A glorificação da miséria como projeto político

(Luis Rocha, in Facebook, 26/01/2026)


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Olhei para Davos e tive de rir. Milhares de jactos privados alinhados para mais um congresso do World Economic Forum, onde se discute tudo o que fica bem nas fotografias oficiais e nada do que realmente interessa. Fala-se de inovação, de sustentabilidade, de futuro. Não se fala de desigualdade económica extrema, de taxação das fortunas obscenas, nem do elefante suíço na sala. Os paraísos fiscais.

 O capitalismo moderno não ignora o problema, limita-se a fingir que não sabe de onde ele vem.

Os números são públicos, verificados e moralmente pornográficos. Doze indivíduos concentram hoje mais riqueza do que cerca de quatro mil milhões de pessoas. Não é exagero retórico, não é linguagem inflamada, é aritmética. Quando um sistema produz este resultado de forma consistente, não estamos perante um erro. Estamos perante um modelo que cumpre exactamente o seu objectivo.

Esse modelo chama-se neoliberalismo. Vende liberdade e entrega dependência. Promete mérito e institucionaliza heranças. Fala de eficiência enquanto suga o valor do trabalho para o entregar ao capital. O seu mecanismo central é simples. Baixar impostos a quem mais tem, reduzir o Estado à sua expressão mínima e deslocar o peso fiscal para quem vive do salário e do consumo. O resto é decoração ideológica.

Em Portugal, esta lógica tem representantes entusiasmados, como o Coiso daquele partido de gente parva, que transformou a política fiscal num espectáculo de demagogia agressiva. Sempre que fala de impostos, fá-lo como se estivesse a libertar o povo de uma opressão imaginária. O seu discurso é linear, menos progressividade, menos redistribuição, menos Estado. O efeito real dessas propostas é igualmente linear, mais vantagem estrutural para grandes patrimónios, menos capacidade do Estado para corrigir desigualdades, e um terreno fértil para a evasão fiscal legal e moralmente legitimada. Não é preciso ensinar ninguém a fugir aos impostos quando se cria um sistema que praticamente pede desculpa por existir.

O mais fascinante e aqui entra a sátira que a realidade exige, é observar gente pobre a bater palmas a este programa. Pessoas que vivem do salário mínimo, de pensões curtas, de empregos precários, a votar com entusiasmo em quem defende políticas desenhadas para beneficiar quem nunca verá um centro de saúde sem seguro privado. Não é ignorância pura, é uma mistura tóxica de ressentimento mal direccionado, propaganda eficaz e uma fé quase religiosa na ideia de que um dia, por milagre estatístico, também farão parte do topo.

Cotrim de Figueiredo, com ar extremista mais asseado e discurso tecnocrático, representa o mesmo projecto com menos ruído. O seu orgulho neoliberal é quase comovente. Fala da desigualdade como um efeito secundário aceitável, da redistribuição como um obstáculo e do mercado como entidade moralmente neutra. A sua utopia é uma sociedade onde quem tem muito merece tudo e quem tem pouco merece uma palestra sobre esforço individual. É a desigualdade transformada em virtude cívica.

O resultado destas visões combinadas é conhecido. Os impostos indirectos aumentam. Os salários ficam para trás. Os serviços públicos degradam-se. A concentração de riqueza acelera. E, ainda assim, há quem continue a votar nisto com a convicção de quem acredita estar a dar uma lição aos “outros”, mesmo que esses outros sejam tão pobres quanto eles.

O que vejo não é apenas um erro político, é um fenómeno psicológico colectivo. A glorificação da miséria como sinal de virtude. Sofrer passa a ser prova de carácter. Defender ricos passa a ser sinal de inteligência. Questionar a desigualdade passa a ser inveja. É um truque antigo, agora partilhado em posts cheios de erros ortográficos.

Quando constato que doze pessoas têm mais riqueza do que metade da humanidade, e que há quem defenda com fervor as políticas que tornam isso possível, não vejo falta de dados. Vejo uma escolha consciente de submissão. Um voto dado contra o próprio interesse, embalado pela fantasia de que o problema nunca está em cima, está sempre ao lado ou em baixo. Em português corrente, cretinice.

No entanto, Davos continuará a existir, e os jactos continuarão a aterrar.

E por cá continuarão a haver pobres a arrotar como se fossem ricos.

Nada que a telenovela, o Big Brother e a música pimba não resolvam.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.oxfam.org.uk/…/oxfams-global-inequality…

https://www.dn.pt/…/riqueza-de-12-maiores-milionarios…

Chega…

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/01/2026)


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Eu sabia que os militantes do Chega eram incapazes de pensar, mas não imaginei que soubessem ler, apesar da obstinação com que escrevem no meu mural do Facebook.

Nunca conseguiram atingir-me com maiores danos do que os que infligem à gramática e à urbanidade, mas admiro o esforço para superar o ídolo na indelicadeza e boçalidade.

Tolero-os. Sei que não distinguem a democracia da ditadura, a sanidade da demência o civismo da selvajaria. Porque nunca tiveram voz, admiram o seu Profeta, porque grita, e confundem os seus grunhidos com vozes do Além.

Como democrata respeito os antidemocratas e como ateu defendo os crentes, e o Chega não é um partido, é uma seita que crê no Profeta e na virtude dos exorcismos. O líder não é um portador de ideias, é o vendedor de sonhos cuja presença é uma aparição que extasia e excita os peregrinos que o seguem. Ele próprio se considera o 4.º Pastorinho de Fátima, julgando ser a reencarnação do cónego Formigão.

Sei que os devotos sonham com o “nosso Ultramar infelizmente perdido” e se oferecem para reverter a descolonização oferecendo-se para envergarem um camuflado e partirem para a Cruzada que restaure a Fé e o Império.

Quando o Pastorinho anuncia que vai só, por ser o único no lado certo do caminho, não veem que todos os outros vêm pelo mesmo lado em sentido contrário, julgando que vêm contra ele, ele que sonha atropelar todos os outros.

O Pastorinho impede os outros de falar, e queixa-se de que o silenciam. Só nesta última semana deu quatro entrevistas exclusivas às televisões, foi citado em todos os jornais e ouvido em todas as emissoras de rádio, e os devotos acreditam, enquanto os agnósticos hesitam em abrir o frigorífico ou o micro-ondas com medo de vê-lo aparecer.

O que une os seus fiéis é a fé inabalável, a crença na redenção à custa da abdicação do raciocínio, a esperança de indulgências nas peregrinações em que o acompanham. Nas Caldas até lhe emprestaram uma bicicleta acreditando que soubesse pedalar.

Se este homem chegasse a Belém, à semelhança de Calígula, faria cônsul Pedro Pinto, nomearia Pedro Frazão Patriarca e exigiria cultuar Rita Matias como Imaculada Ariana.

Os que julgam que têm o Trump com que sonharam, não distinguem a mansão de Mar-a-Lago do apartamento no Parque das Nações cujos 70 metros quadrados o Pastorinho reduziu a 30 para que os devotos pensassem que vivia numa cela monástica.

Os que sonham com o Trump lusitano contentam-se com a imitação, com uma fotocópia rasca tirada numa impressora de Algueirão. Saiu-lhes um Salazar vindo do comentário da bola para as homilias diárias de um evangelho fascista que mistura o catolicismo do Concílio de Trento com o Integralismo Lusitano, de Rolão Preto, e que julga que Orbán, Fico e, sobretudo, Trump, são os profetas dos novos tempos.

Vão em direção a Alcácer-Quibir convencidos de que caminham para o Armagedão.

Como Teerão neutralizou a Starlink e frustrou o manual de Washington para Revoluções Coloridas

(Bappa Sinha  in Resistir, 25/01/2026)


Para os arquitectos em Washington e Telavive da mudança de regime, o Irão representa um revés estratégico. Para o Sul Global, representa uma lição:   a soberania tecnológica não é opcional. É obrigatório preservar a nossa soberania.


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No dia 8 de Janeiro de 2026, ocorreu algo sem precedentes nos anais da guerra eletrónica. O Irão activou uma campanha de supressão digital em várias camadas que, em poucas horas, degradou o serviço de Internet por satélite Starlink de Elon Musk, passando de uma conetividade funcional para o que os engenheiros descreveram como uma “manta de retalhos” de acesso intermitente. De acordo com o Filter.Watch, um grupo iraniano de monitorização dos direitos da Internet, a perda de pacotes em Teerão aumentou de 30% para mais de 80%. Este foi o primeiro caso verificado de um Estado-nação que conseguiu neutralizar a Starlink à escala nacional durante uma crise política interna.

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