Vítimas de bullying e prisioneiros dos “valores”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 11/04/2023)

Se houvesse um instrumento de medição que funcionasse como “pânicômetro”, as galinhas atlantistas rebentariam com a escala. Nem todo o “bullying” saído da fábrica de terror que é a Casa Branca, conseguiria colocar uma ordem na forma como se comporta o galinheiro.

A última “macronada” foi recebida com mais um ataque de pânico em Washington. Ainda atónitos, com o sucesso da cimeira Xi-Putin, e de ressaca incurável pela forma como o mundo além-NATO recebeu as conclusões, Blinken, Nulland e demais cabeças pensadoras, aproveitando a viagem de Macron à China, pensaram: “bem, se eles não nos recebem, talvez possamos instruir Macron a fazer, à China, o que lhe fazemos nós, a ele”, ou seja, bullying. A instrução foi clara, “vais tratar de afastar a China da Rússia”.

Não obstante, face ao histórico narcisismo “macroniano”, os EUA, sempre desconfiados até da sua própria sombra, aparelharam a fiel, leal, missionária e religiosamente crente Úrsula, e introduziram-lhe um algoritmo apenas contendo uma ordem: “vais acompanhar Macron e vais guardá-lo e protegê-lo de si próprio”. Úrsula, preparando-se para uma viagem que claramente não foi planeada, nem pestanejou. “Contas são contas… Ordens são ordens… Leis são leis… Regras são regras e valores são valores…” “O que Deus faz, o ser mortal não questiona”, terá ela pensado, com o seu habitual tom autoconvencido.

Se, depois do que se passou em Moscovo, alguém pensou que uma missionária e um vassalo narcisista seriam suficientes, por muito bullying que fizessem, para levar Xi e o PCC a mudarem de posição quanto ao seu parceiro estratégico… Tiveram a resposta na mesa em que foram recebidos. Uma mesa redonda, de tamanho gigantesco, com as distâncias entre os intervenientes meticulosamente calculadas. Não sendo original (Macron já tinha passado pelo mesmo em Moscovo), sabendo-se do critério, minucia e rigor que caracterizam a actuação chinesa no que toca às relações diplomáticas… Nada disto foi por acaso.

A diplomacia chinesa encarregou-se de mostrar que a distância geográfica entre as duas civilizações é transposta para a sala de reuniões, como que dizendo: “com essa senhora na sala, nem uma reunião presencial vos ajuda a vencer tal distanciamento”. Só esta gente para pensar que um presidente, que leva um país, em 11 anos (de 2010 a 2021), a passar de um PIB de 7,55 para 15,8 triliões (em dólares), ou de 12,38 para 27,1 triliões (em Paridade de Poder de Compra), o tenha feito seguindo a cabeça de outros. E ainda não estão convencidos, porque de seguida já vão para lá Annalena Baerbock e uma delegação da U E. Ou vão para o bullying, ou vão para o beija-mão…

Mas não se pense que a distância simetricamente calculada, entre os três, era equânime. Não! A distância, na mesa, só existe com Úrsula presente. Ou seja, no quadro da U E, a distância é enorme, está a dois oceanos de distância. No quadro nacional, da França, de Portugal, da Alemanha ou da Itália, a distância pode ser curta e nem implicar a navegação por mar. Daí que Macron tenha sido recebido, com proximidade e a sós, com o presidente Xi. Se acham que com Úrsula, a distância era por acaso… então não conhecem a sofisticação da milenar diplomacia chinesa.

Se, na reunião a três –, que a carcereira Úrsula se encarregou de vigiar – só se falou em Ucrânia; já na reunião a dois, a coisa foi diferente. É claro, para a fotografia, a Ucrânia foi um dos pratos principais… mas, na penumbra, no resguardo da intimidade, Macron foi “persuadido” pelos mais gigantescos e magnânimos acordos comerciais, de investigação e cooperação que a sua mente poderia conceber. Todo o “bullying” que a fábrica de dólares consegue produzir, é insuficiente para bloquear os sonhos de quem prometeu “deixar marca na história francesa”. Essa marca depende dos “negócios da China”, local para onde se deslocou o centro da actividade económica mundial. Como disse um Miguel Esteves Cardoso aquando do mundial: “vão para lá com os seus discursos de moral, mas felizmente são corruptos” (qualquer coisa assim).

Os números não mentem: em 1992, ou seja, logo depois do fim da URSS, o PIB europeu era ligeiramente superior ao americano (6,75 para 6,52 triliões); em 1995 já era igual e em 1999, os EUA já nos tinham passado. Dez anos de controlo da Rússia e da Europa de leste e, apesar dos constantes alargamentos, os EUA puderam passar-nos à frente em produção de valor. Talvez um António da Costa da vida não veja a significância profunda destas coisas… Mas, duvido que um francês chauvinista como Macron não o veja. E bem que vê, também, o papel do dólar e do euro no processo.

Três datas chave para a engorda dos EUA à custa dos povos europeus: Tratado de Maastricht em 1993, que introduz um conjunto de critérios orçamentais que visam limitar a capacidade de investimento público, passando os países a dependerem especialmente do investimento privado; a introdução do Euro em 2000, moeda que, como disse Michael Hudson, foi criada para conter as economias europeias dentro e padrões cambiais “aceitáveis” para Washington; Tratado de Lisboa 2009, que reforça os critérios orçamentais e estabelece instrumentos, mais apertados, de controlo central a partir de Bruxelas, totalmente manietada por Washington.

Uma vez mais… os números não mentem: controlando a dívida pública e impedindo, assim, o investimento público (não é “investimento virtuoso”), a distância entre a economia americana e a europeia vai aumentando à velocidade de, mais um trilião de dólares de diferença, a favor dos EUA, a cada 5 anos (em 2000, a U E tinha 11,26, os EUA 13,75, em 2021, a U E 14,68, os EUA 20,53). Os EUA a engordarem também à custa do empobrecimento dos povos europeus.

Se uma personagem como Cravinho, ministro português dos Negócios Estrangeiros (Ministério que deveria ser rebaptizado de Departamento Provincial da NATO) é incapaz de se questionar sobre esta dualidade, em tal nos levando a crer quando diz que “prenderia Putin” se este cá viesse, mesmo sabendo estar a submeter o país a um acto de guerra e conhecendo a forma, conteúdo e natureza da decisão acusatória do TPI; se um dos comentadores mais palavrosos da nossa praça – Marques Lopes de sua graça – agradece a Biden o facto de este ser “um grande presidente”, mesmo arrastando a Europa – e o seu país e povo – para a indigência… Macron, tendo colocado o seu país em chamas, não se pode dar ao luxo de fingir que não vê o extintor económico que o pode salvar!

Os franceses podem ser muita coisa, mas não são servis. E eis que, o mesmo Macron que, com Úrsula ao lado, tanto falou da Ucrânia, foi o mesmo que, chegado da China, disse, a vários órgãos de comunicação, coisas interessantes como: “a Europa tem de resistir à pressão (o bullying, digo eu) para se tornar uma mera seguidora dos EUA”; “o grande risco é a Europa ser arrastada para crises que não lhe digam respeito” … Mas, a melhor de todas, aquela que fez Biden puxar o cordão da campainha de pânico, foi quando ele disse que “a Europa tem de se tornar independente dos EUA e sair da dependência do dólar”!

Ora, não se fez esperar a reacção do outro lado: Marc Rubio, senador republicano pró-guerra, neoconservador, neoliberal e sei lá que mais, não tardou em iniciar o processo habitual: bullying e mais bullying. Marc Rubio questiona: “Macron fala por si, pela França ou pela Europa”?  “É que se fala pela Europa, temos de mudar isso”! Lá vem a “revolução colorida” do costume! Daquelas que a “democracia” americana tão bem prepara… fora e em casa, também!

O que teve mais piada nas declarações de Rubio foi quando ele disse que: “os EUA estão a ajudar a Europa na guerra da Ucrânia”, e que, “vão deixar de ajudar se a Europa não os ajudar em Taiwan”. Esta é das ameaças mais vazias que alguém já fez! Estarem a ameaçar deixar uma guerra – na Ucrânia – que eles próprios fomentaram, prepararam e alimentaram, no seu próprio interesse e contra o interesse dos povos europeus… Seria uma salvação, os EUA, deixarem do nos “ajudar” na Ucrânia. Aliás, tendo em conta as sondagens em Taiwan, parece que a maioria também não quer ajudas que matam centenas de milhares na guerra.

Como se tem provado, em grande parte do mundo, de onde os EUA saem, para se concentrar na “ajuda” ucraniana, os povos desavindos fazem a paz. São vitórias diplomáticas chinesas e russas, umas atrás das outras, ao ponto de, há uns dias, Mr. Burns, director da CIA, ter ido a Riade dar conta do desagrado americano com o reatar de relações com o Irão. Se este acto, por si só, não demonstra o “modus operandi” da Casa Branca, do seu “dividir para reinar…” Já não sei o que é preciso.

Mas se, esta reacção de Rubio é, em si, demonstrativa do estado de espírito da elite que governa os EUA e da forma como usam o “bullying” para resolver os problemas, já a forma como Macron age é também reveladora da posição em que esta gente, que se diz governante, se deixa colocar. Uma total falta de frontalidade; uma total falta de clareza.

Se no caso de Úrsula essa questão nunca se colocaria, afinal, não apenas privilegiou a Pfizer face a empresas europeias no Covid, como negociou acordos de matérias-primas e energia com os EUA nas costas dos povos europeus, e além disso, pagando mais por menos e com menos qualidade, já no caso de Macron ou Scholz, as coisas são muito diferentes.

Gente como Scholz e Macron anda a toque de “bullying”, prisioneiros políticos dos “valores” europeus que, afinal, são americanos – ninguém pode negar o decalque que a comunicação europeia faz a partir das posições públicas americanas. Scholz, mesmo com a carcereira Baerbock no seu governo – financiada por Soros e compincha de Úrsula – é apanhado a negociar acordos no ramo automóvel com a Rússia, a renovar o seguro do Nord Stream e a ir à China negociar a deslocalização de grandes empresas alemãs. Macron, mesmo acompanhado da sua carcereira Úrsula, continua a comprar energia à Rússia, a cooperar com a China, tendo saído da reunião com Xi, com mais um pacote de atraentes negócios entre os dois países.

Lá no fundo, o que estas realidades demonstram é que, os 30 anos seguintes à queda da URSS foram uma prisão para grande parte do mundo. Presos à única alternativa – tão obrigatória como única – que existia, traduzida em danosos acordos comerciais com os EUA e seus apêndices, ou em ruinosos acordos de “restruturação e estabilização macroeconómica” do FMI e Banco Mundial, hoje, o êxodo de fuga do dólar demonstra que ninguém estava contente com o sistema. E, na Europa, não se pense que o movimento de resistência não existe. Apenas ainda não teve condições para se afirmar. Marco Rubio já viu o filme todo, a seguir à França, podem vir outros…

Mesmo um país como Portugal, amarrado que está a esta âncora que cada vez mais nos agarra ao fundo – bem que os “nossos” (deles) governos nos falaram em mar – e que mortalmente nos afoga, poderia – e deveria – começar a fazer contas à vida e assumir, de forma frontal, aquela que dizem ser a sua vocação: fazer de ponte para o mundo. Mas não, os governos da alternância do “vira o disco e toca o mesmo” apenas nos transformam num “digital” beco sem saída.

O facto é que, as nações e povos europeus – leia-se a “Europa” -, deparam-se com uma escolha vital: ou definham com Washington que é quem tem o controlo militar e político; ou recriam-se e crescem com o mundo multipolar. Ou ficam com os “valores” vazios do ocidente colectivo, ou caminham no sentido da concretização dos valores reais, abrindo-se ao mundo, de forma soberana, autónoma e livre de amarras e preconceitos reaccionários, que visam resistir à mudança, ao desenvolvimento, ao progresso e à paz entre os povos.

Esta dicotomia, absolutamente contraditória com o discurso de cartilha feito à medida para ser aplicado em cada revolução colorida, em cada invasão ou em cada guerra por procuração, está, ela própria, bem presente na escolha a fazer. Há uns anos diziam-nos que “a economia é que manda”; quem não se lembra de ouvir Passos Coelho e a sua saída da “zona de conforto”; “o mundo está sempre em mudança”; “temos de aceitar a mudança”, repetiam de forma maquinal. Hoje, rejeitam a mudança, resistem e reagem de forma conservadora, repetindo que, agora, “temos de lutar pelos nossos valores”, “os valores europeus”. É impressionante que nos davam sempre com a Venezuela quando queriam falar de “luta por valores” e nos “EUA” quando se tratava de economia e mudança. Dependendo de para cujos bolsos vão os “valores”, assim mudam eles o discurso.

Enquanto os BRICS se tornam BRICS+ e agora BRIICSS, depois da adesão do Irão e da Arábia Saudita, discutem uma nova moeda, na Alemanha fechou uma siderurgia que já tinha quase 700 anos. Porquê? Porque o gás que têm de comprar aos EUA não presta e custa três vezes mais. E o que vai Úrsula fazer à China? Fazer “bulying” pró Washington e regime de Kiev. E o que faz o nosso governo? Aplaude efusivamente. E há cada vez mais gente a dormir na rua.

Na Malásia celebram-se acordos e propõe-se a criação de um Fundo Monetário Asiático, porque segundo o governo do país – vítima de meses de tentativas de ”revolução colorida” -, “não existem razões para depender do dólar e do FMI”, na Europa e em Portugal, vivem-se crises de habitação, inflação e endividamento… O que faz Úrsula? “Bullying” em nome de Biden contra a China. E Cravinho? Faz coro! E, enquanto isso, mais gente a passar fome, roubada pela ganância da grande distribuição!

Na África do Sul boicota-se a venda de armas à Polónia, porque as manda para Kiev, o México celebra acordos para a BRI que trarão enormes benefícios ao país – a tal da “armadilha da dívida” que todos preferem ao FMI -, por cá somos obrigados a ver a Úrsula a negociar acordos de energia e matérias-primas com os EUA, nas costas dos europeus, a preços muito mais caros do que antes. E o que faz a burocrata de Bruxelas na China? Pois… E o que fazem os daqui? E lá vai mais gente para a sopa dos pobres!

É uma tragédia. Enquanto o mundo se tenta levantar, o nosso insiste em cair. Assistimos, como entusiasmados fanboys num qualquer concerto ou jogo de futebol, a uma caminhada, a qual, a cada passo, mais nos leva ao precipício. Vejam lá que, depois de tanto disparate, agora, nos EUA, está-se a montar uma equipa – tipo mafioso, claro – de “especialistas”, paridos no Departamento do Tesouro dos EUA, “em sanções e financiamento do terrorismo”, que virão para a Europa, “convencer” empresas a deixar o mercado russo e os bancos a não financiarem as que resistirem ao assédio. Ou seja, não contentes, vão dedicar-se a fazer “bullying” às nossas próprias empresas e bancos. “Especialistas americanos”, do departamento do tesouro americano a fiscalizarem “sanções europeias” em países europeus… Quanto mais te baixas…. Já dizia o meu avô!

Muita “liberdade” e “democracia” nos discursos, mas a única coisa a que é dada escolha é a de que ricos mandarão em nós. Serão os ricos “A” ou os ricos “B”? São os ricos, ricos, ou são os pobres corrompidos por ricos? Serão os ricos que já eram ricos, ou serão os pobres que querem ser e estar entre os ricos? No final, é disto que trata a governação por bem comportados e competentíssimos quadros formados nas melhores universidades e colégios que os ricos podem pagar, suportar ou manietar! Passar pela Ivy League (Stanford, Harvard…) leva-te a Bruxelas, ao FMI e à NATO…. É selo de marca. A London Business qualquer coisa, dá-te o Ministério das Finanças ou o Banco de Portugal!

Quanto custará ainda a entender que vivemos numa espécie de “a liberdade de uns é a prisão de outros”. Esta “democracia” que finta a vontade popular, imune as escolhas eleitorais ou mesmo revolucionárias, porque tem natureza transnacional, chama-se “Ordem baseada em regras”. Trata-se de uma “ordem” que nos aprisiona, com “regras” que nos negam a soberania!

E vem gente dizer que “a U E vive de concessões de espaços de soberania” em prol de “um bem comum”! É “comum”, mas não é de todos. Pagamos todos esse “bem comum”, mas ele só é “bem comum” para alguns. Para outros é bullying e prisão!

O próprio povo americano é prisioneiro deste extremismo reaccionário e belicista. É o primeiro a sofrer o bullying e a ser seu prisioneiro!

Haja força para a libertação!


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O suicídio da Europa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/04/2023)

Miguel Sousa Tavares

A poucos dias de uma visita à China determinante para as relações entre o gigante asiático e a UE, onde chegou acompanhada pelo Presidente francês, Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, resolveu fazer, mais do que um discurso, uma intervenção de fundo que estabeleceu desde logo não apenas a agenda da visita como também todo o futuro das relações sino-europeias. Muito saudado nos meios da autodenominada “ordem liberal internacional”, o discurso foi marcante a vários níveis: pelo momento, pela forma e pelo conteúdo. O momento e a forma — falando antes e publicamente o que é habitual reservar para ser falado durante e em privado — assinalaram uma posição de força, pessoal e institucional, que, aliada a um conteúdo de claro confronto e desafio, logo suscitou uma ríspida resposta da parte chinesa e a certeza de que dificilmente esta visita terá bons resultados, agora ou no futuro: os chineses costumam demorar uns 50 anos a esquecer ofensas públicas.

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Mas, antes de analisar o conteúdo do que disse Von der Leyen, vale a pena começar por constatar que, ao que parece, finalmente a Europa tem uma política externa comum, tão longamente desejada, e alguém que responde por ela. Não é, ao contrário do que se poderia prever, o triste comissário europeu para a Política Externa, Josep Borrell, o qual, no próprio dia em que Von der Leyen e Macron partiam para a China, repetia ao lado do secretário de Estado americano os chavões dos Estados Unidos sobre a guerra na Ucrânia, a Rússia e a China, ou que há semanas apresentava como grande feito da política externa comum a compra em conjunto de munições de guerra para a Ucrânia. Também não é uma política comum resultante de discussão ou debate no Parlamento Europeu ou, menos ainda, nos Parlamentos nacionais — sem que isso tenha merecido um só suspiro dos outrora tão ciosos defensores das soberanias nacionais face a Bruxelas. Mas, desde que começou a guerra na Ucrânia e o Ocidente (ou NATO, se assim preferirem chamar-lhe) tocou a reunir em defesa da tal ordem liberal internacional, considerações desse tipo deixaram de ter lugar, ao ponto de um pobre país como o nosso, onde uma simples lancha patrulheira fica parada no mar por falta de combustível, não se coibir de enviar três dos seus tanques, dos melhores que há nos catálogos (e os únicos em ordem de marcha), para irem combater os russos na Ucrânia. Sim, agora, pelo menos, sabemos quem é que fala em nome da Europa em matéria de política externa: é Ursula von der Leyen. E isso tem, desde logo, duas vantagens: os americanos já sabem a quem telefonar quando quiserem falar com a Europa e é francamente melhor ser ela a representar-nos e a definir a nossa política externa do que esse patético serventuário dos americanos que é o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, que se tinha autodesignado para cumprir a função até aqui.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Bom, mas então o que disse Ursula von der Leyen sobre a China? Algumas coisas interessantes, que, não sendo propriamente novidade, tiveram a vantagem de clarificar ainda mais o pensamento europeu dominante. Explicitamente ou subentendendo, começou por dizer que a Europa não queria cortar os laços com a China, mas queria mudar as regras do jogo, pois havia um factor novo: a China está em campo à procura de uma nova ordem global, não aceitando mais jogar de acordo com a ordem liberal internacional na qual se revêem os valores do Ocidente. No fundo, a mesma acusação feita à Rússia e a Putin, pessoalmente: não aceitou “ocidentalizar-se”. Sendo que a China é uma ditadura desde 1949 e a Rússia um regime autocrático desde a noite dos tempos, com uma breve interrupção “democrática” em que conheceu o pior do capitalismo exportado pela ordem liberal, cabe perguntar o que há verdadeiramente de novo e de insuportável em relação aos tempos em que outras gerações de líderes europeus, com outro nível e ainda com memórias de guerra — Adenauer, De Gaulle, Willy Brandt, Harold Wilson, Olof Palme, Kennedy —, conseguiram manter a paz com as duas superpotências inimigas, apesar de terem pela frente muito pior do que Putin ou Xi Jinping, como Mao, Estaline, Khrushchev, Brejnev? Porquê esta súbita mentalidade do pensamento único, esta cruzada moderna contra os hereges da ordem liberal, esta necessidade urgente de exportarmos a nossa noção de bem e de valores para o mundo inteiro, e à força se necessário, antes de tudo o resto: o combate às desigualdades, às epidemias e doenças dos pobres, às alterações climáticas, ao desarmamento nuclear? Dizia há dias um porta-voz do Departamento de Estado americano, em resposta a um pedido de Zelensky para que a Rússia não ocupasse a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que “não podemos impedi-lo, pois infelizmente a Rússia faz parte do Conselho de Segurança da ONU”. “Infelizmente”? Já chegámos ao ponto de lamentar a existência da ONU e do seu CS, com as regras de funcionamento estabelecidas, justamente para que os conflitos entre adversários ali fossem dirimidos e não no campo de batalha?

No seu discurso de há dias, Ursula von der Leyen veio implicitamente atravessar a Europa num conflito com a China, do ponto de vista comercial, político e até militar, num confronto que foi declarado pelos Estados Unidos e assumido também há meses pelo secretário-geral da NATO como estratégico para a organização. Já não se trata de levar a NATO até ao Afeganistão com a justificação da solidariedade devida a um aliado atacado na sua própria casa. Agora trata-se de ir até ao outro lado do mundo, como braço armado da política externa americana e para um eventual confronto entre duas potências nucleares, numa guerra no Pacífico, onde a Europa nada tem que ver. Mas, em troca, nem sequer é certo que uma futura Administração americana (com Trump de regresso, por exemplo) esteja disposta a continuar a atravessar-se pela defesa europeia, na Europa.

Sabemos apenas que nos continuam a exigir que a Europa pague o grosso da factura da guerra na Ucrânia, em inflação, em despesas militares e também em possível nova crise bancária importada de lá, para garantir que, como disse Lloyd Austin, o secretário da Defesa dos EUA, a Rússia saia da Ucrânia “de tal forma enfraquecida” que deixe de constituir qualquer ameaça futura. Para, quando os Estados Unidos acharem que está na hora de enfrentar a China, não correrem o risco de verem a Rússia a apoiá-la. A menos que tudo isto vá pelos ares.

Entretanto, é essencial continuar com a guerra na Ucrânia, até à derrota final da Rússia ou até… à eternidade. Que pode ser em 2024, ou mesmo 25, ou até 26, como alguns defensores da ordem liberal internacional e da guerra até ao último ucraniano defendem. E por isso, alinhada com o discurso de Washington, Von der Leyen também não se esqueceu de recordar aos chineses que o seu plano de paz em 12 pontos para a guerra na Ucrânia não podia ser levado a sério. Primeiro porque não previa a retirada russa de todos os territórios ucranianos; segundo porque só a Ucrânia poderia definir as condições para uma paz justa. Ou seja, a primeira condição, independentemente da sua justiça, significaria não uma negociação mas uma rendição incondicional à partida; e a segunda implicaria que só haveria paz nas condições decretadas por uma das partes. Resumindo: o plano não serve precisamente porque quer negociar a paz. E agora saúdam em festa a entrada da Finlândia na NATO, o 31º membro e 15º desde que se extinguiu o seu inimigo, o Pacto de Varsóvia. A ordem liberal está feliz porque ganhou assim mais 1300 quilómetros de fronteira com a Rússia. E para que quererão eles mais 1300 quilómetros de fronteira com a Rússia?

Pobre Europa, desgraçada Ucrânia!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Assange é o maior jornalista de todos os tempos: notas à borda da matriz narrativa

(Caitlin Johnstone, in Sakerlatan.org, 05/04/2023)

É engraçado como o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak acabou de apagar um tweet admitindo que Israel tem armas nucleares ao mesmo tempo em que o The Washington Post relata que os aliados dos EUA têm uma política de “não falar sobre o Nord Stream” por causa das respostas que apareceriam. Há tantos segredos abertos que todo mundo sabe, mas não está autorizado a reconhecer publicamente.

O jornalista mais famoso do mundo acabou de ser privado de uma visita dos Repórteres Sem Fronteiras porque a prisão britânica em que ele está sendo mantido “recebeu informações de que eles são jornalistas”, e ainda assim tudo o que ouvimos é sobre como a Rússia e a China maltratam jornalistas. Julian Assange é o maior e mais famoso jornalista do mundo e está na prisão apenas pelo crime de fazer um bom jornalismo, mas com certeza, vamos todos gastar nosso tempo levantando os punhos contra “regimes autoritários” distantes por prender jornalistas.

Assange não é apenas o maior jornalista vivo do mundo, ele é o maior jornalista que já viveu. Não há realmente nenhum argumento válido contra isso. Sério, me chame de jornalista superior. Você não pode. Assange começou sua carreira jornalística revolucionando a proteção de fontes na era digital e, em seguida, começou a desvendar algumas das maiores histórias do século. Não há ninguém que possa segurar uma vela para ele, vivo ou morto.

E agora ele está em uma prisão de segurança máxima, única e exclusivamente porque ele era melhor em fazer o melhor tipo de jornalismo do que qualquer outra pessoa no mundo. Esse é o tipo de civilização em que você vive. Do tipo que aprisiona o melhor jornalista de todos os tempos por fazer jornalismo.

Você nunca vai me convencer de que é um fenômeno orgânico que a população sempre se divide em duas facções políticas de oposição iguais, o que sempre os deixa em um impasse incapaz de fazer qualquer coisa, e sempre os impasses se dão de uma forma que beneficia os ricos e poderosos.

As pessoas que passam o tempo enlouquecendo com a China são o grupo mais idiota com quem interajo online. Não necessariamente o mais desagradável ou o mais agressivo, mas definitivamente o mais burro. Eles acreditam em praticamente qualquer coisa dita por qualquer um, não importa o quão ridículo, desde que seja crítico da China.

No instante em que veem literalmente qualquer afirmação negativa sobre a China de literalmente qualquer pessoa, todas as suas faculdades críticas saem pela janela e se transformam em um bando de imbecis com cérebro de espuma. Provavelmente o mais conhecido dos inúmeros exemplos possíveis foi quando Jordan Peterson compartilhou um vídeo de “ordenha” BDSM porque alguns relatos de desinformação sugeriram que ele documentou abusos do governo chinês.

Essa dinâmica parece ter suas raízes no retrato de gerações dos chineses como uma raça misteriosa e inescrutável, cuja cultura não é nada parecida com a nossa. Essa é a única explicação que consigo imaginar do porquê os ocidentais atribuírem motivos e agendas ao seu governo que não fazem sentido algum.

Uma vez que você pare de pensar em uma nacionalidade como seres humanos normais com esperanças e sonhos que amam suas famílias e querem sobreviver como você, você pode acreditar que qualquer coisa é verdade sobre seus motivos e objetivos, porque você os transformou em alienígenas espaciais ou orcs malignos em sua mente. Se você acredita que os chineses são seres humanos assim como você com motivações semelhantes, então você é capaz de reconhecer rapidamente as alegações de besteira sobre seus motivos e comportamento, porque eles não fazem sentido de uma perspectiva humana normal. Sem essa visão, você está perdido.

Outro dia, alguém com quem eu estava discutindo online se referiu casualmente aos chineses como “semelhantes a insetos”, comparando-os ao ninho de uma formiga. Depois de desumanizar uma nação inteira assim, você sedou e colocou em coma todas as suas habilidades de pensamento crítico. Você aleijou sua mente.

Outra razão pela qual as pessoas com histeria antichina são o grupo mais idiota com o qual interajo on-line é que elas estão constantemente sendo alimentadas com besteiras idiotas como esta:

Eles recebem constantemente veneno cerebral como este em seus crânios por propagandistas do império como Gordon Chang.

“A China está se preparando para matar americanos e temos que nos preparar para nos defender.” Você quer dizer que a China está se preparando para se defender do cerco militar completamente indisfarçável e da potencial intervenção dos EUA em um conflito interchinês? Um conflito do outro lado do planeta dos Estados Unidos? Um conflito que você, Gordon Chang, não estará lutando?

Idiota de merda.

As eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos mudaram tudo. Não porque o próprio Trump tenha mudado as coisas significativamente (ele não mudou), mas porque a mídia ocidental formou um consenso nesse ponto de que é seu dever solene ajudar o governo dos EUA a vencer uma guerra de informação contra a Rússia.

Um consenso rapidamente formado de que era errado para a mídia relatar os lançamentos do WikiLeaks em 2016, que supostamente vieram de hackers russos (embora ainda não tenha sido comprovado até hoje). Nessa decisão, os últimos raios do jornalismo real na grande mídia foram anulados. 

Uma vez que todos os jornalistas tradicionais aceitaram que é seu trabalho não relatar fatos verdadeiros sobre os poderosos, mas promover os interesses de informação de seu governo e/ou partido político preferido, o jornalismo acabou. O último vislumbre de vida em uma sociedade baseada na verdade foi apagado.

Vimos isso em plena exibição desde a invasão russa da Ucrânia, com “jornalistas” relatando acriticamente reivindicações governamentais não evidenciadas, ignorando questões importantes como o número de mortos ucranianos, até mesmo aceitando a admissão do governo dos EUA de que está usando-os para circular mentiras em uma guerra de informação.

Poderia ter sido o contrário. A mídia poderia ter aproveitado a corrupção exposta nos documentos do WikiLeaks para desencadear uma acusação revigorada para investigar a má conduta do governo dos EUA. Em vez disso, foi usada para esconder, perdoar e facilitar a malversação do governo dos EUA.

Fonte: https://caitlinjohnstone.com/2023/04/05/assange-is-the-greatest-journalist-of-all-time-notes-from-the-edge-of-the-narrative-matrix/


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