O dia em que um vencedor da II Guerra foi apagado da fotografia

(Ana Sá Lopes, in Público, 09/06/2024)

(Alguém tinha que escrever este artigo para desmontar a grande patranha do Ocidente àcerca da Segunda Guerra Mundial. Reescrever a História é o que os fascismos de todos os matizes sempre fizeram. Macron, Biden e companhia, a propósito do desembarque na Normandia, juntaram-se agora à cáfila, aspergidos pelo hissope dos comentadores arregimentados do mainstream. Obrigado Ana Sá Lopes e um elogio pela coragem, que é preciso tê-la para enfrentar tão tenebrosa gente.

Estátua de Sal, 09/06/2024)


O sangue dos jovens das várias repúblicas soviéticas não foi derramado nas praias da Normandia, mas foi efectivamente a Frente Leste que derrotou Hitler.


O passado é uma coisa esquisita. Quando o que as fontes históricas contam nos perturba minimamente, inventamos um outro passado, mitificado. A natureza humana tenta riscar da memória tudo o que a incomoda – um mecanismo de sobrevivência, provavelmente. Estaline apagava os inimigos das fotografias, hoje é a vez de o Ocidente lhe fazer o mesmo.

A História não é uma linha recta, está cheia de sombras, de incongruências, de realpolitik, de cinzentos, de alianças ditas espúrias, de horrores e algumas grandezas. Para alegria do povo (vemos o que se passa ainda em Portugal com o império), precisamos de a simplificar.

Ao assistir às cerimónias dos 80 anos do desembarque da Normandia, é difícil não conter as lágrimas ao lembrar a coragem daqueles jovens que vieram de muitos lugares do planeta para salvar a Europa do nazismo.

O que ficou esquecido é que o sangue dos soldados soviéticos foi determinante para combater o regime nazi. Antes e durante a guerra, Churchill sempre considerou Estaline “um homem abominável” – e foi contra o “inimigo soviético” que centrou a sua campanha eleitoral de 1945, depois da guerra. Aliás, não foi reeleito por várias razões, incluindo porque o eleitorado britânico não compreendia os discursos de Churchill contra o comunismo: a URSS, aliada dos ingleses e dos americanos no combate a Hitler, era olhada com simpatia pelo povo britânico.

O sangue dos jovens das várias repúblicas soviéticas não foi derramado nas praias da Normandia, mas foi efectivamente a Frente Leste que derrotou Hitler. Max Hastings, um historiador totalmente insuspeito de simpatias comunistas, escreve em Os Melhores Anos – Churchill 1940-1945: “Os aliados ocidentais nunca derrotaram os principais exércitos alemães – apenas auxiliaram os russos a destruí-los.”

E mais perturbador ainda: “Não obstante todo o entusiasmo de George Marshall e dos seus colegas com a invasão da Europa, continua a ser impossível acreditar que os Estados Unidos estariam dispostos – como a Grã-Bretanha não estava – a aceitar milhões de baixas para desempenhar o papel de desgaste do Exército Vermelho em Estalinegrado, em Kursk, e em 100 outros banhos de sangue de menores dimensões entre 1942 e 1945.”

E, por fim, “Roosevelt e Churchill tinham a satisfação da superioridade moral sobre Estaline mas é difícil contestar a pretensão do senhor da guerra soviético a ser chamado arquitecto da vitória”.

Uma das explicações para esta superioridade no combate dos soviéticos é que não havia opinião pública na URSS para contestar a morte de soldados em massa, ao contrário do que se passava nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

O presente – a invasão da Ucrânia pela Rússia – intrometeu-se na homenagem ao passado, transformando as comemorações do Dia D num dia de combate à Rússia. Sem deixar de concordar que todos os dias devem ser de combate à Rússia e apoio a Kiev, o apagar da União Soviética da fotografia da vitória na II Guerra é replicar no Ocidente os métodos de Estaline.

A França, que organizou a comemoração dos 80 anos do Dia D, decidiu não convidar Putin (que, por acaso, esteve presente nos 70 anos, já depois de anexada a Crimeia). Mas queria convidar alguns representantes russos, herdeiros dos homens que ajudaram a combater o nazismo. A Casa Branca e o Reino Unido fizeram saber a sua discordância. A França recuou.

A organização das comemorações, Mission Libération, chegou a escrever em comunicado: “Contrariamente ao Kremlin, a França não faz revisionismo político da história.” Também um deputado conservador britânico chamado Tobias Ellwood, que chegou a ser ministro da Defesa do Reino Unido – não obstante ser um dos maiores defensores do apoio ocidental à Ucrânia e de um maior investimento na defesa para auxiliar Kiev –, dizia ao jornal Politico em Maio que, se a Rússia não fosse convidada, corria-se o risco de “confundir a geopolítica de hoje com a união de objectivos para derrotar o nazismo no passado”.

Confundiu-se tudo. Procedeu-se ao revisionismo da história. Talvez o Dia D não seja história. Talvez nunca tenha existido. Talvez Estaline não tenha derrotado Hitler. As comemorações desta semana revelaram apenas a geopolítica do presente condimentada com geopsicologia política.


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A Europa dos filisteus

(António Guerreiro, in Público, 07/06/2024)

António Guerreiro

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No próximo domingo, os cidadãos de todos os membros da União Europeia vão decidir por sufrágio universal directo a composição do Parlamento Europeu. Aparentemente, cumpre-se um acto impecavelmente democrático. Mas onde é que existe um povo europeu, soberano, para outorgar toda a legitimidade a essa instituição? E um espaço público europeu, onde está ele, para que as eleições não sejam uma mera formalidade com aparência democrática? Sabem os eleitores, porventura, mesmo os mais informados, em quem votam e para quê? Não desconhecem eles quase completamente os “grupos políticos” europeus onde se integram, tantas vezes por manobras manhosas, os partidos nacionais? Do ponto de vista político, a União Europeia é uma entidade exemplar do “faz-de-conta”. A mentira, por palavras ou omissões, é o seu modo de vida e o “poder constituinte” que nunca teve.

Nos últimos tempos, o apoio incondicional a Israel deu origem a uma pergunta que já foi formulada noutras ocasiões, mas talvez nunca de maneira tão veemente como agora: “Que autoridade moral resta agora a esta Europa?”. Tal pergunta supõe que há entre a Europa e essa coisa a que se dá o nome de “autoridade moral” uma relação de pertença ou uma consubstancialidade essencial que uma contingência histórica, um acontecimento abrupto, veio desfazer. Trata-se, na verdade, de uma grande ilusão ou talvez de um recalcamento das inclinações criminosas da Europa. Les penchants criminels de l’Europe é precisamente o título de um livro, publicado em 2003, do filósofo francês Jean-Claude Milner, sobre o anti-semitismo europeu que levou à “solução final” para pôr fim à velha “questão judaica”.

A Europa, segundo a tradição filosófica e literária, tem um espírito enorme e um pequeno corpo (o que às vezes a faz surgir como um vulto disforme), o corpo frágil de uma rapariga jovem que foi raptada por Zeus, metamorfoseado na figura de um touro – é o que diz a mitologia grega. Devemos supor que os seus atributos fundamentais são de ordem espiritual porque não há falta e crise mais assinaladas desde o início do século passado do que o “espírito europeu”. À falta do “espírito”, arranjou-se a “identidade”, mas foi uma substituição de fracos recursos e até nefasta. Derrida, a quem ficaria bem o epíteto de “último europeu”, mostrou que o que é próprio da Europa é uma não-identidade, uma “diferença” em relação a si própria. Nesta perspectiva, todo o nacionalismo europeu é sem fundamento ou até apto a criminosas inclinações.

Certo é que, pelo menos desde que Paul Valéry, em 1919, terminada a Primeira Guerra, escreveu um famoso texto intitulado La crise de l’esprit, nunca mais deixou de ser declinada a pergunta: “Espírito europeu, onde estás tu?” (foi nesse texto que Valéry designou a Europa como “um pequeno cabo do continente asiático”). Evidentemente, a pergunta ocorre noutras ocasiões e contextos mais adequados e pertinentes, não os das eleições para o Parlamento Europeu (não é a Europa do “espírito” que se senta em Estrasburgo e em Bruxelas).

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Outro marco importante desta fixação “espiritual” de que a Europa tem sido objecto foi a famosa Conferência de Husserl, que teve lugar em Viena, em 1935, sobre “a crise da humanidade europeia e a filosofia”. Aí, Husserl estabeleceu uma relação de equivalência entre a Europa e a “razão” nascida da filosofia, na Grécia clássica. Hoje, tal proposição soaria como manifestação da arrogância eurocêntrica. A Europa de Husserl era a Europa dos intelectuais, que ele definiu como “funcionários da humanidade”. Cabiam então na designação de “intelectuais” cientistas, filósofos, escritores, músicos, artistas. Podemos ver em Goethe o pai fundador, ou pelos menos uma figura central, de um “campo” intelectual europeu, muito embora a figura do intelectual só nasça mais tarde, com Zola e o seu J’accuse, o manifesto que denunciava o processo viciado da justiça francesa contra o capitão do Exército francês Alfred Dreyfus.

A Europa como ideia e como “espírito” nem sempre deu bons resultados. Mas a brutal omissão da ideia de Europa, como se a União Europeia não fosse mais do que um acordo económico e administrativo entre Estados, é escandalosamente ignorante, própria de filisteus.

Podíamos até dispensar o “espírito”, que é coisa demasiado etérea, mas que nenhuma fala da campanha eleitoral nasça da vontade e da necessidade de evocar a Europa cultural (deixemos para trás a “Europa intelectual”) é verdadeiramente deprimente. Ficamos assim a saber que Europa nos espera e qual a missão das suas instituições. “Autoridade moral”? Antes dela, há outra autoridade inexistente: a autoridade política e cultural.


Europa: Reinvenção ou subjugação

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/06/2024)


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«Leituras para compreender a Europa em perigo» é o titulo de um artigo na Babelia, o suplemento cultural do El País (nenhum jornal português tem um suplemento cultural) — e começa com uma declaração do escritor Jean-Baptiste Andre, vencedor do último prémio Goncourt (em Portugal nenhum escritor, premiado ou não, é ouvido sobre o mundo que o cerca e que é matéria de reflexão nos seus romances) — diz o escritor: Estamos à beira de um regresso da extrema direita. Não deveria surpreendermos neste tempo que a História tende a repetir-se . A pergunta é, portanto, a de sabermos se é possível detê-la ou não.

A cerimónia dos 80 anos do desembarque na Normandia diz-nos que já estamos no reino da extrema-direita. Quer o nazismo quer o fascismo são interpretações do mundo que justificam o poder de um dado grupo. Assentam sempre numa interpretação da História, isto é, na reescrita da História de um povo ou de um grupo para o tornar virtuoso e com direito a impor a sua virtude a todos os outros. A extrema-direita assume-se senhora dos Valores, do Bem, da Verdade, da Superioridade. As Cruzadas, a Colonização, o Colonialismo são a materialização dessa mistificação que tem origem no conceito de Povo Eleito. O discurso do presidente americano Joe Biden, em 2024, em França, repete o discurso de Ronald Reagen há quarenta anos a 6 de Julho de 1984: A América a terra da Liberdade, da defesa da Liberdade contra a tirania. O direito da América intervir em qualquer parte e contra quem quer que seja para impor a Liberdade. A afirmação de que a América é a herdeira da Terra Prometida, que o modo de vida americano é a suprema aspiração dos povos. O Fim da História. Os Superiores têm o direito de impor os seus valores!

O novo machartismo

A “mensagem” da América como paraíso final justifica todas as intervenções. Mesmo que os “pastores” da religião americana levantem muralhas contra os que ali querem entrar. Quem não acreditar na “mensagem” é herege e está fora da ordem, da Igreja, do Povo Eleito. O sociedade da exclusão e do totalitarismo, que é a dos Estados Unidos, teve o seu ponto alto com a doutrina do Macarthismo — a prática de acusar alguém de subversão ou de traição. Um termo originalmente cunhado para descrever a campanha anticomunista promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, nos anos 50. O macarthismo serviu para acusar milhares de americanos de serem comunistas ou simpatizantes, que foram objetos de agressivas investigações e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas baseados em evidências inconclusivas e questionáveis. Muitos perderam os empregos e/ou tiveram as carreiras destruídas; alguns foram presos.

O machartismo teve a cumplicidade ativa de muitos fazedores de opinião, artistas e jornalistas — incluindo Reagan, um denunciante que chegou a Presidente! — que promoveram a histeria da verdade única e denunciaram aqueles que não seguiam os mandamentos, que não se incorporavam no rebanho. (Hoje basta abrir as Tvs e ver os macthartistas militantes).

Quarenta anos passados estamos de regresso ao machartismo. A Normandia foi um festival de radicalismo: nós e eles. O perigo está do lado de lá. Denunciemos e ataquemos. Não pensemos. Principalmente: não pensem, Não pensem que a Liberdade que o Ocidente — a Terra do Bem — defende é a Liberdade que só no século passado, em nome da Liberdade, manteve a segregação racial mesmo nos exércitos: nos Estados Unidos havia unidades brancas e negras e se as negras sofreram muito mais baixas, ainda assim foram impedidas de desfilar no dia da vitória em Paris, assim como as tropas africanas ao serviço da França, que ocuparam o sul, e que também não desfilaram. O racismo em nome da Liberdade. Os negros eram inferiores. Nos Estados Unidos as leis de segregação racial mantiveram-se até aos anos 60. Também em nome da Liberdade. E, em nome da Liberdade, os Estados Unidos apoiaram as ditaduras sulamericanas, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Republica Dominicana, na Nicarágua, no Uruguai, no Chile, isto até aos anos 80. E também em nome da Liberdade dos povos e da democracia, os Estados Unidos e a Inglaterra derrubaram um presidente eleito na Pérsia e substituíram-no por um títere seu vassalo, o Xá Rheza Phalevi, e invadiram o Iraque e o Afeganistão e destruíram a Sérvia.

São estes conceitos de Liberdade e Democracia que fizeram de Zelenski a figura principal das celebrações do Dia D de 2024! O exemplo a seguir de marioneta que tem conseguido encobrir os neonazis verdadeiros executores da política da Ucrânia e da guerra em nome da Liberdade americana.

A Democracia e a Liberdade de Salazar para os americanos

A opção dos Estados Unidos por “democratas convenientes e talhados à medida”, de que Pinochet será o exemplo mais evidente, é antiga e tem sido continuada. Nós, os portugueses, quando ouvimos falar na defesa da Liberdade e Democracia devíamos ter alguém que nos recordasse a História. Após o final da Segunda Guerra, em 1947 ocorreu em Portugal a mais séria tentativa de implantação de uma democracia europeia com o golpe que ficou conhecido pela «Abrilada de 47», conduzida pelo general Marques Godinho e pelo doutor João Soares. O golpe abortou, o general acabou por morrer na prisão, porque os ingleses preferiram manter Salazar no poder do que correr o risco de, num futuro governo democrático puderem fazer parte comunistas, ou aparentados, mesmo que eleitos. E a defesa da liberdade e da democracia em Portugal, por parte dos ingleses e dos americanos também foi uma bela falácia com a entrada de Portugal como membro fundador da NATO ( a Aliança do Mundo Livre), apenas porque os Açores eram bases importantes para os democratas.

Os 80 anos do desembarque da Normandia mostraram a face mais hipócrita e radical dos que se assumem pastores universais e aspergem os povos com juras de Liberdade, como qualquer demagogo atiram confétis e rebuçados às crianças miseráveis. Sobre a Liberdade da Palestina é que nem uma palavra. Israel é um campeão desta Liberdade que foi aviltada na Normandia. A extrema direita estava lá. A questão não é detê-la, mas extirpá-la.