Assange é o maior jornalista de todos os tempos: notas à borda da matriz narrativa

(Caitlin Johnstone, in Sakerlatan.org, 05/04/2023)

É engraçado como o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak acabou de apagar um tweet admitindo que Israel tem armas nucleares ao mesmo tempo em que o The Washington Post relata que os aliados dos EUA têm uma política de “não falar sobre o Nord Stream” por causa das respostas que apareceriam. Há tantos segredos abertos que todo mundo sabe, mas não está autorizado a reconhecer publicamente.

O jornalista mais famoso do mundo acabou de ser privado de uma visita dos Repórteres Sem Fronteiras porque a prisão britânica em que ele está sendo mantido “recebeu informações de que eles são jornalistas”, e ainda assim tudo o que ouvimos é sobre como a Rússia e a China maltratam jornalistas. Julian Assange é o maior e mais famoso jornalista do mundo e está na prisão apenas pelo crime de fazer um bom jornalismo, mas com certeza, vamos todos gastar nosso tempo levantando os punhos contra “regimes autoritários” distantes por prender jornalistas.

Assange não é apenas o maior jornalista vivo do mundo, ele é o maior jornalista que já viveu. Não há realmente nenhum argumento válido contra isso. Sério, me chame de jornalista superior. Você não pode. Assange começou sua carreira jornalística revolucionando a proteção de fontes na era digital e, em seguida, começou a desvendar algumas das maiores histórias do século. Não há ninguém que possa segurar uma vela para ele, vivo ou morto.

E agora ele está em uma prisão de segurança máxima, única e exclusivamente porque ele era melhor em fazer o melhor tipo de jornalismo do que qualquer outra pessoa no mundo. Esse é o tipo de civilização em que você vive. Do tipo que aprisiona o melhor jornalista de todos os tempos por fazer jornalismo.

Você nunca vai me convencer de que é um fenômeno orgânico que a população sempre se divide em duas facções políticas de oposição iguais, o que sempre os deixa em um impasse incapaz de fazer qualquer coisa, e sempre os impasses se dão de uma forma que beneficia os ricos e poderosos.

As pessoas que passam o tempo enlouquecendo com a China são o grupo mais idiota com quem interajo online. Não necessariamente o mais desagradável ou o mais agressivo, mas definitivamente o mais burro. Eles acreditam em praticamente qualquer coisa dita por qualquer um, não importa o quão ridículo, desde que seja crítico da China.

No instante em que veem literalmente qualquer afirmação negativa sobre a China de literalmente qualquer pessoa, todas as suas faculdades críticas saem pela janela e se transformam em um bando de imbecis com cérebro de espuma. Provavelmente o mais conhecido dos inúmeros exemplos possíveis foi quando Jordan Peterson compartilhou um vídeo de “ordenha” BDSM porque alguns relatos de desinformação sugeriram que ele documentou abusos do governo chinês.

Essa dinâmica parece ter suas raízes no retrato de gerações dos chineses como uma raça misteriosa e inescrutável, cuja cultura não é nada parecida com a nossa. Essa é a única explicação que consigo imaginar do porquê os ocidentais atribuírem motivos e agendas ao seu governo que não fazem sentido algum.

Uma vez que você pare de pensar em uma nacionalidade como seres humanos normais com esperanças e sonhos que amam suas famílias e querem sobreviver como você, você pode acreditar que qualquer coisa é verdade sobre seus motivos e objetivos, porque você os transformou em alienígenas espaciais ou orcs malignos em sua mente. Se você acredita que os chineses são seres humanos assim como você com motivações semelhantes, então você é capaz de reconhecer rapidamente as alegações de besteira sobre seus motivos e comportamento, porque eles não fazem sentido de uma perspectiva humana normal. Sem essa visão, você está perdido.

Outro dia, alguém com quem eu estava discutindo online se referiu casualmente aos chineses como “semelhantes a insetos”, comparando-os ao ninho de uma formiga. Depois de desumanizar uma nação inteira assim, você sedou e colocou em coma todas as suas habilidades de pensamento crítico. Você aleijou sua mente.

Outra razão pela qual as pessoas com histeria antichina são o grupo mais idiota com o qual interajo on-line é que elas estão constantemente sendo alimentadas com besteiras idiotas como esta:

Eles recebem constantemente veneno cerebral como este em seus crânios por propagandistas do império como Gordon Chang.

“A China está se preparando para matar americanos e temos que nos preparar para nos defender.” Você quer dizer que a China está se preparando para se defender do cerco militar completamente indisfarçável e da potencial intervenção dos EUA em um conflito interchinês? Um conflito do outro lado do planeta dos Estados Unidos? Um conflito que você, Gordon Chang, não estará lutando?

Idiota de merda.

As eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos mudaram tudo. Não porque o próprio Trump tenha mudado as coisas significativamente (ele não mudou), mas porque a mídia ocidental formou um consenso nesse ponto de que é seu dever solene ajudar o governo dos EUA a vencer uma guerra de informação contra a Rússia.

Um consenso rapidamente formado de que era errado para a mídia relatar os lançamentos do WikiLeaks em 2016, que supostamente vieram de hackers russos (embora ainda não tenha sido comprovado até hoje). Nessa decisão, os últimos raios do jornalismo real na grande mídia foram anulados. 

Uma vez que todos os jornalistas tradicionais aceitaram que é seu trabalho não relatar fatos verdadeiros sobre os poderosos, mas promover os interesses de informação de seu governo e/ou partido político preferido, o jornalismo acabou. O último vislumbre de vida em uma sociedade baseada na verdade foi apagado.

Vimos isso em plena exibição desde a invasão russa da Ucrânia, com “jornalistas” relatando acriticamente reivindicações governamentais não evidenciadas, ignorando questões importantes como o número de mortos ucranianos, até mesmo aceitando a admissão do governo dos EUA de que está usando-os para circular mentiras em uma guerra de informação.

Poderia ter sido o contrário. A mídia poderia ter aproveitado a corrupção exposta nos documentos do WikiLeaks para desencadear uma acusação revigorada para investigar a má conduta do governo dos EUA. Em vez disso, foi usada para esconder, perdoar e facilitar a malversação do governo dos EUA.

Fonte: https://caitlinjohnstone.com/2023/04/05/assange-is-the-greatest-journalist-of-all-time-notes-from-the-edge-of-the-narrative-matrix/


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Os génios europeus jogam com o cubo de Rubik

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/04/2023)

A viagem de Macron, o presidente francês, e de Ursula Von der Leyen, a ainda presidente da comissão europeia e futura secretária-geral da NATO a Pequim é uma daquelas jogadas que devem ser geniais, mas que exigem um cérebro construído com esparguete para a deslindar. Talvez eles entendam que os europeus, tal como os chimpanzés, podem construir o cubo rubik sem eles lhes explicarem o que está por detrás da habilidade.

O anúncio da visita lembrou-me a opinião de um amigo meu, adepto do Benfica, sobre um jogador nórdico chamado Stromberg que há muitos anos jogou por cá: Ele é um grande jogador, a bola é que o atrapalha!

Penso que o atual elenco da UE é como o Stromberg: eles são grandes políticos (do Borrel ao Mitchel), a política e a realidade, a bola a rolar sobre o terreno e entre adversários é que os atrapalha.

Os dirigentes da União Europeia, sob o entusiástico incentivo de Ursula, submeteram-se de olhos fechados (mas de bolsos abertos) à estratégia dos EUA gizada nos anos 90 do século passado de enfraquecer a Rússia, ameaçando-a com a utilização da Ucrânia como base de ataque e de provocação.

A Europa, com Úrsula e Boris Johnson, o mordomo inglês, declararam guerra à Rússia, invocando exatamente os mesmos argumentos americanos: lutar bravamente por princípios morais contra a invasão de um pacífico e democrático país contra o direito internacional e o respeito pela soberania! (A História da Humanidade começou em Fevereiro de 2022!)

Os argumentos eram falaciosos a vários títulos, a ONU, a entidade internacional que deve zelar pela paz não atribuiu essa missão aos EUA, já não tinha atribuído no Iraque, nem no Afeganistão, nem na Síria. Mas a União Europeia decretou sanções contra a Rússia e colocou-se como parte no conflito. Daqui resultou que a União Europeia expulsou a Rússia da Europa e a atirou-a para os braços da China. Foi uma decisão europeia!

Resultante da inteligência estratégica dos dirigentes europeus (os americanos têm outros dados em equação) o conjunto Rússia-China passou a ser militarmente mais poderoso (ou de igual nível) que os Estados Unidos, a China já era o maior produtor industrial do mundo e a Rússia dispõe das maiores reservas de algumas das matérias primas mais raras. Agora estão associadas. Logo mais fortes, ao contrário da Europa, que ficou dependente da cara energia dos EUA (o gás liquefeito das rochas betuminosas e com mercados condicionados pelas sanções). Excelentes opções cujos resultados estão a ser visíveis nas manifestações um pouco por toda a Europa. (Reformas, saude, habitação — a Europa empobreceu.)

Para a China (como para Rússia), a União Europeia é hoje um estado vassalo dos EUA. Para a China a Rússia não pode perder o conflito com os EUA (correspondia a animar o inimigo) e a Europa é uma base de ataque à Rússia. É com estas credenciais que Macron e Ursula Von der Leyen se apresentam em Pequim! Sendo as coisas como são, o que vai o par de jarras fazer a Pequim se os chineses entendem que a União Europeia não dispõe de autonomia para tomar qualquer decisão que não seja a favor dos interesses de Washington?

A China não será mediadora do conflito: é aliada da Rússia.

A China (e também a Índia) está a ganhar muito dinheiro com a venda de matérias-primas russas e estão a conquistar zonas de influência importantes em África e na América do Sul.

O que é importante na relação da China com a União Europeia? Que os seus produtos de alta tecnologia — os sistemas de 6, 7 e mais G — possam ser comercializados na Europa. Mas isso não é admitido pelos EUA, que já sabotaram a Huawei e agora o Tik-tock.

Uma última pequena história. Quando, na I República, o governo de Afonso Costa fazia os possíveis e os impossíveis por introduzir Portugal na I Grande Guerra, perante a resistência dos ingleses, virou-se para a França, que ainda equacionou atribuir um pequeno setor aos portugueses, mas antes de tomar uma decisão o governo francês comunicou ao governo português: perguntem a Londres se eles aceitam.

Xi Jiping conhece os objetivos da Rússia e quererá saber deste par o que diz Washington sobre as propostas que eventualmente levem. É essa bola que nem o francês nem a alemã dominam, resultante da opção pela sujeição, que, tal como ao Stromberg, atrapalha os dois emissários, os quais devem ter uma qualquer ideia genial, mas que não se percebe qual.

No ponto de desconfiança que existe entre as partes, a China não tem qualquer garantia que aquilo que Macron e Ursula lhe digam corresponda a um compromisso sério. Um passado de mentiras e compromissos violados desde os anos 90 é a única carta de recomendação que o par leva para a China.

Há uma última explicação para a visita: o sistema financeiro “ocidental” está na eminência de rebentar. Os chineses têm o colete salva-vidas. Que preço pedirão por ele? E a bomba da finança pode ser a verdadeira arma nuclear de que tantos estrategas falam com ogivas e cogumelos radioativos. Mas poderá não ser de átomos a tal destruição, mas da falência generalizada do sistema de moeda virtual. Não morremos reduzidos a pós radioativos, mas ficamos tesos! Voltaremos à etapa anterior da evolução.


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O verdadeiro significado da “neutralidade” da Suécia e Finlândia

(Hugo Dionísio, in Facebook, 05/04/2023)

President Joe Biden accompanied by Swedish Prime Minister Magdalena Andersson and Finnish President Sauli Niinisto, speaks in the Rose Garden of the White House in Washington, Thursday, May 19, 2022. (AP Photo/Andrew Harnik)

Stoltenberg disse que “a Finlândia está mais segura com a NATO e a NATO fica mais forte com a Finlândia”; “por muitos anos as tropas da Finlândia e NATO trabalharam lado a lado como parceiros”. Está tudo dito sobre o fim da “neutralidade”. Veremos agora, segundo os termos suecos, finlandeses e ocidentais, qual o real significado da palavra.

A “neutralidade” destes dois países face à expansão da NATO é reminiscente da sua “neutralidade” face à URSS e Alemanha NAZI. A natureza desta imparcialidade é, em si, profundamente egoísta, hipócrita e cínica. Apoiando, no coração, um dos lados em contenda, estes países não tiveram a coragem de se verem alvos do outro lado. Então… venha daí a “neutralidade”. Mas em que consiste realmente esta neutralidade?

Como prova a ciência e, logo, a história humana, “neutralidade” é um conceito puramente humano, inexistente na natureza. O facto de existir torna-nos parte de algo, quer queiramos, quer não. Ninguém pode ficar à parte do mundo e dos seus fenómenos. Como tal, os factos dizem-nos que, Suécia e Finlândia, já “eram” da NATO, mesmo antes de o serem.  Logo, a sua suposta “neutralidade”, face a quem quer que seja, tem muito que se lhe diga.

A “neutralidade” sueca, face aos principais contendores de então – a invadida URSS e a Alemanha nazi – permitiu, por exemplo, às forças de Hitler invadirem a URSS. Com efeito, a Suécia liderada pelo Rei Gustav V e pelo social-democrata Per Albin Hannson asseguraram o acesso dos nazis ao seu território, durante a batalha de Narvik. Um dos pontos de passagem das forças nazis – a Noruega – não teria sido tomado sem o auxílio da “neutralidade” sueca que lhes permitiu o uso da sua ferrovia (Ver aqui ).

Esta posição “social-democrata” é em si identificativa, já se podendo dizer que faz parte do “ser real” dos partidos que dizem seguir esta causa. Vejamos: na Alemanha revolucionária de finais do século XIX e início do século XX, é o partido social-democrata que impede a revolução social em curso, aliando-se à burguesia de então. O resultado? Já todos o conhecemos… Guerra Mundial, nazismo, acabando uns anos depois com o SPD a entregar a chancelaria a Hitler, depois da operação de “bandeira falsa” em que consistiu no incêndio do Reichstag, para culpar os comunistas.

A História nestas questões não mente…. Entre a revolução social e progressista em prol dos trabalhadores e dos mais pobres, os partidos sociais-democratas optam sempre por se aliar à burguesia e à direita, alimentando, com a sua incongruência e incapacidade para resolver os problemas concretos, o monstro fascista.

O que se passa na Ucrânia, com o apoio a um regime xenófobo que faz do ódio e supremacia racial a pedra de toque da sua ideologia, não constitui nada de novo. A submissão dos partidos “sociais-democratas”, e da ala “progressista” do próprio partido democrata, ao regime que, nos EUA, resultou do pós 11 de Setembro de 2001 – do “surveilance state” e do “corporate state” – também não constitui nada de novo. A “neutralidade” sueca e finlandesa é uma mera extensão da “moderação anti radicalismo” da social democracia europeia. Todos sabemos a que “radicalismo” esta “moderação” acaba sempre por entregar o poder. Sentimo-lo, hoje, nas nossas condições de vida, na censura e cerceamento das nossas liberdades.

Hoje, quando ouvimos a NATO, e os países que estão amarrados a esta organização, exigir a outros que não vendam, à Rússia, as mercadorias que possam ser utilizadas na produção de armamento, o que dizer do facto de 37% do total de exportações suecas, durante a segunda guerra, terem ido para a Alemanha e terem consistido em ferro ou rolamentos a utilizar na máquina de guerra germânica?

Mas, se a “neutralidade” sueca foi providencial para as forças nazis, a Finlândia nunca se escudou, sequer, atrás dessa capa hipócrita e cobarde. Relembramos que, apenas o tratado com a URSS em 1940, manteve a Finlândia “neutra” todos estes anos. Ou seja, a sua “neutralidade” é de outra natureza. Cimenta-se no ressentimento da derrota. Mesmo assim, mais tarde, em 1948, assinou um tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua.

Em plena Segunda Guerra, este país contribuiu com milhares de soldados, entre os quais muitos voluntários, não admirando que os encontremos, hoje, ao lado das forças de Bandera. Afinal, a história profunda de um país possui uma capacidade de atracção irresistível para a revelação da verdadeira natureza de uma nação e, especialmente, da elite que o governa.

Devidamente lavadas dos livros de História, que desinformam os nossos jovens, em 2019 um relatório demonstrou que, entre outros casos, brigadas como a SS Viking, a combater na Ucrânia – nem de propósito – ajudou a aniquilar judeus (ver aqui).

Hoje, um dos símbolos ou runa mais conhecidos desta unidade – o Sol Negro – é imensamente visto por entre as tropas do regime de Kiev.

Perante o horror, uma secretária de estado – Paula Lehtomaki – referiu que “nós temos a responsabilidade de garantir que tais atrocidades nunca se repetirão”. Demonstrando que uma das características fundamentais do capitalismo neoliberal, da oportunista e superficial sociedade de consumo, consiste em nunca aprender nada com a História, simplesmente porque não a estudam com profundidade, hoje, os mesmos que tal disseram em 2019, apoiam, agora, neonazis na Ucrânia. Demonstrando que, o que aconteceu entre 1941 e 43, esteve longe de ser um acaso histórico.

Ora, ouvir ontem Blinken dizer que a adesão da Finlândia foi histórica para a NATO e que tal expansão “o mundo” deve-a a Putin, é razão para questionarmos o que muda realmente. Suécia e Finlândia participavam, ou não, nos exercícios militares da NATO? São, ou não, os dois países, grandes compradores de material de guerra americano?  São, ou não, as suas tropas treinadas segundo o padrão NATO e as suas unidades interrelacionáveis com as unidades dos países da NATO? No fundo, o que aconteceu nos últimos tempos foi a revelação da real natureza da “neutralidade” destes países.

Agora, a grande questão a colocar é a seguinte: em que medida estes países têm, sequer, condições de independência e autonomia para tomarem as decisões por si próprios? Num mundo em que as suas economias estão profundamente dependentes da europeia e americana, em que as suas reservas estão em bancos ocidentais… diria que nenhum deles, nem qualquer outro país ocidental tem, hoje, qualquer capacidade para decidir sobre a sua política externa, económica ou outra.

Teve piada ler um artigo de Teresa Mendonça, no jornal do Partido Democrata dos EUA que é o Público, no qual esta articulista defendia que a UE tem de ser uma ponte entre China e EUA, mas uma ponte mais próxima dos EUA, não prescindindo, contudo, da sua autonomia. Para o exemplificar usou o discurso de Úrsula Von Der Leyen em dois Think Thanks europeus, nos quais enunciou as preocupações europeias para com a China. Escrevendo no seu artigo todos os argumentos que preocuparão Úrsula, nem por um momento, Teresa Mendonça, se deu conta de que as preocupações “europeias” são um mero decalque, das preocupações de Washington. Nem uma palavra, nem um termo é dito ao acaso ou destoa com o da propaganda do “desacoplamento” promovida pela Casa Branca. Ora, não tendo a UE qualquer capacidade de independência, como o terão a Suécia e Finlândia? O que nos diz muito sobre o real entendimento que esta gente tem da “neutralidade”, “imparcialidade” ou “equidistância”.

Contudo, a “neutralidade” desmascarada destes dois países, ao contrário do que diz Blinken, não constitui um movimento proactivo, de manifestação de força ou coesão. Ao contrário. Constitui, antes, um movimento reactivo, de desespero, de quem vê o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Neste processo de aceleração histórica, no qual a “Operação Militar Especial” na Ucrânia constituiu um catalisador fundamental, temos assistido a um continuado processo de revelações. Tal como Suécia e Finlândia não eram realmente neutras, também o Sul Global não se sente confortável ou, sequer, é neutral relativamente à dependência do dólar e do sistema financeiro da 5ª Avenida.

Se a Suécia e Finlândia voltam à casa de onde nunca saíram, ainda ontem ouvimos o Primeiro Ministro da Malásia dizer que “não há razão para a Malásia continuar a depender do dólar”. Numa reunião com Xi Ji Ping foi discutida a criação do Fundo Monetário Asiático que visa acabar com dependência do FMI (ver aqui).

Ao mesmo tempo, acordos entre India, China, Rússia, Brasil, Africa do Sul, Irão, Arábia Saudita, Turquia, Emirados, Quénia e muitos outros, apontam progressivamente para desdolarização, em prol de trocas feitas em moedas nacionais. A própria França foi o primeiro país europeu a comprar gás natural liquefeito em Yuan. Adicionalmente, na próxima reunião dos BRICS, para além de se ir discutir, em Kazan, a adesão da Arábia Saudita e México, uma das questões chave a abordar será a criação e uma moeda BRICS, da qual Dilma será uma arquitecta privilegiada. Diria que Dilma tem aqui uma oportunidade histórica de vingança!

Agora pense-se… Perante esta tendência para criação de um mundo composto por 85% da Humanidade, que já constatou o papel que o Dólar tem enquanto arma de guerra, que o FMI tem enquanto lançador de dólares… No movimento, totalmente dissonante, que China e Rússia têm tido na aproximação de povos desavindos – o próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros indiano refere que tem esperança que o aprofundamento das relações entre China e Rússia se reflictam positivamente no diálogo entre India e China… A quantidade de acordos que todos os dias se assinam, pelo Sul Global, sem a participação dos EUA e seus apêndices…. Afinal, o Sul Global não se limitava a assistir, numa posição neutral, aos diferendos entre as maiores potências.

Ao contrário, este mundo está farto de bullying, sanções e retaliações unilaterais e de imposições injustas, disfarçadas de inflamados discursos evangélicos sobre “democracia” e “direitos humanos”, que justificam todas as agressões.

E tal pensamento é razão para questionarmos: o fim da “neutralidade”, sueca e finlandesa, não constitui apenas a revelação da verdadeira face destes países…

Esta revelação sobre a verdadeira direcção da “neutralidade” destes dois países, constitui um tocar a reunir, um apertar do botão de pânico, no sentido de ainda tentar parar o comboio que a história já se encarregou de colocar em movimento! Suécia e Finlândia deram um passo para se juntarem a todos os outros, incluindo nós, que não querem, não podem, não conseguem ou não têm a liberdade de apanhar esse comboio de alta velocidade!

Eis a verdadeira face do fim da “neutralidade” sueca e finlandesa.


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