Cujus regio, eius religio

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 08/08/2023)

Cujus regio, eius religio é uma frase latina que significa que a religião do príncipe é a religião dos súbditos, ou do país. Os governados seguem a religião do governante. Trata-se de um princípio estabelecido pelo imperador Constantino. Foi utlizado na reforma protestante, no tratado de Paz de Augsburgo, que estabeleceu um compromisso entre as forças luteranas e católicas na Alemanha. A população de um príncipe católico deveria ser católica e a do príncipe que aderisse à Reforma Protestante deveria fazer o mesmo. Ubi uns dominas Bibi una religio (onde há um só senhor que haja uma única religião).

A aliança da cruz e da espada não é um exclusivo do cristianismo, as três religiões cuja filosofia assenta no conflito do percurso da humanidade — paraíso inicial — queda na vida terrena de sacrifício — e redenção, a utilizaram, todos juntaram à espada um símbolo sagrado. O império otomano, que promoveu a conversão da maioria dos povos do Médio Oriente ao islamismo escolheu o Crescente e os judeus a estrela de David. O poder político nas vastíssimas regiões do planeta que os povos destas três religiões ocuparam e dominaram teve sempre necessidade de uma caução religiosa para os seus grupos mais agressivos imporem o seu domínio. O cristianismo, ainda assim, conseguiu separar, embora à custa de guerras sangrentas e prolongadas, a religião do Estado, pelos menos formalmente. O mesmo não fizeram nem o islamismo nem o judaísmo.

A maioria dos grandes conflitos do Ocidente desde a emergência do islamismo teve causas religiosas. As igrejas, entendidas como entidades organizadas para enquadrarem a sociedade tendo como norma um corpo filosófico que regula princípios morais e os impõe como lei, competem entre si para se colocarem no centro do poder de facto, para obterem o favor do príncipe e para, através deste, determinarem o modo de viver do povo, a distribuição da riqueza e dos privilégios.

A Igreja Católica é a igreja matriz de todas as igrejas europeias, é a igreja herdeira do império romano e do sacro império romano-germânico. É, de todas as igrejas cristãs europeias, a única que tem uma difusão planetária (um feito que se deve mais aos jesuítas portugueses e espanhóis do que aos pastores anglicanos).

A Jornada Mundial da Juventude que decorreu em Lisboa de 1 a 6 de Agosto de 2023, embora muito bem embrulhada em papéis de celofane, apesar das cantorias e dos eventos para multidões, das luzes e das bandeiras desfraldadas foi, exatamente pelo privilégio dado ao aparato em vez da substância, um revelador das dificuldades que a Igreja Católica atualmente atravessa, em consonância com a perda de influência e poder da Europa, o seu berço, resultantes do declínio como potência mundial no pós II Guerra, da descolonização que a arredou das regiões de domínio e lhe trouxe comunidades das antigas colónias que ela tem dificuldade em integrar e, por fim, do envelhecimento da população europeia.

Os papas do pós Segunda Guerra têm tentado cada um à sua maneira evitar que a Igreja Católica seja arrastada pela decadência da Europa e apresentá-la como uma entidade global e atuante nos novos tempos e nos novos espaços, como se nada tivesse a ver com a colonização e o colonialismo, com os poderes absolutos, o nazismo e o fascismo. Todos procuraram sair de Roma (da Europa) e fazerem-se à estrada, ao mundo, uns com mais sucesso — João Paulo II, outros com menos — Bento XVI e o mundo respondeu de acordo com os interesses dos poderes instalados, tratando os papas como personagens mediáticas de um live aid, que poderiam ser úteis como agentes integradores de grupos potencialmente conflituais numa dada ordem nacional ou regional. Contudo os papas e as suas entourages viram-se sempre a si como os herdeiros da única igreja imperial da história da humanidade, e por isso ocupando um lugar único entre as religiões e as igrejas do planeta.

O primeiro atributo carismático dos papas resultava da herança imperial e o segundo residia no mistério do poder contido no objeto simbólico que é o sacrário, um cofre-forte que, além da porta blindada, tem ainda uma cortina que esconde o que configura o divino. Todos os papas até este mantiveram a organização imperial da Igreja, baseada na hierarquia, no poder dos hierarcas, nos sacerdotes consagrados, nos dogmas da fé de castigo e recompensa, na disciplina dos fiéis. As representações do poder podiam ser adaptadas à personalidade de cada papa, mas o essencial do seu carisma era baseado na autoridade e manteve-se assim até este papa jesuíta, vindo dos confins do império que os católicos maioritariamente espanhóis e italianos criaram no fundo do hemisfério sul, na Argentina, estilhaçar o edifício milenar e as suas serventias.

Em vez do mistério do silêncio e da distância, do dogma, do apelo à luta pela imposição de uma verdade e de um Deus totalitário, de uma atitude imperial, este papa apela à tolerância, à boa convivência, à paz, à generosidade, ao respeito pelos nossos semelhantes, pelos animais e pela natureza! O seu carisma assenta no facto de ele ser um ancião simpático, de expressar pensamentos de simples bom senso! Jorge Bergoglio, no papel de papa Francisco da Igreja Católica, é extraordinário porque atirou fora as portas dos sacrários, rasgou as cortinas e disse aos fiéis: Não há nada aqui dentro que não seja o que vocês forem capazes ou quiserem aqui colocar. Isto é apenas uma caixa e o bem e Deus não se encaixotam! E riu-se!

O extraordinário em Francisco — um facto que o aparelho mediático que o envolve procura cobrir com o silêncio — é que a sua mensagem doutrinal está mais próxima das filosofias orientais do que das do cristianismo e mais longe ainda do que tem sido a mensagem catolicismo romano desde as cruzadas e da contrarreforma. A mensagem de Francisco está próxima do budismo, onde o conceito de Deus único, ser supremo, divino, eterno, celestial, juiz todo-poderoso, criador de todas as coisas, é substituído pela atribuição dos eventos da Terra e da humanidade aos próprios humanos. Uma mensagem também em linha com o confucionismo, na busca do caminho em equilíbrio entre a vida mundana e a espiritual, entre o homem e a natureza. A mensagem deste papa não difere também da que os anciãos das civilizações ditas primitivas de África ou das Américas transmitem aos seus familiares ou às suas tribos. Podem ser encontradas nos livros de aforismos africanos, indianos, asiáticos. O extraordinário da mensagem do papa Francisco é que ele propõe retirar à Igreja Católica o seu poder de maior utilidade, o que a dota de um valor único, o poder de sacralizar, isto é, de justificar o poder dos reis e dos soberanos através da invocação do poder divino.

Este papa nega aos poderosos que digam aos seus povos que o são pela Graça de Deus e da Santíssima Virgem! Em última instância, Francisco não cauciona os juramentos dos homens poderosos feitos com a mão sobre a Bíblia ou com a invocação: assim Deus me ajude.

A mensagem deste papa representa um pontapé no vespeiro que o Vaticano, com as suas intrigas de corte, de facto é desde os primeiros concílios de Niceia. O Ocidente exerceu o seu domínio no mundo apoiado numa Igreja Católica organizada e disciplinada, dogmática, onde a autoridade não se discute, que castiga sem piedade os hereges e excomunga os que duvidavam. Francisco propõe, sem o dizer explicitamente, uma Igreja mais parecida com os movimentos filosóficos do que com uma guarda que cauciona o poder armado.

Recorrendo à história de Portugal e aos 50 anos do 25 de Abril. A Igreja Católica ou segue o caminho da abertura a povo que Francisco lhe propõe, como se fosse Otelo, ou realiza o seu 25 de Novembro e, na melhor das hipóteses encontra um papa tradicionalista moderado que cumpra o seu ministério como Eanes, trazendo a igreja de volta aos templos e aos conventos.

Mas, esquecendo estes pormenores, a organização das Jornadas foi um êxito, os jovens passearam por Lisboa de graça, comeram a custos moderados, dormiram em casas amigas, os espetáculos foram bem encenados, o som impecável, as autoridades civis e eclesiásticas sorriram e saudaram-se mutuamente. Portugal pode exibir a taça!


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Por que o Ocidente reaprendeu a abraçar o fascismo?

(Matthew Ehret, in Resistir, 07/08/2023)

Durante a Guerra Fria e especialmente depois de 1991, poucos se perguntaram: do sangue de quem surgiu tamanha abundância e “liberdade”?No ocidente, muitos foram levados a acreditar que a ideologia do nazifascismo era simplesmente tão má que nada disso poderia acontecer novamente. (…)


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O miserável fracasso da ofensiva de Zelensky 

(Rainer Rupp, in Geopol, 06/08/2023)

A chamada “contraofensiva” da Ucrânia, que começou no início de junho, não conseguiu até agora registar quaisquer ganhos significativos no terreno, tendo, pelo contrário, sofrido perdas extremamente elevadas de soldados e de material. Ao longo da frente de cerca de mil quilómetros, o exército ucraniano (AFU) não conseguiu, em momento algum, penetrar nas instalações de defesa e de bunkers dos russos, escalonadas em três linhas, que tinham sido construídas sob a liderança dos pioneiros do exército russo, sob as ordens do lendário general Surovikin, com grande esforço ao longo de muitos meses. 

Os avanços ucranianos individuais, efectuados com grandes perdas, permaneceram até agora todos na chamada “zona cinzenta”. Esta constitui um tampão entre a linha da frente dos ucranianos e a primeira das três linhas de defesa russas. A zona cinzenta tem entre 10 e 15 quilómetros de largura, dependendo das condições locais. É normalmente controlada, no todo ou em parte, pelos russos, graças ao seu poder de fogo e à sua superioridade aérea. 

No caso de um ataque ucraniano, a infantaria russa recua e abre caminho a bombardeamentos maciços de artilharia e aéreos. Depois de os tanques e veículos blindados de transporte de pessoal ucranianos e a infantaria que os acompanhava terem sido em grande parte destruídos desta forma, as unidades de infantaria russas avançam novamente, normalmente empurrando os ucranianos para a sua posição inicial. É este o padrão da grande maioria dos combates nesta “ofensiva” ucraniana. 

Não podemos deixar de abanar a cabeça perante a loucura da liderança militar ucraniana, que continua a enviar massas dos seus próprios soldados para a sua morte certa em condições inalteradas, e mesmo com uma superioridade russa cada vez maior. 

Estas ordens desumanas da liderança ucraniana só podem ser explicadas pelo facto de o regime de Zelensky estar sob enorme pressão da administração Biden para, pelo menos, mostrar um sucesso de propaganda com a “ofensiva”. Tendo em conta as críticas crescentes em Washington e nos EUA em geral à política ucraniana de Biden, cresce o perigo de que, se a ofensiva for um fracasso óbvio, o apoio americano se desvaneça, o que teria consequências devastadoras para o regime de Zelensky. 

As acções da liderança militar ucraniana podem ser explicadas pelo facto de que, na ausência de outros recursos e tácticas, não tem outra escolha senão cometer o mesmo erro repetidamente e sacrificar pessoas e materiais sem sentido, se a pretensão da ofensiva, anunciada com grande pompa, for preservada em termos de política externa. Esta loucura política explica também porque é que as baixas ucranianas nos últimos dois meses foram particularmente elevadas, enquanto as dos russos foram muito limitadas. 

Segundo estimativas de peritos militares ocidentais que continuam a manter boas relações com colegas no ativo, como o coronel reformado norte-americano Douglas MacGregor ou o ex-coronel norte-americano Scott Ritter, a AFU perdeu 20.000 homens só em julho passado, ou seja, no segundo mês da alegada ofensiva, e outros 20.000 homens no primeiro mês da ofensiva. A estas perdas totais de 40.000 homens nos primeiros dois meses da ofensiva há que acrescentar mais de um milhar de veículos blindados e tanques da UA destruídos, a maioria dos quais provenientes de abastecimentos ocidentais. 
Em termos globais, o ex-coronel MacGregor, que, na qualidade de antigo conselheiro de um secretário da Defesa dos EUA do presidente Trump, ainda mantém boas relações com o Pentágono, estima que a Ucrânia perdeu cerca de 300 mil homens desde o início da guerra. Ou caíram, ou foram feridos tão gravemente que já não poderão servir. MacGregor estima as perdas correspondentes do lado russo em cerca de 50.000 mortos e feridos graves. 

Apesar das perdas catastróficas dos ucranianos, os incorrigíveis propagandistas dos EUA/NATO continuam a tentar apresentar o exército ucraniano como o vencedor. Há uma expressão inglesa para isto: “To put lipstick on a pig” (pôr bâton num porco). Mas nem mesmo o bâton pode fazer de um porco uma princesa. 

Os belicistas dos governos dos países da NATO deveriam começar a perceber lentamente que a sua guerra por procuração na Ucrânia nunca foi militarmente vencível, mesmo com a ajuda dos EUA/NATO contra a Rússia, e agora que até os EUA estão a ficar sem munições, é ainda mais impossível de vencer. Economicamente, também, o tiro dos EUA/NATO contra a Rússia saiu pela culatra. 

O Ocidente coletivo debate-se com a estagnação, a Alemanha está em recessão e a economia russa está em expansão e já está a crescer novamente, entre 2,5 e 3 por cento, de acordo com os números do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central russo. E quanto à opinião internacional e ao pretenso isolamento da Rússia, já todos devem ter reparado que é o Ocidente coletivo (sobretudo a Alemanha), que está a ser evitado pelos países do Sul Global, da América Latina à África e do Médio Oriente à Ásia.
Enquanto na Alemanha os representantes dos meios de comunicação social empresariais e governamentais continuam a evitar cuidadosamente tons críticos em relação à política ucraniana, nos EUA as coisas estão a parecer diferentes, com uma dinâmica crescente. 

Os títulos optimistas, com os quais os principais meios de comunicação social dos EUA anunciaram e elogiaram a contraofensiva da Ucrânia ainda na primavera, desapareceram entretanto. Ao contrário dos meios de comunicação social alemães, os meios de comunicação social americanos não deixaram de abordar as indicações dadas pelos principais dirigentes ucranianos nas últimas semanas de que a ofensiva estagnou e pode fracassar. 

Nos últimos dias, uma série de relatórios importantes nos principais meios de comunicação social dos EUA sugeriram que a situação na Ucrânia é muito pior do que as autoridades têm admitido até à data. Estes relatórios de correspondentes ocidentais no terreno na Ucrânia contêm testemunhos em primeira mão do colapso da moral de combate dos soldados ucranianos e das imensas e rápidas baixas face ao esmagador poder de fogo russo. Em suma, na perspetiva dos apoiantes da “Ucrânia tem de vencer”, a situação é muito pior do que se pensava anteriormente, de acordo com os meios de comunicação social dos EUA. 
Um primeiro relatório(1) na segunda-feira desta semana veio da Reuters e tinha como título: “Os russos estavam à nossa espera”; subtítulo: “As tropas ucranianas descrevem uma luta mais dura do que o esperado”. A agência noticiosa britânica tinha dado uma cobertura muito unilateral pró-ucraniana e anti-russa da política de Londres desde o início da guerra. No entanto, está agora a fazer esforços para corrigir o seu rumo anterior em relação à situação real. 

Eis alguns excertos do artigo da Reuters sobre um ataque de uma unidade ucraniana: 
«Entraram numa zona de morte. O momento era errado. Perderam-se muitos homens. No final, recapturaram a aldeia em ruínas de Staromaiorske, fazendo o maior avanço da Ucrânia em semanas.» 
(Um comentário rápido: aqui a Reuters fala apenas de ganhos de terreno de alguns quilómetros na “zona cinzenta”). Continuando no sound bite original da Reuters: 

«As tropas na ponta de lança da contraofensiva ucraniana dizem que uma batalha na semana passada na linha da frente no sudeste se revelou mais dura e sangrenta do que o esperado, com planos que correram mal e um inimigo que estava bem preparado». 

Depois vem uma passagem que destaca uma força russa mais bem equipada e estrategicamente organizada: “Os russos estavam à nossa espera”, disse um soldado de 29 anos, com o nome de código Bulat, de uma unidade enviada para a batalha em veículos blindados durante o ataque da semana passada. “Dispararam contra nós armas anti-tanque e lança-granadas. O meu veículo passou por cima de uma mina anti-tanque, mas estava tudo bem, o veículo foi atingido e todos estavam vivos. Baixámo-nos e fugimos para nos abrigarmos. Porque o mais importante é encontrar abrigo e depois continuar”. 
“A nossa missão devia durar dois dias. Mas não podíamos entrar à hora certa, no escuro, por várias razões. Por isso, entrámos mais tarde e perdemos o momento certo”, disse Bulat. “Eles [os russos] destruíram metodicamente as estradas. Construíram buracos que impediam a entrada e saída da aldeia, mesmo com tempo seco. Até marchar era difícil. Não se podia usar tochas à noite, mas mesmo assim era preciso avançar”. 

O relatório recorda ainda que a Ucrânia recebeu dezenas de milhares de milhões de dólares em equipamento e formação do Ocidente para lançar a sua contraofensiva para retomar os territórios ocupados este Verão. Mas reconhece-se que a operação tem sido mais lenta do que o esperado. De acordo com os comandantes ucranianos, isto foi feito deliberadamente para evitar um elevado número de baixas, uma afirmação que a Reuters não questiona, embora o oposto seja óbvio, nomeadamente que a liderança militar prefere levar as pessoas à morte se arriscar menos tanques em troca. 


No entanto, a Reuters aborda o facto de a Ucrânia ter atrasado deliberadamente o início da ofensiva durante tanto tempo devido à falta de material, ao mesmo tempo que os “impacientes apoiantes ocidentais”, ou seja, os americanos, mantinham a pressão para lançar a ofensiva. Este facto, disse, deu aos russos ainda mais tempo para se prepararem. Cito: 

“Os russos tiveram meses para preparar as suas fortificações e semear campos minados. Os atacantes ucranianos não têm a superioridade aérea que os seus aliados da NATO normalmente esperam nos seus exercícios de treino”, continua o relatório. 

Vale a pena recordar aqui que, ainda no mês passado, o homem forte ucraniano Zelensky culpou furiosamente o Ocidente, incluindo os EUA, por atrasar a entrega de armas mais avançadas e programas de treino para caças-bombardeiros F-16 americanos. Há mais de uma semana, Zelensky tinha dito a Fareed Zakaria(2) da CNN: 

«Tínhamos planos para iniciar a contraofensiva já na primavera. Mas não o fizemos porque — francamente — não tínhamos munições e armas suficientes e não tínhamos brigadas suficientes devidamente treinadas nestas armas». 

Um segundo relatório importante foi publicado esta semana pelo Wall Street Journal(3). Fala de taxas de baixas significativamente mais elevadas entre as forças ucranianas do que é habitualmente conhecido. A par de histórias trágicas sobre a miséria humana da guerra, mais visível nos hospitais militares, foi aí que os correspondentes do WSJ reuniram as suas estatísticas para tirar conclusões sobre as verdadeiras baixas da Ucrânia, que são mantidas em segredo pelo regime de Zelensky. 

Com base em fontes da indústria médica ucraniana, como fabricantes de próteses, médicos e instituições de caridade, o WSJ refere que entre 20.000 e 50.000 ucranianos perderam um ou mais membros desde o início da guerra. Mas o WSJ também refere que 

«O número real pode ser mais elevado porque leva tempo a registar os pacientes depois de terem sido submetidos ao procedimento. Alguns são amputados semanas ou meses depois de terem sido feridos. E com a atual contraofensiva de Kiev, a guerra pode ter entrado numa fase mais brutal». 

Para efeitos de comparação, o jornal apresenta os números da Primeira Guerra Mundial, que se caracterizou sobretudo por duelos de artilharia na guerra de posição. Cita o WSJ: 

«Cerca de 67.000 alemães e 41.000 britânicos tiveram de ser amputados durante a Primeira Guerra Mundial, quando o procedimento era muitas vezes a única forma de evitar a morte. … Menos de 2.000 soldados americanos nas invasões do Afeganistão e do Iraque tiveram de ser amputados». 

Este facto não só revela a escala horrível e catastrófica da carnificina desta guerra, como também pode explicar porque é que o conflito na Ucrânia tem desaparecido dos cabeçalhos ocidentais nos últimos tempos. O otimismo do Ocidente está a desvanecer-se, o seu empenho está a diminuir e a futura derrota da Ucrânia no campo de batalha parece cada vez mais provável. Isto levanta a questão de saber durante quanto tempo mais os belicistas ocidentais na política e nos meios de comunicação social podem esconder o estado real e desolador das forças armadas ucranianas. 

Tudo aponta para uma derrota geral da Ucrânia, para um colapso económico, social e militar. Entretanto, já se fala isoladamente de possíveis compromissos com os russos, por exemplo, sob a forma de concessões territoriais por parte da Ucrânia. Há algumas semanas, ninguém teria mencionado tal monstruosidade, com medo de ser denunciado como agente de Putin. 

Um indicador do desespero do establishment de política externa de Washington são os seus esforços para encontrar um compromisso com os russos através de bastidores diplomáticos(4), contornando a Casa Branca, que permitiria aos EUA sair do desastre da Ucrânia com a menor perda de face possível. Mas para que isso aconteça, o Presidente Biden teria primeiro de se demitir por doença e os falcões à sua volta teriam de ser enviados para o deserto. Tecnicamente, isso é concebível, mas politicamente inviável nas condições actuais. 

Para uma nova equipa em Washington, temos de esperar até janeiro de 2025. Nessa altura, a guerra na Ucrânia terá terminado; e nos termos da Rússia. Até lá, os falcões profissionais anti-Rússia nos governos dos EUA/NATO que apostaram as suas carreiras na vitória da Ucrânia tentarão fazer tudo o que puderem para atrasar o momento da sua derrota. 

O compromisso com a Rússia, ou seja, as concessões territoriais relativamente às regiões pró-russas da Ucrânia, está fora de questão para estes falcões porque equivale à sua derrota pessoal. Pelo contrário, podemos esperar mais escaladas incontroláveis da parte deles, que não só destruiriam o resto da Ucrânia, mas também a nós, na Europa Ocidental. 

Cabe-nos a todos nós impedir estas pessoas. Também na Europa, temos de nos certificar de que elegemos para o topo da hierarquia políticos que, finalmente, se esforçarão por restabelecer a paz e boas relações comerciais com a Rússia. 

Fontes e comentários: 

(1) https://www.reuters.com/world/europe/the-russians-were-waiting-us-ukraine-troops-describe-tougher-fight-than-expected-2023-07-31/ 
(2) https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/4114111-zelensky-points-to-lack-of-munitions-training-for-delayed-ukraine-counteroffensive/ 
(3) https://www.wsj.com/articles/in-ukraine-a-surge-in-amputations-reveals-the-human-cost-of-russias-war-d0bca320 
(4) https://www.zerohedge.com/geopolitical/details-secret-us-russia-talks-revealed-ukraine-counteroffensive-bad-shape 

Peça traduzida do alemão para GeoPol desde Apolut 


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