Em março, a professora Nadera Shalhoub-Kevorkian foi suspensa pela Universidade Hebraica de Jerusalém, onde lecciona. No mês seguinte, a polícia prendeu-a por “incitamento contra o Estado de Israel”. Posteriormente, um tribunal israelense decidiu que a sua detenção era ilegal.
A insistência neste tipo de “estudos” sobre a “corrupção” em Portugal funciona como um círculo vicioso que se alimenta a si próprio, privilegiando a percepção sobre os factos e os números e instigando de forma determinante o discurso do Chega e das conversas de café.
De entre as inúmeras iniciativas que a academia e os media levaram a cabo a propósito dos 50 anos do 25 de Abril, a mais deprimente é capaz de ter sido o projecto de investigação “50 Anos de Democracia em Portugal: Aspirações e Práticas Democráticas”, elaborado pelo Instituto de Ciências Sociais e Políticas. Se o inquérito aos portugueses promovido pelo estudo tem base fiável, estou desconfiado que, apesar de se declararem largamente favoráveis à democracia (uf!), muitos portugueses ainda não perceberam bem, 50 anos depois, o que é a democracia. Ou então acham que democracia é um sistema com um “líder forte” — como também declarou preferir uma grande maioria —, mas em que os interesses do “povo” fossem respeitados. Sim, porque para 81% dos inquiridos os “políticos falam muito e fazem pouco” — ao contrário do povo, que, como se sabe, fala pouco e faz muito. Tudo menos um líder fraco, como António Costa, por exemplo, à mercê de ser derrubado pelos humores de um Presidente, que, todavia, só tem poderes comparáveis aos da rainha de Inglaterra, ou mesmo pelos humores de uma procuradora-geral da República, que de rainha de Inglaterra só tem pose. Atrevo-me até a desconfiar que anda por aqui muito saudosismo inconfesso daquele líder forte que há tempos, numa votação televisiva, foi eleito o maior português de sempre — o tal que declarava que, felizmente para eles, os portugueses só tinham de se ocupar do seu dia-a-dia, porque da política ocupava-se ele e o seu Governo.
Que raio de esperança haveremos de ter numa democracia que aparece aos olhos dos seus destinatários e intervenientes dividida entre “o povo puro” e “a elite corrupta”? De facto, não fosse o que vimos nas ruas no dia 25 e até parece que não se salvaria nada deste inquérito às aspirações democráticas da nossa gente: segundo ele, 86,7% dos heróis do mar vêem os políticos e os partidos apenas interessados na defesa dos seus privilégios e 82% vêem uns e outros como “desonestos e corruptos”. Infelizmente, o estudo não se atreveu a ir tão longe como perguntar aos portugueses o que eles pensam de si próprios enquanto povo. Mas não custa muito adivinhar que não nos consideramos nem maledicentes nem invejosos, dissimulados ou cobardes, preguiçosos ou dependentes, ressabiados ou boateiros. Pelo contrário, somos seguramente valentes e determinados, trabalhadores e responsáveis, independentes e frontais, solidários e amantes da verdade. Numa palavra: democratas. Tão democratas como os ingleses, tão pouco faladores como os suecos, tão produtivos como os alemães.
Mas sendo este, segundo o povo, o estado da nossa democracia, só caberá uma solução: abdicar dos partidos e dos políticos, uma vez que quatro em cada cinco são corruptos e desonestos. Nem sequer é uma ideia original: em tempos (já em democracia, ou o que chamamos de tal) houve um grande empresário que defendeu que o país devia ser governado por um Presidente da República “forte”, apoiado nas corporações e sindicatos e deixando de lado o Governo, a Assembleia da República e os partidos, a emanação de todo o mal democrático. Este bom povo, agora inquirido, parece ser da mesma opinião, talvez menos elaborada: 70% deles defendem que “as decisões importantes” deveriam ser tomadas directamente pelos cidadãos através de referendos. Assim “o povo puro” governaria no lugar da “elite corrupta” e seguramente melhor. Imaginemos então o cenário de tal democracia.
Para começar, aboliam-se as eleições, uma vez que, governando por referendos populares, não era necessário eleger nem um Parlamento nem dele sair um Governo. Este seria basicamente composto apenas por um super-Ministério dos Referendos, a quem caberia a organização de toda essa nova forma de manifestação da vontade popular democrática. Abaixo desse ministério, e remetendo para as áreas dos anteriores e extintos ministérios, haveria somente direcções-gerais, encarregues de executar as “leis” saídas dos referendos e que em caso algum poderiam ser preenchidas por alguém com passado político ou suspeitas de quaisquer ambições políticas. No lugar dos partidos, que seriam, obviamente, extintos por inutilidade e perfídia, poderiam organizar-se grupos de cidadãos para defenderem orientações de voto nos referendos, mas jamais de forma profissional ou duradoura, jamais subsidiados por dinheiros públicos, apenas motivados por pura generosidade cidadã. Apenas para efeitos de assessoria da governação dos directores-gerais constituir-se-iam Juntas de Aconselhamento Público, com a função de emitirem pareceres — não vinculativos! — sobre alguns assuntos mais técnicos, tais como as contas públicas, a defesa e segurança, os negócios estrangeiros, os direitos e garantias individuais, e pouco mais. Mas nunca por nunca tais juntas poderiam pôr em causa a liberdade de pronunciamento popular sobre as “decisões mais importantes” em referendo ou contrariá-las, e, obviamente, os seus membros também seriam não remunerados e politicamente virgens.
Isto estabelecido e atribuídos poderes simbólicos ao cargo de Presidente da República (indispensável apenas para efeitos protocolares e de representação externa, mas sem direito a discursos nem condecorações), façamos um exercício do que seria Portugal imediatamente governado pelo povo, com o povo e para o povo pegando em alguns dos temas actualmente mais falados. Imediatamente, trataríamos de referendar se restabeleceríamos o Serviço Militar Obrigatório e, com carácter de urgência, se atribuiríamos o reclamado subsídio de risco igual aos inspectores da PJ a polícias, GNR, guardas prisionais e bombeiros, tendo depois que decidir em quanto teriam de ser aumentadas as Forças Armadas; com idêntica urgência referendar-se-ia a reposição integral das promoções dos professores, decidindo se tudo de uma vez ou faseadamente, e o mesmo para os restantes corpos da Função Pública. Depois fixar-se-ia por referendo os vencimentos dos profissionais do SNS, o Salário Mínimo Nacional e as tabelas do IRS. Assim reposta de imediato a paz e a justiça social, poderia passar-se a outros referendos menos urgentes, mas igualmente importantes demais para serem deixados ao livre-arbítrio dos políticos. Seria o caso da reforma da justiça, do montante do investimento público em saúde, habitação, educação e transição digital e energética, do reconhecimento do Estado da Palestina, das eventuais indemnizações a pagar às ex-colónias por 500 anos de exploração e escravidão e finalmente, e como consequência de tudo o resto, referendar-se-ia os limites de endividamento do Estado português e as formas de possível pagamento.
Claro que esta ficção, meio a sério, meio a brincar, só é possível face aos resultados de um inquérito que, mesmo desconhecendo os seus dados de trabalho, considero mal feito, com perguntas demagógicas e orientadas, induzindo respostas impensadas e demagógicas. A insistência, aliás, neste tipo de “estudos” sobre a “corrupção” em Portugal — unicamente baseados na “percepção da corrupção” pelas pessoas interrogadas — funciona como um círculo vicioso que se alimenta a si próprio, privilegiando a percepção sobre os factos e os números e instigando de forma determinante o discurso do Chega e das conversas de café. A cooperação entre o Ministério Público, a leviandade comunicacional e a demagogia política — nuns casos irresponsável, noutros premeditada — conduzem a um caldo de cultura que mói e desgasta o combate pela preservação das instituições e da própria ideia de democracia. Não ignoro que muito do que resulta das respostas a este inquérito corresponde ao que pensa mesmo uma franja larga, demasiado larga, dos portugueses. Mas, felizmente, ainda não chegámos ao estado de catástrofe que das suas conclusões resultaria e a que muitos aspiram.
Quanto mais não fosse, a multidão de portugueses a festejar nas ruas a liberdade no dia 25 e os 27 mil sócios do FC Porto a resgatarem para a liberdade o seu clube no dia 27 mostraram às aves de rapina que ainda não estamos prontos para o seu festim. E ao contemplar a lua cheia na noite de 25 ocorreu-me o título do livro de Sttau Monteiro: “Felizmente Há Luar”. Ainda há luar.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
A OTAN tem responsabilidade direta pela crise ucraniana, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wāng Wénbīn (汪文斌), em uma reunião.
“A OTAN tem responsabilidade direta pela crise; a aliança deve refletir sobre seu papel, parar de transferir a culpa e tomar efetivamente medidas práticas para uma solução política da crise”, disse ele.
E há também este relatório de campo do soldado e correspondente de guerra Marat Khairullin (tradução minha). Marat é tártaro/bashrkir nascido no Cazaquistão, mas essas distinções podem ser importantes apenas dentro da Rússia; para o resto do mundo, ele é apenas russo. Ele está servindo na brigada “Slavyanka”, que ajudou a expulsar os ucranianos de Avdeyevka:
“Hitler Zelensky decidiu usar o resto de seus escravos. ‘Estamos morrendo pela OTAN e isso é bom!’ – Se a Ucrânia ainda é uma nação, então esse deve ser seu lema. Do ponto de vista humanitário, o que está acontecendo é simplesmente monstruoso.”
“Hoje é 23 de abril, o terceiro mês em que as perdas ucranianas se mantêm estáveis, com uma média de 1.000 cadáveres por dia. Imagine esse número de ex-pessoas em um só lugar – uma montanha de cadáveres! Mais uma semana se passou, e agora há mais sete pilhas de cadáveres; um mês, três meses – e diante de nós há montanhas de cadáveres que se estendem além do horizonte.”
[Tente visualizar isso: 90.000 cadáveres espalhados ao longo da linha de separação de mil quilômetros: noventa cadáveres ao longo de cada quilômetro; você veria mais de trezentos cadáveres por hora se caminhasse ao longo dela em um ritmo tranquilo. Mas a distribuição é desigual: haveria uma montanha de cadáveres perto de Artyomovsk e Avdeyevka e muito menos em outros lugares].
“Vivemos em uma era de informação esclarecida, todos são altamente instruídos e todos olham para esse horror e falam sobre geopolítica e finanças, as divergências entre as várias elites e assim por diante. Enquanto isso, em algum lugar de Kiev, um homem baixo, com a barba por fazer e permanentemente rouco senta-se e argumenta que isso é bom – pilhas gigantescas de cadáveres, por favor, enviem-lhe mais armas para que ele possa fazer mais.”
“O que mais me horroriza é o fato de que, ao contrário dos ucranianos, nós nunca reivindicamos as terras ucranianas, não ameaçamos os ucranianos com genocídio – só queríamos coexistir pacificamente e receber benefícios mútuos dessa coexistência. Para conseguir isso, os ucranianos, como nação, só precisavam ser um pouco mais espertos… A Rússia, surpreendentemente, ainda está tentando persuadi-los: ‘Vamos nos sentar e chegar a um acordo’. E o que eles ouvem em resposta é: “Estamos lutando pela OTAN e isso é bom!”
“A guerra está em seu terceiro ano e não há fim para essa matança. No início, a taxa de mortalidade era de aproximadamente 300 ucranianos por dia (números médios do segundo semestre de 2022). Depois, em 2023, esse número aumentou gradualmente para 700 ucranianos por dia. E agora atingimos com confiança um patamar de 1.000 ucranianos mortos por dia.”
“Essa é, sem dúvida, nossa grande conquista. A Rússia conseguiu montar, equipar, treinar e trazer para o front dois grupos de ataque (em termos teóricos, Avdeevskaya e Artyomovskaya), que respondem por dois terços das perdas diárias ucranianas.
“E agora o principal problema para os ucranianos é que a Rússia pretende trazer mais dois grupos de ataque para o front. Aqueles que estão diretamente na frente veem sinais claros disso. Com base na experiência anterior, posso prever com alto grau de confiança que, em um mês e meio, os dois novos grupos irão para a frente e começarão a massacrar diretamente o inimigo. Então, até o verão, as perdas ucranianas poderão chegar a cerca de 1.500 por dia.”
“Pense nisso: 45.000 por mês! Agora, se considerarmos o nível atual de perdas, desde o início deste ano os ucranianos perderam cerca de 110.000 homens na frente de batalha. No verão, no ritmo atual, esse número pode aumentar para 150.000 e, no outono, se minha previsão estiver correta, mais 135.000. Assim, até o final de 2024, a previsão de perdas ucranianas pode ser fixada em 480.000 pessoas e, dada a condição geral das Forças Armadas da Ucrânia, um pouco mais – até meio milhão. Gostaria de enfatizar que essa é uma previsão muito confiante, porque nos quatro meses deste ano vimos exatamente esse tipo de dinâmica, que as Forças Armadas da Ucrânia não podem mudar.”
“O pesadelo dessa situação é que a Rússia, como o lado vencedor, está constantemente tentando persuadir os ucranianos a parar de lutar e acabar com esse massacre. No entanto, não podemos simplesmente parar de massacrá-los, porque então eles se declarariam vencedores e partiriam para o ataque, cometendo suicídio, com nossa ajuda, com força redobrada.”
* * *
Dando um passo atrás, devemos pensar: qual é a motivação da OTAN para perpetuar esse massacre sem sentido? Seria a redução da população, o despovoamento do território ucraniano ou algum outro plano sinistro? Ou é simplesmente o caso de uma burocracia militar que perdeu o juízo coletivo em sua busca zombi por mais dinheiro e mais território?
Não importa o quão idiota Jens Stoltenberg seja, ele já deve ter percebido que as desculpas de “derrotar a Rússia” ou “conter a Rússia” ou até mesmo “irritar um pouco a Rússia” não estão funcionando; tudo o que está acontecendo é que a Rússia está se preparando para chutar a OTAN para a órbita baixa da Terra, onde orbitará por anos antes de se queimar na reentrada.
Será que ele e os outros líderes da OTAN conseguem imaginar isso? Será que eles conseguem imaginar alguma coisa – pilhas de cadáveres… pilhas de cadáveres com seus excelentes corpos misturados a eles – qualquer coisa mesmo?
Acabou de chegar:
ASTANA, 26 de abril. /TASS/. A Rússia não tem e nunca teve planos de atacar os países da Aliança do Atlântico Norte; hoje, durante uma operação militar especial, ela está simplesmente protegendo os interesses de seu povo em territórios históricos, disse o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, durante uma reunião dos ministros da Defesa dos países que participam da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Astana.
“A Federação Russa nunca ameaçou a OTAN. Não temos interesses geopolíticos nem militares para atacar os países do bloco. Estamos simplesmente protegendo nosso povo em nossos territórios históricos”, enfatizou Shoigu.