a retórica inócua. Como principal aliado de Israel, os EUA exercem um papel ativo na neutralização de mecanismos internacionais de responsabilização, utilizando seu poder para impedir sanções efetivas ou intervenções multilaterais. Essa posição inviabiliza soluções estruturais e legitima a perpetuação do massacre sob a lógica da exceção permanente.

Rússia e China, embora adotem um discurso formalmente favorável à causa palestina e à solução de dois Estados, reproduzem, na prática, uma postura de baixo engajamento. Suas manifestações em fóruns internacionais raramente se traduzem em ações concretas capazes de alterar o equilíbrio de forças. Esse modo de agir decorre, em grande medida, da avaliação de que a questão palestina não constitui um interesse estratégico central, mas trata-se de um tema útil para fins retóricos, especialmente na crítica à hegemonia estadunidense. Assim, a defesa do direito internacional aparece como instrumento discursivo, e não como compromisso político efetivo. 

Essa omissão revela que a proteção de populações vulnerabilizadas e a aplicação consistente das normas internacionais permanecem condicionadas à conveniência das grandes potências. A Palestina, nesse sentido, torna-se um território em disputa, um símbolo da falência do chamado multilateralismo contemporâneo. A incapacidade — ou falta de disposição — por parte da China e da Rússia em assumir responsabilidades efetivas nesse conflito evidencia que a multipolaridade atual não corrige as assimetrias do sistema internacional, mas apenas redistribui o poder de ignorá-las.

Nesse contexto, a violação da soberania venezuelana e a captura de suas lideranças políticas tornam-se eventos secundários no cálculo estratégico de atores globais cuja atenção está voltada para disputas consideradas mais centrais à sua segurança e influência. A atenção desses atores permanece direcionada a disputas consideradas centrais à sua segurança nacional, à manutenção de zonas de influência e à preservação de vantagens econômicas e militares — fato que contribui para a normalização de práticas que, em outros contextos, seriam amplamente combatidas.

A Rússia, inserida em um cenário de prolongada tensão militar, sanções econômicas persistentes e disputas territoriais concentradas em seu entorno estratégico imediato, tende a hierarquizar os conflitos internacionais segundo critérios de relevância geopolítica e retorno estratégico. Para Moscou, regiões consideradas periféricas — como a América Latina — ocupam um lugar secundário em sua agenda de segurança nacional, sendo frequentemente avaliadas mais por seu potencial simbólico e discursivo do que por sua capacidade de produzir ganhos concretos em termos militares, econômicos ou políticos. Nesse sentido, conflitos nessas áreas são instrumentalizados, sobretudo, como elementos de retórica diplomática — e não como arenas prioritárias de intervenção efetiva.

Manutenção da flexibilidade geopolítica

Embora o governo russo recorra, com frequência, ao discurso da legalidade internacional, da soberania estatal e da não intervenção como fundamentos de sua política externa, tal postura revela-se seletiva e contingente. Esses princípios são mobilizados principalmente quando convergem com seus interesses estratégicos, ou quando podem ser utilizados para questionar a legitimidade de ações ocidentais, em especial dos Estados Unidos e de seus aliados. Contudo, Moscou não demonstra disposição consistente para defender tais normas de maneira universal, uma vez que a consolidação de uma ordem internacional rigidamente baseada em regras poderia limitar sua própria margem de manobra em conflitos nos quais busca afirmar zonas de influência ou justificar ações unilaterais.

Além disso, uma resposta mais contundente à atuação de Donald Trump na Venezuela implicaria riscos significativos para a Rússia. Envolver-se diretamente em um confronto com os EUA em um terreno distante de seus interesses vitais significaria dispersar recursos já comprometidos em frentes consideradas prioritárias (como a Ucrânia), além de potencialmente ampliar o isolamento econômico e diplomático imposto por sanções internacionais. Essa atitude poderia implicar também a narrativa estratégica russa de resistência ao expansionismo ocidental, porque deslocaria o foco de seus próprios conflitos para uma disputa indireta que pouco contribuiria para seus objetivos centrais.

Dessa forma, a contenção de Trump não se apresenta como uma prioridade estratégica para Vladimir Putin — de fato (falando-se pragmaticamente), seria um risco desnecessário dentro de um cálculo racional de custos e benefícios. Ao optar por uma postura de condenação apenas retórica, sem tradução em ações concretas, a Rússia preserva sua capacidade de crítica ao unilateralismo estadunidense, ao mesmo tempo em que evita compromissos que poderiam enfraquecer sua posição em áreas consideradas mais relevantes. Trata-se, portanto, de uma estratégia de “gerenciamento do sistema internacional”, na qual a defesa de princípios normativos cede espaço à preservação de interesses nacionais e à manutenção da flexibilidade geopolítica.

A China, por sua vez, opera conforme uma racionalidade ainda mais pragmática. Sua política externa privilegia previsibilidade, estabilidade econômica e preservação de fluxos comerciais globais. A paciência — poderíamos dizer assim — tem o protagonismo. A confrontação direta com os EUA, especialmente em cenários que não afetam diretamente seus interesses vitais, é sistematicamente evitada. Ainda que Pequim reafirme, em fóruns multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU), o princípio da não-intervenção e da soberania estatal, sua atuação concreta demonstra que tais princípios funcionam mais como instrumentos discursivos do que como fundamentos inegociáveis de ação política.

Nesse contexto, o pragmatismo estratégico adotado pela Rússia e também pela China produz efeitos diretos sobre a credibilidade e a coesão do Brics enquanto bloco. Embora o agrupamento tenha sido concebido como um espaço de articulação entre potências emergentes — com potencial para contrabalançar a hegemonia ocidental e defender uma ordem internacional mais multipolar —, sua atuação concreta revela limitações estruturais profundas. A ausência de respostas coordenadas diante de crises que envolvem diretamente a soberania de um de seus parceiros estratégicos evidencia que o Brics opera mais como uma plataforma de convergência econômica e simbólica do que como um ator político coeso.

Lógica seletiva

Os comportamentos de Moscou e de Pequim reforçam essa fragilidade. Ao priorizarem seus interesses nacionais imediatos (e evitarem custos elevados em nome de uma ação coletiva), ambos sinalizam que o compromisso com o bloco é condicionado e, sobretudo,  utilitarista. As diretrizes que orientam suas políticas externas, embora racionais a partir do ponto de vista estatal, enfraquecem a capacidade de o Brics se afirmar como alternativa realmente efetiva ao poder do Ocidente. Sem mecanismos objetivos de solidariedade política, de defesa mútua ou de ação coordenada em crises internacionais — como a que ocorre neste momento após a invasão da Venezuela pelos EUA — o bloco permanece limitado a declarações genéricas e à cooperação seletiva.

Ademais, essa postura revela uma assimetria interna que compromete a legitimidade do Brics como projeto de governança global. Rússia e China — enquanto potências com maior capacidade material — tendem a utilizar o bloco como instrumento complementar de suas próprias ambições, e não como espaço de construção de posições comuns fortalecedoras do Norte Global. Essa dinâmica gera desconfiança entre os demais membros, ao tempo em que reduz o potencial do Brics de atuar como fórum capaz de defender (de forma consistente) princípios como soberania, não-intervenção e reforma das instituições internacionais.

Assim, o pragmatismo russo e chinês, ao evitar confrontos diretos e custos elevados, contribui paradoxalmente para esvaziar o discurso político do Brics. O bloco permanece relevante no campo econômico e financeiro, mas incapaz de transformar afinidades retóricas em ação coletiva concreta (uma grande pena!). Essa limitação, além de  enfraquecer sua projeção internacional, expõe a grande dificuldade de construir uma alternativa sistêmica em um ambiente internacional ainda fortemente marcado pela lógica do poder, da hierarquia e do interesse nacional.

Diante desse quadro, Donald Trump avança. Sua política externa — marcada pelo unilateralismo e pela instrumentalização da força — encontra um ambiente internacional permissivo, no qual a retaliação efetiva é substituída por comunicados oficiais e apelos diplomáticos. Desse modo, o sistema internacional deixa de funcionar como um mecanismo de contenção e é convertido em espaço de administração de danos, no qual violações são toleradas desde que não ameacem diretamente os interesses centrais dos demais atores hegemônicos.

O caso venezuelano, portanto, evidencia a substituição do direito internacional por uma lógica seletiva de poder, a partir da qual normas são aplicadas ou suspensas, conforme a posição relativa dos Estados envolvidos. Ao não interromperem a escalada estadunidense, a Rússia e a China protegem seus próprios interesses imediatos, ao tempo em que reforçam uma estrutura internacional em que a força se sobrepõe à legalidade (apesar de seus discursos).

Muitos e muitas poderão me adjetivar de “excessivamente pessimista”. A ausência de perspectivas mais promissoras não decorre de uma postura cética gratuita da minha parte, mas da observação recorrente dos padrões que estruturam o sistema internacional contemporâneo. Não vislumbro (no horizonte imediato) o surgimento de mecanismos capazes de reverter esse quadro. Vejo a consolidação de uma ordem internacional marcada pela normalização da exceção, pela relativização do direito e pela crescente tolerância à violação de princípios fundamentais. Essa ausência de “luz no fim do túnel”, portanto,  não é uma conclusão emocional, mas uma constatação (racional) diante de um sistema que tem demonstrado notável capacidade de reproduzir suas próprias assimetrias.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

(*) Leia também “Traição? Aliança com EUA? Desmontando a operação psicológica de Trump e as falácias anti-chavistas“, aqui

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A batalha contra a colónia petrolífera de Trump

(Claudio Katz, in Resistir, 10/01/2026)


O confronto na Venezuela está apenas a começar e decorreu apenas o primeiro ato de um cenário aberto.


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Com o sequestro de Maduro, Trump incorporou duas novidades à brutalidade imperial. Ele explicitou seu propósito de roubar o petróleo e sua pretensão de instaurar um domínio colonial.

O seu argumento absurdo para roubar o petróleo é que esse recurso pertence aos Estados Unidos devido a algum investimento feito no passado. Com esse critério, o Texas, a Califórnia e o Arizona deveriam ser imediatamente devolvidos ao México, mas o magnata é um valentão que não raciocina. Ele proclama uma apropriação que começou com sanções, bloqueios e a confiscação da filial externa Citgo.

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O nariz do camelo a sangrar

(Por Scott Ritter, in Substack, 09/01/2026, Trad. Estátua de Sal)


Desta vez, o camelo ficou com o nariz a sangrar. Da próxima vez — se houver uma próxima vez — o camelo pode não sobreviver.


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Noutro dia, escrevi um post que usava uma analogia envolvendo um camelo e uma tenda — em resumo, para impedir que o camelo entrasse na tenda depois de enfiar o nariz por baixo dela, era preciso bater-lhe no nariz.

Ontem à noite, a Rússia deu um soco no nariz do camelo.

O uso do míssil Oreshnik contra alvos estratégicos de energia localizados perto da cidade ucraniana de Lvov, no oeste do país, combinado com um ataque massivo a alvos das infraestruturas energéticas em Kiev, representa uma resposta cristalina aos ataques contínuos do Ocidente às infraestruturas energéticas russas, incluindo ataques com drones apoiados pela CIA a refinarias de petróleo russas e apreensões pela Marinha dos EUA de petroleiros com bandeira russa.

O Ministério da Defesa russo também relacionou os ataques russos com os ataque com drones ucranianos que teve como alvo a residência do presidente Putin no final do mês passado.

O uso do Oreshnik é sempre uma grande escalada que não é totalmente apreciada por aqueles que casualmente incentivam o seu emprego. É apenas a segunda vez na história que um míssil estratégico de alcance intermédio com capacidade nuclear é usado em combate (a primeira foi o uso inicial do Oreshnik em 21 de novembro de 2024).

Desta vez, o Oreshnik atingiu um alvo próximo da fronteira entre a Ucrânia e a Polónia. O sinal que este ataque enviou às nações da NATO é claro: a Rússia tem a capacidade de atacar as nações da NATO com impunidade, utilizando armamento convencional não nuclear. A NATO não tem capacidade para se defender contra tal ataque.

Foi interessante que a Rússia tenha optado por disparar o Oreshnik a partir da instalação de testes de mísseis de Kaputin Yar. A Rússia e a Bielorrússia anunciaram recentemente que uma brigada equipada com Oreshnik foi colocada em serviço de combate numa base na Bielorrússia. Mas o ataque não teve origem nesta unidade.

A Rússia indicou que está a colocar em campo brigadas adicionais equipadas com Oreshnik. Kapustin Yar é um local onde o equipamento de combate do sistema de mísseis Oreshnik é adstrito ao pessoal que o opera para o treino final e a preparação técnica necessária antes que uma unidade possa ser considerada pronta para o combate. O recente lançamento do Oreshnik em Lvov pode ter sido um evento de treino operacional reaproveitado com o objetivo de enviar uma mensagem ao Ocidente.

Este não foi um lançamento a partir de um recurso estratégico que foi colocado em serviço de combate. Foi um evento de treino operacional. Há uma diferença.

A Rússia parece estar mais uma vez a enviar uma mensagem ao Ocidente de que procura limitar a escalada. Desta vez, o camelo ficou com o nariz a sangrar. Da próxima vez — se houver uma próxima vez — o camelo pode não sobreviver. Esperemos que o Ocidente seja suficientemente sofisticado para compreender a mensagem que a Rússia parece estar a enviar.

Fonte aqui