Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte III

(José Catarino Soares, 13/02/2024)

Oleksiy Arestovych numa das suas intervenções diárias como “terapista-mor” da Ucrânia, antes de ter caído em desgraça, em Janeiro de 2023.

3.3. A recomendação e a profecia de Arestovych em 18 de Fevereiro de 2019

A recomendação de Arestovych foi a de que a presidência de Zelensky (que na altura era apenas um simples candidato a esse cargo e cuja candidatura Arestovych apoiou) deveria pedir à OTAN(/NATO) um “Plano de Acção para a Adesão Individual” (Ingl. “Membership Action Plan”) a esta aliança militar. Esse pedido, frisou Arestovych, não poderia deixar de desencadear como resposta uma invasão da Rússia, razão pela qual a Ucrânia deveria empenhar-se «numa guerra total com a Rússia», como «preço a pagar para a entrada da Ucrânia na OTAN” e, sobretudo, como sua recompensa com “base na vitória” da Ucrânia.

Esta confiança ‒ auto-ilusória e auto-intoxicante, como se viu ‒ na vitória da Ucrânia nessa guerra com a Rússia, decorria, declarou Arestovych nessa entrevista, da certeza de que a Ucrânia seria «muito activamente auxiliada pelo Ocidente — com armas, equipamento, assistência, novas sanções contra a Rússia e, muito possivelmente, a introdução de um contingente da OTAN, a interdição do espaço aéreo da Ucrânia [pela OTAN], etc. Nós não perderemos e isso é bom».

A profecia de Arestovych, que se revelou certeira, foi a de que essa guerra começaria em 2021 ou 2022, quando a Rússia se convencesse de que teria de desmilitarizar (anular o poderio militar) a Ucrânia e neutralizar a potencial ameaça nuclear que a Ucrânia representava [7] antes de esta ser admitida como membro de pleno direito na OTAN e de maneira a impedir que isso acontecesse [8].

(O trecho mais importante da entrevista de Arestovych de 2019 pode ser visto e ouvido, com legendas em Inglês, aqui.

Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de Fevereiro de 2022, até Janeiro de 2023, Arestovych fez pontos de situação diários em vídeo sobre a evolução da guerra, na qualidade de assessor e porta-voz do Gabinete do Presidente da Ucrânia. Esses vídeos, quase sempre ultra-optimistas (“vamos ganhar”, “estamos perto da vitória”, “Putin vai ser afastado”, etc.), juntamente com a certeira profecia de 2019, granjearam-lhe a alcunha de “terapeuta-mor” da Ucrânia (por levantar o moral da sua população, acabrunhada pelas agruras da guerra) e um enorme número de seguidores: cerca de 700 mil no FaceBook, 1 milhão no Instagram e mais de 1,6 milhões no YouTube [9].

Todavia, o aspecto importante a salientar para o propósito deste artigo é o facto de Arestovych ter sido, tal como Oleksandr Chalyi e Davyd Arkhamia, um dos membros da delegação da Ucrânia nas negociações de paz com a Rússia que tiveram lugar na Turquia em Março-Abril de 2022.

4. O testemunho de Chaliy: “Putin fez tudo para conseguir um acordo”

O outro ponto a salientar ‒ e bem mais importante para o propósito deste artigo ‒ é que os testemunhos de Davyd Arakhamia e Gehrard Schröeder (eles próprios antecedidos pelo testemunho de Naftali Bennett, ex-primeiro ministro de Israel em 4 de Fevereiro de 2023) foram corroborados pelos recentes testemunhos de Oleksandr Chaliy e Oleskiy Arestovich.

Numa conferência realizada na Suíça, em 5 de Dezembro de 2023, pelo Geneva Centre for Security Policy (GCSP), o embaixador Chaliy afirmou:

«Eu fazia parte, nesse momento, do grupo de negociadores ucranianos que negociámos com a delegação russa praticamente durante 2 meses, em Março e Abril [de 2022], um possível acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Como se lembrarão, nós finalizámos o chamado “Comunicado [=Acordo] de Istambul” e estávamos muito perto, no meio de Abril e no fim de Abril [é evidente que se trata, aqui, de um lapso verbal do embaixador Chaliy, que teria querido dizer “no meio de Março e no fim de Março,” n.e.], de alcançar o nosso objectivo de celebrar um acordo de paz. Por alguma razão, o acordo foi revogado. Mas, no meu entendimento ‒ esta é a minha opinião pessoal ‒ Putin, uma semana depois de ter iniciado a sua agressão em 24 de Fevereiro do ano passado, rapidamente compreendeu que tinha cometido um erro [ao fazê-lo] e tratou de tentar tudo o que era possível para concluir um acordo com a Ucrânia. Foi uma decisão pessoal dele aceitar o texto do comunicado de Istambul, que se afasta completamente da proposta inicial, do ultimato que a Rússia apresentou à delegação da Ucrânia em Minsk. Por conseguinte, ele conseguiu realizar um compromisso muito sério e, portanto, Putin quis realmente chegar um acordo de paz com a Ucrânia. É muito importante lembrá-lo» [o destaque, por meio de negrito, foi acrescentado ao original, n.e.] [n.e. = nota editorial]

(O depoimento de Chaliy pode ser visto e ouvido, em Inglês, aqui. O trecho citado começa no momento 28m13s e termina no momento 29m39s).

5. As incompreensões, erros e omissões do embaixador Chaliy

O embaixador Chaliy parece incapaz de compreender (ou sequer admitir como hipótese plausível) que a denominada “operação militar especial” (OME) da Rússia em 24 de Fevereiro de 2022 se destinava, num primeiro tempo, não a tomar Quiev (como fantasiosamente alvitram tantos comentadores de meia-tijela), mas a levar a Ucrânia rapidamente à mesa das negociações. No entanto, foi isso exactamente o que aconteceu.

No dia seguinte à entrada das tropas russas na Ucrânia, Zelensky (e não Putin, como sugere Chaliy) propôs negociações com a Rússia, que foram aceites. A primeira reunião foi realizada quatro dias após o início da OME, em 28 de Fevereiro de 2022, na cidade de Gomel, na Bielorrússia. Terminou sem resultado, com as delegações de ambos os lados regressando às suas capitais para consultas. A segunda e terceira rondas de negociações ocorreram em 3 e 7 de Março de 2022, em Brest, outra cidade da Bielorrússia perto da fronteira com a Ucrânia. A quarta e quinta rondas de negociações foram realizadas em 10 de Março, em Antália, na Turquia, e em 12 de Março por videoconferência. A sexta ronda ocorreu em 29-30 de Março, em Istambul, prolongando-se pelos dias seguintes de Abril, desta vez com os resultados relatados por Arakhamia e Schröeder.

Mas não podemos de modo nenhum escamotear o que viemos a saber em 4 de Fevereiro de 2023 (pela boca de Naftali Bennett). É um assunto sobre o qual o embaixador Chaliy não diz uma palavra, a saber: logo na primeira semana de Março de 2023, Naftali Bennett (na altura, primeiro-ministro de Israel) foi contactado por Zelensky, que lhe pediu para mediar um acordo entre a Ucrânia e a Rússia. Bennett aceitou o pedido e conseguiu realizá-lo com êxito. Em 4 de Março, Bennett encontra-se com Putin em Moscovo e negoceia com ele um acordo. Nesse acordo, Putin garantia que não tinha quaisquer planos para assassinar ou derrubar Zelensky do poder (um receio que Zelensky expressou publicamente em 24 de Fevereiro de 2022 e que Bennett transmitiu a Putin) e deixava cair a exigência de “desmilitarização” da Ucrânia. Por seu turno, Zelensky comprometia-se a adoptar um estatuto de neutralidade militar para a Ucrânia, em que esta renunciava concomitantemente ao objectivo de entrar na OTAN [10]. Por conseguinte, a terceira, quarta e quinta rondas de negociações decorreram já sob o signo desse acordo preliminar entre os dois Presidentes. 

O embaixador Chaliy afirma que o acordo entre a Ucrânia e a Rússia «foi revogado por alguma razão». Só não diz por quem (Zelensky!), nem qual a razão: a interferência directa e avassaladora do “Ocidente”, mais concretamente ‒ como revelaram Bennett, Arakhamia e Schröeder ‒ dos EUA, Reino Unido (com Boris Johnson no papel de deus Mercúrio), a Alemanha e França. Não obstante, e esse é o ponto importante do seu depoimento, Chaliy faz questão de frisar que Putin fez tudo o que era possível para que esse acordo fosse feito.

6. O testemunho de Arestovych: “o acordo era tão bom que abrimos uma garrafa de champanhe”

O segundo testemunho é de Arestovych, numa entrevista datada de 15 de Janeiro de 2024, e vai no mesmo sentido.

Arestovych: Sim, fui membro do processo de Istambul e foi o acordo mais proveitoso que podíamos ter feito. /…/ Mas agora — não sei. Porque a meio do acordo em Istambul viemos para Quieve e depois de Bucha ouvimos o Presidente [Zelensky] dizer que tínhamos parado as negociações. A próxima reunião deveria ter lugar no dia 9 de Abril e foi recusada no dia 2 de Abril.

Entrevistador: Então o senhor regressou de Istambul pensando que as negociações tinham sido bem sucedidas?

Arestovych: Sim, completamente. Abrimos uma garrafa de champanhe. Tínhamos discutido a desmilitarização, a desnazificação, questões relativas à língua russa, à igreja russa e muito mais. Nesse mês,

a questão do número de forças armadas ucranianas em tempo de paz foi discutida e o Presidente Zelenskyy disse: «Posso decidir esta questão indirectamente com o Sr. Putin». Os acordos de Istambul eram um protocolo de intenções e estavam 90% preparados para um encontro directo com Putin. Esse seria o passo seguinte das negociações.

Entrevistador: Qual foi a sequência e como é que Bucha fez descarrilar esse processo?

Arestovych: De facto, não sei. O Presidente ficou chocado com Bucha. Todos nós ficámos chocados com Bucha. Eu estava em Bucha no segundo dia, quando as forças russas foram repelidas. Zelensky mudou completamente de cara quando chegou a Bucha e viu o que tinha acontecido. Muitas pessoas dizem que foi o Primeiro-Ministro Boris Johnson que veio a Quieve e pôs fim às negociações com a Rússia. Não sei exactamente se isso é verdade ou mentira. Ele foi a Quieve, mas ninguém sabe do que falaram, excepto, penso eu, Zelensky e o próprio Boris Johnson. Penso que foi no dia 2 de Abril, e eu estava em Bucha no dia seguinte. O Presidente chegou um dia depois, por isso pode ter sido no dia 4 de Abril, e a reunião seguinte seria no dia 9 de Abril. Portanto, alguma coisa aconteceu nesses cinco dias. Mas os membros do grupo de negociações interromperam todas as negociações. Quando perguntámos como poderiam ser retomadas, o Presidente disse: “Algures, um dia, mas não agora”.

Entrevistador: Então, alguma coisa fez Zelensky mudar de ideias?

Arestovych: Sim, absolutamente. E os historiadores terão de encontrar uma resposta para o que aconteceu.

Entrevistador: Mas acha que a Rússia foi sincera? Ter-se-ia mantido fiel a esse acordo negociado?

Arestovych: Os russos mostraram-se disponíveis para continuar as negociações e nós recusámos. /…/ [11] [destaque, por meio de negrito, acrescentado ao original, n.e.].

(A entrevista de Arestovych pode ser vista e ouvida, em Inglês, aqui. O trecho citado começa no momento 35m34s e termina no momento 41m30s).

[continua]


Notas e Referências

[7] Em 15 de Abril de 2021, Andriy Melnyk, embaixador da Ucrânia na Alemanha, anunciou a intenção da Ucrânia de se dotar de armas nucleares, caso não fosse integrada na OTAN a breve trecho. «Ou fazemos parte de uma aliança como a OTAN e damos o nosso contributo para reforçar esta Europa, ou só temos uma opção: rearmarmo-nos. De que outra forma poderíamos garantir a nossa defesa?», disse Melnyk, citado pela agência noticiosa alemã DPA (cf. “Ukraine may seek nuclear weapons if left out of NATO”, Aljazeera, 16 April 2021; “Ukraine Gave Up a Giant Nuclear Arsenal 30 Years Ago. Today There Are Regrets”. New York Times, February 5, 2022). Em 19 de Fevereiro de 2022, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, discursando na Conferência sobre Política de Segurança de Munique, reafirmou a intenção da Ucrânia de se dotar de armas nucleares e de renunciar assim, na mesma passada, ao estatuto de neutralidade militar que a Ucrânia aceitara ao subscrever o “Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança” (1994) e que tinha cumprido até então. Zelensky declarou que esse memorando estava obsoleto (cf. “Zelensky’s full speech at Munich Security Conference”. The Kyiv Independent, February 19, 2022).

[8] Para a boa compreensão desta profecia de Arestovych, convém recordar dois factos: um sobre a preparação da Ucrânia para uma grande guerra com a Rússia ‒ adiante referido como A ‒ e outro sobre o momento propício para o começo dessa guerra, adiante referido como B

A) Com o auxílio de instrutores e conselheiros militares da OTAN (/NATO) e de oito dos seus Estados-membros (com destaque para os EUA, o Canadá e o Reino Unido), foram treinados 10.000 soldados ucranianos por ano, durante oito anos, a partir de 2014, num centro de treino de 288 km2 em Yavoriv, a 16 km da fronteira polaca (“The Secret of Ukraine’s Military Success: Years of NATO Training.” Wall Street Journal, April 13, 2022). Em 24 de Março de 2021, Zelensky promulga o decreto n.º 117/21 que define o objectivo e a estratégia para reanexar a Crimeia (incluindo Sebastopol), uma república autónoma (e uma cidade federal) da Federação Russa.

B) O artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, base da OTAN (/NATO), diz o seguinte: «As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou colectiva, reconhecido pelo artigo 51.° da Carta das Nações Unidas, prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a acção que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte».

Como declarou na sua famosa entrevista de 2019, Arestovych entendia que a Ucrânia e a Rússia tinham uma avaliação coincidente (embora por razões distintas) do momento propício para começar uma guerra entre ambas. Para a Ucrânia, esse momento seria necessariamente ANTES da sua admissão na OTAN, precisamente porque esse seria o preço a pagar pela sua admissão na OTAN, a qual, por sua vez, seria a recompensa que a Ucrânia teria se alcançasse uma vitória sobre a Rússia. Para a Rússia, esse momento seria também, necessariamente, antes da admissão da Ucrânia na OTAN, porque se fosse depois dessa data, a Ucrânia poderia invocar o artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte a fim de assegurar a sua defesa. A entrevista completa de Arestovych, com legendas em Inglês, pode ser vista aqui [https://www.youtube.com/watch?v =1xNHmHp ERH8]. O trecho mais relevante começa no momento 7m15segundos.

[9] Estes números variam segundo a fonte consultada: “Olekseiy Arestovych”, Wikipedia em Inglês; Dmytro Oliinyk, “Zelenskyi’s spokesperson: soldier, actor, psychologist, propagandist.” OpenDemocracy, 26 April 2022; Emmanuel Grynszpan, “Who is Oleksiy Arestovych, the ‘shrink’ raising Ukrainian morale?” Le Monde, 23 Septembre 2022. Optei pelos valores máximos de cada uma delas. Sobre a alcunha de “terapeuta-mor” atribuída a Arestovych, ver Konstantin Skorkin, “The rise and fall of Ukraine’s ‘therapist-in-chief’: Zelensky adviser Oleksiy Arestovych is out of a job, but likely not for long”. Meduza, January 20, 2023.

[10] Ver “Bennett speaks out” [https://www.youtube.com/watch?v=qK9tLDeWBzs]. O trecho interessante para o assunto deste artigo vai do momento 2h31m22s até ao momento 3h00m39s, em que Bennett descreve o acordo entre Putin e Zelensky feito com a sua mediação, e como os EUA, o Reino Unido, a França e a Alemanha impediram que fosse por diante.

[11] Freddie Sayers, “Oleksiy Arestovych: Zelenskyy’s challenger.” Unherd, January 15, 2024.


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A extrema-direita faz parte do sistema — não se assustem!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/02/2024)

As campanhas eleitorais que se estão a desenvolver em vários países europeus têm um tema central que as máquinas de propaganda se encarregam de dramatizar até ao limite, a bem das audiências e do entorpecimento dos cidadãos em geral: a extrema-direita entra nas contas para os governos ditos democráticos e é um perigo para a democracia ou não?

A questão lembra-me as sessões de luta-livre americana, em que há sempre um vilão e os resultados estão decididos à partida. Todos, os lutadores, o árbitro e os empresários, os locutores e comentadores, os treinadores fazem parte do espetáculo. Os jogos que as televisões portuguesas têm apresentado em direto são programas de entretenimento e adormecimento: fazem de conta que existe um mau da fita e que este coloca em perigo a liberdade de decisão dos cidadãos e a sua intervenção nas decisões tomadas em seu nome. O mau da fita representa o seu papel de arruaceiro e o público assobia, ou aplaude.

O jornal El País publicou a 10 de fevereiro um texto de Andréa Rizzi, editor de assuntos globais sobre as “democracias cativas das minorias”. O artigo tem interesse por ser um exemplo da pasta de hambúrguer que é hoje em dia o recheio do pensamento dominante dos dirigentes europeus e dos fazedores de opinião europeia sobre o conceito de “democracia”.

O autor tem um bem guarnecido currículo europeu. Editor-chefe da secção Internacional e vice-diretor da secção de Opinião do El País, licenciado em Direito (La Sapienza, Roma), mestre em Jornalismo e em Direito da UE. Está, pois, habilitadíssimo a promover a falácia sobre a democracia que trouxe a Europa até ao impasse em que vive e da qual não sairá porque está em morte cerebral. Tal como os políticos europeus, o jornalista tem um pensamento redondo e liso sobre o regime que os poderes dominantes impuseram como sendo o padrão de democracia e que conduz à frase resumo dos populistas: eles são todos iguais. De facto, se não são, são ramos do mesmo tronco.

Andréa Rizzi escreve sobre os inimigos que ameaçam a democracia “a incapacidade de construir políticas de Estado sobre questões básicas permite que grupos minoritários em posições influentes obtenham enormes retornos e que os regimes autoritários observam com alegria esta fraqueza das democracias polarizadas.”

Não sei o que seja uma democracia polarizada, mas sei que se os atuais dirigentes europeus são incapazes de construir políticas, isto é, dar respostas a problemas da vida em sociedade sobre questões básicas, é natural que surjam alternativas. A questão é, pois, de aptidão e competência para definir políticas e realizá-las. Os inimigos da democracia são os que corrompem por dentro o seu princípio matricial, a participação dos cidadãos.

O autor, como está na moda, reduz o essencial do conceito de democracia ao voto em representantes. É uma redução deliberada e falaciosa. É a corrupção do conceito de democracia que os grupos dominantes promovem através da comunicação social, porque lhes permite validar o seu domínio com a “vontade popular”. É pura manipulação, que tem fundamentos teóricos — leia-se Capitalismo, Socialismo, Democracia, um livro do economista austríaco Joseph A. Schumpter (basta ir ao Google) — para ficar a saber como o autor (muito respeitado) restringiu a democracia a um mero arranjo organizacional de seleção de elites que competem entre si pelo voto do povo através de uma disputa eleitoral que lhes permite legitimar as suas decisões. É o que se chama uma conceção “procedimental” e minimalista da democracia, mas é a conceção em vigor e consolidada.

Dentro destas baias, que são a Bíblia das elites ocidentais, Andréa Rizzi considera que o “protesto dos tratores que está a abalar vários cantos da Europa põe em evidência problemas importantes das democracias, cujos equilíbrios de poder e mecanismos de funcionamento são muitas vezes tão frágeis que a ação determinada de uma minoria numa posição estratégica é suficiente para provocar reações políticas transcendentais”. A estabilidade é o bem supremo a ser garantido a todo o custo pela “democracia”. Não se mudam os sapatos, há, sim, que adaptar os pés! Na realidade o que os protestos, mesmo que sejam de uma minoria, evidenciam é o resultado de uma política, entendida como a aplicação de uma ideologia a uma sociedade, em que os cidadãos nada de fundamental decidem. Em que o essencial dos interesses está definido à partida, é imutável e assenta em dois pilares: a propaganda e a finança.

O protesto dos agricultores tem as mesmas causas do protesto dos candidatos a comprar casa, dos doentes à espera de consulta, dos reformados a propósito das pensões, dos motoristas de camiões, dos polícias, dos médicos e enfermeiros do SNS. Tem uma origem conhecida e escamoteada pela propaganda (informação é coisa que não existe): a ditadura da finança. O Banco central Europeu, essa democrática instituição, empresta dinheiro apenas aos bancos a 2% de juros, estes emprestam dinheiro aos que querem abrir um negócio, comprar uma casa, adquirir um bem, a 8% (os valores serão mais ou menos estes). O agricultor vende um quilo de um produto a um valor X a uma empresa de grande distribuição, que o vende ao público a 5X e mantem o diferencial no banco a render a 90 dias. O banco empresta esse dinheiro a 8X. Pessoal dos serviços nacionais de saúde protestam em toda a Europa porque a sua falência proporciona o desenvolvimento dos negócios da medicina privada, geradora de investimentos da banca e de avultados lucros. Não há votos que legitimem esta ditadura. Mas este regime é apresentado como essencialmente democrático e o que o ameaça, segundo o pensamento dominante, é a extrema-direita! Não é. É a usura, um velho termo caído em desuso que nenhum partido do “arco da governação”, e muito menos a extrema-direita, aqui em Portugal o Chega e a Iniciativa Liberal, a versão hard e a versão soft do neoliberalismo, prevê eliminar ou limitar.

O editorialista do EL País reconhece que “o protesto agrário é notável como mobilização e que esta, infelizmente, é instrumentalizada pela direita, mas como já conseguiu um forte impacto no debate político, as instituições de Bruxelas farão concessões”. Pois farão, como sempre fazem, como o farão com a habitação, ou com a saúde, mas não farão concessões em nome da democracia, nem para satisfazer uma justa pretensão, mas porque são máquinas de girar e centrifugar o dinheiro que proporciona lucros e poder às oligarquias financeiras e atirar dinheiro para a multidão faz parte das receitas vindas da antiguidade de os nobres o lançarem mãos cheias de moedas àqueles cujos protestos causam maior impacto. Os subsídios aos agricultores acabarão por ir parar à banca, através da inflação que provocam (as empresas de distribuição e a banca jamais abdicarão das suas percentagens de lucro), e o mesmo acontece com a habitação, os subsídios à compra de casa cujos juros os “liberais” propõem que sejam pagos pelo governos, ficando o Estado a subsidiá-los a bem dos lucros da banca e da “financiarização” da política, da sujeição da política à finança. O jogo de protestos e negociações está viciado à partida e não é de democracia que se trata.

A direita aproveita-se dessa causa? Perguntem à direita se tem um programa financeiro alternativo ao sistema bancário cujo vértice é o FED (o banco central dos EUA), a que se juntam o Banco Mundial e o FMI, ou à bolsa de Wall Street. No debate entre o Raimundo do PCP e o Ventura do Chega, este demagogo perguntou a Raimundo se ele era contra o Euro. Não sendo o Euro o fundo questão, o que acontece que o BCE é, porque o emite a um dado valor que contempla os interesses dos usurários (dos banqueiros e financeiros) contra o dos cidadãos.

O perigo do crescendo da extrema-direita que o editorialista refere, sem nunca explicar o que materializa o perigo, é o de ela introduzir uma violência descontrolada que perturbe a velocidade mais conveniente ao dínamo do sistema financeiro, uma velocidade que este determina através dos governos e dos partidos políticos tradicionais.

A manutenção da extrema-direita europeia no limbo em que ainda se encontra resulta da avaliação da sua utilidade que os grandes grupos financeiros fazem, pois são eles que a financiam, como financiam os partidos tradicionais: É mais vantajoso ter perto do poder uma extrema-direita xenófoba que provoque a rejeição de emigrantes, com o consequente aumento do custo da hora de trabalho e a obrigação dos europeus realizarem tarefas pesadas, sujas e mal pagas, ou mantê-la afastada de forma a garantir uma reserva de mão-de-obra através da emigração? Quando é que a extrema-direita deve ser utilizada para promover agitação social (greves de médicos e enfermeiros, de motoristas, de polícias, de agricultores, juízes e procuradores) que passem a ser mais vantajosas do que investimentos na construção civil, na exploração de matérias-primas, na hotelaria ou turismo? A aproximação da extrema-direita do poder resulta da análise que os seus investidores fazem da sua utilidade na realização das suas estratégias e não do seu perigo.

Adianta o comentador do El País “que na história recente da Europa há vários casos de meia dúzia de assentos parlamentares que exercem uma influência absurda, ou de setores muito minoritários que, por uma razão ou outra, têm uma capacidade de pressão exorbitante.” E mais: “Isto é democracia, dir-se-á.” Pois é, digo eu, e também: o que não é democracia é a política (e a democracia) ser determinada por meia dúzia de assentos não parlamentares, ocupados por desconhecidos sentados em cadeiras ergonómicas à volta de mesas de tampo brilhante, em salões insonorizados no topo de arranhas céus, ou em bunkers isolados das vistas e dos ouvidos dos cidadãos, onde têm lugar os governadores dos bancos centrais, que ninguém elegeu, ou os membros da elite dos clubes financeiros, do tipo Bieldberg, ou os mágicos manipuladores dos centros de estudos, os think tanks de grandes fundações que têm multimilionários como patrocinadores, ou os administradores dos grandes fundos de investimentos que dominam as bolsas de valores. A democracia é evitar a tirania dos que nos determinam o valor do dinheiro que temos e recebemos, o quanto podemos comprar com ele, quanto temos de pagar por uma casa, por um quilo de batatas, por um litro de azeite, por uma semana de férias, por uma operação cirúrgica, por um medicamento, um livro, ou um casaco. E, dado que o artigo também refere a guerra na Ucrânia, democracia é ter direito a saber as causas e poder intervir na decisão de a Europa meter a cabeça no laço que a estrangulará.

Considera o autor, como muitos comentadores de largo espetro televisivo que nos Estados Unidos o desbloqueamento da ajuda à Ucrânia se transformou numa provação devido à mera “politiquice” entre Democratas e Republicanos. É não perceber (ou não querer que os outros percebam) nada dos americanos: os oligarcas que governam os Estados Unidos desde a fundação — os “gloriosos foundig fathers” — agiram sempre e apenas de acordo com os seus interesses, o impasse não é politiquice, é conflito de interesses entre grupos oligárquicos, não existe nenhuma disfunção no topo de política dos EUA, o que menos incomoda os políticos americanos é o direito, a razão, ou o interesse dos outros. E o mesmo se diga da questão do genocídio dos palestinianos. O que interessa aos EUA é manter o domínio no Medio Oriente através de Israel sem ultrapassar o limite em que surjam acusados de cumplicidade por outros atores políticos importantes, de ponderar quando as vantagens do apoio ao massacre passam a ser menores do que os inconvenientes. Pura análise de vantagens e inconvenientes. A observação da atitude das democracias europeias perante a guerra na Ucrânia e o genocídio na Palestina expõe o conceito em vigor de democracia europeia: os cidadãos podem reclamar (não muito alto), mas a política europeia em nada se alterará. Atirar dinheiro para calar reivindicações, sim, é democrático, considerar as vozes que questionam as decisões fundamentais não é!

A ação das minorias não é contra a democracia, é o resultado de políticas decididas sem intervenção dos instrumentos da democracia: a consulta e a participação.

A fraqueza das denominadas democracias europeias do pós Segunda Guerra não está na maldade dos americanos, dos russos, dos chineses, ou dos guerrilheiros que disparam sobre os barcos que se dirigem ao canal do Suez, está no regime de ditadura financeira, no servilismo dos dirigentes europeus aos interesses da finança, na negação dos valores que a Europa do pós-guerra foi considerando seus depois de séculos de colonização e de colonialismo de imposição de um poder baseado na força e na convicção da superioridade cultural.

A decadência das democracias europeias tem hoje um centro interpretativo, com figuras e cenas ao vivo — tipo sex shop — em Israel. A Europa pode rever-se hoje nesse espelho. O nazismo nasceu da fraqueza dos que se diziam democratas e afinal eram obedientes funcionários públicos, como declararam no tribunal de Nuremberga.

Por fim a questão exemplar da agricultura europeia e da política da União Europeia. De acordo com o Eurosat, em 2019 o setor agrícola ocupava 9,5 milhões de europeus e 3,8 milhões na produção alimentar, a agricultura contribuía com 1,3% do PIB europeu.

A UE atribuiu ao conjunto de 27 países 38,2 mil milhões de euros à política agrícola, 13,8 mil milhões para desenvolvimento rural e 2,4 mil milhões ao mercado de produtos agrícolas. No total 54, 4 mil milhões. Há pouco, a mesma UE atribuiu 50 mil milhões à Ucrânia. Em conclusão: Os agricultores são uns chatos antidemocratas e os ucranianos chefiados por Zelenski uns democratas de primeira apanha!

Os vários protestos que ocorrem na Europa podem estar a ser conduzidos pela extrema-direita, mas a extrema-direita apenas está a geri-los em nome de outros interesses. Nunca colocou em causa o poder do BCE, nem as guerras em que a Europa se envolveu seguindo os EUA no Iraque, na Síria, no Afeganistão, no Kosovo, na Ucrânia e na Palestina, nunca colocou em causa os muros no México, nem em Gaza, nem as despesas colossais com o rearmamento da Europa, nem a inevitável desindustrialização da Europa causada pelo aumento do preço da energia devido às sanções à Rússia, sobre as quais os cidadãos europeus não foram, democraticamente, chamados a discutir. A extrema-direita faz parte de um “sistema” em que “democracia” passou a ser uma palavra sem sentido, em que o rótulo não corresponde ao conteúdo.

Estas “imparidades” pagam-se caro. A solução habitual para resolver os grandes impasses é uma grande guerra de destruição de bens materiais e humanos. O discurso da guerra já está na ordem do dia nos dirigentes europeus e não é por acaso que falam sempre de armas nucleares. A extrema-direita também não ameaça esta solução, apoia-a. Faz parte da NATO.

Deixo o link para o artigo do El País aqui.

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Privatização da ANA: um assalto em curso

(Manuel Gouveia, in Resistir, 13/02/2024)

(Então o Ventura e o Montenegro (esses “grandes lutadores” contra a corrupção), não dizem nada?! O Montenegro tem que prestar vassalagem a José Luís Arnaut, o homem de mão do PSD para a execução deste roubo a céu aberto, que ainda hoje é administrador da ANA aeroportos (os favores pagam-se). E, já agora, ninguém traz este escândalo para os debates com o Montenegro – o Pedro Nuno Santos, por exemplo -, ou será que o PS também tem o rabo trilhado?

Estátua de Sal, 13/02/2024)


O Tribunal de Contas demonstra como mais de 20 mil milhões foram desviados do erário público para os bolsos dos acionistas da Vinci. Sim, vinte mil milhões. De euros. O suficiente para construir DUAS linhas de Alta Velocidade Lisboa Porto, mais DOIS Aeroportos Internacionais, mais a TTT Lisboa-Barreiro e ainda salvar outra vez a TAP….

Ler artigo completo aqui.


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