Uma Europa anti-russa é uma Europa que se destrói a si mesma!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 15/02/2024)

A União Europeia diaboliza o país que a salvou do terror nazi-fascista reescrevendo o seu passado, profanando os seus mortos, deturpando o seu pensamento e conspurcando os seus feitos.


Segundo Syrsky, o novo comandante-em-chefe das tropas de Kiev, as vidas dos soldados ucranianos são o mais importante que o exército tem. Uma presunção que só foi assumida quando se tornou óbvio, para todos, que não existe qualquer possibilidade de vitória num combate directo com a Rússia.

Enquanto foi possível alimentar a ideia de que a “Ucrânia estava a ganhar à Rússia”, quando quem tinha a iniciativa – e nunca a perdeu – era, precisamente, a Rússia, as vidas dos soldados ucranianos de pouco valeram. Foram atirados homens – e algumas mulheres – às centenas de milhares, para trincheiras lamacentas, mal alimentados e com munições contadas, contra um oponente, ao qual, nunca faltou nada.

O facto é que, quando as forças ao serviço de Kiev tinham capacidade de combate – não confundir com “capacidade para ganhar” -, a comunicação oficial era a de “a Ucrânia estava a ganhar a guerra”; quando ficou evidente que o custo, de dar combate às forças russas, era tão elevado que não poderia ser mantido, os órgãos pró-Kiev, financiados pelas ONG’s do Tio Sam e fontes primárias da informação oficial ocidental, começaram a dizer “a Ucrânia não pode perder a guerra”; quando já não se podia esconder que a “contra-ofensiva” tinha falhado e com ela, as esperanças – fantasiosas – de uma vitória de Kiev, passámos à fase “Ucrânia e Rússia estão empatadas”.

A realidade ucraniana, sob o regime de Kiev, caracteriza-se por estar sempre em contradição directa com a realidade russa e, coincidentemente, com a realidade concreta observável. Daí que, a relação entre as duas realidades constitua um exemplo dialéctico inestimável e valioso do ponto de vista pedagógico.

Enquanto viveu com a Rússia, a Ucrânia tornou-se uma das maiores potências mundiais. Não existe, nem nunca existiu, uma Ucrânia de sucesso, sem uma Rússia do seu lado. Vladimir Putin não mentiu sobre o facto de a Rússia ter sempre ajudado a Ucrânia. Para os que não sabem, não foi por qualquer tipo de aventureirismo que o Donbass foi anexado à República Socialista Soviética da Ucrânia. Em 1917 a Ucrânia era uma região eminentemente rural e desindustrializada do império russo, daí que, em 1918, para garantir condições de desenvolvimento ao território e, por essa via, um desenvolvimento mais harmonioso do nascente estado soviético, o Donbass passou a integrar a RSSU, como forma de garantir o progresso da pátria recém-formada.

Verdade é que, em 1991, a Ucrânia tinha mais de 50 milhões de habitantes, um dos maiores exércitos da europa (talvez o segundo maior), um complexo militar-industrial invejável, uma população altamente qualificada, talentosa e produtiva, capaz de se revelar em todos os aspectos da vida humana, das artes à ciência, da agricultura ao desporto.

Depois de sobreviver a muitas tensões impostas, a partir do exterior e introduzidas pelos suspeitos de sempre, em 2004-2005, a Revolução Laranja, acelera o processo de criação de uma anti Rússia. A ideia não era nova e já tinha passado pelas cabeças de gente ligada ao Império Austro-Húngaro e não só. Daí que, dessa data em diante, a relação de forças entre povos, russófonos e russófilos, e os povos tornados “russófobos” começou a inverter-se e, paulatinamente, as forças anti Rússia começaram a infectar todo o território, conquistando, progressivamente, novos bastiões, da periferia da Galícia, para o centro de Kiev.

A partir de então, começou a desenhar-se aquela que seria a “solução” importada para preencher a falta de identidade nacional da Ucrânia. Como país que nunca tinha existido até 1918, e apenas totalmente independente, em 1991, para garantir a sua existência, a Ucrânia tinha de criar uma identidade nacional. Coisa nada fácil num país construído a régua e esquadro em sucessivas vagas de anexação. A “escolha” induzida passou por tornar a Ucrânia numa “anti Rússia”. Tudo o que a Rússia seria, a Ucrânia teria de ser ao contrário.

Está bom de ver que essa “escolha” teria de ser induzida, uma vez que, tratando-se de um país com a mesma língua, ou com línguas com a mesma raiz (para os que separam o “Ucraniano” do “Russo”), com a mesma religião, cultura e passado nacional, a escolha natural nunca passaria pelo antagonismo, pois um e outro prosperaram em relação simbiótica. E tal relação foi mutuamente frutífera até ao momento em que a Rússia tudo fez para se livrar do domínio dos EUA, nos terríveis anos 90, e a Ucrânia, tudo fez, para se integrar debaixo da alçada dos EUA, a partir, principalmente, de 2004. A sucessão cronológica não deixa dúvidas: a Rússia livra-se da tutela americana durante o final dos 90’s e inícios dos 2000’s, a Ucrânia abraça-a, a partir de 2004.

Introduzido esse antagonismo através da instalação de um regime cliente dos EUA, primeiro de forma inconstitucional (com a Revolução Laranja) e depois golpista (com o EuroMaidan), tudo o que a Rússia é e luta para ser, a Ucrânia passou a não querer ser, nem que para tal, tivesse de rasgar a própria carne. A sua identidade nacional passou a definir-se pela antagonização directa e frontal do vizinho russo. Se a Rússia é um país orgulhoso da sua história e passado; a Ucrânia passaria a desconsiderar, apagar, reescrever e perseguir todos o que honram a sua história. Este facto é bem visível na tal “descomunização”, a qual, em última instância, só poderia levar à extinção da nação Ucraniana. Tendo sido criada pelos bolcheviques, retirar a identidade “comunista” ao passado ucraniano, significaria – e significou – acabar com a Ucrânia como ela era: multiétnica, cosmopolita, multinacional até (tem muitos cidadãos com dupla nacionalidade russa, húngara ou romena). Se a Rússia abraça a sua história para existir como é; a Ucrânia, comandada pelo regime de Kiev, apaga a sua história, para negar o que verdadeiramente seria.

Se a Federação Russa é um país pluriétnico, plurinacional, orgulhoso dessa diversidade e considerando-a uma vantagem; o regime de Kiev tornaria a Ucrânia num país “purificado”, com uma constituição supremacista, perseguindo os povos que insistem em manter as suas línguas originárias, religião e costumes. O resultado foi uma perseguição a todas as forças políticas da esquerda e centro-esquerda, tidas como pró-russas (que conveniente!!), à religião ortodoxa russa, à língua russa e ao passado histórico, sob o império russo e a URSS. O único que tinha! Tudo o que ligasse a Ucrânia à Rússia, teria, pura e simplesmente, de desaparecer. Como não ver que, tal apagamento só poderia levar à perda de uma parte do território? Para começar? Algum país sobrevive, intacto, a tal antagonismo? Um país se história, que futuro poderá ter?

Se a Rússia não era NATO, nem EU – não por não querer; a Ucrânia teria de ser muito NATO e ainda mais EU. Se a Rússia, tudo o que queria, era estar em paz com os seus vizinhos, para que os negócios pudessem continuar a fluir para oriente e ocidente; a Ucrânia, nascida das entranhas da Galícia, teria de estar em guerra com a Rússia. E estar em guerra com a Rússia, começou por significar “guerra com os povos russófonos e russófilos”. Ou seja, entre falantes de russo e simpatizantes ou tolerantes da presença histórica russa, a Ucrânia, enquanto cliente do ocidente, entrou numa guerra intestina com as suas próprias entranhas, partindo-se em cacos. Como não poderia deixar de ser.

Face à desproporção de forças, sejam elas as forças físicas, como a população, capacidade militar, industrial ou económica, sejam as forças mais espirituais, ligadas à identidade histórica e profundidade da alma patriótica e nacional (a Ucrânia desiste da pouca que tinha), estava bom de ver onde levava esta antagonismo. Se a Rússia era o “ser”; a Ucrânia, comandada pelo regime de Kiev, passou a ser a “antítese”; e qual seria a “síntese” possível? Soubessem os povos da Ucrânia, os que embarcaram neste revisionismo histórico da sua nação, que as “sínteses”, resultantes dos antagonismos dialécticos, resultam, muitas vezes, na eliminação de uma das forças em confronto, e será que aceitariam, de bom grado, tal processo? E tê-lo-ão aceite? Se o tivessem aceitado, digo eu, nem Zelensky teria mentido quando prometeu a paz, nem os EUA teriam necessidade de esconder que boicotaram os acordos de Minsk e o acordo de Istambul, nem agora, Zelensky teria adiado as eleições presidenciais. Resultado, até na sua essência, esta escolha anti Russa é antagónica e contraditória.

Apenas quem andasse absolutamente alienado pelas promessas de Fukuyama, e do seu “fim da história”, é que poderia considerar uma “síntese” que resultasse numa eliminação da Rússia.

Apenas quem não conhecesse a história russa, europeia e os seus aspectos identitários e patrióticos, poderia considerar que, o papel de antagonismo anti Rússia, que Kiev representa, teria forças para eliminar aquele que é um dos três países mais bem armados do mundo.

Mas desengane-se quem pensar que o antagonismo anti-russo apenas poderá levar à eliminação física da Ucrânia, mesmo apenas que parcial. É que a relação União Europeia – Rússia também padece dos mesmos males e potencialidades destrutivas. Neste sentido, até podemos falar da Ucrânia como um alter-ego da União Europeia.

Foi em paz com a URSS – primeiro – e com a Rússia – depois – que a União Europeia nasceu, cresceu e prosperou. Sem essa paz, nunca a União Europeia teria sido capaz de produzir os recursos económicos para se expandir, para mais, à custa do pagamento de “fundos estruturais” a países candidatos e recém aderentes.

Uma União Europeia, em guerra com a Rússia, mesmo que uma guerra fria, levaria a uma existência marcada pelo militarismo, pela tensão, pelo fechamento e pela perda de elasticidade em matéria democrática e de liberdade individual, ou colectiva. O resultado teria sido uma União Europeia em convulsão, sem estado social que pudesse alimentar uma classe “média” que sustentasse os poderosos mercados internos, sob os quais se construiu o seu potencial industrial.

Foi isto que viram os dirigentes alemães (e não só) quando criaram o pipeline Druzba (amizade) e quando, mais tarde, construíram o Yamal. O florescimento das economias europeias, foi feito, em parte substancial, à custa de gás, petróleo, urânio, combustíveis, lubrificantes, minerais e cereais, em quantidade e qualidade, a preços convenientes, fruto de acordos de longa duração. Sem esse “alimento vital” não teria havido eixo franco-alemão que produzisse os recursos necessários à “política de coesão” e “alargamento”. É interessante verificar que este crescimento é produzido numa realidade em que os países bálticos – também ricos e desenvolvidos – mantinham posição neutral com a URSS e, mais tarde, com a Rússia. Posição essa que foi, recentemente, trocada pelo antagonismo frontal.

Assim, podemos também dizer que, enquanto a relação foi simbiótica, todos fruíram, talvez, até, com mais prejuízo para a própria Rússia, a qual foi sempre ficando um pouco para trás, “agarrada” a uma economia de exportação de produtos de baixo valor acrescentado, perdendo o espaço soviético, primeiro, e a sua economia depois, de que viria a recuperar a partir do início do presente século.

E foi, talvez, esta justa vontade de assumir a sua identidade histórica, que produziu, no lado europeu – e especialmente americano – o antagonismo que hoje conhecemos. Se a guerra fria começa com a URSS a demonstrar a sua capacidade de defesa, industrial e tecnológica perante um ocidente cobiçoso do seu território e recursos, o antagonismo anti Russo recria-se, na europa ocidental, a partir do momento em que o país governado com autoridade e inquestionável comando, por Vladimir Putin, começou a mostrar capacidade de recuperação de toda a sua dimensão histórica.

É que, uma vez mais, as forças antagónicas são de tal modo opostas que só poderiam produzir o que hoje constatamos. De um lado, uma vez mais, um país orgulhoso da sua história, um povo que celebra os seus heróis, nos seus defeitos e virtudes; de outro lado, uma União Europeia que se alimenta da soberania e da extinção a alma patriótica dos povos europeus. De um lado, um país que quer ser soberano, independente, autónomo e auto-suficiente, para melhor poder decidir, sem interferências externas – qual ensinamento histórico – o seu futuro; do outro, uma União Europeia dependente dos EUA, que tenta copiar a superficial “cultura” neoliberal do consumismo, que celebra o “fim da história” e reforça a sua identidade através da supressão da identidade cultural, étnica e moral dos povos europeus.

Se a Rússia está orgulhosa da sua história e a celebra em cada oportunidade, tal como a Ucrânia; a União Europeia reescreve a sua própria história, a sua filosofia, a sua identidade. Esta União Europeia diaboliza o país que a salvou do terror nazi-fascista reescrevendo o seu passado, profanando os seus mortos, deturpando o seu pensamento e conspurcando os seus feitos. Em conformidade, a UE coloca, no seu lugar, uma crendice que diz que a URSS também começou a segunda guerra e que o comunismo é igual ao nazismo. E o mais grave é que ensinam tais disparates nas Universidades…. Faz lembrar o tempo em que na Universidade de Salamanca (a mais antiga da Península Ibérica), se ensinava que o mundo era uma placa com antípodas e que, por isso, era impossível viajar para baixo do equador.

Esta reescrita histórica entra também em contradição com uma Rússia que, mesmo capitalista, se afirma como antinazi e antifascista. Ao contrário, a EU, vê florescer partidos neofascistas no seu seio, alimentados, precisamente, pelo antagonismo anti russo, alimentado pelas dificuldades económicas resultantes do afastamento e do revanchismo histórico que culpa a Rússia de ser o que é e de ter perdido mais de vinte milhões dos seus filhos por isso. Ao mesmo tempo, esta EU convive e motiva o apoio a um regime supremacista, suportado por gangues neonazis, em Kiev e para o qual abre as suas fronteiras, contra a vontade dos seus povos. Ao dia de hoje, os agricultores Polacos ameaçam fechar todos os pontos de fronteira com a Ucrânia. A EU anti Russa é também uma europa em guerra consigo própria.

Tal como a Ucrânia, também a EU falhou em perceber quais eram as suas forças e fraquezas. Também a EU falhou em perceber que só existe, por causa da Rússia. Primeiro, contra a “Rússia” (leia-se URSS), como projecto político-ideológico anti-socialista; depois, através de uma relação simbiótica, desfrutando da estabilidade resultante do empate de forças que significava a guerra fria; mais tarde, recolhendo os frutos trazidos pelos ventos de aproximação da Rússia ao ocidente. Como um espaço anti Rússia, a União Europeia falha em perceber o essencial. É que, tal como com a Ucrânia, a forma de resolução do antagonismo, a síntese que resultará do mesmo, acabará, quase certamente, no seu próprio fim. Pelo menos, tal como é hoje. O que não deixará de ser épico!

Uma União Europeia que desconsidera – enquanto projecto globalista neoliberal – as soberanias nacionais, derrotada, precisamente, pela relação antagónica que desenvolve contra um país que prima, sobretudo, por defender a sua soberania nacional! E a NATO que cuide… Também ela partilha, com a EU, a mesma identidade, o mesmo pecado original! Um e outro são filhos do mesmo pai, os EUA, desejosos de violentar a mãe Rússia!

Existe algo mais premonitório e dialéctico do que isto?

Fonte aqui.


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Não há saída para a guerra, portanto continue-se

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/02/2024)

Quando será que nós, os povos outrora informados e livres, abriremos os olhos?


Tucker Carlson, o ex-pivô da Fox News, não é flor que se cheire nem jornalista que se recomende. A sua preanunciada entrevista com Vladimir Putin, “paga a expensas próprias”, não seria nunca um modelo a seguir, mas não deixaria de ser um “furo” por todos invejado e que interpelava a boa e instalada imprensa “liberal” ocidental: afinal de contas, porque é que nenhum deles tinha conseguido um estatuto de isenção suficiente aos olhos do Kremlin para fazer o trabalho que Carlson fez? Não o tendo conseguido, ou não o tendo sequer seriamente tentado, dedicaram-se então a desvalorizar e desacreditar, antes e depois, a entrevista de Tucker Carlson. Foi um tiro nos pés, confirmando aquilo que o próprio entrevistador dissera antes: que a opinião “liberal” não queria que o público tivesse acesso à opinião do outro lado. As duas horas de entrevista tiveram, assim, direito a uma imediata e pré-preparada barragem de críticas, que, no essencial, assentaram nisto: Putin dispusera de uma “plataforma” para exprimir livremente as suas ideias sobre a guerra na Ucrânia, para fazer “passar a sua mensagem” e expor a sua “propaganda” — intolerável.

A mesma imprensa que, quando ouve falar Biden, Sunak, Scholtz, Von der Leyen, Stoltenberg — e, claro, Zelensky — sobre a guerra da Ucrânia, nem por um momento sente que lhes esteja a proporcionar uma “plataforma” para exporem livremente a sua “propaganda” já não acha o mesmo se se tratar de ouvir Vladimir Putin. Porque nós somos os cowboys e ele é o índio.

Mas o que disse, então, o “autocrata” russo, como habitualmente o tratam? Começou por fazer uma longa dissertação sobre a história da Ucrânia, em defesa da sua conhecida tese de que a independência da Ucrânia foi um erro histórico, sem razão de ser. Uma tese revivalista, ultrapassada pela História e, obviamente, incapaz de legitimar a invasão do país. Mas, do ponto de vista russo, tão justificável quanto as razões de Inglaterra para se opor à independência da Escócia ou da Irlanda do Norte, de França para se opor à independência da Córsega ou de Espanha para se opor à da Catalunha. Depois, justificou a invasão com a iminente adesão da Ucrânia à NATO e à luz do constante alargamento da NATO a leste desde 1991, contra­riando todas as garantias dadas à Rússia depois da extinção do Pacto de Varsóvia e da desintegração da URSS. Trata-se de um facto indesmentível, que um simples olhar à evolução dos mapas da NATO em direcção às fronteiras russas e os testemunhos e avisos de vários protagonistas do lado ocidental confirmam. Sobre este ponto, os críticos assanhados da entrevista preferiram manter um conveniente silêncio.

Não há saída para a guerra, portanto continue-se
Ilustração Hugo Pinto

Enfim, e o mais importante: Putin declarou que era absurdo acreditar numa derrota russa e que a guerra só continuava porque o Ocidente não parava de fornecer armas à Ucrânia — ambas afirmações consensuais, independentemente do juízo político que se faça sobre elas. Mas, pela quarta ou quinta vez, declarou-se pronto para negociações de paz, dizendo que, desde o início da guerra, é a Ucrânia que as tem rejeitado sempre. Aqui, Tucker Carlson falhou ao não lhe perguntar em que condições ou com que concessões estaria pronto a negociar. Mas é significativo que, mais uma vez, a declaração de Putin tenha sido acolhida por toda a imprensa e todas as chancelarias ocidentais como se não tivesse existido. Pelo contrário, o discurso do lado de cá permanece inalterável: a Rússia não quer a paz e é preciso continuar a financiar e a armar a Ucrânia, a qualquer custo e sem limite de tempo, pois que, se a Ucrânia cair, outros se seguirão — apesar de Putin também ter dito que a Rússia não tem quaisquer ambições territoriais sobre quaisquer outros países.

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Então vejamos, como tenho lido por aí. No horizonte está o regresso ao poder do louco perigoso Donald Trump, que quer acabar com a NATO e negociar a paz com Putin em 24 horas; sem os americanos, a Ucrânia ficará apenas dependente do apoio europeu, que já não consegue fornecer-lhe o armamento prometido e que, mesmo assim, paga uma factura económica cada vez mais alta pela guerra da Ucrânia e o desvario de Israel; os ucranianos, que ninguém se preocupa em escutar, estão “exauridos” na frente de batalha, sem homens nem munições, e forçados a novas mobilizações militares que dividem a sociedade. E se este é o panorama actual e próximo, o que dizem os bem-pensantes? Que não há alternativa que não seja continuar a guerra e continuar a ajudar a Ucrânia com tudo o que pudermos, para que eles continuem “a lutar por nós” até ao último ucraniano vivo. Tudo o resto — como a luta decisiva contra as alterações climáticas ou contra os populismos desintegradores das democracias — fica em suspenso para depois. Um depois que ninguém é capaz de nos dizer quando e como acontecerá. Percebem agora porque era tão inconveniente ouvir o outro lado e ter de o ouvir dizer outra vez que está pronto para negociar a paz? Quando será que nós, os povos outrora informados e livres, abriremos os olhos?

2 Acontece sempre em épocas eleitorais: uma catrefada de opinadores, todos sem acesso às televisões ou sem visibilidade nelas, põe em causa a utilidade dos debates televisivos entre candidatos ou partidos. Eleição após eleição, repetem-se os argumentos: que o tempo para debater é escasso e não permite discutir nenhum assunto a sério; que se confrontam mais emoções do que razões; que se valoriza mais a forma do que o conteúdo; que o trabalho dos moderadores (cuja dificuldade eles nem imaginam) compromete tudo; enfim, que aquilo nada esclarece e nada acrescenta. Por exclusão de partes, o eleitorado seria antes melhor esclarecido nas arruadas, nos comícios ou através dos programas eleitorais que ninguém lê. Esta cíclica e concertada dor de cotovelo é, porém, amplamente desmentida pelas audiências dos debates, pelas conversas entre todos e pela importância que os participantes lhes dão — para não falar já da memória futura e perene que de alguns deles fica.

Pois eu sigo os debates, todos os que consigo: por dever de ofício e por interesse de cidadania. Eles ajudam-me, desde logo, a fazer um primeiro julgamento sobre quem se apresenta às urnas: um julgamento de comportamento ou até de carácter. Pela forma como os intervenientes se comportam num debate trato de avaliar — para além da preparação, do conhecimento dos assuntos, da seriedade, da combatividade — um primeiro critério de selecção que sempre aplico em teoria: quem é que eu convidaria ou não convidaria para jantar em minha casa. Nestas eleições, esse critério deixaria imediatamente de fora André Ventura — não apenas por ser um demagogo e um aldrabão, características que não suporto à vista, mas por ser alguém sem maneiras à mesa: fala por cima de todos e julga-se acima de todos. Em minha casa tudo menos um salvador da pátria ao assalto de um rebanho de eunucos. De fora ficaria também Inês de Sousa Real, essa aproximação vegetal da Madre Teresa de Calcutá, a quem começaria por não saber o que servir, depois teria de justificar porque não vivo com animais domésticos, excepto no congelador, e, quando me atrevesse a interromper o seu desfiar de um mundo de virtudes sem fim, arriscar-me-ia a ser acusado de grosseria machista. Que os deuses me mantenham a salvo de tanta perfeição e virtude! Paulo Raimundo parece-me um tipo bem simpático para convidar, a quem serviria com gosto uns carapaus alimados de entrada. O problema é que temo que antes de chegar ao prato de substância eu já tivesse adormecido de aborrecimento ao ouvi-lo falar com entusiasmo da modernidade da obra “Problemas Candentes do Nosso Movimento”, de Vladimir Ilitch Ulianov, datado algures de 1908. Mariana Mortágua e Rui Rocha poderiam ser duas pessoas interessantes para convidar, não tanto pela companhia, mas pela discussão de ideias — que me parece mais desafiante do que a personalidade de ambos, em que suspeito qualquer coisa de inflexível, e mesmo ditatorial, debaixo de uma aparente amabilidade. Na Iniciativa Liberal, Tiago Mayan ou João Cotrim eram bem mais cativantes; e no BE conheci igualmente pessoas bem mais abertas e menos dogmáticas, das quais destaco o saudoso João Semedo, um ser humano raro. Com Rui Tavares podia ser um encontro interessante, mas, à cautela, ficaria por um almoço, porque nunca se sabe quanto da conversa com um político um civil consegue aguentar. E, enfim, lá teria de convidar Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro — sem grandes expectativas, confesso. Ao primeiro teria de arranjar um trono onde coubesse todo o seu ego; ao segundo, uma cadeira mais alta, para ele me convencer de que é mesmo candidato a primeiro-ministro. Como trataria de os testar em dificuldades, serviria a Luís Montenegro uma espetada à madeirense e a Pedro Nuno Santos um menu de bordo da TAP, em versão 3,2 mil milhões: duplamente intragável.

Fora de brincadeiras, não sei se este exercício ajuda algum indeciso a escolher como votar em 10 de Março. Mas acreditem que é um bom método para seguir os debates e fazer algumas escolhas prévias. Noutros tempos e noutras circunstâncias, houve alguém altamente colocado na política portuguesa que, estando em posição de o fazer, me perguntou se eu achava que ele deveria indicar fulano para o cargo de primeiro-ministro. E eu, que achava que não, perguntei-lhe: “Você convidá-lo-ia para jantar em sua casa?” Ele ficou a olhar para mim durante uns instantes, com os olhos esbugalhados, e depois disse: “Caramba, a sua resposta é demolidora!” Ao que eu apenas acrescentei: “Não, para mim é simples.”

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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A infantaria da Ucrânia está sem soldados e os que restam estão exaustos

(Oxisdaquestao in Blog Oxisdaquestao, 11/02/2024)

Título de reportagem no Público em 10-02-2024 (ver aqui)

A rapaziada do Público, que passou 2 anos a cantar a vitória iminente do exército nazi de Kiev obtida de todas as formas e feitios, está de bolinha baixa e lacrimosa. 

Não há foto, não há espalhafato na capa: a uma coluna, com 4 centímetros de altura e com um atraso tremendo reconhece a realidade. Mesmo assim é a infantaria, dizem, que está sem mão-de-obra – o exército perdeu muito mais de 500 mil soldados mortos e angariou 1,2 milhão de feridos e estropiados – e a que resta não pode com uma gata pelo rabo.

Por isso Zely muda de general-chefe e passa de um que evitava mortes para outro especializado em derrotas com baixas inomináveis. Bakmut está no seu currículo. E, assim, alguém que lhe fazia sombra é arredado e substituído por um medíocre que vai andar à trela das manias do presidente drogadito e megalómano.

Foi a NATO e os borreis de sempre que o armaram como herói para a propaganda e agora cada vez mais ele faz parte do problema que está montado naquela terra de nazis e de gente destinada a morrer, de verdadeira morte, ou por perder o país para sempre. Coisa, que a malta do Público demora tempos infinitos a admitir, salvo quando a ordem lhe chega da embaixada ou quando o Washington Post o proclama e o New York Times o confirma.

A coisa está em que a Ucrânia já não rende votos para o dorme em pé, que agora foi voltado para Israel e as suas necessidades de sionista. O Público ainda não diz que doravante serão os carneiros da Europa que vão esturricar os seus biliões no país falido e em vias de desaparecer.

Borrell ainda está na fase do que sim, vendo a geopolítica ao nível do chão, das ervas e dos cagalhões que os cães deixam.Borrell, o lacaio de Stoltenberg da NATO, que é o verdadeiro governo de generais da Europa decadente.


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