(In cnnportugal.iol.pt, 11/01/2024)

José Sócrates perguntou ao Ministério Público porque não investiga uma suspeita contra Pedro Passos Coelho, que consta do Processo EDP há pelo menos três anos. O antigo primeiro-ministro diz que desde 2020 os procuradores têm indícios de que a campanha do PSD, em 2015, foi financiada pela empresa brasileira Odebrecht, e nada fizeram. A investigação da Polícia Federal do Brasil suspeita que um valor pago pela empresa ao publicitário responsável pela campanha tenha sido um suborno pela obra da barragem do Sabor.
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Carta enviada à Ex.ma Sra. Procuradora Geral da República
Tendo em conta a minha experiência dos últimos anos não tenho a
certeza de que esta diligência venha a ter alguma valia. Dizem-me, no
entanto, que, nestas circunstâncias, este é o primeiro passo que devo
dar – fazer uma reclamação hierárquica. Assim sendo, apresento
perante si, Senhora Procuradora-Geral, queixa formal pelo
comportamento dos senhores procuradores no chamado “Processo
EDP”. A denúncia que apresento diz respeito a duas matérias que,
estando ligadas entre si, devemos separar para efeitos de clareza e de
análise. O primeiro assunto diz respeito ao prazo do inquérito; o
segundo diz respeito ao manifesto enviesamento político com que foi
e está a ser conduzida a investigação. Começo pelo primeiro, o prazo
do inquérito do “Processo EDP”.
Os factos são os seguintes. Primeiro, o processo penal sobre a EDP
iniciou-se em 2011 e tinha como objeto (julgo que continua a ter) a
suspeita de favorecimento ilegal à empresa por parte do governo que
liderei. Onze anos depois, em 2022, foi deduzida acusação contra o
antigo Ministro da Economia, Dr. Manuel Pinho, e dela não consta
qualquer referência a favorecimentos governamentais indevidos
àquela empresa.
Estamos em 2023 e continua a não haver acusação nem arquivamento.
No mesmo momento em que foi apresentada a referida acusação –
repito, onze anos depois de aberto o inquérito –, foi extraída uma
certidão para continuar a investigação sobre a EDP. Este
comportamento é absolutamente extraordinário. Julgo que não há
registo, na justiça democrática portuguesa, de situação semelhante –
um caso em que se extrai uma certidão para continuar a investigar um
inquérito … que tem já onze anos de investigação. Julgo que é caso
único.
Sem nenhum respeito pelos direitos das pessoas envolvidas, os
procuradores recusam cumprir a sua obrigação – a de arquivar o
processo para o qual não têm nenhuma prova, nem indícios capazes de
sustentar as alegações que originaram o inquérito. Ora bem, Senhora
Procuradora-Geral, tenho boas razões para acreditar que tão
extraordinário comportamento tem uma motivação política, qual seja a
de não querer reconhecer que nunca houve nenhum tipo de
favorecimento indevido dos governos socialistas, de 2005 a 2011, à
empresa EDP. Como fazem amiúde, os procuradores não arquivam o
processo na expetativa que cheguem os prazos de prescrição e
possam, então, dizer que o motivo do arquivamento não é a inocência,
mas a prescrição. Este comportamento é repulsivo, mas não tenho a
menor dúvida de que é isto que está na mente dos senhores procuradores.
Isto dito, passo ao segundo ponto, que tem a ver com a investigação
propriamente dita. O meu reparo refere-se a um único ponto, que se
expõe com brevidade. Em 2018, o Ministério Público português
enviou ao seu congénere brasileiro uma carta rogatória pedindo a sua
cooperação na investigação de “alegados factos suscetíveis de
integrar, em abstrato, a prática de crimes de corrupção relacionados
com a barragem do Baixo Sabor”. Em resposta o Ministério Público
brasileiro escreveu o seguinte:
“Deste modo, é possível que os pagamentos descritos na planilha
‘Paulistinha’ com referência à obra da barragem de Baixo -Sabor, em
Portugal, possam-se referir ao financiamento da campanha eleitoral do
Partido Social Democrata para eleição do cargo de primeiro-ministro,
disputada em 2015 pelo ex-Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho.”
Numa outra passagem, o Ministério Público brasileiro insiste:
“Apesar de André Gustavo Vieira da Silva ter afirmado em seu
interrogatório judicial que os serviços de publicidade e marketing
político prestados em Portugal foram ‘legais’ e ‘corretos’, os
elementos de prova reunidos nos presentes autos sugerem que ele
efetivamente recebeu valores pagos ‘por fora’ da ODEBRECHT.
Ao que tudo indica ainda, tais valores são
provenientes de supostos crimes praticados na obra do baixo sabor e
que seriam destinados a pessoa de codinome ‘príncipe’ em expediente
muito semelhante ao utilizado pelo publicitário João Santana na
campanha o ex-presidente Maurício Funes, de El Salvador, cuja
remuneração foi paga pela Odebrecht.”
Não há dúvida que as informações são indiciárias. Mas a leitura de
toda a carta rogatória permite dizer que elas estão muito, muito
indiciadas. Estão provados os vários pagamentos que totalizaram
880.000 euros que a empresa Odebrecht pagou “por fora” ao
publicitário André Gustavo Vieira da Silva que, na altura, prestava
serviços ao PSD durante a campanha eleitoral de 2015. Os
pagamentos estão provados, está provado que diziam respeito à
Barragem do Sabor e está ainda provado que foram feitos em 2015 na
altura da campanha legislativa em Portugal. E, sim, está
também provado que André Gustavo era, na altura, o publicitário que
trabalhava na campanha eleitoral para o PSD. Está tudo na carta
rogatória senhora procuradora-geral – é só lê-la.
Ora bem, assim sendo, gostaria, Senhora Procuradora-Geral, que
fizesse o pequeno exercício de trocar, na carta, o nome de Pedro
Passos Coelho pelo de José Sócrates e imaginasse o que aconteceria
nesse caso. Não é difícil. Primeiro, a suspeita de que a minha
campanha eleitoral tivesse sido paga pela empresa brasileira
Odebrecht abriria todos os telejornais durante semanas. Em segundo
lugar, não só teria sido interrogado pelo Ministério Público como
ainda teriam promovido medidas de coação contra mim.
Como a suspeita visa o líder do PSD, nada acontece. A investigação
relativa ao financiamento ilegal da campanha eleitoral do PSD está
congelada desde 2020. Este exercício permite perceber o duplo
critério – contra José Sócrates vale tudo; contra a direita e Passos
Coelho, nada vale. Se é este último que está em causa esconde-se o
processo até prescrever. Este duplo critério é indecente.
Absolutamente indecente.
Enfim, o caso é este e é bastante simples, Senhora Procuradora-Geral:
o Ministério Público brasileiro formulou, em resposta a uma carta
rogatória vinda das autoridades portuguesas, uma suspeita concreta de
financiamento ilegal da campanha do PSD em 2015 por parte da
empresa Odebrecht. Em vários outros países, essa mesma informação
levou a escândalos políticos de enorme repercussão. Aqui, em
Portugal, o Ministério Público decidiu ignorar essa suspeita e parece
apostado em nada investigar.
Pois bem, Senhora Procuradora-Geral, gostaria de ser informado por
que razão isso acontece. Que razões existem para não investigar uma
suspeita tão concreta e tão indiciada.
Apresento os melhores cumprimentos.
(José Sócrates, in Facebook, 10/01/2024)
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